00:00Há exatos 10 anos, a política brasileira implodiu de vez.
00:03O momento, sim, de poder praticar a maior acepicia já vista na política brasileira,
00:10para tirar todo o tecido contaminado da política nacional, tirar esse modelo que naufragou o Brasil.
00:19Não implodiu exatamente por causa da confirmação do impeachment de Dilma Rousseff em si,
00:23mas pelo que ela significava.
00:25O impeachment marcou uma espécie de virada de chave na forma de governar o país,
00:28como a gente conhecia até então.
00:30Isso valeu para todos que vieram depois.
00:32Temer, Bolsonaro, Lula, e vai valer para o próximo presidente eleito.
00:36Olha só, em 2015, Eduardo Cunha aceitou o pedido de abertura de um processo de impeachment contra Dilma.
00:41Foi a primeira vez que isso aconteceu desde o afastamento de Collor, em 1992.
00:45Naquele gesto, o Congresso mostrou o poder que tinha sobre o chefe do Planalto.
00:48Entre 2015 e 2017, a sensação que eu tenho cada vez mais é que a gente viveu no Brasil uma
00:54conjuntura crítica.
00:55Tinha muita coisa mudando e muitas dessas demandas eram muito antigas, Gustavo.
01:00Uma dessas demandas era orçamentária.
01:02Antes mesmo do impeachment, o enfraquecimento do governo Dilma abriu caminho para uma emenda constitucional
01:06que mudaria a relação entre governo e Congresso.
01:09Foi aí que o Executivo passou a ser obrigado a pagar emendas individuais pedidas por parlamentares,
01:14inaugurando um controle cada vez maior do Congresso sobre o orçamento.
01:18Essas emendas cresceram a partir do governo Temer.
01:20Para você ter uma ideia, hoje elas compõem um quinto do dinheiro que o governo federal pode decidir livremente onde
01:26gastar.
01:26E se o governo é obrigado a pagar, ele pede a principal moeda de troca que tinha com o Legislativo.
01:31Aos poucos, o deputado deixa de precisar do Planalto.
01:34E às vezes, até da própria sigla.
01:36Se consolida esse cenário de um governo muito fraco,
01:39que não tem muita condição de tocar a agenda legislativa, deixa isso nas mãos do Congresso.
01:45Aqui a gente mede quantos deputados seguem a orientação do governo no plenário.
01:49Nos anos 2000, o Planalto levava perto de 70% dos votos.
01:52E hoje está no patamar mais baixo desde a crise que derrubou Dilma.
01:56Segundo especialistas, Bolsonaro abriu mão de montar uma coalizão.
01:59Lula fez o oposto, entregou ministérios a partidos de direita.
02:02E mesmo assim, colecionou derrotas.
02:04A maior delas, a rejeição de Jorge Messias para o Supremo.
02:07Esse novo balanço de forças é sustentado pelo chamado Centrão.
02:10Entre os deputados que atuaram nas duas gestões,
02:13mais de um terço foi fiel tanto a Bolsonaro quanto a Lula nas votações disputadas.
02:18Isso não quer dizer que eles não tenham ideologia.
02:20Tem e votam com ela nas pautas que interessam ao grupo.
02:23No resto, são pragmáticos.
02:24E por isso viraram um fiel da balança.
02:26Por exemplo, mais da metade dos vetos de Lula nessa gestão foram derrubados no Congresso.
02:31Um recorde que contou com os votos do Centrão.
02:34Como legado do impeachment de Dilma há 10 anos e da crise que resultou nele,
02:37o chefe do Executivo agora precisa governar negociando voto a voto.
02:41Tentando remontar uma base com o Congresso mais poderoso da história democrática do país.
02:45Com licença.
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