00:00Para bater um papo aqui com a gente, hoje eu recebo no estúdio a médica doutora Filomena Lincar
00:04e também o comandante do Corpo de Bombeiros, Coronel Alexandre Serqueira.
00:08Boa tarde, bem-vindos ao Fala Espírito Santo.
00:12Bem, vamos falar um pouquinho desse aumento de casos, doutora Filomena.
00:15A gente teve agora a capital como um município com maior quantidade de casos
00:20e está aí uma realização também maior de exames.
00:23É, com certeza. Desde o início dessa situação de transmissão sustentada e de pandemia,
00:31a Secretaria do Estado da Saúde investiu em fazer mais testes.
00:36Então, inicialmente tinha dificuldade de comprar material e de capacitar pessoas
00:41que fossem possíveis de realizar os testes.
00:44Então, teve mais gente trabalhando e mais equipamento, mais insumos para a realização dos exames
00:53e hoje eles estão trabalhando até tarde da noite para poder dar conta da quantidade de exames que precisam ser
01:00feitos.
01:01Pois é, e a gente teve aí, de um dia para o outro, um maior número de confirmações da doença,
01:08do coronavírus aqui no Estado. A gente ainda não tinha tido um número tão elevado, doutora.
01:13A senhora acredita isso é o quê? Estamos aí nesse momento de pico?
01:17Olha, o pico, ele é muito difícil de prever quando as pessoas não respeitam o isolamento social,
01:23porque à medida que as pessoas vão saindo, vocês viram o resultado da prevalência que foi estimada
01:29pela pesquisa que nós fizemos e que estamos continuando a fazer.
01:33Que é o inquérito sorológico, né?
01:34O inquérito sorológico.
01:34A gente passou para o pessoal de casa, que é aquela testagem massa na população,
01:39pessoas foram sorteadas, as casas sorteadas, uma pessoa de cada residência realizava esse teste.
01:45Exatamente.
01:45E o número foi muito alto, né?
01:47É, foi relativamente alto, mas foi mais ou menos dentro do que a gente esperava mesmo.
01:50Estava dentro da expectativa da equipe?
01:52O que é importante as pessoas entenderem é que há muita gente suscetível.
01:56E muita gente assintomática que está saindo de casa achando que o problema não é com elas
02:02e que elas vão transmitir para outras pessoas.
02:05Tem até uma coisa que está me preocupando um pouco, é a questão das pessoas estarem substituindo
02:11a máscara pelo escudo facial sem máscara.
02:16Isso é uma coisa importante, porque as pessoas...
02:18O escudo é tipo um capacete, assim, né?
02:21Que se coloca na frente do rosto.
02:22Mas que é aberto na lateral e embaixo e ele é para ser usado com máscara.
02:26Ele não exclui a máscara, né?
02:27Ele tem que ser usado com máscara, porque ele é egoísta.
02:31Ele protege a pessoa que usa, mas não evita a infecção das outras pessoas e a disseminação
02:36das partículas.
02:37Pode até reduzir um pouco, mas pode contaminar os objetos e facilitar a transmissão para
02:42as outras pessoas.
02:43Então, ele não é solidário.
02:45A máscara é solidária.
02:47O escudo facial é egoísta.
02:48Ele protege quem está usando, mas não protege a comunidade.
02:51Pois é, porque esse é o momento da gente pensar na gente e pensar nos outros também.
02:55Inclusive, Serqueira, o Corpo de Bombeiros vem atuando desde o início dessa pandemia
02:59também na conscientização e trabalhos até de fiscalização também, ajudando o Estado
03:06a ter um controle maior desse isolamento, um respeito à quarentena.
03:12É verdade, Juliana.
03:14Desde o início, desde março, que o Corpo de Bombeiros, juntamente também com a Polícia
03:19Militar, juntamente com as agências municipais, vem atuando.
03:27E na semana passada, a gente lançou, o Estado lançou a Operação Fiscalização Fase 2, que
03:34é uma operação mais intensa, de fato, com todos os agentes integrados, no sentido
03:39de fazer valer esses decretos do governo e as portarias da Secretaria de Saúde, no
03:45sentido de garantir o isolamento social, garantir o distanciamento social e a utilização
03:50das máscaras.
03:51E isso é muito importante, né?
03:54É, que é bastante importante, assim, e até para... e também tem um valor simbólico
04:00da autoridade constituída do Estado lá, uniformizada, fardada, que representa, na verdade, não só
04:07o Estado, mas as pessoas, a população, de forma geral, para que as pessoas tenham uma
04:13parcela da sociedade ainda, que não percebeu que o perigo é real e está perto da gente.
04:19E aí, que vai destacar que, obviamente, a população capixaba, ela é educada, ela é
04:26disciplinada, mas, lamentavelmente, pequenos grupos não respeitam essas ordens e procuram
04:34fazer festas privadas na casa de um ou de outro, frequentar ambientes em horários difíceis
04:43de serem por fiscalizados.
04:45Então, é importante que essa fiscalização também, ela atua nesse sentido de demonstrar
04:50que, realmente, as pessoas têm que ter uma percepção de risco mais calibrada, porque
04:56o perigo, realmente, ele é real.
04:58Como a doutora muito bem comentou aqui, é importante que se respeite as regras.
05:02Pois é, e o Estado, ele vem adotando medidas desde o início desta pandemia, inclusive, agora
05:08mudou a matriz do mapa de risco da Covid-19 aqui no Espírito Santo, tá?
05:13Entre as alterações, está aí a criação de uma nova categoria para municípios com
05:18risco muito alto, denominada de risco extremo.
05:22Para chegar a essa classificação, o Estado passou a adotar novos critérios.
05:26Bem, além do percentual de contaminação da população, o chamado de coeficiente de
05:32incidência, a nova matriz de risco vai considerar também outros três fatores.
05:37A taxa de letalidade, a porcentagem de habitantes com mais de 60 anos de idade e o índice de
05:44isolamento.
05:45O mapa de risco começou a ser divulgado no dia 20 de abril e é atualizado semanalmente.
05:51O Corpo de Bombeiros tem atuado bastante.
05:53Vamos explicar melhor como que funciona esse mapa de risco aqui e essa alteração, a partir
05:58de agora, no Espírito Santo, o que isso representa?
06:01Esse mapeamento de risco surgiu do entendimento do governo do Estado que os riscos deveriam
06:06ser classificados de acordo com cada município e cada região.
06:11Não fazia sentido atribuir o mesmo risco para, por exemplo, Grande Vitória, para um município
06:16que não tivesse nenhum caso registrado ou qualquer tipo de caso por suspeito.
06:22Então, ele foi implantado a partir do dia 20.
06:25Ele é um mapa de risco.
06:28Ele parametriza as regiões e municípios de acordo com o risco instalado.
06:35E, obviamente, que esse mapa sofreu aprimoramentos.
06:38Ele se iniciou apenas no dia 20 com o coeficiente de incidência.
06:42Ele foi aprimorado e, a partir do dia 4 de maio, foi inserido também a taxa de ocupação
06:51de leitos de UTI.
06:53E aí foi feito e foi aumentado, de fato, uma matriz de risco, que é a combinação da
06:58ameaça, coeficiente de incidência com a vulnerabilidade, que é a taxa de ocupação
07:03de leitos.
07:04É importante dizer que tudo isso, principalmente a matriz, surgiu a partir de recomendações
07:09do Boletim Epidemiológico nº 11 do Ministério da Saúde, que trata de forma bastante exaustiva
07:17a questão da gestão do risco, bem como também de um comitê de especialistas formado pelo
07:24Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, Secretaria de Saúde, UFIS e Instituto João de Santos Neves.
07:32E, essa semana, o governo, entendendo que havia necessidade de mais um aprimoramento para
07:37que, se o risco fosse mais refinado, entendeu incluir esses três elementos que você já
07:48citou, que é a taxa de letalidade, índice de isolamento e a porcentagem da população
07:54acima de 60 anos.
07:56O índice de isolamento está relacionado com a estratégia universal e a estratégia
08:01nº 1 com relação à prevenção do coronavírus.
08:08Está aí, olha, o índice de isolamento a gente não está seguindo o ideal.
08:13O governo do Estado já tinha dito aqui que 50%, 55% para a gente cumprir de isolamento,
08:19para que a vida possa começar a voltar ao normal.
08:22O Ministério da Saúde já recomenda 70% desse isolamento, ou seja, 70% da população
08:28deveria ficar em casa nesse momento que nós estamos vivendo, o que não vem acontecendo,
08:33né, Sergueira?
08:34É, de fato, a gente tem aí algumas informações que entre 50% e 70%, 50% seria um índice
08:41de
08:41isolamento social razoável, 70% seria um índice de isolamento social bom.
08:48E, realmente, a gente verifica que em alguns municípios a população, de forma geral,
08:52não tem respeitado e tem transitado acima da média que deveria transitar.
08:58Por isso que é importante que as pessoas só saiam de casa realmente em casa de necessidade.
09:02Se tiver que ir no supermercado, se tiver que ir em uma farmácia ou até no deslocamento
09:08para o seu trabalho, não é momento de passear, não é momento de se encontrar na rua.
09:12Então, assim, é uma estratégia realmente bastante importante de ser seguida e depende
09:18muito da comunidade.
09:20Por mais que a gente queira fiscalizar, o Estado não é presente, não tem como estar em todos
09:25os cantos e a sociedade, a comunidade tem que colaborar com isso.
09:29E é isso que os especialistas em saúde, né, vigilâncias sanitárias, vêm afirmando.
09:35É com o isolamento, é estando mais dentro de casa, que a gente vai conseguir combater
09:40essa doença e evitar, né, um contágio em massa da população.
09:43É muito importante que as pessoas falem a mesma língua.
09:47Porque quando você faz parecer que é uma doença que não vai ter repercussões,
09:54isso leva as pessoas, principalmente sabendo que existem muitos assintomáticos e muitas
09:59pessoas com sintomas leves que estão transmitindo, essas pessoas muitas vezes não reconhecem o perigo.
10:04E como é uma doença que tem um período de incubação em torno de 5 a 7 dias, com média
10:08de 5,2 mais ou menos, a ocorrência dos casos, ela não é imediata.
10:14Então, é muito difícil para as pessoas perceberem que aquela aglomeração, aquele
10:20ato de rebeldia, de achar que pode fazer diferente dos outros, que não é manada, que todo mundo
10:26tem que fazer do jeito que quer, repercute dias depois.
10:29Só que isso repercute de uma forma muito negativa, porque não são todas as pessoas
10:34que adoecem de forma leve ou moderada.
10:37Tem as pessoas que evoluem de forma grave e que superlotam os hospitais.
10:42E muita gente não está entendendo que se continuar dessa forma, existe uma medida extrema
10:48que pode chegar a acontecer, que é o lockdown.
10:50A gente não gostaria que isso acontecesse, mas no caminho que está indo, é possível que
10:55seja uma medida necessária.
10:57Então, está aí o próprio governador falando exatamente o que a doutora Filomena destacou
11:00aqui agora, um risco de se parar tudo, por conta da ocupação de leitos, que essa
11:07é a grande preocupação, a gente já está ficando com o sistema de saúde já sendo
11:12sobrecarregado, o próprio governo do estado já falou, estamos em risco, estamos no momento
11:16de risco com o nosso sistema de saúde bem ocupado, né?
11:21Na verdade, as pessoas não estão entendendo muito a dinâmica da doença, porque a gente já
11:26falou aqui algumas vezes, na Pan News Vitória, a gente também tem alertado para a possibilidade
11:32de haver várias ondas da doença.
11:34Isso não vai ser uma coisa que vai terminar agora, a gente não sabe quando vai terminar,
11:38mas cada vez que a gente acha que vai acabar no outro dia e que pode sair, que isso não
11:45vai afetar ninguém, isso gera num prazo máximo de 10 a 15 dias uma sobrecarga que já é imensa.
11:52Então, as pessoas ficam cobrando o leito do estado, cobram que o estado se posicione,
11:58mas as pessoas não se posicionam.
12:00Elas se posicionam no sentido de fazerem a própria vontade e não entenderem que a gente
12:05vive necessitando cuidar do outro.
12:07Nesse momento é muito importante cuidar do outro.
12:10Não somos só nós que estamos em risco.
12:12As pessoas com quem a gente convive, os médicos, os profissionais de saúde que trabalham
12:17na assistência, todo mundo está em risco, porque pode ser você que está se expondo,
12:22que de repente precisa de um leito e esse leito tem que ser decidido com você e mais outra pessoa.