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  • há 4 semanas
No Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e caribenha, vamos conversar com a Priscilla Gama do laboratório de tecnologia em inovação social, a advogada Edilamara Rangel e a psicóloga Luizane Guedes.

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Transcrição
00:00Hoje é o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha.
00:06Essa data foi criada pela ONU em 1992.
00:10O objetivo é lembrar a luta dessas mulheres contra o racismo, o machismo, a violência, a discriminação e o preconceito.
00:20E infelizmente, não são poucos os casos, não é?
00:23Segundo o Anuário de Segurança Pública, os registros de injúria racial aumentaram 32% de 2021 para 2022.
00:33Já os casos de racismo, minha gente, cresceram 67%.
00:39A gente sabe que as políticas públicas não chegam a boa parte dessas mulheres.
00:46E quando a gente fala de mercado de trabalho, a situação também é muito preocupante.
00:51No primeiro trimestre de 2022, 43% das mulheres negras ocupadas estavam em postos de trabalho informais.
01:00Taxa superior à média nacional, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas.
01:06Bora bater um papo sobre isso aqui no estúdio, sobre como empoderar essas mulheres e mudar esses números.
01:13Aqui no estúdio, nós estamos tendo a honra de receber três mulheres maravilhosas, vitoriosas e que lutam pela equidade.
01:24Estou aqui com a Priscila Gama, que é CEO das Pretas, a Luizane Guedes, que é professora universitária e a
01:34Edila Mara Rangel, advogada.
01:36Bem, eu queria começar com você, Priscila.
01:40Como é que você vê esses dados que eu acabei de falar?
01:43Porque nós estamos no debate contra o racismo, contra todo tipo de intolerância e preconceito, mas os dados mostram o
01:51contrário.
01:52Você acredita, vem crescendo esses casos, você acredita que é porque acontecem mais registros ou porque realmente o racismo, a
02:01injúria está aumentando, infelizmente?
02:03Boa tarde.
02:03Boa tarde. Eu acho que são as duas coisas.
02:07Eu acho que, essencialmente, as pessoas sabem mais, as pessoas negras reconhecem mais os casos de racismo.
02:17Enfim, a gente tem uma construção de diálogos, o movimento negro vem munindo a gente durante muitos anos desse reconhecimento
02:26pela luta pela causa.
02:27Então, é óbvio que a gente tem maiores casos de registros.
02:31No entanto, a gente também tem um aumento considerável de crimes de ódio, de legitimação dos crimes de ódio.
02:41Então, na verdade, a falta de letramento racial.
02:46Desculpa, eu vou pedir para você falar mais simples, para todo mundo entender.
02:49O que seria legitimar um ataque?
02:53Acho que as pessoas estão se sentindo no direito.
02:57Legitimadas é ter uma representatividade pública que subsidia.
03:03Achar que está certo.
03:04Achar que está certo.
03:05A gente pode falar o que quiser, o meu direito de falar, a opinião é de quem tem.
03:11E a gente sabe que não é assim.
03:12Porque a opinião criminosa é crime e racismo é crime.
03:16E as pessoas não podem se sentir do direito de cometer crimes.
03:21E, na verdade, a gente precisa falar do letramento, que é saber o que é racismo, para entender-se racista.
03:27Eu acho que o movimento agora é muito da gente falar para além da bolha, para trazer as pessoas, para
03:34reconhecerem os racismos que têm em si.
03:38Não só aqueles muito evidentes, como também o estrutural, que vem de um contexto histórico que ainda estamos, enfim, em
03:49transformação.
03:50Porque se você for parar para pensar, 1888, quando foi abolida a escravidão, não tem nem 200 anos, é pouco
03:57tempo mais.
03:58Por isso que essa questão cultural de termos que são racistas e que as pessoas dizem não saber e acabam
04:05utilizando.
04:06E aí, acaba aumentando casos como esse, o que é lamentável.
04:11Bem, deixa eu conversar também agora com a Edi Lamara.
04:14Edi Lamara é advogada.
04:17Eu queria que você falasse um pouquinho sobre como que foi.
04:22Você acha, pela sua vivência, algo que só você pode dizer.
04:25Os obstáculos são mais difíceis para a mulher negra no Brasil?
04:29Boa tarde, boa tarde.
04:31Obrigada.
04:33Não, estou estrangulando.
04:34Boa tarde, boa tarde, Lucas, boa tarde para todos aqueles que nos ouvem, minhas colegas que estão aqui maravilhosas.
04:41Boa tarde para todos e para todas.
04:44Os obstáculos são muito desafiadores.
04:46Eu costumo dizer, e tenho uma colega que sempre debate esses assuntos nos movimentos que nós estamos,
04:52ela sempre diz o seguinte, antes de chegar a doutora Edi Lamara, a CEO, a professora, vai chegar a mulher
04:59preta.
04:59A mulher preta vai chegar antes de mim.
05:03A mulher preta retinta como eu sou, vai chegar antes de mim.
05:08Então, por mais que se fale, você me pergunte os desafios, a mulher preta já chegou.
05:14Então, quando chega essa mulher preta no espaço, se não se identificar quem é aquela mulher,
05:22dificilmente vão falar que a doutora Edi Lamara chegou, a advogada chegou, a CEO chegou, a professora universitária chegou.
05:32Chegou uma mulher e esse estigma que nós carregamos na pele, com muito orgulho de ser mulher preta, mulher preta
05:41retinta,
05:42que vem dessa história de superação todos os dias de chegar num lugar e a pessoa perguntar,
05:49às vezes, se você tem dinheiro para pagar a sua conta, você apontar para um lugar e a pessoa ir
05:54para um carro popular e não ir para o seu.
05:57Não que isso seja um bemérito, mas porque a mulher preta chega antes.
06:01Esses desafios a gente vai encontrando o tempo todo.
06:06Na nossa profissão, na minha profissão, basta olhar os tribunais, basta olhar dentro da ordem dos advogados e advogadas do
06:14Brasil,
06:14a ordem da advocacia, como somos poucos e poucas naquele espaço.
06:20Então, a gente vai rompendo com tudo isso, rompendo esses padrões que as pessoas querem colocar para falar que nós
06:28não podemos estar ali
06:30e a gente vai se desafiando.
06:32Eu tenho uma história que eu carrego comigo, que é uma história triste, que ela não é uma história fácil
06:38de se contar,
06:38mas é uma história de superação, que ainda pequena, minha professora da primeira série falou que eu nunca aprendi a
06:44ler e escrever.
06:45E isso lá nos idos de tal, porque eu sou jovem, eu não sou velha, eu sou jovem, mas pensar
06:53que uma mulher,
06:54uma menina negra lá da periferia, lá de trás, teria um desafio, talvez um método de aprendizagem
07:01ou talvez uma falta de olhar específico daquela professora, porque era uma menina negra naquele espaço.
07:07Então, a gente vem rompendo essas histórias todos os dias, em todos os momentos, esses são um pouco, umas pílulas
07:15dos nossos desafios.
07:17Ou seja, no seu caso, Edilamara, desde criança você foi desestimulada a seguir o seu próprio sonho, né?
07:24Totalmente.
07:25É uma loucura isso.
07:26Se não tem uma família ali por trás, para te dar um fortalecimento, uma mãe, um pai que tem uma
07:33visão,
07:34que só é educação que vai empoderar, fortalecer essa menina negra que está naquele espaço,
07:40eu poderia ter meus sonhos terem ficado para trás e eu acreditado naquela fala,
07:45naquele momento tão importante de me fortalecer como mulher, como pessoa, ter minha dignidade.
07:51Está aqui hoje falando junto com vocês.
07:53Luizane, a Edilamara falou sobre representatividade e no meio jurídico de homens e mulheres negros, muito pouco.
08:03Como é que é no ambiente universitário, você que é professora universitária?
08:08Então, eu sou a única professora negra no meu departamento.
08:12Meu curso tem 60 anos.
08:15Então, em 60 anos, nós não tivemos uma mulher negra nesse departamento.
08:19Então, a representatividade, ela é muito grande quando se produz esse lugar do perigo,
08:25quando se produz esse lugar da criminalidade.
08:28Mas quando a gente fala num lugar de representatividade positiva,
08:32quando a gente fala na advocacia, quando a gente fala no ambiente universitário,
08:36nós não temos muitos espaços abertos.
08:40Infelizmente, nosso currículo ainda é negado, nossa posição enquanto mulher negra ainda é virada às costas,
08:47muitas vezes, para aquilo que a gente produz, enquanto ciência mesmo.
08:51Então, eu sou uma única, mas espero que outras venham depois de mim.
08:55A gente espera abrir portas.
08:57Acho que esse é o maior objetivo de mulheres negras o tempo todo, abrir portas.
09:01Olha, pesquisas apontam que apenas 2,1% dos cargos de liderança nas empresas é ocupado por mulheres negras.
09:11Priscila, por que tão pouco?
09:14É um racismo estrutural, né?
09:16A gente vem sendo condicionadas as nossas limitações à dor e não às nossas potências, né?
09:26Limitadas à dor e não às nossas potências.
09:30E eu tenho ainda uma questão com esses dados, porque esses dados, eles refletem uma coisa ainda mais tensa,
09:41que é dentro desses 2%, a maior parte das mulheres negras líderes lideram seus próprios negócios.
09:49Ou seja, para serem líderes, precisam empreender, precisam criar as suas vagas, as suas próprias mesas.
10:01Isso me preocupa, principalmente quando a gente está em 2023, falando de sustentabilidade, ISD, diversidade e inclusão.
10:10Quem tem o direito de ser incluído?
10:14Que diversidade é essa que não inclui todas as diversidades, né?
10:19Em 2020, teve uma pesquisa que falou que mulheres negras têm um percentual de fluidez e uma capacidade de liderança
10:28ainda maior do que o natural,
10:30diante de todas as dificuldades que a gente precisa passar na vida para se tornar líder.
10:35Então, por que não nos incluir?
10:37Eu acho que a gente tem desafios estruturais muito grandes, mas que precisam contar com a colaboração dos boardes, das
10:47altas diretorias.
10:48Elas precisam se fazer verdadeiramente presentes nesses discursos, mas mais do que nos discursos que são publicados aí no marketing,
10:57na publicidade.
10:59Precisa colocar a mão na massa e precisa fazer, precisa mostrar o que faz, não só falar o que faz.
11:05O José Vicente, fundador e reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, informou que cerca de 800 mil jovens negros estão
11:17matriculados nas universidades brasileiras.
11:19Ele diz que o mercado de trabalho, depois que esses jovens negros se formam, não absorve, em especial, a iniciativa
11:28privada.
11:29Luizane, você que está nesse universo, muito se fala sobre o ingresso do negro na universidade.
11:37Mas, e depois que esse negro se forma, também há mais dificuldades para conseguir uma vaga de emprego formal?
11:45Isso, acho que tem duas questões importantes.
11:47O ingresso, hoje, as políticas afirmativas têm garantido.
11:50A permanência ainda é um desafio na universidade.
11:53A gente sabe que o aluno negro, ele tem mais dificuldade em terminar o curso.
11:58E outro desafio é a inserção no mercado de trabalho, como Priscila coloca.
12:02Você consegue esmurrar uma porta e abri-la, que é a da universidade, há trancos e barrancos,
12:09mas você não consegue abrir as portas depois que esse jovem forma.
12:12Então, você vai ter um jovem formado e desempregado.
12:17E aí, se a gente for olhar os dados, a gente vai ver também, por exemplo,
12:20que o maior número de suicídios estão entre jovens negros.
12:23Então, a gente está falando de uma bola de neve que vai ganhando impulso nessa questão do racismo,
12:29que ele é estrutural, mas ele também é institucional, porque as empresas não aceitam a cor da pele,
12:35porque o currículo chega, mas a cor da pele acaba sendo barrada, como a Dilamara coloca.
12:40A cor da pele desse jovem sempre chega primeiro.
12:42O bairro onde ele reside sempre chega primeiro.
12:45Então, a gente tem aí uma questão que é muito maior.
12:48Não fala de poder envolver uma sociedade, fala bem assim, olha, aceite esse jovem.
12:56Não fala de aceitação.
12:58Fala, por exemplo, de inclusão no mercado de trabalho.
13:02Então, a gente está falando de um problema que é da sociedade, não é um problema de uma minoria,
13:07como algumas pessoas gostam de colocar.
13:09Nós negros não somos minoria.
13:10A gente não está falando de minoria nem de recorte racial.
13:13A gente está falando de um problema que passa pela questão do racismo.
13:16Olha, existem algumas iniciativas em Dilamara, do Legislativo, inclusive,
13:23que prevê cotas para pessoas negras dentro dos funcionalismos públicos e também da iniciativa privada.
13:33Você acha que esse é um caminho para trazer um pouco mais de igualdade?
13:37Sem dúvida.
13:38Se não tivéssemos as políticas afirmativas, com certeza, nós não teríamos a possibilidade
13:45de pessoas negras apresentarem o seu potencial, os seus talentos, os seus saberes naqueles espaços.
13:55Diante de tudo que a gente está falando, que é muito estruturante.
13:58Eu não consigo entender por que esse medo do povo preto chegar.
14:06A gente sabe, né?
14:07Eu faço a pergunta, eu falo, você sabe, Dilamara, mas eu queria entender o porquê.
14:11Porque nós somos a maioria.
14:13Nós temos capacidade, competência, desenvolvemos tantas atividades.
14:18Mas é um medo.
14:20Olha e fala, mas essa pessoa tem condição, ela já passou por tudo isso e ela se sustenta nesse lugar.
14:26Eu acho que é um pouco disso que as pessoas começam a pensar e a refletir.
14:31Então, não tem que ter medo de abrir o espaço.
14:37A gente tem que potencializar, porque essas iniciativas já estão demonstradas que as empresas,
14:44nas universidades, os locais, aonde se aplica isso, o ambiente é melhor, produz muito mais, tem muito mais dinamismo.
14:53E a gente precisa ter esse entendimento.
14:54Agora, se a sociedade não entender, se os BARDs não entenderem,
15:01se quem tiver nas funções de liderança e de gestão não compreenderem isso,
15:06nós vamos ficar sempre falando mais do mesmo.
15:09E a gente precisa avançar.
15:10E não avança no debate, não é?
15:12Tem algumas participações muito legais aqui nas nossas redes sociais.
15:16A Denise Amâncio disse o seguinte,
15:18Boa tarde, Lucas.
15:20O Brasil vai ter que caminhar muito para poder melhorar a vida da mulher preta.
15:25Porque, como a Edila Amara disse, o primeiro olhar é para a pele.
15:29Não te deixam entrar em uma loja no shopping pensando que a pessoa não tem dinheiro.
15:34Nós, negras, vemos isso no olhar.
15:37A Maricilda Borges diz,
15:38O povo está muito sem amor pelo próximo.
15:41Não foi isso que Deus nos ensinou.
15:43É bom vivermos em união.
15:47E também, o ar de Jesus diz que, parabéns pelo tema, o Alexandre, o nome dele, parabéns pelo tema,
15:53diz que a doutora Edila Amara é sensacional.
15:56Concordo, viu, Alexandre?
15:57Bem, e está acontecendo um evento, né, Priscila?
16:01Que vai ser, inclusive, no Shopping Vitória.
16:04Eu queria que você falasse um pouquinho sobre esse evento.
16:08Vai acontecer no dia 26 e 27 de agosto.
16:11Ah, 26 e 27.
16:12A nona edição do Encontro das Pretas.
16:16Eu fico muito feliz, né?
16:17Porque o Encontro das Pretas é um lugar onde a gente tem alegria.
16:22Hoje é o dia da mulher negra latino-caribenha.
16:24A gente sabe quanto custa a gente ser feliz, né?
16:26O quanto custa a gente se satisfazer profissionalmente, a gente garantir educação, acesso aos espaços de trabalho.
16:37Eu fico arrepiada falando nisso, porque a gente protagoniza tanta dor.
16:43E quando a gente protagoniza amor e alegria, é um momento muito especial para todas nós.
16:48E vai acontecer a nona edição do Encontro das Pretas, no Shopping Vitória, no estacionamento A do Shopping Vitória.
16:56Ontem a gente bateu, assim, recorde de inscrições de afronegócios.
17:00Que legal!
17:01Quase 100 afronegócios inscritos de todo o Estado do Espírito Santo.
17:06Então, gastronomia, moda, joia, música, negócios sociais, negócios, startups de sustentabilidade e social ambiental, café.
17:19Sabe?
17:19A gente olhando ali na curadoria, inclusive tem que falar com o pessoal do shopping.
17:24Assim, a gente acha que a gente vai precisar botar mais estandes do que a gente imaginava.
17:28Porque, realmente, assim, é lugar de circulação de dinheiro, circulação de afeto, circulação de empoderamento.
17:35Isso é inclusão, empregabilidade.
17:38Eu gosto da inclusão produtiva, porque ela mostra que a gente é mais do que nos vem.
17:47E eu acho que, diante de tanta luta para a gente ser feliz e ser humano, ter a nossa humanidade,
17:54a nossa normalidade reconhecida,
17:57quando a gente mostra isso grandiosamente em público, sem sombra de dúvida, é fazer revolução e é um registro importante.
18:04Então, eu quero aproveitar para chamar todo mundo para estar no Shopping Vitória, dias 26 e 27 de agosto, de
18:1410 às 10.
18:15Vá bonito, bota sua roupa de domingo.
18:19Já é sucesso.
18:20Já é sucesso.
18:21Só pelas inscrições já é sucesso.
18:23É verdade.
18:23Meninas, muito obrigado, viu?
18:25A Priscila Gama, CEO das Pretas.
18:28A Luizane Gags, professora universitária.
18:30E aí, Edila Mara Rangel, mulheres lindas, vitoriosas e, mais do que isso, estão à frente para derrubar o preconceito,
18:39a intolerância,
18:40que, infelizmente, resiste no nosso estado e no nosso país.
18:44E conte com a gente para falarmos mais, debatermos e avançarmos sobre esse tema, viu, gente?
18:49Boa tarde.
18:50Muito obrigado.

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