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  • há 1 hora
Fome, frio e agressões. Quem vive na rua está a mercê da violência e do sofrimento. Pessoas dormem sem saber se acordarão no dia seguinte.

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Transcrição
00:00A vida na rua.
00:05Viver assim é quase que um teste de sobrevivência.
00:10Tem frio, chove, você encontra pessoas ruins, pessoas boas.
00:16Então, você não dorme direito na rua.
00:22Já no início da nossa reportagem, eu faço uma pergunta para você que nos assiste.
00:28Você provavelmente tem a sua casa, sua cama, tem um teto para viver.
00:35Você consegue dormir, podemos dizer, que tranquilo junto com a sua família.
00:40Mas e quem vive na rua? Mora ao relento.
00:46Será que consegue deitar numa calçada e dormir tranquilamente?
00:50Pois é essa realidade das ruas que nós vamos falar na nossa reportagem especial de hoje.
00:57A Ângelo vive em situação de rua há cerca de dois anos.
01:01Por causa disso, perdeu quase tudo.
01:05Minha vida foi uma vida trabalhadora, entendeu?
01:07Eu sempre trabalhei, sempre tive a minha casa, o meu trabalho.
01:11Tenho oito anos de carteira assinada, né?
01:13Mas depois que eu conheci a droga, né?
01:15A preferência do crack, eu acabei me parando na situação de rua.
01:19Homossexual assumido, ele conta que o primeiro contato com as drogas foi por incentivo de um namorado.
01:27Através de um cara, né?
01:29De um companheiro meu, que ele acabou me incentivando um pouco a usar, entendeu?
01:35Naquele momento eu não sabia o que era, porque ele vendou os meus olhos e eu inocentemente acabei usando a
01:42ortopicente.
01:43Qual foi a droga?
01:44Foi o crack, entendeu?
01:46Mas hoje eu vejo o quanto isso me fez mal, entendeu?
01:49Hoje eu vejo o quanto isso me fez prejudicar a mim mesmo.
01:53Daí em diante, a vida do rapaz de apenas 30 anos virou de ponta cabeça.
01:58Ele, que antes tinha casa, trabalho, passou a morar nas ruas.
02:04O morador de rua, ele vive constantemente amedrontado, né?
02:10Existem pessoas aí capazes de fazer maldade conosco.
02:13Tem gente que mata o outro dormindo, entendeu?
02:16Ou mata apedrejado.
02:18Eu acho isso desumano demais.
02:20O seu Antônio conta que é alcoólatra, mas que tem conseguido controlar o vício.
02:25Antônio, atualmente, dorme em um abrigo de Vitória, mas revela que já presenciou muita violência quando passava a noite ao
02:35relento.
02:36Já vi um pessoal pegar o outro e bater mesmo, bater com força.
02:41Deixar duas pessoas se enrastar pelo cabelo.
02:43Vou jogar lá dentro amarelo.
02:44Esse homem está há quatro meses vivendo nas ruas da capital, depois de perder o emprego.
02:51Eu tenho 63 anos de idade.
02:54Há quatro meses que eu estou...
02:56Não morei na rua ainda.
02:58Não tive esse desabor de morar, dormir embaixo de marquês, em calçada.
03:04Eu estou sendo acolhido aqui pelo albergue noturno e pelo centro pobre.
03:09Morador de rua é uma classe social que tem pessoas boas, pessoas boas e pessoas ruins.
03:16Pessoas que querem sair daqui, então acho que são poucas as oportunidades.
03:20E se você ficar nessa aqui, você acaba acostumando e não tem um gancho para sair.
03:27O universitário precisou parar com os estudos.
03:31E mesmo com um currículo invejável, não consegue trabalho.
03:35Eu estava tentando reabrir a minha empresa agora e deu errado com a pandemia.
03:41E aí, por dois meses atrás de aluguel, me tiraram, minhas coisas estão todas no local.
03:46Eu estava tentando reabrir a empresa e estou aí.
03:50Tentando vencer.
03:51Tentando vencer, se Deus quiser eu vou vencer.
03:54Apesar do pouco tempo vivendo no meio das pessoas em situação de rua,
03:59diz já ter entendido a, digamos, lei que rege entre eles.
04:04Parece que existe uma regra aqui da rua que eles não são hipócritas, os moradores de rua.
04:15Eles gostam da verdade, eles não gostam de ser enganados, entendeu?
04:18Então, se você sei como eu, tem quatro meses eu me dou bem com todos eles, graças a Deus, nunca
04:23tive problema.
04:24Porque eu não faço tarde errado com eles.
04:27Mas se fizer alguma coisa errada, eles cobram da forma deles.
04:31Então, essa violência que existe aí é em função de coisas erradas que a pessoa faz, entre eles, entendeu?
04:37O medo de dormir nas ruas, seja de dia ou de noite, não é à toa.
04:45O problema é que existe violência entre os próprios moradores de rua
04:50e também por parte de quem não gosta da presença deles.
04:56De acordo com a Prefeitura de Vitória, são 300 pessoas em situação de rua
05:01e abordagens são realizadas diariamente pelo Serviço Especializado da Capital.
05:07Já a Prefeitura de Cariacica informou que a Secretaria Municipal de Assistência Social
05:12contabiliza 159 moradores de rua.
05:16Todos passam pelas equipes de abordagem social.
05:20Em Serra, segundo a Prefeitura, atualmente são 91 moradores também em situação de rua.
05:26E que desde abril, por conta da pandemia da Covid-19,
05:30o município ampliou os serviços e redobrou os cuidados à população de rua.
05:34Em Vila Velha, são 130 pessoas vivendo nas ruas do município.
05:40Todas elas contam com alimentação, encaminhamentos diversos,
05:45vestuário e higienização no centro pop e também nos abrigos municipais.
05:50Essa professora e socióloga tenta explicar o porquê do aumento da violência
05:57envolvendo pessoas em situação de rua.
06:00A violência é a exclusão, a invisibilidade, a negação de direitos.
06:06E disso cria um caldo de cultura e de violência,
06:10que partir para a violência efetivamente física é um meio caminho.
06:14Isso é uma coisa bastante simples.
06:15Apesar das dificuldades e medos, muitos moradores de rua têm ainda seus sonhos.
06:23Voltar para casa, para a minha casa.
06:25Morar de aluguel, pagar as minhas contas.
06:28Voltar a ser o Ângelo, que eu sempre fui.
06:30Se eu vacilar, eu vou ficar na rua a minha vida inteira.
06:32Então eu tenho que vencer todos esses preconceitos que a sociedade tem.
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