00:00Recebo aqui hoje o psicólogo da Associação dos Amigos dos Autistas do Espírito Santo, o Hélder Souza.
00:06Boa tarde, Hélder. Bem-vindo ao Fala Espírito Santo.
00:08Boa tarde, Juliana. Boa tarde a todos.
00:10Estamos passando por um momento bem complicado, bem difícil,
00:14a qual tem impactado na vida de todos, e em especial com crianças com autismo.
00:22Nós sabemos que existem dois agravantes principais,
00:26que é a questão da rotina, que é necessário ao autista.
00:31E isso desde lá do início, quando começaram as notícias a respeito do COVID,
00:38houve o encerramento, a interrupção de algumas atividades,
00:43isso abalou bastante esse quadro de rotina que algumas crianças já haviam começado esse ano.
00:50Por exemplo, as terapias, a escola regular.
00:53E o outro agravante é justamente a ansiedade, a dificuldade de uma compreensão maior
00:58sobre todas as questões a qual estamos passando.
01:03Pois é, a gente está num... é um momento, claro, muito difícil.
01:06A gente viu aí, infelizmente, a morte, né?
01:08De uma criança, um menino de 7 anos, tinha autismo, nadava, ele sabia nadar,
01:13a família disse, informou que ele sabia nadar, mas num momento realmente de distração da família,
01:19que foi todo mundo para a rua, para ver uma briga que acontecia ali no local.
01:26Segundo a própria família, o Iago estava junto, mas de repente ele sumiu,
01:30e aí quando foram achar a criança, já estava dentro da piscina.
01:33E aí, doutor, vou te perguntar, qual o cuidado, qual a dica que você dá?
01:37Porque a gente tem muitas famílias que têm filhos autistas e com outras necessidades especiais.
01:42Com orientação para esse momento?
01:44Porque, claro, é um momento de atenção para todo mundo, né?
01:47Seja para a criança, seja para os pais, para a família toda.
01:50Certo, Juliana.
01:51Nesse caso específico, acho que, independente da criança ser autista,
01:56existem cuidados básicos com todos os tipos de crianças, inclusive estípicas, né?
02:03A atenção tem que estar presente em todo momento.
02:06Por exemplo, o risco da cozinha, ele é pertinente não só para uma criança com autismo,
02:11como para uma criança que não tenha autismo.
02:15No entanto, com a criança autista, é interessante o trabalho de médio e longo prazo
02:20em relação a questões de habilidades sociais.
02:23Algumas questões ligadas ao que é o certo, o que é o errado, o que eu devo, o que eu
02:28não devo fazer.
02:28Então, esse trabalho vai criando associações na cabeça dessa criança,
02:33a qual ela vai lidando melhor com essas questões de risco.
02:37No dia a dia, de uma maneira mais geral, o que a gente orienta é a estruturação de uma rotina.
02:43Mesmo que a gente não está tendo as atividades que a outra hora estávamos tendo,
02:52então é importante que a família estruture uma rotina básica dentro da própria casa.
02:56Um horário certo para acordar, um horário certo para dormir, um horário para se fazer as atividades,
03:02um horário para se brincar, um horário para ficar livre.
03:06Muitas famílias, às vezes, Juliana, falam, ah, meu filho está super bem, está ficando o dia todo no videogame.
03:11Ah, interessante, ele está quieto.
03:13Mas isso não está bem.
03:14Isso acarreta de você estar isolando ainda mais o seu filho.
03:18Então, é importante estar trazendo essa criança para atividades mais pontuais,
03:22como algumas associações, algumas escolas têm repassado,
03:26e também para atividades de forma mais lúdica, onde envolveriam toda a família, inclusive os pais.
03:31Pois é, deixa eu botar na nossa conversa aqui a Laís Telaroli, que é mãe do Guilherme.
03:37Ele tem cinco anos e tem autismo também.
03:40A Laís conversa com a gente pela internet.
03:42Boa tarde, Laís.
03:43Obrigada por receber a gente aí na sua casa, viu?
03:47Boa tarde, Juliana.
03:48Boa tarde, Hélder.
03:50Como é que está sendo a rotina aí em casa, com o seu filho?
03:54Como é que ele está se sentindo nesses dias aí dentro de casa?
03:58Então, Juliana, tem sido bem complicado, tá?
04:01A cada minuto tem que estar pensando em alguma coisa diferente para fazer com ele,
04:05porque eles enjoam muito rápido das atividades rotineiras.
04:10A mudança na rotina também de não estar indo para a escola,
04:14não estar fazendo os acompanhamentos que ele fazia antes,
04:16está fazendo muita falta também.
04:18E assim, em casa a gente se desdobra.
04:22E ele está angustiado, assim?
04:24Ele está sentindo falta de sair, de ir para a escola, de ver os amigos?
04:31Ele está assim.
04:32Ele todos os dias acorda pela manhã, fala que quer ir para a escola,
04:36que quer ir para mais, quer ver os coleguinhas.
04:38Me pede muitas vezes para ligar para os colegas para ele poder ter contato.
04:43E assim, a gente acaba que não tem muitos recursos para estar fazendo isso,
04:47porque tem coleguinha que a gente não tem o telefone,
04:49não consegue entrar em contato.
04:51E aí a gente vai fazendo o que a gente consegue fazer em casa,
04:54mas está fazendo muita falta sim.
04:56Pois é, é um momento...
04:57A mais a gente está fazendo atividades para a gente estar fazendo com eles em casa,
05:02para não perder o que eles já aprenderam.
05:05E a gente tem feito bastante coisas para ajudar, né?
05:09Mas mesmo assim, ainda faz muita falta fazer os acompanhamentos que eles faziam antes.
05:14Pois é, são crianças que precisam ainda mais de estímulo, né?
05:18Laís, eu queria agradecer muito por você ter batido um papo aqui com a gente,
05:21parado um pouquinho do seu dia, que eu sei que é corrido,
05:23você é professora também, está trabalhando de casa,
05:26mas obrigada por atender a gente.
05:27Um beijo para você, um beijo para o seu filho também.
05:32Tchau, tchau.
05:32Tá, Joia, Juliana, obrigado.
05:34Um beijão para vocês também.
05:35Beijo.
05:36E olha, Thais, sentindo falta da Mais,
05:38que a Mais é uma instituição que atende a crianças com autismo, né?
05:43Isso, Juliana.
05:44A Mais é a Associação dos Amigos Autistas do Estado do Espírito Santo,
05:47funciona há praticamente 20 anos, né?
05:51Trazendo atendimento, tanto pedagógico quanto clínico,
05:54e também de assistencialismo às famílias.
05:56Nesse período, a gente tem tomado algumas estratégias
06:00a fim de estar se relacionando com a família,
06:03dando um amparo na medida do possível.
06:06O setor pedagógico tem preparado atividades,
06:09tem feito aulas online com a utilização de diversos recursos,
06:12inclusive musicais, visuais.
06:15O setor clínico, a gente criou uma estratégia
06:17de estar entrando em contato com as famílias semanalmente,
06:21através de mensagens, através de chamada de vídeo,
06:23através de ligações, a fim de estar atenuando, né?
06:27Os impactos causados pela questão do Covid
06:29e também dando suporte, esclarecimentos, tirando dúvidas.
06:33E, ó, a gente está com participações aqui pelo Facebook.
06:36Consegui voltar a ver o Facebook, viu?
06:38Gente, tinha saído aqui um pouco do ar,
06:40mas já restabeleci aqui a nossa internet.
06:43A Renata Pereira está falando que tem um filho com autismo moderado.
06:48Ela está passando mal bocado aqui com ele.
06:50Ele só tem dois anos e nove meses, é muito agitado,
06:53já queimou a mão uma vez, fiquei doida.
06:56Fui parar no hospital com ele, teve que fazer cirurgia na mão,
06:59mas agora está tudo bem.
07:01E também é bom a gente falar que o autismo, gente,
07:04existem espectros do autismo,
07:06porque uma criança não é exatamente igual a outra.
07:09Tem vários níveis, né, para ficar mais fácil da gente entender.
07:12Alguns mais severos e outros com autismo mais leve, não é isso?
07:15Isso, Juliana.
07:16Hoje o autismo é entendido como o espectro do transtorno autístico.
07:20Do autismo.
07:21Existiam várias formas de se interpretar o autismo,
07:25várias síndromes, vários tipos de transtorno.
07:28Então, eles colocaram todos dentro de um espectro só.
07:33E cada criança é manifestado de uma forma.
07:38Existem níveis de um, dois e três,
07:41que são os mais leves, os mais moderados e os mais severos.
07:45Então, a partir de cada nível, de cada criança,
07:49a gente constrói um plano de ajuste, um plano de intervenção
07:53para que elas possam estar sendo atendidas da melhor forma possível.
07:56Bom, a gente está com participações aqui.
07:58A Nilzete Rocha falando do Iago,
08:00esse menino de sete anos que morreu,
08:02que era primo dos netos dela,
08:04só Deus para consolar a família.
08:05Inclusive, ela fala que era a mesma idade dos netinhos.
08:08A Nilzete fez um comentário aqui
08:10que eu acho que é importante isso
08:11para qualquer situação, para qualquer criança.
08:13A Nilzete diz,
08:14quem tem filho pequeno, cuidado com essas piscinas.
08:17É a segunda criança que eu vejo morrer desse jeito.
08:21E olha, a gente conversou com o Tenente Coronel do Corpo de Bombeiros
08:23que deu algumas dicas para quem tem piscina em casa,
08:27mesmo aquelas de plástico.
08:29Qualquer descuido pode ser fatal.
08:31Lona de proteção de piscina.
08:34Ela não deve ser utilizada
08:36para que não haja sujeira na piscina.
08:39Ela deve ser utilizada, fixada em grampos,
08:42para que haja completa proteção,
08:45para que a criança não se afogue,
08:47para que a criança não fique submersa em ambiente aquático.
08:50Tendo possibilidade de colocar uma grade no entorno
08:53é muito importante.
08:57Então, Taíola, tem que tomar todos os cuidados,
09:00colocar grade, ficar sempre de olho.
09:02Isso é muito importante.
09:03Isso para qualquer criança, né?
09:05Qualquer criança, a gente tem que ficar de olho
09:07porque é um segundo de descuido,
09:09alguma coisa pode acontecer.
09:11Com certeza, Juliana.
09:12Eu também queria chamar a atenção para algo
09:14que pouco eu vejo ser falado dentro dessa questão
09:18da causa autista.
09:21Isso já é uma questão relacionada
09:23à nossa estrutura social.
09:27Muitas vezes as pessoas acreditam
09:29que a mãe é a única responsável pelo cuidado do filho,
09:33que o pai tem ainda aquela questão
09:35de ser o provedor das coisas
09:37e toda a responsabilidade fica com a mãe.
09:39Esse momento é um momento de muita dificuldade
09:44pelos desajustes que tem acometido
09:47e também pela questão da sobrecarga.
09:51O filho está ficando em casa o tempo todo.
09:53E é importante o auxílio dos pais nesse momento.
09:55A gente ouve relato às vezes de mãe falando
09:57nossa, está mais pesado para mim
09:59pela presença do meu marido
10:01porque bagunça mais a casa do que me auxilia.
10:04Então, chegou o momento da família toda.
10:07Uma colaboração de todos, né?
10:09Todo mundo que faz parte da família,
10:10quem está ali naquele lá.
10:12Pai, mãe, avó, tio, irmão.
10:14Acho que é todo mundo que tem que trabalhar junto, né, Helder?
10:16Isso, perfeito.
10:17Inclusive, o pai dentro dessa questão
10:20porque ainda é uma figura que se mostra muito ausente
10:23dentro do tratamento, dentro de atividades
10:25a quais são pertinentes aos filhos.
10:28Então, fica aqui o alerta para todos os pais.
10:31E vamos reforçar aqui também,
10:32quem precisar entrar em contato com a MAIS
10:34consegue falar com a instituição?
10:37Consegue, sim.
10:38Inclusive, nós estamos divulgando alguns vídeos
10:40através do nosso canal no YouTube, né?
10:42Quem puder se inscrever.
10:43E também pelo telefone e pelo site.
10:47Então, a gente vai estar lá para estar dando todo o suporte, né?
10:50que for possível e orientando sempre da melhor forma possível.