00:02A palavra planejamento não existe, cara.
00:05Existe, tira isso, existe impulso.
00:07Zero projeto, zero planejamento.
00:19Isso é uma escultura do Sábio Carvalho com um poeta espanhol, Garcia Lorca,
00:22que foi assassinado pelo franquismo no começo do século.
00:25Vocês conhecem Garcia Lorca?
00:27Não.
00:28Não, nunca me ouviu falar?
00:29Não.
00:30Não tem cara do Garcia Lorca lá.
00:32Não tem nada que diretamente diga que aquilo é do Garcia Lorca.
00:38O meu corpo nu, a ação na cidade.
00:43A escultura foi inaugurada, eu não sei, ficou pouquíssimo tempo,
00:46o comando de caça aos comunistas foi lá e explodiu a escultura.
00:52Ficava claro que os caras eram contra tudo isso, queriam apagar essa memória.
00:56E a gente era movido a querer recuperar essa memória.
01:02Tinha uma área de galpão.
01:03Atrás tinha umas árvores e no chão, no terreno baldio, estavam os restos da escultura.
01:11Ele chegou para mim e falou, escuta, a gente achou a escultura e a gente vai roubar.
01:21É tudo muito simbólico, porque a gente ainda viveu uma época de ditadura, de repressão.
01:28É a gente agindo sobre a cidade.
01:31Uma leitura a gente fez com a burocracia também.
01:33Quando você tem 20 anos de idade, não tem risco nenhum, mesmo com ditadura militar.
01:39Tinha uma urgência, nós temos que resgatar, meu Deus, vai desaparecer.
01:44A gente fazia parte de uma mesma turma.
01:47Era um grupo bem heterogêneo, que fazia cinema ou gostaram muito do cinema.
01:53A gente fez uma performance e o Flávio fazia uma performance.
02:02E daí pra frente, valia tudo, né?
02:05Era tudo no vai da volta, cara.
02:10Foi muito mais na loucura mesmo.
02:12Aquela moçada, vamos embora, vamos embora.
02:14Entra no caminhão e vai fazer o que dá.
02:17Aí armou-se o crime.
02:28A gente vai lá e reconstrói.
02:31Tinha um pouquinho esse prazer também.