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  • há 3 semanas
Em menos de 24 horas dois casos semelhantes aconteceram no ES

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Transcrição
00:00Nas últimas horas, quatro famílias foram destruídas por causa do ciúme, o sentimento de posse. Acompanhe.
00:09Duas mulheres foram assassinadas pelos seus companheiros.
00:13Em Vila Velha, uma jovem de 20 anos foi morta a tiros, na Barra do Jucu.
00:17Segundo informações da polícia, depois de cometer o crime, o namorado dela se matou.
00:22Em Guarapari, um outro caso chocante de feminicídio.
00:26A comerciante Cláudia Márcia Gomes também foi assassinada pelo marido.
00:31O crime aconteceu na casa da família.
00:34Depois de matar a esposa, Marco Antônio Moreira também tirou a própria vida.
00:38É chocante, né gente? Duas histórias muito parecidas.
00:42E aí a gente vê que quatro famílias foram destruídas, como eu já disse, pelo sentimento de ciúmes, esse sentimento
00:49de posse.
00:50E a gente sabe que esses casos de violência contra a mulher precisam de um basta.
00:56E o que depender do Fale Espírito Santo, a gente vai ajudar.
00:59Eu estou aqui agora no nosso estúdio.
01:01Senta aí na sua casa, onde você estiver.
01:02Eu recebo aqui, olha só, Gisele Meila, que ela é delegada, gerente de proteção à mulher da SESP.
01:07Obrigada, doutora, pela sua participação.
01:09E também recebo a psicóloga Letícia Santana.
01:12Obrigada também, Letícia, por estar aqui no Fale Espírito Santo.
01:16Doutora, eu queria que você começasse explicando pra gente o que a gente percebe nesses dois casos.
01:21histórias muito parecidas, mas perfis diferentes, né?
01:24Um casal jovem, outro com uma história já antiga, de um relacionamento de anos.
01:29E a gente vê que não tem mais um perfil específico, né?
01:33Quando a gente fala de violência contra a mulher.
01:34Boa tarde.
01:36Boa tarde, boa tarde a todos que estão nos assistindo.
01:39Infelizmente, é triste, né, gente?
01:42Pra gente, assim, principalmente porque a Polícia Civil, a Polícia Militar, a gente está no momento de uma operação nacional
01:51que está ocorrendo.
01:52Nós estamos, né, rodando aqui muitos municípios do Estado, levando não só a questão da repressão, né,
01:59que é o papel principal da segurança pública, mas também a questão da prevenção em escolas, em comércio.
02:08Nós estávamos voltando ontem de Soretama quando a gente recebeu, né, ficamos sabendo dessa notícia.
02:14Infelizmente, foi o que falou, a gente não tem hoje, né, é difícil a gente falar um perfil, né?
02:20E a gente crê muito, assim, na necessidade urgente mesmo de mudança de cultura, porque a gente, né, não tem
02:29uma outra explicação que não seja uma mudança realmente estrutural dentro da nossa sociedade
02:37pra que a gente, né, pare de tratar, né, a mulher como objeto, como se ela não fosse um sujeito
02:45de direito de manter ou não mais um relacionamento.
02:48Qual é a maior dificuldade que a polícia enfrenta em impedir que esses casos aconteçam?
02:54Roberto, e aqui eu vou falar pra você muito abertamente que a polícia sozinha, ela não vai impedir que isso
02:59aconteça.
03:01Porque, basicamente, não vou falar pra você que não é um problema da segurança pública.
03:05É claro que também é um problema de segurança pública.
03:07Mas essa questão da violência contra a mulher, ela é muito transversal.
03:12Então, se a gente não trabalhar a questão, né, da segurança pública,
03:16a gente entende muitas vezes que a nossa presença até em determinados locais,
03:21nós estamos fazendo, conversando nos comércios, explicando o que é violência, o que é um relacionamento abusivo,
03:29orientando pra que as mulheres, quando elas se identificarem algumas situações, elas tentem logo romper,
03:35não conseguiam, procuram ajuda de forma imediata.
03:38Nós temos conversado com os alunos em escolas, né, os adolescentes que estão naquela idade de começar um relacionamento,
03:46nós também, a gente tem conversado com eles, a gente muito pergunta,
03:51já ouviram falar o que é um relacionamento tóxico?
03:54Já ouviu falar sobre gênero?
03:55E muitas vezes, às vezes, ele já ouviu, mas sabe o que é?
03:59Não.
03:59Então, acho que passou da hora da gente tratar desses assuntos com os nossos jovens também,
04:06e também, acho que é uma questão também de saúde pública, assistente social, psicólogo,
04:12também na orientação, né, tanto das mulheres quanto dos homens.
04:15Letícia, eu vou fazer uma pergunta forte, porque quando a gente ouve casos como esse, né,
04:20dois, gente, menos de 12 horas, e aí houve casos, né, o feminicídio,
04:25de logo depois os companheiros tiraram a própria vida, o que que isso mostra?
04:30Será que houve ali, a gente se pergunta, será que houve ali um arrependimento?
04:34Ou não, será que isso já mostra um total desequilíbrio de um relacionamento?
04:39É, assim, somente esses dados não dão a condição da gente levantar possibilidades, né,
04:45mas nos mostra um adoecimento social, atravessado por essa questão da menos-valia da mulher,
04:53como a doutora bem colocou, por essa questão cultural e estrutural,
04:57de que existe alguém que é objeto do meu desejo, e se esse alguém não vai ficar comigo,
05:04ela não tem direito à vida, mas quando a pessoa tira a própria vida,
05:08a gente já percebe também uma desestruturação emocional desse indivíduo.
05:13Então, o que que a gente precisa pensar também?
05:15Que esse sujeito agressor, ele adoece, mas ele também é um sujeito adoecido, né?
05:22É uma pessoa que também precisa de ajuda.
05:25Sim, sim, sim.
05:27Agora, quando a gente vê esses relacionamentos, pessoas que não aceitam, né, o fim,
05:31seja por ciúmes, sensação de posse, isso já começa a demonstrar, já é a ponta, já, desse iceberg?
05:39Com certeza, assim, nós já colocamos aqui, e é tão importante essa informação.
05:44O feminicídio é o ponto final de uma história de adoecimento emocional.
05:49A violência contra a mulher, ela não começa necessariamente com uma violência física,
05:54mas ela pode ser antecedida por uma violência moral, uma violência de direitos, uma violência psicológica,
06:00a ponto dessa mulher se sentir tão invalidada, com a autoestima tão comprometida,
06:04que ela já não tem mais nem forças para sair desse relacionamento,
06:08que muitas vezes ela mesmo já percebe que é adoecedor, né?
06:12Agora, delegada, da última vez que você participou com a gente, você trouxe até um dado muito interessante,
06:16relacionado ao número de mulheres que são vítimas de feminicídio,
06:20que elas não registraram um boletim de ocorrência.
06:23Por quê? O que que impede encorajar essas mulheres?
06:28Olha, Roberta, primeiro, eu acredito que muitas mulheres não se entendem
06:32que estão dentro de um relacionamento adoecido.
06:37Acreditam que determinadas condutas são normais, são ciúmes, né?
06:43Outras também a gente vê muita questão do financeiro, né?
06:48Muitas mulheres, ah, eu não vou fazer uma denúncia porque eu acho que eu vou prejudicar, né?
06:53Ele é pai dos meus filhos.
06:55Porque às vezes a gente tem aquela sensação que a mulher gosta de apanhar,
06:59porque ela apanha, ela passa, ela não vai lá na delegacia, mas não é isso.
07:03A gente não está tratando de uma pessoa que passou na rua, foi assaltada por alguém que ela nunca viu
07:09na vida
07:09e nunca mais vai ver.
07:11Não, a gente está tratando às vezes de famílias.
07:14Então, a mulher, muitas vezes, ela até se culpa por aquilo ali que está acontecendo.
07:19Mas nós sempre reforçamos e vamos sempre reforçar a necessidade das mulheres que estão,
07:28que elas percebam, né?
07:30A necessidade delas percebam que estão num ciclo de violência e que elas percebendo,
07:35elas tentem dar um fim, não conseguindo, procurem a ajuda da polícia, façam um boletim de ocorrência.
07:43Não querem ir na polícia naquele momento porque não está se sentindo segura de fazer um registro.
07:49Existem outras portas abertas, então ela pode procurar o crédito da sociedade para conversar com assistência social e psicólogo.
07:57E aí eu reforço aquilo que você acabou de dizer.
08:03Estatisticamente, as mulheres que são mortas aqui no Espírito Santo de feminicídio,
08:08elas não procuraram a delegacia para registrar um boletim de ocorrência,
08:13pediram, ou não pediram medida protetiva, ou se pediram em algum momento, desistiram ali quando cabia uma desistência.
08:19Então é importante que essa mulher, ela sempre procure ajuda.
08:24E olha só, gente, esse caso de Guarapari, no caso de Setiba, chocou a comunidade,
08:28porque o casal era muito conhecido, ninguém imaginava que algo assim pudesse acontecer.
08:34Vamos ver o que disse uma pessoa que era próxima ali da família do casal.
08:38Eles trabalhavam sempre juntos, todos eles juntos, os dois.
08:42Tiveram filhos, netos, ele era um cara legal.
08:46Nunca imaginei que ele ia fazer isso, acho que ninguém imaginava.
08:50Ele era muito querido lá, Cláudio, ele era muito conhecido, né?
08:54Então, a gente nunca imaginava.
08:55Ele não aceitava, ele gostava muito dela, né?
08:58Muito tempo de casado, ele não aceitava.
09:01Eu cheguei a conversar com ele no telefone, perguntava como é que ele estava,
09:04pra ele ficar tranquilo, entendeu?
09:06Que isso ia passar, que eles iam voltar, né?
09:09Que não era a primeira vez que se separava.
09:11E ele sempre assim, ficava na dele, não respondia nada,
09:14nem falava, não dava pra saber o que ele ia fazer.
09:20E olha só, gente, aqui no nosso estúdio, a gente acaba de receber a Márcia Fernanda.
09:25Há aproximadamente um ano, ela perdeu a filha dela.
09:28Ela também foi vítima de feminicídio.
09:30Márcia, obrigada pela sua participação aqui com a gente.
09:33Quando você vê casos e mais casos acontecendo, né?
09:36Como nas últimas 12 horas que a gente noticiou aqui,
09:39dois casos tristes de feminicídio, qual é o sentimento que te dá?
09:46Tá ligada.
09:46Boa tarde.
09:48Eu fico assim, me dói, entendeu?
09:50Me dói muito.
09:52Eu sou da Barra do Jucô, onde aconteceu um desses casos.
09:56E eu fico chocada, eu fico lembrando da minha filha,
09:59o mês que vem, faz um ano que ela faleceu.
10:04E é muito difícil, é muito difícil.
10:08Eu sei, assim, os pais, o que deve estar sentindo agora.
10:12Entendeu?
10:13Você acaba se culpando, você entra no...
10:18Fica ali, você fica sem saber o que dizer, o que falar, entendeu?
10:22Acaba achando que a culpa é sua no começo, porque deixou acontecer,
10:28apesar de que depois você vai com o tempo vendo que você não foi culpado.
10:32Mas é difícil.
10:32Até porque você, como mãe, tentou intervir no relacionamento da sua filha, né?
10:36Conta pra gente.
10:37Ela fugiu da Barra do Jucô para ir para o Rio, atrás dele.
10:42Ele já tinha batido nela.
10:43E ela estava comigo na Barra.
10:45E ele jurando amor.
10:47Uma amiga disse que ele tinha se arrependido,
10:52virou o melhor homem do mundo.
10:53Ela perdoou, brigou comigo e saiu fugida.
10:57Três meses depois, eles foram para uma festa na zona sul do Rio.
11:03E lá, ele tinha muito ciúme dela, discutiram, eu não sei o porquê.
11:08E ele bateu tanto nela, que ela ficou internada no Miguel Couto.
11:16Sete dias.
11:17E veio a óbito.
11:19Tamanha covardia, né?
11:21Eu tenho o óbito dela, que mostra agressão física.
11:28E a palavra contundente, né?
11:30Porque ele, depois que bateu, acho que ela estava cansada.
11:34E ela jurou pra mim que não ia deixar, mas ele bateu nela.
11:37Então, acho que ela resolveu agir.
11:40Ela resolveu ir partir pra cima.
11:42Aí ele pegou o avô dele, que era cadeirante.
11:46Ele pegou a amuleta do avô e bateu nela.
11:52Agora, minutos antes de você chegar, a delegada Michelle Meira estava aqui participando com a gente
11:56e falando da importância da gente levar até mesmo para as adolescentes na escola, né?
12:02O conceito de relacionamento tóxico.
12:05Era assim o relacionamento da sua filha?
12:08Desde o início?
12:09Desde o início.
12:10As redes sociais dela, é só ele que podia mexer para falar comigo, que era mãe.
12:16Ele tinha que pegar o telefone e ter certeza que era eu.
12:20Se você falasse qualquer coisa em Facebook, ele tinha que primeiro pedir permissão a ele.
12:26Ela achava muito lindo.
12:27Aí ele me ama.
12:29É paixão.
12:31Ele está fazendo isso porque ele gosta muito de mim.
12:34Hoje ele se encontra preso, que foi a internet que prendeu ele.
12:40E ela no caixão.
12:43A gente está aqui agora ouvindo um relato muito forte de uma mãe que perdeu a filha, vítima de feminicídio.
12:49Agora a gente vai ouvir um outro relato.
12:51O relato da Carla.
12:52Ela também conhece bem essa dor, só que é a posição inversa.
12:55A mãe dela, gente, a dona Marlene, foi assassinada pelo companheiro.
12:59E esse crime foi recente.
13:01Tem um mês aproximadamente, não é isso, Carla?
13:04Boa tarde.
13:05Obrigada pela sua participação aqui no programa.
13:08Boa tarde, de nada.
13:10Como é que está o sentimento passado aproximadamente um mês?
13:14Depois disso que aconteceu com sua mãe, eu me recordo como se fosse ontem esse fato.
13:20Está difícil.
13:21Porque eu tenho problema de depressão, já tinha problema, né?
13:26Aí depois que aconteceu isso, que agravou mais ainda.
13:33Porque a gente não se conforma pelo jeito que ele matou ela.
13:38Ela na cadeira de roda.
13:40Uma mulher de 1,50m.
13:44Um homem daquele tamanho.
13:47Entendeu?
13:48Ele foi morar com ela.
13:50Ela era boa.
13:52Ela tinha restaurante.
13:53Ela tinha bar.
13:54Então, de tanto ele bater nela, ela parou na cadeira de roda.
13:59Eu chegava lá.
14:00Ela estava roxa.
14:01Eu perguntava.
14:02Mãe, o que aconteceu?
14:03Ela nada.
14:05E no dia que ele matou ela, eu estava lá meia hora antes.
14:14Eu estava lá com ela.
14:16Aí eu falei com ela que eu ia em casa, tomava um banho e voltava.
14:21Mas antes de acontecer isso, me ligaram dizendo que ele tinha matado ela.
14:28E ela sofria calada, o relacionamento dela com ela?
14:31Ela sofria calada?
14:32Porque igual você contou agora, Carla, meia hora antes, você estava ali.
14:36Estava tudo bem nessa meia hora?
14:38Ou você acredita que ela estava escondendo, que não estava nada bem?
14:42Não, não estava bem.
14:43Ele estava bêbado.
14:46Aí ele pegou, discutiu com ela.
14:49Ele foi bater na cara dela.
14:50Eu entrei na frente.
14:54Aí, na hora lá, os vizinhos falaram que ele falaram que ia me matar também.
14:59Tanto que eles prenderam ele aqui no meu portão da minha casa.
15:05Agora, olha só.
15:07Tanto o caso da sua mãe, quanto o caso também que a gente está aqui hoje com a dona Márcia,
15:13né?
15:14A filha dela, na verdade.
15:16Tem um detalhe que chama a atenção.
15:18A sua mãe perdoou ele várias vezes, não é isso?
15:24Isso.
15:24Eu falava sempre com ela.
15:26Eu falava assim, mãe, manda-se embora.
15:28Ele não é homem para você, mãe.
15:31Aí ela, mas eu tenho pena dele, porque ele não tem onde ficar.
15:35Sendo que a família dele mora aqui perto.
15:39Aí eu mandava, eu falava com ela para mandar ele embora.
15:42Mas ela ficava com pena dele.
15:46E aí?
15:47Em 2019, ele foi preso também de tanto bater nela.
15:50Ela já tinha uma medida protetiva contra ele, não tinha?
15:55Hã?
15:55Ela chegou a ter uma medida protetiva contra ele, não tinha?
15:59Tinha, que ele bateu nela em 2019.
16:05Aí ele foi preso, ficou 110 dias.
16:09Mas aí quando ele saiu de lá, ele prometeu para ela que ia fazer mais aquilo, que ia tratar ela
16:17bem e tal.
16:18E ela botou ele dentro de casa de novo.
16:21E aí, Carla, continua com a gente.
16:23Daqui a pouquinho eu volto a falar com você.
16:25Segura aí, porque você traz um detalhe que é muito importante a gente reforçar para o pessoal de casa.
16:30Mulheres, prestem atenção.
16:32Letícia Santana, explica para a gente que não é tão simples assim.
16:36Da noite para o dia, ah, o amor da sua vida vai mudar o comportamento.
16:40Ele não vai mais fazer isso.
16:41Eu prometo, eu te juro, amor.
16:44Por favor, Letícia, explica para o pessoal de casa por que não é tão simples assim.
16:47Não é tão simples.
16:48E a gente tem que entender que o feminicídio, ele é o final de um caminho, de um relacionamento abusivo.
16:58E um relacionamento abusivo, ele é alimentado por uma relação de dependência emocional.
17:04E essa dependência emocional, muitas vezes, cega quem está nesse lugar de agredido.
17:11Cega a ponto de começar a entender que atos como o que a dona Márcia colocou, de olhar o Facebook,
17:21olhar o Instagram, é sinal de cuidado, de proteção e de amor.
17:26Isso não é amor.
17:27Todos os atos que privam a sua liberdade, que impedem que você tome decisões a partir dos seus princípios e
17:35valores.
17:36Todas as ações que te afastam das pessoas que te amam, todas as ações que tolhem a sua liberdade, não
17:43são relacionadas a amor.
17:45Isso é controle.
17:47E se você se sujeita a isso, você está, sim, numa relação de dependência emocional, que é muito difícil sair
17:54sozinho.
17:56Então, procure ajuda.
17:57Porque quando se trata de violência doméstica, a violência nunca é linear, ela é intermitente.
18:04Então, existe a violência física, moral, psicológica, depois existe um tempo de paz e depois se retoma a violência de
18:12novo.
18:12Então, quem perdoa uma vez e perdoa duas, vai precisar perdoar três ou quatro até chegar um momento que pode
18:19chegar a um ato extremo, como a gente está vendo aqui, né, Roberta?
18:21E, Márcia, foi exatamente isso que você tentou alertar a sua filha, né?
18:25Exatamente isso. Ela tinha uma dependência dele que, exatamente o que a senhora disse, uma dependência dele incrível.
18:36Ela largava a família, ela em cima da cama no hospital, sem respirar direito.
18:42Ela, mesmo assim, não queria prestar uma queixa contra ele.
18:46Nem ela no leito do hospital.
18:48Nem morrendo, porque o hospital me deu o direito de dizer a ela que tinha muito líquido e sangue no
18:55pulmão dela,
18:57que eles não estavam conseguindo, eu teria o direito de dizer a ela, mas eu não quis dizer, porque já
19:02era muito sofrimento.
19:04E, mesmo assim, eles indo lá, conversando, e fala o nome dele e ela, mãe, não fala.
19:10Ah, porque ele tem família perigosa, minha filha não interessa.
19:14Não, não vou falar. Quando ela foi dizer, já... já estava no fim.
19:21Doutora, olha só o comentário aqui da Isabel Rocha, ela participa com a gente pela transmissão no Facebook,
19:25e diz o seguinte, a mulher não denuncia, é por medo, o parceiro pode matá-la.
19:31Quais são hoje, conta pra gente a estrutura, do que a mulher pode contar de ferramentas
19:36pra se sentir, ter essa sensação de proteção e que, de fato, vai proporcionar ali pra ela um pouco mais
19:43de segurança?
19:44Roberta, realmente a gente percebe que muitas mulheres, antes de ir na delegacia, a primeira vez registrar,
19:50elas realmente têm esse medo.
19:52Mas é importante que a mulher saiba que existem diversos aparatos estatais
19:58que estão aptos a apoiar essa mulher no momento da denúncia.
20:03Então, por exemplo, se a violência está acontecendo naquele momento ali e a pessoa tiver condições,
20:10ela pode acionar o 190, que é o serviço emergencial da polícia militar, pra comparecer ao local.
20:17Fugindo e não tendo essa possibilidade, ela pode depois comparecer preferencialmente
20:23na delegacia da mulher do seu município, pra fazer esse boletim de ocorrência.
20:29Se a mulher estiver em risco iminente de morte devido a essa violência doméstica,
20:35o Estado conta com uma casa-abrigo que é destinada única e exclusivamente a esse público.
20:43Então, dentro dessa casa, a gente conta com uma equipe técnica, a gente conta com um professor,
20:48até porque a mulher pode levar consigo seus dependentes até 14 anos,
20:52então, pra que eles não percam ali a escola.
20:55E qualquer mulher em situação de violência doméstica tem acesso a essa casa?
20:58Sim, é pra aquelas que estão em risco iminente de morte.
21:04Então, se ela...
21:05Isso é avaliado?
21:06Isso é avaliado. Ela vai até a delegacia, ela faz o boletim,
21:09a gente encaminha ela por serviço assistencial do município dela,
21:14e lá é analisado o perfil, o CRES, entendendo, olha, é uma pessoa que está em risco,
21:20explica a situação, eles entram em contato com o abrigo e a gente faz esse abrigamento.
21:24Ela pode ficar ali até quanto tempo, doutora?
21:25Até 180 dias.
21:27E aqui eu falo, às vezes a gente acha que é pouco tempo, existe uma rotatividade muito grande,
21:32porque esse tipo de abrigo, a gente chama como abrigo de alta complexidade,
21:36ou seja, a gente tem o maior resguardo da segurança.
21:41Então, às vezes a mulher não pode sair, às vezes a gente não pode estar falando ali com o celular
21:46pra não enviar a localização dessa casa.
21:48É tudo bem sigiloso.
21:50Tudo bem sigiloso.
21:51Então, o que a gente, e é muito rotativo, porque a gente ajuda essa mulher ali,
21:56naquele momento que ela está em risco, a tomar as atitudes pra que ela volte a viver uma vida normal.
22:03Em outro município, em outro estado, voltar, às vezes a família dela mora em outro estado,
22:09a gente faz esse encaminhamento.
22:10Então, é importante que a mulher saiba que existem esses aparatos e também, por exemplo,
22:15se ela pede uma medida protetiva e deseja receber a visita da Patrulha Maria da Penha,
22:21que é um projeto da Polícia Militar, ela também vai ingressar nesse projeto.
22:26Basta que ela queira.
22:28Não, eu quero ingressar, ela vai receber a visita da Polícia Militar.
22:32Agora, doutora, a gente sabe que os números, infelizmente,
22:34enquanto tiver uma mulher sendo vítima de feminicídio, já é muito,
22:38porque a gente está falando de vida, e aí os números, até julho, foram 18 feminicídios.
22:42Fora o mês de agosto, a gente já sabe que temos agora dois, em setembro.
22:48O que ainda falta, embora a gente tenha essa estrutura que você já trouxe pra gente,
22:53quando a mulher faz a denúncia, mas o que ainda falta pra que a gente consiga acabar com isso?
22:59Ou então começar, pelo menos, diminuindo?
23:01Roberta, hoje a gente tem um número de 25 feminicídios no estado,
23:07até a data de ontem, né, que contando com esses dois que ocorreram, 25.
23:14Estamos em redução ao mesmo período do ano passado, de 10 anos, mas foi o que a gente disse.
23:19Enquanto tiver uma mulher morrendo por um motivo tão absurdo,
23:24a gente tem que continuar trabalhando pra mudar a cultura.
23:27Então, assim, enquanto a gente está ali na linha de frente trabalhando,
23:30o que a gente acha que a gente precisa?
23:33Mudar a cabeça dos nossos jovens, pra eles já começarem a se relacionar de maneira sadia, né?
23:39Esses jovens da Barra do Jucu, eles já namoravam desde que ele tinha 16, elas 17 anos.
23:47Esse casal jovem, eu achei que ficava arrepiado, um casal jovem.
23:50Ele tinha 19 anos e ela 20.
23:52E eles já namoravam há algum tempo, né?
23:55Uma vida inteira pela frente.
23:56Pela frente.
23:58É a gente entender a necessidade, não só da questão da segurança pública,
24:04mas de outros atores ali atuando, como por exemplo essa questão da saúde mental,
24:08é de extrema importância, né?
24:11Porque a gente tem pessoas ali adoecidas, a mulher quando ela está dependente, ela está adoecida.
24:15Mas às vezes o homem também, que às vezes tem transtorno característico a narcisistas,
24:21está adoecido também, precisa às vezes que a assistência consiga captar essas questões.
24:30E educação, mudar a cultura.
24:32Enquanto a gente não mudar essa cultura, que a mulher é um objeto e que o homem,
24:40que se ela não quiser mais manter aquele relacionamento, ela vai morrer,
24:44vamos continuar assistindo, infelizmente, casos contra isso.
24:47Então, a gente só muda a cultura se a gente muda a educação.
24:51Isso é verdade.
24:52Agora a gente vai ver o depoimento da Viviane.
24:54Olha só, a irmã dela foi assassinada.
24:56E ela sabe também como é, gente, sentir essa dor.
25:00E faz um alerta às mulheres para não passarem por isso.
25:04Acompanhe.
25:06Meu nome é Viviane Lima de Almeida.
25:08Eu sou irmã da Viviane Lima de Almeida, que foi assassinada pelo ex-marido.
25:13Faz dois anos que minha irmã foi assassinada.
25:17É muito triste eu vir falar aqui, mas a gente tem que falar, porque o feminicista está cada dia crescendo.
25:24Ele matou ela do nada.
25:26Ele tinha quatro anos que estava separada.
25:28Talvez eu ache que minha irmã sofria calada, né?
25:30Então, é um alerta para vocês, mulheres, que estão sofrendo calada.
25:35Abre a boca, não se cala.
25:37Conta para a família, conta para alguém que está sofrendo alguma coisa.
25:41Porque eu creio que minha irmã sofreu calada e ela não falou.
25:44Então, aconteceu ela morrendo de nada.
25:48Ele foi lá e matou ela.
25:50Se não fosse as câmeras, ele estaria do nosso lado agora, porque ele até hoje não confessou, ele está preso.
25:56Mas, gente, mulheres, abre a boca, não se cala, porque é a vida de vocês.
26:01E quando morre alguém da sua família, morre todo mundo.
26:07Eu sinto uma saudade imensa da minha irmã, minha mãe sente uma saudade imensa, minha outra irmã, meu sobrinho.
26:15Então, gente, não se cala.
26:19Triste demais, né?
26:20E ela trouxe uma fala muito profunda, que quando morre uma pessoa da família, morre a família inteira.
26:26Morre todo mundo.
26:28Aqui, ó.
26:29A mãe, a Marcia, a Fernanda, está aqui, confundando.
26:32Acabou, destruiu sua família?
26:33Não confessou, mesmo eu tendo provas.
26:36Ele está preso, até pelo laudo médico.
26:40Mas ele disse que ela não saiu daqui de Vitória.
26:43Eu tenho provas.
26:44E o pior, ainda vou ter que provar, né?
26:46Assim, o delegado passou para mim, para me reunir todas as provas, porque quando ele foi julgado, ele ainda não
26:53foi.
26:53Eu apresentar.
26:55Ele teve, sei lá, ele teve aquela cara de dizer que ela não saiu de Vitória.
27:01Ela está sendo covarde em não assumir.
27:04Ele está preso.
27:05Ele me ligou quando ela morreu.
27:07Ele me ligou.
27:08Do número restrito, eu estava dentro do hospital.
27:11E ele, eu atendi.
27:13Ele falou, tia, eu amava ela.
27:15A gente estava brigando.
27:17Diz que eu estava tão descontrolada, eu não conseguia pensar.
27:20Eu só falei para ele, quem gosta de bandido é a polícia.
27:22E desliguei.
27:25Hoje, disseram que eu podia ter dado confiança, entendeu?
27:28Porque a polícia ainda foi procurar ele.
27:30Só que, na hora, eu não pensei.
27:32E, até hoje, ele não confessa.
27:34Está lá preso.
27:36Tenho todas as conversas dele com ela, porque a gente desbloqueou o Facebook, viu tudo.
27:41As fotos dele com ela.
27:44Tenho aqui, quando ela viajou, para a amiga que ela falou, que foi embora.
27:48Da rodoviária.
27:49E, mesmo assim, ele não disse que foi ele.
27:52Só que ela estava aqui e aqui ela ficou.
27:55E aí, você que está em casa agora acompanhando o Fala Espírito Santo,
27:58o que a gente pode extrair de lição disso?
28:00É levar para as suas filhas, para os seus filhos, não só as mulheres, mas para os homens também,
28:05a importância de mudar essa cultura.
28:07Porque o final é triste.
28:09É para todo mundo.
28:11Principalmente nesses casos que a gente mostrou hoje,
28:13em que, depois do feminicídio, ainda houve um suicídio.
28:16Então, é nenhuma mãe, nenhum pai quer ver esse final para nenhum filho.
28:21É muito triste.
28:22E aí, a gente, mais uma vez, reforça, Letícia Santana,
28:25como que a gente identifica esse relacionamento tóxico.
28:28Porque eu estava conversando com a Márcia,
28:30ele puxava o cabelo dela, empurrava, tudo começou assim.
28:35Como que a gente identifica?
28:36É a privação, né?
28:38A privação da liberdade, do direito de ir e vir,
28:41do direito de escolher as suas roupas,
28:43do direito de estar se relacionando com as pessoas que essa mulher entende que são pessoas corretas.
28:49Então, uma relação abusiva, ela tem como uma característica muito forte a privação.
28:54A privação desse sujeito, dessa mulher que é agredida.
28:57Uma outra característica é uma invalidação da opinião,
29:01uma invalidação do seu próprio desenvolvimento pessoal.
29:04Então, quando você percebe que o seu companheiro faz com que a sua autoestima seja violada,
29:09quando você se sente cada vez mais inferior,
29:12quando você começa a negociar os seus valores, a sua competência,
29:16e achar que você não vai ser ninguém longe daquela pessoa,
29:20isso é um sinal muito importante de que você está num relacionamento abusivo.
29:24Então, fique muito atento.
29:26Quando você perceber que a paz na sua casa depende 100% das suas negociações,
29:32da sua forma de falar ou de tratar,
29:35porque se você fizer algo que ele não gosta,
29:38a casa vai cair abaixo, ele vai ficar muito nervoso.
29:40Isso é um sinal de relacionamento abusivo.
29:42E aí, Roberta, se você me permite um tempo,
29:45eu queria deixar um alerta para as mulheres,
29:47no sentido de que é possível se blindar desse relacionamento,
29:50mesmo estando nele.
29:52Então, fortaleça, não abra mão da sua autoestima,
29:55não abra mão da sua rede de apoio,
29:58da sua família, dos seus amigos,
29:59e busque a sua independência financeira.
30:02Então, rede de apoio, autoestima e independência financeira
30:06podem, sim, te fortalecer nos momentos de crises maiores.
30:11Obrigada pela participação de vocês aqui no Fala Espírito Santo,
30:14Letícia, doutora Michele Meira,
30:16e você também, Márcia Fernandes,
30:17nossos sentimentos para você, tá bom?
30:19Obrigada.
30:20Queijo no seu coração.
30:20Obrigada.
30:21Obrigada.

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