00:01Eu tinha acabado de começar a apuração quando eu ouvi de uma organização social.
00:09Você já sabe como você vai garantir a sua segurança?
00:12E essa pessoa estava se referindo aos criminosos que atuam em complexos de golpe no Camboja,
00:19com vítimas de tráfico de pessoas.
00:21E claro, a segurança está sempre no radar numa apuração como essa.
00:25Só que aí aconteceu uma coisa que foi, eu comecei a ouvir isso de todo mundo.
00:31Eu ouvi isso de outras organizações sociais, eu ouvi isso de vítimas,
00:36eu ouvi isso de colegas de trabalho da Folha que já tinham atuado em coberturas como essa.
00:44E nisso eu percebo que, acho que na verdade eu até já sabia que não havia exagero naquela primeira pergunta,
00:52que todo cuidado era pouco.
00:54Essa cobertura começa quando o governo publica um dado que fala que
00:58os brasileiros vítimas de tráfico de pessoas têm o Camboja como principal destino.
01:05Das 84 vítimas que o governo mapeou, 44 estavam indo para o Camboja.
01:11Ou seja, a gente está falando que mais da metade tinha como destino um país que nem sempre aparece em
01:18notícias, em manchetes.
01:20Então a gente parou e falou, a gente precisa entender o que está acontecendo lá em loco.
01:26Foram algumas semanas de preparação antes de embarcar e eu lembro que a questão da segurança,
01:32ela sempre cruzava a minha mente, sempre estava ali atrás por conta das coisas que eu já tinha ouvido
01:39das vítimas das organizações sociais.
01:41Coisas que me marcaram foi, por exemplo, quando falaram que eu não podia despachar mala de jeito nenhum,
01:47porque tem esse histórico dessas organizações criminosas, colocar drogas ou outros itens ilícitos nas malas.
01:54Quando me falaram isso, às vezes que me falaram, eu falei, não, mas eu estou indo num contexto muito diferente,
02:00né?
02:00Eu sou uma jornalista, estou indo cobrir, etc e tal.
02:03Mas era sempre melhor não arriscar.
02:06Ouvir, melhor não arriscar, não despachei mala.
02:09Outra coisa também que eu ouvi foi levar a tava de segurança para as portas.
02:13Isso já é algo que eu costumo fazer todas as vezes que eu viajo.
02:17Mas achei especialmente importante porque eu fiquei em cidades, em pequenos hotéis
02:22de regiões que têm um alto fluxo de tráfico de pessoas.
02:27Então era uma segurança que sim, que eu precisava olhar com mais cuidado.
02:31Quando eu chego no Camboja, uma das coisas que mais me impressionaram
02:34são que os complexos de golpe, que são essas estruturas que mantêm presas as vítimas de tráfico humano
02:41e que elas são obrigadas a aplicar golpes em pessoas do seu país de origem, né?
02:47Sob risco de tortura.
02:48Esses complexos não eram pequenas salas.
02:50Eram prédios enormes com quatro, cinco, seis torres, às vezes vinte andares.
02:56E como aquilo tava entremeado no dia a dia da população,
02:59as pessoas sabiam que aquilo acontecia e muitas vezes, claro, não podiam fazer nada com relação àquilo,
03:05mas era algo comum, presente na vida de muita gente.
03:09E foi percebendo isso também que deu pra entender que aquelas pessoas que entenderam um pouco do dia a dia
03:17daqueles vizinhos seria importante pra entender o funcionamento dos complexos, né?
03:23E aí, por exemplo, eles me trouxeram relatos de que quando os complexos eram esvaziados,
03:29as pessoas saíam machucadas, com roxos, braços, pés quebrados, não conseguiam andar.
03:34Então eles deram uma dimensão da tortura que eu já tinha lido, já tinha ouvido de algumas vítimas,
03:39que tava acontecendo lá dentro.
03:41Então se eu tivesse que dizer, eu diria que essa cobertura foi muito marcada por análise de risco.
03:45Entender o que valia ou não a pena, mediante ao material que eu precisava pra responder a pergunta inicial.
03:53E se você quiser ler tudo isso, já tá disponível todos os capítulos no site da Folha.
03:58E aí
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