00:08O bem contra o mal, a polícia contra o crime, no meio disso, a população.
00:14Venda de droga onde você vai passar, conversa, tiroteio, às vezes fogos de artifício, você fica muito incomodado com fogos
00:27de artifício.
00:27Isso faz parte da rotina?
00:28Faz, é normal.
00:30É normal.
00:36Confrontos, tiroteios, prisões.
00:38Nós temos algumas organizações criminosas dentro do Espírito Santo, que não vale a pena citar nomes, mas que se denominam
00:44em determinado momento por A, B, C e essas organizações se rivalizam.
00:50Então, quando ele identifica, por exemplo, uma fragilidade da outra organização, ele entende que ali é o momento de dar
00:57um ataque.
00:58E para retomar aquele território, definitivamente ampliando a sua ramificação do tráfico de torpecentes.
01:08O tráfico de drogas e a sua face mais cruel, retratado em números.
01:13O Estado registrou só no mês de janeiro, 109 homicídios.
01:18Em todo o ano passado, foram 1.103 assassinatos.
01:22A maioria ligada diretamente ao tráfico.
01:31Os nossos índices de homicídios, se a gente for parar para analisar, quase todos os números de homicídios são decorrentes
01:39de tráfico de drogas.
01:42Seja por acertos de contas, seja por guerra entre gangues.
01:50Violência que vira notícia todos os dias na TV. Operações policiais para conter o avanço do tráfico.
01:57A vítima estava bem ali, naquela varanda, fazendo um churrasquinho junto com alguns familiares.
02:03Quando o suspeito chegou e atirou contra o rapaz.
02:07As testemunhas disseram que os assassinos chegaram de carro já atirando contra os rapazes que estavam na calçada.
02:15E os bandidos foram ousados.
02:17Segundo os policiais, a todo momento, eles gritavam para que eles saíssem de trás desse muro, que colocassem a cara
02:24a tapa.
02:30Tiroteios, confrontos com a polícia, aliciamento de menores, disputas dos chefes pelo comando do movimento.
02:38Quando o tráfico chega em uma comunidade como essa, ele mexe com a rotina de todo mundo, até de quem
02:45não tem nada a ver com o crime.
02:48Agora imagine, como é criar filhos em um bairro dominado pelos traficantes?
02:58A voz e o rosto escondidos. Medo de ser reconhecido.
03:02Esse homem cresceu em uma comunidade violenta.
03:05O meu crescimento na comunidade foi o seguinte.
03:09Eu fui exceção, mas boa parte dos meus amigos ou tiveram contato, mesmo com drogas, ou entraram na vida do
03:19crime.
03:20Parênteses, eu já perdi parênteses no crime, na própria comunidade, por conta do tráfico.
03:28Hoje ele é pai e cria os filhos cercados de cuidados e limitações.
03:33Não tem como deixar solto na rua como antigamente fazia, deixar brincando na rua.
03:39Hoje em dia as crianças brincam em casa.
03:41Se você tem um quintal grande, soltam no quintal, porque é a melhor coisa.
03:45Dentro da sua casa é o máximo que você tem de segurança.
03:53Comunidades onde o traficante tenta comandar tudo, a polícia tenta manter o controle.
03:58Para o cidadão, falta segurança, falta o básico.
04:02Eles vivem à margem social, muitas vezes em periferias, em comunidades carentes.
04:07Carentes não só economicamente, mas carentes do Estado, da presença do Estado.
04:13Muitas vezes nem saneamento básico tem.
04:18Esse morador de uma comunidade viu um primo entrar para o tráfico.
04:22Ele entrou antes, com 14 para 15 anos, aí com 16 ele veio a acontecer esse caso com ele.
04:30Essa vida, a realidade dela é cadeia ou morte, né?
04:34Então não tem para onde correr.
04:40Assim como muitas outras, essa história foi curta e terminou de forma violenta.
04:45Ele estava na rua, em Vila Velha lá, e acabou que ele fez um sinal de um grupo rival,
04:53e um cara foi tirar satisfação com ele, e ele acabou não sabendo lidar com aquela situação,
04:59e o cara falou que ia matar ele, e por fim matou mesmo, deu quatro tiros nele,
05:04e ele morreu dentro do estabelecimento de um amigo nosso lá.
05:14Famílias, reféns de grupos de traficantes, reféns do medo, das ameaças.
05:19Os moradores são ameaçados sim nos bairros.
05:23Fica muito difícil a gente denunciar, ligar para a polícia.
05:29Quando acontece da gente ligar, a gente liga com muito medo.
05:34Eles entram nas casas, se tiver aberto, para guardar a arma.
05:38Eles entram no quintal, se escondem dentro do quintal, guardam a arma no quintal da gente.
05:45Ninguém pode falar nada, tem que ficar calada.
05:48E se a porta estiver aberta, eles entram também.
05:52Se não abrir, é pior para eles esconder as armas dele.
05:57E se esconder também da polícia.
06:00E se alguém denunciar, eles matam.
06:07Medo de morrer, medo de denunciar.
06:10Medo, medo, medo.
06:12No bairro onde eu moro, costumam ter muitos tiroteiros.
06:16A população fica apavorada e com muito medo.
06:21Medo de bala perdida.
06:23Eles dão o toque de recolher, tem que obedecer.
06:26Se não obedecer, sabe, eles ameaçam.
06:30Quem manda são eles.
06:34Desafio social, desafio para a polícia, desafio para as forças de segurança pública.
06:40Em caso de policiamento, tem policiamento no bairro.
06:45Constantemente tem.
06:46As polícias param, passam no bairro, abordam eles, olham, nunca acham nada.
06:52Porque eles não são bobos.
06:54Eles escondem.
06:55E quando acham na rua, não acham eles com nada.
06:58As vezes eles ficam armados à noite, de dia, mas sempre tem um em cima de uma laje, escondido, em
07:06algum canto olhando.
07:08Fica com os rádios, um passando a fita para o outro.
07:12Um vai falando para o outro quando a polícia aparece.
07:25Fica com os rádios, um passando a fita para o outro.
07:28Fica com os rádios, um passando a fita para o outro.