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  • há 10 horas
Jovens e adolescentes, que vivem em bairros onde o crime e a violência predominam, vêm se destacando no mundo da arte. Dançarinos, artistas e até empreendedores driblam as ofertas obscuras e levam luz para seus bairros e suas famílias.

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Transcrição
00:00As armadilhas que a ausência de políticas públicas coloca na vida das crianças de bairros pobres.
00:08Com a ajuda de projetos sociais e da família, jovens se destacam na arte e no trabalho e ainda inspiram
00:15outros.
00:16Veja a nossa reportagem especial de hoje. Balançar.
00:20Bairro Santo Antônio, em Vitória. O local já foi bastante violento e às vezes ainda causa medo.
00:27Mas foi daqui que um talento surgiu.
00:34Kézia é bailarina, mas antes de respirar a dança, teve a chance de seguir caminhos obscuros da vida no bairro
00:42onde mora.
00:43A gente tem a escolha de ir para o caminho errado sim, mas a gente tem que saber escolher e
00:48ter esse apoio por trás, porque sozinho também não tem como.
00:51A bailarina de 19 anos conta que desde pequena participou de projetos sociais e foi em um deles que se
00:59apaixonou pela dança.
01:01Eu comecei no projeto social, na Assis, lá em Santo Antônio. Fiquei lá durante uns dois anos, mais ou menos.
01:09Só que chegou um momento que o projeto acabou, se encerrou. E eu não queria parar de dançar.
01:14Foi quando, na época de adolescente, resolveu correr atrás e pesquisar na internet escolas de balé.
01:22E chegou até essa, em Jardim da Penha.
01:25De família simples e humilde, Kézia arrastou os pais para a escola dos sonhos.
01:31Só que chegando aqui, a surpresa.
01:34Eu fiz aula experimental.
01:36Aí, quando a gente chegou na recepção, para pegar os horários da aula, eu vi que era uma escola particular.
01:42Porque até então não tinha me tocado.
01:44Aí, a minha família não tinha condições de pagar a mensalidade.
01:48Foi um susto de início, mas fomos embora pensando como faríamos para comprar o sonho dela, né?
01:57O desejo da adolescente parecia ter acabado na visita.
02:01Mas eis que no caminho apareceu um daqueles anjos, sabe?
02:05Que a gente não imaginava que poderia ajudar.
02:08Uma amiga nossa, da nossa família, ela pagou a mensalidade para mim durante dois anos na escola.
02:14Que aí foi então que eu consegui ficar e estou aqui até hoje.
02:18A jovem se empenhou, se destacou, mostrou para que veio, fez bonito.
02:23Era aluna e atualmente é contratada da escola.
02:28Fiz monitoria nas aulas, ajudando nas aulas dos babies.
02:32Trabalhei como estagiária, aí depois o contrato acabou.
02:35Agora eu fui contratada de novo como estagiária, dou aula e faço monitoria nas aulas também.
02:40Vivendo da dança desde os nove anos de idade, Kézia já participou de inúmeros concursos e competições em vários estados
02:49do país.
02:50E se prepara para entrar para receber um certificado importantíssimo de uma das escolas referências no mundo em balé.
02:59No grade 3, que é o grau 3 da Royal Academy of Dance, e ela tirou distinction no primeiro exame.
03:06É muito importante fazer esse exame porque é um certificado que é válido em mais de 80 países.
03:11Então para onde a Kézia for, ele é reconhecido.
03:14A Aliviane, diretora da escola em Vitória, conta que de cara percebeu o diferencial da nova aluna, lá atrás.
03:23Eu vejo ela longe, numa grande companhia de balé.
03:27A família de Kézia, moradora de um bairro vulnerável, respira aliviada de ter conseguido mostrar e oferecer, mesmo na dificuldade,
03:36um sentido melhor para a vida da jovem.
03:39Quando nós temos a dificuldade e investimos nos nossos filhos, mesmo tendo a dificuldade, nós estamos dando a oportunidade de
03:48poder, os nossos filhos, às vezes, viver algo que nós não vivemos.
03:52E não entrar por caminhos que o mundo oferece hoje.
03:56Kézia também tem consciência de que o balé mudou o rumo do futuro dela.
04:01Hoje em dia é minha vida, né? Eu não fico até emocionada, porque eu não consigo viver sem.
04:10Então, para mim, estar lutando, conseguindo, quando eu já tive a oportunidade de desistir, mas não consegui, porque eu não
04:24consigo viver sem.
04:25Do outro lado de Vitória, encontramos o Thiago. O trabalho dele envolve um outro ritmo.
04:33O jovem barbeiro herdou o talento do pai e da mãe, que é cabeleireira.
04:39Desde novinho, eu já via eles cortando cabelo e eu sempre tive o interesse.
04:43Porém, eu ainda não podia fazer o curso.
04:46Aí, assim que liberou para eu fazer o curso, aí eu já quis seguir a mesma linha, né? Pelo gosto
04:52mesmo.
04:52Ele é um orgulho para a nossa família, né?
04:55Para mim, para o pai, de ver o interesse dele, o trabalho, fazer coisas que gosta e estar se aperfeiçoando.
05:01Você vê que faz um trabalho bonito, que faz com amor.
05:05Então, você se orgulha, né?
05:08Além disso, a barbearia se tornou um ponto de encontro dos jovens.
05:12Ao invés de ficarem na esquina, a turma faz um corte diferenciado e ainda troca uma ideia sadia.
05:18Tem muita gente que, às vezes, não vem para cortar, mas vem conversar, vem distrair um pouco.
05:24Esquece meio que os problemas.
05:26Barbearia também é isso, né?
05:27Cortar cabelo, conversar, comer alguma coisa.
05:30Aí vira uma referência, porque não fica a rotina, é só cortar cabelo.
05:35Bem, agora nós estamos aqui na comunidade de Itabuazeiro, na capital Vitória, do ladinho aqui do Morro do Macaco, né?
05:42Onde a gente foi muito bem recebido aqui pelos moradores, aqui na entrada do bairro, para poder mostrar para você,
05:48mais uma vez, que a comunidade realmente continua on, continua ligada, né?
05:54E que não é só de violência que vivem esses bairros.
05:58A gente vai mostrar agora a história do Anderson.
06:00Aí, ó, está fazendo a arte dele.
06:03Um trabalho belíssimo de grafite que ele faz desde pequeno.
06:06O rapaz é talentoso.
06:09Ele foi criado no Morro do Macaco, em Vitória.
06:12Teve todas as oportunidades para entrar no mundo do crime.
06:16Várias vezes, lá da minha casa, tinha uma boca, entendeu?
06:20Tipo assim, vários...
06:21Não só um, né?
06:22Tipo assim, no morro todo tinha várias coisas lá.
06:25E...
06:26E foi logo também, logo recente, quando eu perdi meu pai.
06:29Tipo assim, estava...
06:30Estava um período, assim, que eu não sabia o que fazer.
06:34Fazia a frete na feira, vigiava um carro.
06:37Aí, chegava a tarde da noite em casa.
06:39Então, oportunidade total estava ali.
06:43Mesmo assim, o rapaz buscou trilhar o caminho do bem.
06:46Ainda quando criança, frequentou projetos sociais.
06:50E se apaixonou pelo grafite.
06:52A paixão mesmo veio pela lata de spray.
06:55Aí, comecei a pintar e estou aí até hoje.
06:58O que falta para qualquer adolescente, qualquer criança, é a oportunidade.
07:02O acesso à cultura, à arte, a qualquer coisa.
07:05Se a gente tiver uma oportunidade, a gente vai seguir aquele caminho.
07:11Daí em diante, não largou mais o spray.
07:14Fez da arte em telas sua grande inspiração.
07:18Para tentar mudar a realidade de outras crianças e jovens,
07:22ele ensina a molecada na arte do grafite.
07:25Faço parcerias, a gente vai e pede autorização com o morador.
07:28A gente chega, pinta, se diverte, passa o final de semana,
07:32que é surreal, cada um ajudando ali.
07:35Chega uma criança que quer pintar, um idoso que quer pintar.
07:38Então, a comunidade abraça.
07:40Então, isso aí não tem preço para a gente.
07:42E dá para ver que, no olhar de cada criança, de cada adolescente,
07:47que se der uma oportunidade para eles,
07:50eles vão, tipo assim,
07:52vai ser mais um talento que a gente vai descobrindo cada vez mais.
07:55Do bairro perigoso para o salão de dança.
07:59Da região violenta para o corte estiloso.
08:04E, por fim, da comunidade dominada pelo tráfico de drogas,
08:09as telas coloridas.
08:10Todos esses personagens são exemplos de que é possível mudar,
08:15fazer diferente, mesmo morando em um lugar perigoso.
08:19A rapaziada curte muito, né?
08:22Tem muito aí que fala que quer virar barbeiro também,
08:24porque vê conquistando as coisas também
08:27e acaba querendo seguir o mesmo caminho também.

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