00:02Você que acompanha o trailer do Cidade já conhece a realidade de quem mora na rua dos Romanos, no bairro
00:10Marcílio de Noronha, em Viana.
00:12Desde 2019 que marcamos presença no bairro para falar de graves problemas de infraestrutura que acabaram até em consequências para
00:21a saúde das crianças.
00:22Está tendo que tomar antibiótico, porque as pernas dele estão todas machucadas. Não tem a perna quanto corpo, rosto, braço.
00:31A senhora levou ele no médico, o que o médico falou?
00:33O médico perguntou onde eu morava, ele falou assim, você está morando aonde senhora?
00:36Porque eu falei assim, eu moro lá no Marcio e moro em dois.
00:39Ele, nossa, mas está infestado. Eu falei, está infestado. Está infestado de mosquito, porque a gente tem um problema sério
00:44com a água parada aqui também.
00:46E tem uma lagoa ali para baixo ali também, né? Onde concentra muito mosquito essa área aqui.
00:50A minha perna ficou, tem até as marcas aqui. Aí eles me ficam, eu quase perdi a perna. Eu tive
00:55que ficar internada.
00:59Pois é, aí cobramos respostas da prefeitura de Viana, que na época prometeu fazer a obra para tapar o valão
01:06e garantiu que o carro do fumacê para combate aos mosquitos passaria na região todas as terças e quartas-feiras,
01:15obedecendo normas de saúde.
01:17Mas de novo fomos solicitados pelos moradores, porque os problemas não param.
01:23O valão foi realmente tampado. Já o fumacê não passa com tanta frequência.
01:28Quando passa, é em 15, 15 dias. Só tem 15 dias que passou, uma vez só.
01:33Eu me lembro da última vez, se eu não me engano, foi no começo do ano ou foi no ano
01:36passado.
01:37Que passou. Aí agora tem cerca, até muito, tem 15 dias.
01:41Que eles passaram, mas passaram tão rápido que você nem vê eles.
01:47Só que, infelizmente, os moradores das ruas Romanos e Rio Doce descobriram recentemente
01:53que as situações do valão e dos mosquitos eram os menores dos problemas deles.
01:59Recentemente, mais de 200 famílias receberam uma notificação como esta.
02:04O documento extrajudicial enviado pela empresa Furnas Centrais Elétricas, SA,
02:11determina um prazo de 30 dias para que saiam de suas casas.
02:16A justificativa é que as construções dos imóveis ficam debaixo de torres de alta tensão.
02:22Quem não assinou o documento teve esse papel colado nas fachadas das residências.
02:27Agora, essas pessoas estão desesperadas, indignadas, porque, apesar das construções realmente estarem
02:34embaixo das torres, alegam que nunca tinham sido notificadas antes.
02:41Muitos moradores vieram para um campinho aqui do bairro, Marcílio de Noronha,
02:46para falar desse problema, desse drama que eles estão vivendo.
02:49Eu vou conversar primeiro com a dona Jaci, que é uma das moradoras aqui do bairro.
02:54Então, dona Jaci, vocês estão vivendo um drama, receberam recentemente uma notificação,
03:00vão ter que deixar suas casas, é isso?
03:02Não, boa tarde, primeiramente.
03:04Boa tarde a todos, mas nós não estamos em condições de nos abandonarmos as nossas casas,
03:08que é o único patrimônio que nós temos, adquirimos com muito esforço, suor.
03:14Eu mesmo carreguei muita lata de maceira, muita lajota de minhas costas, entendeu?
03:19E não sabia que não podia construir, porque a prefeitura tem fiscal,
03:23a prefeitura tem dinheiro, tem tudo isso, porque não embargou nós de construir antes.
03:30Eu moro aqui há 10 anos, eu construí em 2012, vim morar e nunca ninguém me impediu.
03:36Agora, em 2022, eles vieram, notificaram, a Furnas notificou,
03:40falou que a gente tinha que sair no prazo de 30 dias, né?
03:44Eu vim para o Marcílio de Noronha, de Badafuna, 2006,
03:46e nunca ninguém falou, não pode construir, não pode, nunca isso.
03:50Sim, quando a árvore está grande, eles vêm em polda,
03:53mas nunca ninguém falou, ó, você não pode construir.
03:59Furnas são responsáveis por essas torres com fios de alta tensão.
04:04São essas linhas de transmissão que levam energia elétrica até as distribuidoras,
04:09que fornecem essa energia à população.
04:13Geralmente, os terrenos pertencem a Furnas e são chamados de áreas de servidão.
04:18Por isso, as construções nesta faixa são consideradas irregulares.
04:23Até aí, a Michele, que é uma das moradoras, entende o risco que estão correndo,
04:28morando tão próximos desses fios de alta tensão.
04:31Mas ela questiona por que Furnas não impediu a construção das casas, todas de alvenaria.
04:37Ela também questiona a prefeitura, que instalou toda a infraestrutura,
04:42como rede de esgoto, iluminação pública, calçamento e outros serviços que geram impostos.
04:48Essa rua aqui é uma rua que está embaixo da área de Furnas e ela está toda estruturada, né?
04:54Ganhou asfalto, iluminação pública.
04:56Isso, isso. Tem rede de esgoto, água frivial, né? Tem tudo.
05:00Tem tudo. Isso que vocês não conseguem entender, né?
05:04Se é uma região proibida para residências, por que tem essa estrutura toda?
05:09É, e eu acho que eles tiveram tempo para ter notificado a gente,
05:14ou até mesmo ter vindo e falado, ah, não pode ser feito, não pode acontecer, construir as casas, né?
05:20Mas só agora que eles fizeram.
05:24Inconformada com a notificação, a Michelle pediu a ajuda de um advogado
05:28e fez uma contranotificação extrajudicial.
05:31No documento enviado a Furnas, ela alega que mora no terreno há nove anos
05:36e que nunca havia sofrido nenhuma importunação judicial por parte da empresa.
05:41Além disso, pediu que Furnas se abstenha de qualquer violação dos direitos de propriedade.
05:47Os moradores alegam que não vão deixar suas casas.
05:51Como nós vamos fazer?
05:52Nós todo mundo que mora aqui é humilde.
05:54Não temos condições financeiras para poder sair há cinco ou trinta dias.
05:57A gente não tem para onde ir também, né?
05:59É derrubar nossos barracos para onde a gente vai.
06:01Então a gente quer, assim, um posicionamento, né?
06:04Tanto da Furnas quanto da Prefeitura também, né?
06:06Porque eles dois são o culpado.
06:08A gente está errado de estar embaixo da Furnas,
06:10mas eu acredito que o mais errado é eles,
06:13porque eles sempre deixaram, entendeu?
06:14Nunca impediu a gente de construir e de estar aqui.
06:17Ninguém nunca falou.
06:18É por isso que eu assinei meu papel,
06:19porque em dez anos foi a única vez que eu fui notificada.