Pular para o playerIr para o conteúdo principal
  • há 8 horas
Miguel Nicolelis cita Alan Turing ao explicar que o cérebro não é e nem nunca será um computador

Categoria

🗞
Notícias
Transcrição
00:00vocês. Eu queria agradecer muito o Christian e toda a equipe por organizar um congresso
00:07dessa magnitude, eu chamo de congresso, nem sei se é o termo certo, mas com conversas
00:13tão boas, tão legais, eu vi um monte de coisa que me inspirou e que vale a pena ouvir e
00:20debater. E também queria agradecer também por convidar um cara igual o professor Miguel
00:26Nicolelis. Eu acho que todo mundo conhece, a Denise estava dando um abraço ali atrás
00:30na coxia falando, eu sou sua fã, eu também sou, tenho que revelar. Então, para mim é
00:35um pouco, estou um pouco ansioso de entrevistar o professor Nicolelis. Nós temos uma missão
00:42aqui de falar sobre consciência, num simpósio que tudo está verdinho aqui atrás da gente,
00:50né? O povo estava falando de outras coisas. Então, eu queria, nesse tema, trabalhar com
00:58coisas que são das básicas. Não sei se vocês conhecem o professor Miguel Nicolelis, ele
01:02é uma das maiores sumidades como neurocientista, mas também como tradução de coisas complexas
01:11da ciência para coisas que a gente consegue entender. Isso é muito legal e isso não é
01:16uma tarefa fácil, ela é altamente sofisticada. Então, eu fui egoísta o suficiente para querer
01:22perguntar as coisas que me interessam. Professor Nicolelis, para começar, conta um pouco para
01:28a gente o que é cérebro, o que é mente e o que é consciência. Pergunta fácil.
01:36Bom, primeiramente, muito obrigado a Vivo e aos organizadores pelo convite. É sempre um
01:40prazer poder falar na minha cidade natal. Cada vez que eu volto para São Paulo, parece
01:48um cérebro, né? Porque é outra cidade, outra forma e outra configuração. Mas a sua
01:55pergunta é a pergunta de um trilhão de dólares, né? Que o Sam Altman não nos ouça, porque
02:00é capaz dele querer dizer que ele sabe a resposta, né? A neurociência é uma disciplina muito
02:06jovem, ela tem um pouco mais de 120 anos. Então, essas perguntas são a base, evidentemente,
02:15do trabalho de todos nós, né? Toda a comunidade. E eu tive um professor meu, um dos maiores
02:22neurocientistas do século passado, que dizia sempre assim, quando você não sabe a resposta,
02:27você começa dizendo o que não é. Então, por exemplo, o cérebro, ele não é um computador.
02:34Nunca foi, nunca será, ao menos que a gente queira. Que a gente queira no sentido da gente
02:40se transformar em zumbis digitais e restringir a nossa inteligência natural à inteligência
02:48da nossa criatura, né? O computador é a nossa criatura. Então, ele, para vocês terem uma
02:54ideia, ele não é um computador e os fundadores da era digital, Alan Turing, Claude Shannon,
03:00John von Neumann, Norbert Wiener, sabiam disso. Tanto sabiam que escreveram e colocaram isso
03:06nos seus trabalhos que ninguém cita, porque não é conveniente. Mas o cérebro não pode
03:10ser entendido como sendo hardware e software, por exemplo. Porque ele opera, se eu puder
03:17usar a palavra que, aliás, é quase proibida na nossa área, ele computa com o hardware.
03:23Ele opera com a matéria orgânica. E cada encontro que ele tem com a natureza, com outro ser humano,
03:29com animais, ou seja, com toda a sorte de eventos que nós nos deparamos ao longo da vida,
03:35altera a sua estrutura microscópica. Ou seja, o cérebro é que nem um rio. Você nunca passa
03:42pelo mesmo rio a segunda vez. Então, a mente, ela é uma propriedade emergente do cérebro
03:50que habita um corpo, que habita um planeta e que convive com outras mentes. Ela não é
03:58um algoritmo. Ela não é computável. Ela não pode ser reduzida a um programa de computação.
04:06E o próprio Alan Turing sabia disso. Se vocês forem ler a tese do Alan Turing, o paper mais
04:13famoso dele, em 1936, ele diz o seguinte, ele criou o termo não computável, quando
04:20ele percebeu que certas coisas não podem ser previstas para uma máquina de Turing. Por
04:26exemplo, quando um programa de computador vai dar pau. Esse é o programa clássico, é
04:31a definição clássica de um fenômeno não computável. E o que ele dizia? Quando um
04:38fenômeno não computável ocorre, eu tenho que chamar um oráculo para tomar a decisão.
04:44Quem é o oráculo? Nós.
04:50Esse é o pai da era digital, não é ninguém, nem é um jogador do Palmeiras. É o cara
04:55que criou toda a era que nós vivemos. João Funoi, mas no leito de morte, em 1957, está
05:03escrevendo o livro dele, o cérebro e o computador. O último capítulo, que ele não concluiu,
05:10ele morreu antes, apesar que o livro foi publicado pela esposa dele, ele termina a última linha
05:17que ele escreveu na vida dizendo, nós nunca vamos criar uma máquina igual ao cérebro.
05:25John Funoi, mas para quem não sabe, é o criador da arquitetura dos computadores que
05:29nós usamos até hoje. Então, a mente é um fenômeno emergente não computável. A consciência,
05:37eu nem me arrisco, porque se eu for abrir a boca para falar qualquer coisa, eu perco
05:41minha carteirinha da Sociedade Internacional de Neurocientistas, porque a definição de
05:47a consciência é o Holy Grail, é o cálice sagrado da área, mas ela desafia, ela desafia
05:58todos nós. E eu me lembro muito bem, nos anos 90, quando os físicos, meus colegas físicos
06:05começaram a invadir a neurociência dizendo assim para nós, bom, agora chegou o verdadeiro
06:10exército, agora nós vamos resolver tudo aqui. Isso faz 36 anos. Nós vamos resolver tudo,
06:16nós chegamos, não temos nada para fazer na física, agora nós vamos resolver o último
06:20grande enigma da humanidade, que é a consciência. Eles estão lá até hoje, tentando resolver,
06:27boa parte desistiu, voltou para a física em silêncio, porque viram que é um problema
06:31muito mais complexo. E é isso que a gente não valoriza mais, enquanto espécie.
06:40Todas as civilizações humanas têm mitos onde o criador é devorado pela
06:46criatura. Nós só estamos reproduzindo Cronos, Zeus, todos os grandes mitos da antiguidade,
06:55dos persas, dos mesopotâmios. Só que agora nós criamos, pela primeira vez, uma ferramenta,
07:02até esse momento nós tínhamos criado ferramentas que o nosso cérebro assimila como extensões
07:08de nós. Machado, avião, bicicleta, bola de futebol, tudo isso o cérebro assimila como
07:17se fosse o tenista. O tenista, quando você faz um MRI do cérebro do tenista e você pede
07:22para o tenista, de olho fechado, colocar o dedo da mão, se ele joga com a esquerda,
07:29colocar o dedo indicador da mão direita, onde ele acha que é a metade do braço esquerdo
07:34dele? Ele vai pôr o dedo calculando a metade, incluindo o braço e a raquete. E o cérebro
07:44dele acende toda vez que ele pensa na raquete, a área do cérebro dele acende, como se ele
07:51estivesse usando o braço natural dele. Pois bem, até recentemente, todas as ferramentas
07:59que nós criamos, todas as tecnologias que nós criamos eram absorvidas como parte de
08:04nós. Esse é o primeiro momento da história, nos últimos 80 anos, onde nós criamos uma
08:09tecnologia que nos absorve, que nos assimila. É como se os Borgs do Star Trek tivessem chegado
08:16aqui e dito para nós, a resistência é fútil. A resistência é fútil, mas na realidade
08:28ela não é. É isso que ninguém quer que ninguém saiba. A resistência está nas nossas mãos.
Comentários

Recomendado