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  • há 6 semanas
Andreia Rodrigues
Transcrição
00:00Como mulher e mãe de duas meninas, quero começar por uma coisa que para mim é muito simples.
00:05A liberdade das mulheres também é a liberdade de escolher.
00:07Uma mulher pode querer trabalhar, construir uma carreira, ser mãe e continuar a trabalhar.
00:11Outra pode decidir ficar em casa, dedicar-se aos filhos e à família.
00:15E nenhuma dessas escolhas faz dela mais ou menos mulher, mais ou menos mãe, mais ou menos válida.
00:21Porque foi precisamente por isso e também por isso que tantas mulheres lutaram,
00:25para que hoje pudéssemos escolher.
00:27Mas há uma grande diferença entre defender a nossa escolha e defender que essa escolha deve limitar a liberdade das
00:33outras.
00:34Quando ouvimos defender que uma mulher ou até uma menina vítima de violação não deve poder decidir
00:40se quer prosseguir uma gravidez resultante dessa violência, estamos a falar de outra coisa.
00:45Não estamos apenas a falar sobre aquilo que cada um ou cada uma escolheria para si.
00:49Estamos a falar de retirar a outra mulher a possibilidade de decidir sobre o seu próprio corpo
00:53depois de ter sido vítima de um crime.
00:56E podemos ter convicções pessoais, religiosas, morais, familiares e temos todo o direito de viver de acordo com elas.
01:03Mas uma convicção pessoal não pode transformar-se de forma alguma numa imposição sobre a vida e o corpo de
01:10outra pessoa.
01:11E a mim preocupa-me a forma como algumas destas mensagens chegam aos mais novos.
01:15Porque retirar direitos raramente começa com alguém a dizer vamos retirar os direitos às mulheres.
01:20Não. Começa muitas vezes por tornar certas ideias aceitáveis, por romantizá-las, repeti-las, por nos fazer acreditar que direitos
01:28conquistados são exageros, ameaças à família.
01:30E não. Não podemos confundir a liberdade para defender uma ideia com a liberdade para retirar às outras mulheres e
01:36às outras pessoas a possibilidade de escolher.
01:38Acho particularmente perigoso quando começamos a associar tudo. Se defendes a família então tens de pensar assim.
01:45Se és cristão então tens de defender isto. Se tens estes valores politicamente então tens de estar daquele lado.
01:49Não. Podemos ter convicções pessoais profundas sobre determinados temas.
01:53Podemos individualmente decidir que nunca faremos determinada escolha.
01:57Não podemos retirar a outra pessoa ou outras pessoas a possibilidade de escolherem para elas próprias.
02:02Os direitos das mulheres não apareceram por acaso. Não estiveram sempre aqui.
02:06Ter voz, a independência, podermos votar, estudar, o direito a decidirmos sobre a nossa vida e o nosso corpo.
02:13Eu quero que as minhas filhas cresçam num mundo onde possam escolher ser mais ou não ser, ter uma carreira
02:18ou ficar em casa,
02:19casar ou não casar, pensar como eu ou discordar completamente de mim.
02:23Quero que elas tenham empatia suficiente para perceber que aquilo que escolherem para si, para elas,
02:28não tem de ser aquilo que outras mulheres escolhem. E não quero também que elas tenham de voltar a lutar
02:33por direitos
02:34que a minha geração recebeu porque outras mulheres, antes de nós, tiveram a coragem de os conquistar.
02:40Podemos discutir ideias? Sim. Devemos discutir ideias? Claro que sim.
02:43Mas há uma coisa que não podemos fazer, dar os nossos direitos por garantidos.
02:47Temos de continuar a ser uma voz ativa nesse sentido, porque aquilo que foi conquistado também pode ser perdido.

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