00:05Como descrever a perda de um filho?
00:07Ele sente um pedaço dele indo embora, ele sente dor e não tem como se expressar.
00:13Eu não consigo te falar o tamanho que é a dor, entendeu?
00:17Eu não consigo falar pra ninguém.
00:21A Covid-19 levou embora Eduardo, o Dudu, de 38 anos.
00:26Esse barbudo aí nas fotos.
00:28Ficaram por aqui um pai desolado, uma mãe que não tem nem palavras, um filho adolescente, a irmã.
00:34Mais uma família marcada por essa pandemia.
00:37Não tive contato nenhum mais com meu filho, sepultamento dele.
00:41Não dava pra ver nada?
00:42Nada, só o caixão, uma distância de uns 8 ou 10 metros.
00:52A família Vulp sempre viveu no Soteco, um dos bairros mais antigos de Vila Velha.
00:56Tem cerca de 20 mil moradores.
00:59Fundada há mais de 70 anos, é daquelas comunidades tradicionais onde todos se conhecem.
01:04O coronavírus chegou por aqui contaminando 43 moradores.
01:08Três já morreram.
01:09Mesmo assim, manter o isolamento social e convencer o povo da importância do uso da máscara são desafios diários.
01:17A pandemia só está aumentando e a população tem que se preparar, ela tem que se reinventar e se proteger.
01:26E se proteger.
01:27Mas, em geral, Michel, tem muita gente do bairro Soteco que estão usando máscara,
01:32mas tem muita gente ainda que não estão acreditando nessa pandemia.
01:39Mas, mesmo em meio a tanta preocupação e tristeza, tem os bons exemplos.
01:44Uma blitz rápida pelas ruas mostra que o movimento já é grande, sim, e as pessoas precisam usar mais a
01:50máscara.
01:51Mas, pra não ter desculpa, o pastor Romildo e a esposa fabricam máscaras e distribuem.
01:57Primeiro surgiu a necessidade de fazer pra criança e as famílias.
02:01Como a procura foi grande, pessoas precisando, eu e a minha esposa começamos a fazer em casa.
02:05Nós fabricamos essas máscaras em casa e distribuímos pra qualquer pessoa.
02:09Tem pessoa que a gente não sabe nem quem é, a gente manda.
02:15Hoje, aqui no Soteco, nós vamos falar de desafios, dificuldades,
02:19mas vamos falar também, ó, de gente que se reinventou durante essa pandemia.
02:24Vocês estão vendo esse bolo aqui, ó?
02:25Lindo bolo, né, Obra?
02:26Ei, meu Deus do céu.
02:28Até que a pouco eu explico por que eu tô com esse bolo na mão.
02:31Hein, gente?
02:34Primeiro, vamos falar do comércio do bairro.
02:36Aqui tem muitas lojas, mercados, gente que sentiu os impactos da pandemia.
02:41Pessoas que têm seu lanche, que vendem seu cachorro quente, que vendem o seu churrasquinho,
02:46tiveram que fechar, porque não tiveram como sobreviver, né, devido a essa pandemia
02:51que atrapalhou muito os pequenos comerciantes aqui do bairro Soteco.
02:59Agora sim, vamos conhecer a dona Cleia, que até o início da pandemia do novo coronavírus,
03:04tinha uma empresa de festas, fazia umas 20 por mês.
03:07Não rola mais.
03:08Aí ela começou a fabricar essas maravilhas de bolos.
03:12Deu certo.
03:12Graças a Deus funciona muito bem, tô vendendo muito bem, né, a gente divulga à noite no Facebook, no Instagram,
03:22no WhatsApp.
03:23Os sabores e modelos, no outro dia de manhã já tá praticamente tudo vendido.
03:31Também no Soteco conhecemos esse mercado, que funciona há mais de 50 anos aqui.
03:36Muitos clientes são idosos.
03:38Até a Covid-19 não tinha delivery, mas agora os pedidos virtuais bombam.
03:44O dono se reinventou, está até contratando.
03:47E agora nós estamos com o WhatsApp, nossas vendas triplicaram, fazendo de tudo, para os idosos não saírem de casa,
03:53né, cuidar.
03:54Às vezes falta um produto ou outro, a gente procura adquirir, para eles não terem que sair de casa, entendeu?
03:59E reinventando, né.
04:01O movimento aumentou muito também, apesar do delivery do WhatsApp.
04:06Nós estamos até contratando.
04:10Uso obrigatório de máscaras, funcionários de luvas, o álcool em gel sempre por perto.
04:15Proteção para quem vende, também para o cliente.
04:18Estamos aí na guerra, lutando, se cuidando.
04:21Álcool, tempo todo, luva, máscara, entendeu?
04:24E tem que se cuidar, não pode parar.
04:30Quem também mudou o rumo da própria história foi o seu Mauri do Chapéu.
04:34Ele vendia biscoito, mas o negócio fechou.
04:37Em vez de reclamar, ele decidiu ajudar.
04:40Tinha umas economias, se juntou com alguns amigos e agora faz e distribui marmitas.
04:46São centenas, todos os dias.
04:48Todo dia andou aqui 110 marmitas a 120.
04:53É a solidariedade, amenizando um pouco o sofrimento de uma comunidade que já perdeu figuras queridas,
05:00como o Dudu, que nós mostramos no início da reportagem.
05:02E enquanto a solução definitiva para o coronavírus não chega, fica o apelo de um pai.
05:08Se proteja, proteja os seus.
05:11Não duvide da força de uma doença cruel.
05:14Tem gente sem máscara, no meio da rua e tal.
05:18E eu quero falar para a população aí, gente, o caso é verdade.
05:22É brutal.
05:24É brutal isso aí.
05:26Eu nunca mais vou ver meu filho, cara.
05:28Entendeu?
05:29Saiu dentro da minha casa, foi embora e acabou.
05:34Um pedaço da nossa vida que foi embora, da minha família.
05:36Deixou o neto, deixou nós.
05:41E isso aí, cara.
05:43Estamos sofrendo muito.