00:12Nós levantamos normal, a minha filha caçulinha, ela foi para a bebicira, para babá, para ficar com ela,
00:23ela não ia para a escola ainda, ela tinha dois aninhos, e a minha mais velha, a Camila, ela já
00:31estava indo para a escola.
00:32Nós levamos ela para a escola normal, a gente colocou ela no ônibus, que na época ela ia de ônibus,
00:37a gente colocou ela no ônibus, foi para a escola e nós deixamos a caçula na babá, aí a gente
00:42já foi para a limpeza.
00:43Foi muito marcante, não tem como não lembrar.
00:46Eu estava limpando a cozinha, eu estava limpando a cozinha dessa cliente, dessa mulher,
00:53e o meu esposo, ele estava fazendo aspirador na sala, era a próxima sala e a cozinha.
01:01De repente ela gritou, a gente andando rápido, porque a gente tinha outra limpeza, outra faxina,
01:09então a gente estava muito rápido.
01:11De repente ela gritou e eu assustei muito, porque eu pensei que alguma coisa tivesse acontecido,
01:15ou ela tivesse atendido alguém, alguém da família tivesse morrido, porque ela gritou, foi um grito de muito desespero.
01:22Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus.
01:26Falei, o que está acontecendo? Será que alguém morreu? Será que aconteceu alguma coisa?
01:30Eu parei, eu estava com um pano na mão, eu ainda fui atrás dela para ver o que estava acontecendo,
01:34com um pano na mão.
01:35Eu não parei. Foi muito rápido, muito rápido.
01:40Na hora que eu cheguei nela, ela começou a correr.
01:42Ela corria pela casa, igual a desesperada.
01:46Aí, nessa época, eu já tinha um ano, eu conseguia falar palavras soltas.
01:50Aí eu comecei a perguntar, a gente começou a perguntar para ela, o que aconteceu? O que aconteceu?
01:54E ela ficava, ai meu Deus, ai meu Deus, e eu não respondia.
01:58Não respondia.
02:07Eu falei, o que aconteceu? O que aconteceu?
02:09E eu fiquei extremamente assustada.
02:12Aí ela começou a apontar para a televisão.
02:14E tinha uma televisão, que os americanos têm muito costume de ter televisão na cozinha.
02:21Aí ela mostrou a televisão.
02:23Estava mostrando o avião batendo pelo celular das pessoas, batendo nas torres.
02:30Aí a gente parou, né? Ficou em pânico.
02:32O que está acontecendo?
02:33Aí ela saiu correndo.
02:35Eu e o meu esposo, a gente parou e ficou olhando a televisão, porque não tinha o que fazer.
02:40Parou, a gente ficou...
02:43Assim, parado.
02:45Não tinha reação.
02:46Não tinha reação.
02:47Porque realmente não tinha o que fazer.
02:48Porque só tinha um ano que a gente estava lá.
02:51Então, eu não tinha muita noção de aquelas torres, aonde é, que estado, que cidade que era.
02:56Então, eu prestava atenção nas imagens para ver se eu tinha alguma ideia para saber aonde que era, qual cidade
03:03que era o acontecido.
03:05Então, eu fiquei muito ligada na informação.
03:08Só que a mulher gritava muito.
03:11Ela saiu ligando para as pessoas.
03:14E gritando, e gritando, e chorando, e chorando.
03:16Aí ela começou a falar para a gente, para a gente ir embora.
03:18Larga tudo, vai embora, vai embora.
03:20Larga tudo, que a gente não sabe o que vai acontecer.
03:22Aí veio aquele pânico.
03:24As pessoas, a gente passava, a gente largou do jeito que estava a casa.
03:29A escola ligou para a gente, para a gente buscar a minha filha mais velha, a Camila.
03:36Nós já saímos.
03:38E assim, o povo saiu para a rua, gritando.
03:42Todo mundo em pânico.
03:44Pessoas gritando, pessoas ligando, pessoas chorando.
03:47Foi aquele desespero no condomínio.
03:49Porque a gente sempre limpava a casa em condomínios fechados.
03:52Um ia na casa do outro, gritando.
03:54E foi aquele escândalo.
03:55Foi realmente pânico para todo mundo.
03:58Nós fomos, a gente dirigiu com muito cuidado.
04:01Porque as pessoas começaram a dirigir rápido.
04:03Vem para as casas, para os que estavam na rua.
04:07Vem para a casa de parente.
04:10Porque ali, todo mundo vê aquele medo.
04:13E agora, onde vai ser o próximo?
04:15Porque todo mundo já foi um anúncio que era terrorismo.
04:19Porque quando eles fazem esses ataques, eles sempre avisam.
04:24Aí, ninguém sabia onde que ia ser o próximo ataque.
04:27Aí o terror aumentou.
04:30Aí foi avião caindo.
04:32Aí foi pessoas morrendo.
04:33Aí foi fogo.
04:34Foi aquela que fiquei escando todo.
04:36Na hora que eu cheguei na escola, a gente não conseguia chegar direito na escola.
04:40Muito carro.
04:41Os pais pegando, correndo os filhos.
04:44A gente pegou a mais velha, a Camila.
04:47Foi lá, pegou a caçula e ficou em casa.
04:50Vendo as notícias.
04:53Aí começou a rodar notícias pelo mundo inteiro.
04:56A senhora chegou a ver o avião voltar e pegar a segunda torre na TV?
05:04Viu.
05:05Viu.
05:07Viu.
05:07Viu logo depois.
05:09Qual foi o momento que a senhora viu que não era um avião que bateu por acaso e que foi
05:14um ataque?
05:15Como que percebeu isso?
05:17Porque a partir do primeiro avião batendo na primeira torre, não pode ter sido um acidente, né?
05:26Mas naquela época já estava tendo muita guerra com o Iraque e tudo mais.
05:33Os Estados Unidos com o Iraque.
05:35Então, já teve aquela alerta que tinha sido realmente ataque terrorista.
05:41Os jornais falando.
05:42E assim que, naquela época, na época desses ataques, homem-bomba, já tinha acontecido anteriormente.
05:51Então, quando tinha esses ataques, eles já anunciavam o terrorista, o responsável pelo ataque.
06:04Ele assumia o que eles tinham feito.
06:08Eles não escondiam.
06:09Então, de imediato, os repórteres, a mídia, já tinha essa informação que tinha sido ataque terrorista.
06:18E tinha aquele alerta vermelho na televisão.
06:22Fica em casa.
06:24Sempre tinha aquele alerta.
06:25Fica em casa.
06:26Ataque terrorista.
06:27Fica em casa.
06:28Então, foi aquele terror.
06:30Então, o primeiro foi aquele choque.
06:32O segundo já tinha notícia que era ataque terrorista.
06:36Inclusive, aconteceu outros depois.
06:39No mesmo dia.
06:40Aí foi confirmado.
06:51Consegue lembrar qual que foi a imagem que apareceu na TV?
06:58Isso ficou fixo na memória da senhora?
07:01Olha, o pior foi o fogo e as pessoas gritando.
07:08O fogo, aquele tanto de fumaça.
07:10Foi a primeira torre, né?
07:13A gente assustou porque aqui é tanto de gente lá em cima.
07:15E a gente via as pessoas caindo.
07:18A gente via as pessoas caindo.
07:20Algumas pessoas pulando.
07:21Outras pessoas realmente com choque.
07:25E o prédio em si começou a desmoronar.
07:28E as pessoas embaixo correndo.
07:31E as próprias pessoas com o celular filmando.
07:34Então, foram várias imagens.
07:36Uma atrás da outra.
07:39E muita gente filmando com o próprio celular.
07:41Todo mundo correndo.
07:42Todo mundo gritando.
07:43A gente entrou em pânica.
07:43Abaixou no chão.
07:45Gente caída no chão.
07:46A questão de tijolo caindo.
07:48E o povo correndo.
07:50Todo mundo correndo.
07:51Entrando em pânico.
07:52Pensando que tivesse esse acidente.
07:53E de repente, outro avião veio e derrubou o outro.
07:57Aí, o povo correu.
08:00Aí, o povo correu.
08:03Aí sim, na hora que foi assim.
08:05O choque.
08:06E agora?
08:07Aonde vai ser?
08:08Se teve o primeiro, teve o segundo.
08:09Vai ter o terceiro.
08:11Aonde vai ser o terceiro?
08:22Eu comecei a passar no mundo inteiro as imagens.
08:26Né?
08:27É automático.
08:27Começou no mundo inteiro.
08:28Aí as pessoas começaram a ligar.
08:30O primeiro que ligou foi o irmão do chão.
08:32Meu esposo.
08:34Foi o primeiro.
08:36Porque ele tinha o telefone.
08:37Então, ele pôde ligar.
08:39Quem não tinha telefone, ficava esperando a gente ligar.
08:43Ficava esperando a gente.
08:44Porque naquela época tinha muito Orkut.
08:46Que a gente fazia muita...
08:48Eram outros programas.
08:49Não é o Face igual hoje.
08:51Era diferente as ligações naquela época.
08:54Aí a gente começou a ligar para as pessoas.
08:55Para tranquilizar as pessoas.
08:57Mas a gente teve que falar com várias pessoas.
09:00Com a minha mãe.
09:01Falar com as irmãs.
09:03Falar com cunhados, cunhadas, sobrinhos.
09:06Começou aquele tumulto.
09:08E o que eles falavam?
09:10Vem embora.
09:12Não tem nem como a gente ir embora.
09:13Não tem como a gente ir embora.
09:14Porque a gente não está conseguindo andar nas ruas.
09:16É claro que os aviões, os aeroportos estão todos fechados.
09:19Foi fato.
09:19Fechou tudo.
09:21Fechou tudo.
09:23Não tinha como sair.
09:25Só que a mentalidade das pessoas que estavam aqui é...
09:27Vem embora.
09:29Mas não tinha como.
09:30Era impossível.
09:32Na realidade, o lugar mais seguro era dentro de casa.
09:36Dentro de casa.
09:37Porque com o ataque terrorista, eles querem atacar lugares certos.
09:42Lugares pontuais.
09:44Que vai fazer o estrago.
09:47Quanto estrago maior, melhor para eles.
09:49Sempre é o ataque terrorista.
09:52Então, residencial, eles não iam ficar mexendo.
09:55O lugar mais seguro era em casa.
09:57Então, por causa disso.
09:58Ficou várias...
09:59Ficou mais de semana.
10:00Não lembro quantas semanas.
10:02Mas ficou um bom tempo.
10:04As escolas fechadas...
10:07Muita gente estocou comida.
10:09Porque alguns lugares fechou.
10:11Restaurantes fecharam.
10:14Supermercados poucos ficaram abertos.
10:16Um período do dia...
10:18Foi assim.
10:19Fechou a cidade.
10:21Fechou a cidade.
10:23O país, na realidade, fechou.
10:25Mas, assim...
10:26A gente sabe falar.
10:27Eu sei falar.
10:28A respeito da cidade onde eu estava.
10:40Depois desse ataque...
10:42A gente sempre pegava recomendações para pegar outra limpeza.
10:45Mas, mesmo assim...
10:47Eles perguntavam de onde que a gente...
10:49De onde que nós éramos.
10:52Eles falavam.
10:53Não.
10:53Eles limpam para a gente.
10:54Eles são brasileiros.
10:55Aí, eles concordavam da gente ir lá limpar.
10:58Eles perguntavam...
10:59E eles falavam para a gente.
11:00As pessoas que tinham indicado...
11:02A gente já falava.
11:03Aí, eles perguntaram de onde que vocês eram.
11:04Espero que vocês não se importem.
11:06A gente falou que vocês são brasileiros.
11:08Eu falei.
11:09Sim.
11:09Vocês não mentiram.
11:10É o correto.
11:10Nós somos brasileiros.
11:11Então, todo mundo perguntava.
11:13Teve muita mudança.
11:15Muitos...
11:15Depois que as escolas voltaram ao normal...
11:17Os alunos...
11:19Que eram do Oriente Médio...
11:21Que estavam morando lá...
11:23Não puderam ir para a escola mais.
11:27Na rua...
11:28Como eu tenho a cor da pele...
11:30Muito para o lado do latino...
11:32Mas, também, para o lado do Oriente Médio...
11:34Principalmente para a olheira.
11:35Cabelo preto.
11:38Então...
11:39Que é característica deles.
11:41As pessoas...
11:42Quando eu entrava em algum lugar...
11:43As pessoas já olhavam para mim...
11:45De sim.
11:45Muito...
11:46Com medo.
11:47Algumas pessoas ainda pegavam as crianças...
11:49E saíram de onde estavam.
11:50Então...
11:51Eu tive que realmente evitar de sair de casa...
11:54Para não ter nenhum...
11:55Nada desagradável.
11:57Porque só de ver eles saindo de perto de mim...
12:02Com medo.
12:03Porque eles faziam a expressão de medo.
12:05Puxavam as crianças a sair daquele recinto.
12:08Já era muito desagradável para mim.
12:09E para não passar nenhuma...
12:12Nenhuma agressão verbal...
12:16Eu preferia ficar mais recusa também.
12:18Eu preferia não ficar saindo.
12:19Eu deixava o meu marido sair...
12:21Porque ele tem um estereotipo mais europeu.
12:25Então, ele saia normalmente.
12:27Ele ia no supermercado.
12:29Eu preferia ficar mais quieta em casa.
12:31Então, realmente, eu senti muito...
12:33Por causa do meu tipo...
12:35Da cor da pele.
12:36As olheiras.
12:37Cabelo preto.
12:38Eles não conseguiam distinguir.
12:40Antigamente, o preconceito era com os latinos.
12:43Porque entrava pelas...
12:45Como diz eles?
12:46Pela porta de trás.
12:48E depois do ataque...
12:50Já não eram mais os latinos.
12:52Eu não era mais considerada uma latina...
12:54Uma mexicana.
12:55Uma venezuelana.
12:56Nada.
12:57Eu era considerada alguém do Oriente Médio.
12:59E a gente evitava muito de sair nessa época.
13:02A gente ficou quase um ano evitando muito de sair.
13:05Até as coisas normalizar.
13:08A gente ficou evitando de sair de casa.
13:10De almoçar em restaurantes.
13:12De ficar transitando.
13:14Para não acontecer nada de errado.
13:16Porque quem era de lá teve que realmente até mudar de lá.
13:21Procurou um lugar mais quieto.
13:23Interiores.
13:24Cidades menores.
13:25Porque realmente...
13:26Eles não deixavam nem...
13:28Porque eles usam muito na época.
13:31Eles não usavam muito aqueles turbantes.
13:32Aquele tipo de roupas que é tradicional deles.
13:36Então, quando chegava uma pessoa daquele jeito.
13:37Eles eram impedidos de entrar.
13:40No recinto.
13:41Então, eles tiveram que realmente se retirar.
13:51Os americanos falavam muito sobre isso.
13:53Porque a Atlanta, na época, tinha que ir à Olimpíada.
13:56Então, nunca sabia onde que ia ser o próximo ataque.
13:59Teve três tentativas.
14:02Quatro tentativas.
14:02Quatro tentativas.
14:04E, assim, ainda não tinham pego os culpados.
14:07Então, poderia ter qualquer um a qualquer momento.
14:09E o foco era...
14:11Atlanta, pelo movimento aéreo de Atlanta, Georgia, é um dos maiores dos Estados Unidos.
14:19O trânsito aéreo.
14:21Então, o aeroporto era um dos alvos.
14:23Então, ficou muito...
14:25A gente ficou todo mundo com medo.
14:28E lá teve as Olimpíadas.
14:29O parque das Olimpíadas lá.
14:31Tinha muito turista.
14:33É um lugar de muito turismo.
14:36Então, pelo tráfego aéreo ser um dos maiores dos Estados Unidos.
14:42E ter também o complexo que teve a Olimpíada.
14:46Então, isso tudo chamava muito a atenção de algo poder acontecer.
14:51Algo.
14:52A senhora sentia medo?
14:55Sentia.
14:56Sentia.
14:57Assim, todos os dias.
14:58Por muito tempo, a gente estava sempre de olho nos jornais.
15:02Para ver o que poderia acontecer.
15:04A gente ficou mais de anos sem ir nesses locais.
15:07Passar perto desses locais.
15:09Por mais de anos a gente fez isso.
15:11E não foi só a gente.
15:14Muita gente evitava.
15:15Muita gente passou a viajar de carro do que ir para o aeroporto.
15:18Os americanos sempre comentavam sobre isso.
15:21Sempre comentavam.
15:22Pelo tráfego aéreo ser muito forte em Atlanta.
15:28E por causa daquela região da Olimpíada.
15:30Tchau.
15:31Tchau.
15:31Tchau.
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