00:00Estou recebendo no estúdio a médica pneumologista, a doutora Jéssica Polese.
00:03Doutora Jéssica, boa tarde, bem-vinda ao Fala Espírito Santo.
00:06Preocupa muito a gente ver esses números, né?
00:09900% é muita coisa, são muitos casos a mais, né?
00:13Sim, e aí não se sabe muito bem se é coronavírus, mas se infere que seja, né?
00:21Que esse incremento aí que aconteceu seja de coronavírus, ou pelo menos uma boa parte deles.
00:27Porque nos casos do coronavírus, o principal órgão, a gente pode dizer assim, que é afetado é o pulmão?
00:35É, o principal órgão afetado primeiro são os pulmões, mas parece que tem mais coisa envolvida no coronavírus,
00:44porque os rins são afetados muito precocemente, a gente tem pacientes evoluindo rapidamente,
00:49além de insuficiência respiratória com insuficiência renal logo a seguir.
00:53Então parece que tem um efeito trombótico de formar trombos que causam lesões em vários órgãos à distância,
01:03alguns falam inclusive no sistema nervoso central, enfim, é uma doença que a gente sabe pouco e ainda está aprendendo.
01:10E a senhora falou aí, tocou na pala, parece.
01:12É muita incerteza ainda dessa doença, né?
01:16Sim, eu diria que a maior parte nós não sabemos, medicações para tratar, a gente tem algumas coisas que tem
01:26alguma coisa que melhora,
01:29a gente tem a cegueira pela falta dos exames, a gente trabalha muito com incerteza,
01:36porque você afasta o indivíduo 14 dias com a incerteza de que é.
01:42Se for, a gente corre o risco de oferecer talvez um serviço mais precoce,
01:49conseguir ver esse doente de uma maneira diferente do que simplesmente afastar 14 dias,
01:55que é o que acontece a maioria das vezes.
01:56Aí a importância da realização dos testes que falava aqui agora há pouco com o secretário de Estado,
02:01Tiago Hoffman, seria o ideal, né?
02:04Que todos, com qualquer suspeita, pudessem fazer esse teste, né?
02:07Sim, faz toda a diferença, principalmente da parte do trabalho mesmo, né?
02:11Os profissionais da área de saúde estão sendo afastados, enquanto não sai o resultado do Covid,
02:17você não pode retorná-los ao trabalho.
02:20Então, você imagina aí, com o avanço da doença, o desfalque que isso faz, principalmente na área de saúde.
02:27Não que nas outras áreas não seja importante, mas nesse momento o que é importante são as equipes médicas e
02:34de enfermagem,
02:35inclusive hoje é o dia da enfermagem.
02:37Exatamente, vamos falar sobre isso agora, porque hoje, 12 de maio, é dia do enfermeiro,
02:42um profissional que está aí na linha de frente também, no combate ao coronavírus, né?
02:47Nossa, e como elas trabalham.
02:48E demais, né?
02:49Demais, de todo jeito.
02:51Assim, se não fossem as enfermeiras nessa situação do coronavírus,
02:55não sei o que seria da gente, não, dos médicos.
02:56Então, vamos conversar com uma representante agora, eu vou bater um papo ao vivo pela internet,
03:01com a enfermeira, a Elane Bernardes.
03:03Boa tarde, Elane, obrigada por atender a gente.
03:06Você está no hospital agora?
03:08Boa tarde.
03:10Estou sim, eu estou no hospital, estou trabalhando, eu trabalho no ICIS, né?
03:15Na hemodinâmica, no Instituto de Cardiologia, que fica dentro do Hospital Santa Rita.
03:19E eu estou aqui agora.
03:21Olha, primeiro, eu vou dar os parabéns pelo seu dia, você é aqui representando todos os enfermeiros.
03:26E tem sido dias muito difíceis, de muito trabalho?
03:31Sim, com certeza, né?
03:33A gente vem trabalhar todos os dias, assim, com aquela aflição, com aquela insegurança, com medo.
03:40E assim, mas a gente vem trabalhar, né?
03:43A gente vem por amor, a gente escolheu essa profissão, né?
03:46E é claro, com todo o cuidado que a gente tem que ter, né?
03:49Usar a paramentação adequadamente.
03:52Isso nos fortalece também.
03:54O apoio que a gente tem também da instituição.
03:56Isso é muito importante para nos dar força mesmo para exercer o nosso trabalho.
04:03Elane, já são 14 anos aí, trabalhando como enfermeira.
04:06Já tinha vivido uma situação tão desafiadora nesses anos de trabalho?
04:11Que eu lembre, não.
04:13Que eu lembre, não.
04:14Essa, para mim, superou todas mesmo, né?
04:19Porque o Covid, ele, assim, a gente tem essa preocupação toda, né?
04:24Esse vírus mesmo, que é muito, né?
04:26A transmissibilidade dele é muito alta.
04:29Então, a gente envolve família, envolve colegas, envolve todo mundo ao nosso redor.
04:35Então, isso é muito desafiador para a gente, entendeu?
04:40Então, a gente, a expectativa, aquele medo, aquela angústia é muito maior, né?
04:46De a gente sair, saber que a gente pode sair daqui e levar essa infecção para alguém,
04:52para um familiar, para um filho.
04:54Então, isso é muito angustiante.
04:56É uma aflição, realmente, que nos dá muita angústia.
05:00E, Elane, você tem um filho de 3 anos, né?
05:03Um medo de passar essa doença para ele, de ter alguma complicação.
05:07Inclusive, seu filho tem bronquite?
05:10É isso, ele tem bronquite e asma, né?
05:12Então, assim, ele toma, ele faz uso de medicamento diário.
05:16Tem a bombinha, que a gente usa quando realmente precisa.
05:18Mas, assim, aí a minha preocupação é muito maior, né?
05:22Porque, assim, eu fico preocupada, assim, como ele já tem a bronquite,
05:26se eu passar isso para ele, então, assim, ele pode...
05:28Claro que a gente sabe que as crianças reagem melhor, diferente do que o adulto,
05:34mas a gente fica, realmente, com muito medo, né?
05:37Porque são crianças, né?
05:40A gente não quer o mal deles.
05:41Então, eu chego em casa, assim, eu tenho um maior cuidado.
05:44Com tudo meu, eu chego em casa, assim, meu sapato de trabalhar, um...
05:49Eu não entro dentro de casa com o mesmo sapato.
05:52Eu deixo minhas coisas na área de fora.
05:55E aí, eu entro, vou direto para o banheiro, tomo banho, deixo nem ele me ver,
06:01para poder não causar, porque a criança, ele não consegue, né?
06:04Segurar essa emoção quando vê mãe e pai, eles querem abraçar.
06:07Então, já me comunico com o meu esposo antes, passo por trás,
06:13pela cozinha, entro direto para o banheiro.
06:15E depois que eu tomo banho, que aí eu vou abraçar, beijar, ficar com ele.
06:20Mesmo assim, muitas vezes, eu uso máscara dentro de casa.
06:28Muitas vezes.
06:29E acho que tem dia que eu estou mais...
06:31A gente está mais sensível, né?
06:33E a gente vê alguma situação no hospital.
06:36Então, a gente chega em casa naquela aflição e aí a gente já...
06:40Eu já fico de máscara o tempo todo.
06:42Tiro e volto a minha máscara, né?
06:43De casa e fico com ela o tempo todo até ele dormir, com medo mesmo, entendeu?
06:50Olha, Elane, queria agradecer muito por você ter parado aí um pouquinho o seu trabalho,
06:54conversar aqui com a gente e te dar os parabéns.
06:58E todos os enfermeiros que estão atuando aí, trabalhando duro,
07:02a gente sabe da importância de vocês.
07:04Então, parabéns e um bom trabalho para você.
07:07Muita saúde para você, tá?
07:09Obrigada, boa tarde.
07:10Um beijo para você.
07:12Um abraço.
07:13A situação, né?
07:14Um exemplo de enfermeira, como a gente tem enfermeiros também, homens também,
07:19trabalhando aí por todo o Espírito Santo, por todo o Brasil.
07:21Estão de parabéns mesmo.
07:23A gente tem que dar esses parabéns para eles hoje.
07:26E a Elane tocou num ponto ali de preocupação.
07:28Com o filho de três anos que tem bronquite, tem asma.
07:32Sim, é como ela falou mesmo, as crianças respondem melhor ao coronavírus,
07:39mas é um grupo que é mais sensível e que realmente pode, a criança pode adquirir,
07:46já tem casos de óbito, inclusive aqui no Brasil, né?
07:48É crianças que têm esses problemas respiratórios.
07:51Se contraírem a doença, pode agravar o quadro?
07:55Porque, na maioria dos casos, as crianças passam mais tranquila por essa doença.
08:00Qualquer infecção viral pode agravar o quadro.
08:03Então, covid ou não covid, outros vírus respiratórios, adenovírus,
08:09eles podem causar crise de asma mesmo.
08:12E o coronavírus também pode causar.
08:14Então, nesses casos, você pode ter um paciente que vai piorar da doença de base dele
08:19porque está com coronavírus, entendeu?
08:23Então, tem que ficar atenta mesmo, principalmente quem tem crianças aí que têm problemas respiratórios
08:29ou algum outro problema de saúde, uma atenção ainda muito mais redobrada nesse momento, né, doutora?
08:35Sim, sim, sim.
08:35Eu achei interessante ela falando, estou pensando aqui, sobre que ela chega em casa,
08:40às vezes está mais sensível, viu alguma coisa, né?
08:42Mas é exatamente assim, você chega em casa e fala assim,
08:45ah, eu acho que eu peguei coronavírus hoje.
08:46Aí você fica de máscara em casa porque você acha que você pegou, entendeu?
08:51Aí no outro dia você acorda bem, não, não foi dessa vez.
08:53Não peguei nada.
08:54E vai trabalhar, entendeu?
08:55Não foi ontem, mas vai trabalhar de novo.
08:59Então, realmente, é uma situação muito delicada para quem está trabalhando na linha de frente
09:04porque você vê todo dia, toda hora, apesar de todo equipamento de proteção,
09:10é uma coisa muito incerta.
09:12Bem, está aí um grupo que precisa de muitos cuidados, que são os idosos, né, doutora Jéssica?
09:16Sim, é um grupo de risco mesmo, né?
09:20E quanto mais juntos, maior a chance de serem contaminados,
09:25uma vez que uma pessoa cuida de vários idosos normalmente, né?
09:30Então, ali a transmissão fica muito facilitada, já sendo um grupo de risco, de alta mortalidade.
09:37Muito pior.
09:38A gente viu também casos que aconteceram numa casa de asilo, num asilo em Jardim Campuri,
09:44com mortes, vários idosos também infectados e funcionários,
09:47porque aí todo mundo que está no ambiente acaba contraindo esse vírus, né?
09:51Sim, sim.
09:51E eles passam entre eles e os funcionários transmitem entre os idosos, realmente uma situação complicada.
09:58que está ali ajudando um idoso.
10:01Aí vai para o outro, encostou nesse, passou para o outro e aí vai passando para todo mundo.
10:07Pega e vai transmitindo também, né?
10:10Sim, sim, sim.
10:10E os idosos também, normalmente, eles ficam muito juntos.
10:13Eles têm ambientes conjuntos, né?
10:16Compartilhados, né?
10:17No qual eles encostam uns nos outros.
10:20Então, isso aí realmente é uma situação muito complicada.
10:23Quando chega a Covid dentro de um asilo, é uma condição muito complicada,
10:28porque a chance de todos pegarem é muito grande.
10:31Agora, vamos reforçar aí os grupos de risco.
10:34Doutora Jéssica, a gente tem os idosos, que até falava aqui esses dias no programa,
10:38que a pessoa de 60 anos não é um idoso, né?
10:41É uma pessoa superativa, mas pode ter doenças que podem se agravar caso ela contraia, né?
10:46O vírus.
10:47Você tem outros grupos também que precisam de uma atenção especial?
10:50É, o que a gente está vendo, assim, são os cardíacos, né?
10:54Os que já têm problema cardíacos, inclusive a hipertensão.
10:58Os obesos, com um número maior de mortalidade, doenças mais graves.
11:03Os diabéticos também são outro grupo.
11:05Os idosos.
11:07Então, esses são grupos que a gente vê, assim, que estão contraindo mais o vírus
11:12e estão morrendo mais com o vírus.
11:15E os pulmonares, os pneumopatas, porque eles já têm uma doença pulmonar, né?
11:21Não que eles contraiam mais a doença, mas eles já têm uma doença pulmonar e aí eles
11:25ficam muito mais graves e aí morrem mais também.
11:28Mas parece que tem a ver com algum grau de imunossupressão que essas doenças causam.
11:35E indivíduos jovens, realmente, a condição mais jovem vem sendo uma coisa que vem chamando
11:41a atenção no Brasil e aqui no Espírito Santo, são indivíduos jovens contraindo a doença.
11:47Então, é melhor cada um se cuidar, ficar em casa, se possível, né?
11:50Jéssica, obrigada pela sua presença.
11:52Uma ótima tarde.
11:53Vocês também.