AVENTERA, AÇÃO, TERROR, HUMOR, #aventura #ação #humor #terror
Categoria
🦄
CriatividadeTranscrição
00:00O pneu traseiro do meu velho pala tossiu uma última vez antes de se calar, e o silêncio
00:05que se seguiu não era o silêncio reconfortante da natureza, mas o vácuo de um grito engolido.
00:11Desliguei a ignição, embora não houvesse mais nada para desligar, e a chave tilintou
00:16contra o painel, um som estridentemente comum na desolação.
00:20Do lado de fora da janela empoeirada, a noite engolia os contornos do que pareciam ser árvores
00:26retorcidas.
00:27Uma neblina rasteira jabeijando o asfalto rachado da estrada das almas perdidas.
00:34Estrada das almas perdidas, murmurei, a ironia escorrendo em minha voz.
00:39Um nome tão melodramático para uma trilha abandonada, que ao que parecia, nem mesmo as
00:44almas perdidas se dignavam a manter.
00:47Há quem diga que eu nasci sem o gene do medo.
00:50É um rótulo que me acompanha desde pequeno, quando desbravei o telhado da casa do avô,
00:55ou enfiei a mão num buraco que diziam ser lar de aranhas venenosas.
01:00João sem medo, gritavam as crianças.
01:02Uma mistura de admiração e receio.
01:05E eu sempre fiz questão de honrar o título.
01:08Enfrentei bandidos, desbravei favelas, dormi em cemitérios por uma aposta boba.
01:13Nunca, em meus trinta e poucos anos, senti aquele frio na barriga, aquele arrepio na nuca
01:20que a maioria das pessoas descreve.
01:22Era como se a minha mente não tivesse um receptor para o terror, uma parte essencial
01:27que simplesmente faltava.
01:29Por isso, quando o bêbado do bar do Zé me contou as lendas da estrada das almas perdidas,
01:34os desaparecimentos inexplicáveis, os sussurros do vento que chamavam nomes, as figuras espectrais
01:41que dançavam na neblina.
01:43Eu apenas sorri, tomando um gole do meu uísque barato.
01:46Lenda de velho, seu Akin, eu disse, jogando uma nota na mesa.
01:50Vou passar por lá amanhã, ver se encontro alguma alma que queira um carona.
01:55A neblina começou a se adensar, lambendo o opala como uma língua fria e úmida.
02:00Uma rajada de vento gelado chicoteou as árvores e ouvi um som.
02:05Não era o farfalhar das folhas nem o lamento do vento.
02:07Era um sussurro, não um sussurro indistinto, mas algo articulado, quase musical.
02:13Uma voz, ou talvez um coro de vozes distorcida, que se enrolou em torno do meu nome.
02:19João, meu sangue não gelou, meu coração não acelerou, meu semblante não vacilou.
02:25Apenas uma sobrancelha se ergueu, em um gesto de leve surpresa, como se um truque de mágica
02:31medíocre tivesse sido executado.
02:34Interessante, pensei.
02:35A lenda, ao menos, não mentia sobre os sussurros.
02:38Mas de onde viria?
02:39Uma ilusão acústica do vento, talvez?
02:41O eco distante de alguma criatura noturna?
02:44Levantei a mão e, com um indicador, cocei a orelha.
02:48Aparentemente, a estrada tinha um senso de humor peculiar.
02:51O sussurro se repetiu, desta vez mais próximo, mais nítido.
02:55João, venha!
02:56Parecia vir de todas as direções e de nenhuma ao mesmo tempo, envolvendo o carro, dançando
03:02entre os vidros fechados.
03:04Estendi a mão para o rádio, por hábito, buscando distração, mas o Opala estava morto.
03:08Nenhum chiado, nenhuma luz de painel para me acompanhar.
03:12Apenas o silêncio e as vozes.
03:14Sorri.
03:15Um sorriso fino, cético.
03:17Era óbvio que o Opala, velho de guerra, havia finalmente se recusado a continuar a aventura.
03:23Ou talvez a gasolina tivesse acabado em algum ponto que eu, imerso em pensamentos, não havia
03:28notado.
03:29Sim, era isso.
03:30Problemas mecânicos.
03:32A mais mundana das explicações para o mais pretencioso dos mistérios.
03:37Abri a porta do carro e o ranger metálico ecoou na neblina, parecendo estranhamente amplificado.
03:43O ar gelou ainda mais.
03:45Cortante.
03:46Úmido.
03:46Fechei a porta e o som de metal contra metal reverberou, um eco que se recusava a morrer.
03:51Olhei para o lado, para o asfalto.
03:53A uns 20 metros, havia um marco de pedra velho, coberto de musgo, quase engolido pela
03:59vegetação.
04:00Uma ruína de outrora, talvez indicando a divisa de alguma propriedade esquecida.
04:05Mas o que me chamou a atenção não foi o marco em si, e sim a escuridão que parecia
04:10emanar dele.
04:11Não a ausência de luz, mas uma escuridão, ativa, um vácuo que parecia sugar a já tênue
04:17claridade da noite.
04:19Meu instinto me dizia para não olhar, mas a minha curiosidade, meu velho companheiro
04:24sem medo, me impelia.
04:26Quando meus olhos focaram na escuridão ao redor do marco, minha lanterna, que eu havia
04:31automaticamente sacado do porta-luvas e ligado, hesitou.
04:35Uma piscada breve, depois outra, quase imperceptível.
04:39Uma falha na bateria pensei irritado, ou talvez um contato.
04:43Mas o que a minha mente cética não conseguiu ignorar foi a sensação.
04:47Um calafrio, não o frio da noite, mas algo que parecia roçar a minha espinha.
04:52E então, eu juro, no canto do meu olho, uma sombra.
04:56Mais rápida que um pensamento, mais sutil que um sopro.
04:59Algo se arrastou da escuridão do marco.
05:02Deslizou para a beira da estrada e desapareceu entre as árvores.
05:06Eu virei a cabeça abruptamente, focado, mas não havia nada.
05:10Apenas a névoa, as árvores e o marco, agora parecendo ainda mais antigo e opressor.
05:16Pela primeira vez em anos, senti um músculo da minha mandíbula tensionar.
05:21Não era medo, não podia ser.
05:23Era irritação.
05:24Irritação com a estrada, com opala, com a maldita neblina.
05:28E com a minha própria tendência a encontrar problemas em lugares esquecidos por Deus.
05:33Irritação com a sugestão do sobrenatural.
05:37Estaria minha mente, porventura, começando a pregar peças em mim,
05:41saturada pelas lendas do Bar do Zé, um truque de luz e sombra, pensei.
05:46O corpo humano é mestre em encontrar padrões onde não existem.
05:50Em interpretar ruídos aleatórios como vozes.
05:53Eu me virei, o rosto impassível, e comecei a andar pela estrada,
05:58na direção que eu esperava ser a saída ou pelo menos a próxima civilização.
06:03As minhas botas estalaram no asfalto quebrado.
06:06Um som solitário na vastidão da noite.
06:08Eu sou João.
06:10Ou, como preferem me chamar, João Sem Medo.
06:13Um rótulo que carrego com um misto de orgulho e devo admitir um certo peso.
06:18Não sou um homem de raízes, de lar fixo.
06:21Minha vida tem sido uma série de horizontes que se movem, de cidades que se apagam no retrovisor.
06:26O Opala, meu fiel companheiro por 15 anos, era a única constante.
06:31Um pedaço enferrujado de familiaridade em um mundo sempre em fluxo.
06:36Eu o peguei em troca de um serviço duvidoso em Porto Alegre.
06:40E desde então, ele me levou por todo o Brasil.
06:43Das praias do Nordeste às Serras do Sul.
06:45Meu trabalho? Bem, isso varia.
06:47Desde carregar caixas em feiras, limpar peixe em mercados até, ocasionalmente, resolver problemas para pessoas que preferem não envolver a
06:57polícia.
06:58Nenhum desses empregos exige coragem no sentido grandioso.
07:02Mas todos exigem uma certa indiferença ao perigo.
07:06Uma frieza que muitos confundem com ausência de medo.
07:09E eu, por minha vez, permiti a confusão.
07:11Há três dias, eu estava no Bar do Zé, em uma cidadezinha qualquer do interior de Minas, aguardando um pagamento.
07:19A cachaça era barata e as histórias, fartas.
07:22Foi lá que o velho Joaquim, com seus olhos de água e rugas que pareciam mapas de sofrimento, começou a
07:28me falar da estrada das almas perdidas.
07:31Ninguém que entrou nela depois do anoitecer voltou o mesmo João.
07:36Muitos nem voltaram.
07:37Ele sibilou.
07:38Os dentes amarelos à mostra.
07:39Ele descreveu a neblina que vinha do nada.
07:42Os sussurros.
07:43As culpas que pareciam dançar na névoa.
07:46Ele falou de carros que morriam.
07:48De pessoas que enlouqueciam.
07:49De uma presença que se alimentava do desespero.
07:52Eu, claro, apenas acenei com a cabeça.
07:55Bebendo meu uísque.
07:57Bobagens, Joaquim.
07:58A estrada deve ser mal sinalizada.
08:00Ou talvez o pessoal tenha bebido demais.
08:02No meu íntimo, porém, uma parte de mim.
08:05Aquela que sempre busca o limite, a que não temia enfrentar um bando de arruaceiros, sentiu uma pontada de desafio.
08:13Uma curiosidade mórbida, talvez.
08:15Por que não?
08:16Que mal poderia fazer uma estrada velha pra alguém que não sente medo.
08:20Seria mais uma história pra contar no próximo bar.
08:23É assim, aqui estou eu.
08:25No meio do nada.
08:26Na estrada das almas perdidas.
08:28Com o opala morto.
08:29A neblina engolindo tudo.
08:31E uma sensação gélida.
08:33Que não era apenas o clima.
08:35A ironia não me escapava.
08:37Caminhei por mais alguns minutos.
08:39A lanterna lançando um círculo pálido no asfalto.
08:42As árvores ao lado da estrada pareciam mais altas, mais antigas.
08:46Do que em qualquer outro lugar que já havia visto.
08:49Seus galhos.
08:51Retorcidos como dedos artríticos.
08:53Formavam uma abóbada sobre a estrada.
08:55E suas copas densas bloqueavam o pouco de luz da lua que tentava perfurar a neblina.
09:01O ar estava pesado.
09:02Com cheiro de terra úmida.
09:04Folhas apodrecidas e algo mais.
09:06Algo indescritível.
09:07Como metal velho e ozônio.
09:10Nenhum som de grilos.
09:11Nenhum pio de coruja.
09:13Apenas o som dos meus próprios passos.
09:15E o batimento monótono do meu coração.
09:18Que parecia a única coisa viva naquela paisagem morta.
09:21Era a personificação da desolação.
09:24Um túnel pro nada.
09:25E eu, João Sem Medo, estava no centro dele.
09:28A caminho de algum lugar que eu ainda não sabia qual era.
09:31A cada passo.
09:32A neblina se adensava.
09:34Tornando a visibilidade quase nula.
09:36O feixe da minha lanterna era um círculo ineficaz.
09:40Engolido pela brancura leitosa a poucos metros de mim.
09:43Tentei assobiar uma melodia.
09:45Um hábito antigo para espantar o tédio em longa gaminhada.
09:49Mas o som morreu em minha garganta.
09:51Absorvido pelo ar pesado.
09:53Era como se a estrada não quisesse que eu fizesse barulho.
09:56Como se quisesse que eu me calasse e escutasse.
10:00E havia algo para escutar.
10:02Oh, sussurros retornaram.
10:04Desta vez mais fortes, mais próximos.
10:06Não eram as vozes do início que chamavam meu nome.
10:09Eram múltiplas.
10:11Entrelaçadas.
10:12Um coro etéreo de lamentos e súplicas ininteligíveis.
10:15Parecia vir de dentro da neblina.
10:18De trás das árvores.
10:19Até mesmo do chão sob meus pés.
10:21Tentei discernir palavras.
10:23Mas era um emaranhado de sons agudos e graves.
10:26Um mosaico de vozes humanas em desespero.
10:29Mães chorando, pensei.
10:31Em um lampejo de dúvida.
10:32Ou crianças.
10:33A sugestão de inocência em sofrimento.
10:35Algo que, mesmo para mim, era perturbador.
10:39Decidi voltar.
10:40O Opala, embora inútil, era um ponto de referência.
10:43Uma retirada estratégica não se...
10:45De medo.
10:46Afinal, não havia nada para ver ali que valesse a pena.
10:49E a paisagem era monótona e hostil.
10:52Dei meia volta.
10:53A lanterna varrendo o caminho que eu acabara de percorrer.
10:57Mas o que eu vi me fez parar o Opala não estava lá.
11:00Não apenas não estava visível na neblina.
11:02Ele simplesmente não estava.
11:04A estrada se estendia para trás de mim, idêntica ao que estava à minha frente.
11:10Um corredor infinito de asfalto rachado.
11:13Ladeado por árvores fantasmagóricas e imicirso na neblina densa.
11:17Eu tinha certeza de que não havia andado mais de 100, 200 metros.
11:21O Opala deveria estar ali, a poucos passos.
11:24Ou ao menos sua silhueta deveria ser discernível.
11:28Mas não.
11:28Era como se eu tivesse sido teletransportado para um ponto completamente diferente da estrada.
11:34Ou como se a estrada tivesse se dobrado sobre si mesma, apagando meus rastros.
11:39Um calafrio percorreu meu corpo, mais intenso que o ar gelado.
11:44Não era um calafrio de medo.
11:45Não ainda.
11:46Era um calafrio de desorientação, de perda de controle.
11:49Eu confio nos meus sentidos.
11:52Confio na minha capacidade de navegação, na minha lógica.
11:55E agora tudo isso estava sendo desafiado.
11:58O Opala, o único ponto de certeza, havia desaparecido como um fantasma.
12:04Pisquei.
12:04Esfreguei os olhos.
12:05Chacoalhei a cabeça.
12:07Como se pudesse dispersar uma ilusão.
12:10Não adiantou.
12:11A estrada era a mesma.
12:12Um túnel sem começo nem fim.
12:15Tentei pensar em uma explicação racional.
12:17Talvez eu estivesse andando muito mais do que imaginei.
12:20E a neblina fosse tão densa que cobria o carro.
12:23Mas eu não sentia ter andado tanto.
12:25Meus passos eram medidos, minha mente atenta.
12:28Além disso, a ausência de qualquer vestígio do carro era perturbadora.
12:33Nem o reflexo metálico dos pneus.
12:35Nem o perfil inconfundível.
12:38Nada.
12:39Foi então que o problema se tornou inegável.
12:41Eu não estava apenas em uma estrada assustadora.
12:44Eu estava preso.
12:45A estrada não era apenas um caminho.
12:48Era uma armadilha.
12:49E o problema não era o que eu não via.
12:51Mas o que eu sentia com uma opressão crescente.
12:54Uma sensação de que a própria estrada tinha uma consciência.
12:58E que ela estava me observando, me avaliando.
13:00Talvez até brincando comigo.
13:02Minha mão tremeu ligeiramente ao segurar a lanterna.
13:05Mas eu reprimi o tremor.
13:07Não era medo.
13:09Era frio.
13:10Sim, o frio intenso da noite.
13:12Um frio que parecia penetrar os ossos, indiferente às camadas de roupa que eu vestia.
13:17A boca ficou seca.
13:19Tentei respirar fundo.
13:20Mas o ar parecia rarefeito, pesado demais, para os meus pulmões.
13:25Eu estava em uma encruzilhada.
13:27Minha lógica.
13:28Minha armadura cética estava sob ataque.
13:30O que era real.
13:31O que era ilusão.
13:32E o que diabos estava acontecendo nesta estrada amaldiçoada.
13:36A voz de Joaquim voltou à minha mente.
13:38Ninguém que entrou nela depois do anoitecer voltou o mesmo.
13:42O desaparecimento do Opala abriu um abismo em minha lógica.
13:47E com ele, uma série de perguntas que reverberavam na minha mente.
13:50Cada uma mais inquietante que a anterior.
13:53Cada uma um prego martelado na minha armadura de ceticismo.
13:57O que é essa presença?
13:59Não era apenas a neblina.
14:00Ou o vento.
14:01As vozes.
14:02A sombra no marco de pedra.
14:04O Opala desaparecido.
14:06Havia algo.
14:07Aqui.
14:08Algo que não se encaixava em nenhuma explicação mundana.
14:11Seria um espírito.
14:13Um demônio.
14:13Uma entidade ligada à própria terra.
14:16O que queria?
14:172.
14:17Qual o destino das almas perdidas?
14:20As lendas falavam em desaparecimentos.
14:22O que acontecia com as pessoas que entravam nesta estrada e não saiam?
14:27Simplesmente morriam?
14:28Ou havia algo mais sinistro?
14:29E o que significavam os lamentos nos sussurros?
14:32Seriam os ecos desses que se perderam?
14:353.
14:35Por que a estrada está me manipulando?
14:38O sumiço do Opala.
14:39A mudança aparente do caminho.
14:41Não era aleatório.
14:43Parecia direcionado.
14:44Como se a estrada tivesse uma intenção.
14:47Um propósito macabro para me desorientar.
14:49Me isolar.
14:50Qual era esse propósito?
14:52Por que eu?
14:534.
14:53Minha ausência de medo é real ou uma fachada?
14:56Eu sempre acreditei que não sentia medo.
14:58Mas agora, com a perda da lógica, com a incapacidade de explicar o inexplicável, uma fissura começou
15:04a aparecer.
15:05Não era terror não ainda, mas uma ansiedade crescente.
15:09Uma sensação de impotência que era quase tão perturbadora quanto o próprio medo.
15:15Seria a estrada capaz de quebrar essa barreira?
15:17Seria ela a prova final?
15:19Essas perguntas giravam em minha mente como um turbilhão.
15:23Minha mente, acostumada a problemas concretos.
15:26Um assaltante com uma faca.
15:28Um carro quebrado que precisa de um conserto.
15:30Agora se via diante de um inimigo intangível, insidioso.
15:34Não havia como lutar contra uma neblina.
15:37Contra sussurros.
15:38Contra uma estrada que se recusava a ser o que era.
15:41A única coisa certa era que eu estava no centro de um mistério que desafiava tudo
15:46o que eu conhecia.
15:48E as respostas, se existissem, prometiam ser aterrorizantes.
15:52A decisão de continuar em frente foi automática.
15:55Virar para trás era inútil.
15:57O Opala havia desaparecido.
15:59Parar e esperar significava entregar-me à solidão e ao frio.
16:02Seguir em frente era a única opção.
16:05Mesmo que não soubesse para onde estava indo.
16:07A lanterna, minha única companheira, parecia mais fraca a cada passo.
16:12Seu círculo de luz um esforço patético contra a escuridão crescente.
16:17A neblina se transformou de um véu denso em uma parede impenetrável.
16:21Eu podia sentir as gotículas de água em meu rosto, em meus cabelos, nas minhas roupas.
16:27Cada passo era um ato de fé, pois o asfalto sob meus pés desaparecia na bruma.
16:32O silêncio antes opressor, agora era ocasionalmente interrompido por novos sons.
16:37Não os sussurros do início, mas algo mais íntimo.
16:40Um farfalhar de folhas, muito perto quando não havia vento.
16:44Um estalo de galho, como se algo pesado tivesse pisado.
16:48Bem ao meu lado.
16:49Eu parava, escutava, varria a lanterna.
16:52Nada.
16:52Apenas a neblina e os contornos fantasmagóricos das árvores.
16:56Minha própria respiração, que antes eu nem notava, agora parecia alta, pesada.
17:02O batimento do meu coração, amplificado pelo silêncio, suava como um tambor constante,
17:08ressoando em meus ouvidos.
17:10Comecei a focar nele, quase em uma meditação forçada, para abafar os outros sons, para ancorar-me
17:16na realidade.
17:17Mas até mesmo meu coração parecia conspirar contra mim.
17:20Por vezes o ritmo parecia acelerar sem razão, uma taquicardia fantasma que me deixava ofegante.
17:27Outras vezes, ele parecia pular uma batida, deixando um vácuo gelado no meu peito, um
17:32lembrete vívido da fragilidade da vida.
17:35São truques da mente, eu me repetia, a voz quase um sussurro na imensidão, o isolamento,
17:41a escuridão, o corpo se adapta ou se engana.
17:44Mas a certeza nas minhas próprias palavras diminuía a cada repetição.
17:49Após o que pareceu uma eternidade, meus olhos, já cansados de lutar contra a brancura,
17:55captaram um brilho fraco na distância, uma luz, um ponto amarelo alaranjado que cintilava
18:01na neblina, como um farol de esperança.
18:04Meus músculos tensos relaxaram minimamente.
18:07Uma casa, talvez?
18:08Uma cabana de caça?
18:09Não importava.
18:11Significava pessoas, calor, talvez um telefone.
18:14Significava o fim daquela caminhada fantasmagórica.
18:17Um novo fôlego surgiu em mim.
18:19Acelerei o passo.
18:21O corpo respondendo a promessa de salvação.
18:23A luz ficou mais forte, mais definida.
18:26Era, sem dúvida, uma janela, talvez iluminada por uma vela ou um lampião.
18:31Eu quase pude sentir o calor.
18:32O cheiro de fumaça de lenha.
18:34A voz humana.
18:35A imagem de um refúgio seguro dançava diante dos meus olhos.
18:40Uma miragem concreta no deserto de névoa corre, tropeçando nas pedras soltas, ignorando
18:46a dor nos joelhos.
18:47Aguente firme, João.
18:48Eu pensei.
18:49Você está quase lá.
18:51A luz, contudo, parecia recuar à medida que eu avançava.
18:54Uma ilusão de ótica?
18:55Não, ela estava mais forte.
18:57Mas a distância parecia não diminuir.
19:00Era como se a casa estivesse sempre um passo à frente, zombando de mim.
19:05Continuei, ofegante, meus pulmões queimando.
19:07Finalmente, a luz se estabilizou.
19:09Eu estava perto.
19:11A névoa se abriu ligeiramente, revelando a silhueta de uma construção.
19:15Não era uma casa.
19:16Era uma ruína.
19:17Uma carcaça decadente de madeira podre e telhas quebradas.
19:21O telhado colapsado em um dos lados.
19:24As janelas vazias como órbitas de um crânio.
19:27E a luz?
19:27A luz não vinha de dentro.
19:29Não havia velas, nem lampiões.
19:31A luz, um brilho avermelhado e pulsante, parecia emanar da própria ruína.
19:35Como se a madeira apodrecida estivesse incandescentemente viva.
19:39É, então.
19:40Eu ouvi.
19:40Não os lamentos.
19:41Não os sussurros.
19:42Mas um som mais específico, mais terrível.
19:45O choro de uma criança.
19:46Um choro agudo, intermitente.
19:48Vindo de dentro daquela estrutura condenada.
19:51Um choro que de repente se transformou em uma risada.
19:55Mas a infantil, mais fria, perversa, que ecoou no ar gelado e se contorceu em um grito.
20:01Não um grito de dor, mas um grito de pânico absoluto, cortado abruptamente.
20:05Eu parei, a respiração presa na garganta.
20:08Meu estômago se revirou.
20:10Uma sensação que não experimentava desde que vi um homem ser esfaqueado na minha frente
20:16anos atrás.
20:17Aquela luz, aquele som, não era uma promessa de salvação.
20:21Era uma armadilha, uma isca.
20:23A estrada estava brincando comigo.
20:26E a brincadeira não tinha graça alguma.
20:28O choro e a risada desapareceram tão rápido quanto surgiram.
20:33Deixando um silêncio ainda mais pesado.
20:36Um silêncio carregado com a memória do que eu acabara de ouvir.
20:39Meus olhos varriam as janelas escuras da ruína.
20:42Eu me forcei a ir até lá a despeito do que vi e ouvi.
20:45Não por coragem, mas por uma teimosia quase irracional.
20:49Uma recusa em aceitar que estava sendo ludibriado.
20:52Ao me aproximar, a luz pulsante desapareceu, deixando a casa em trevas absolutas.
20:58A madeira rangia com uma brisa que eu não sentia.
21:01E o cheiro de podridão era esmagador.
21:03Olhei para dentro de uma das janelas quebradas.
21:06O feixe da lanterna tremendo ligeiramente.
21:09Poeira.
21:09Teias de aranha.
21:11Entulho.
21:11Nenhum sinal de vida, nenhum vestígio do que eu havia ouvido.
21:14Mas então, na parede oposta, na penumbra, eu vi.
21:17Uma figura.
21:18Uma mulher.
21:19Ela estava sentada no chão.
21:21Os joelhos abraçados.
21:22O rosto enterrado neles.
21:24Seus cabelos eram escuros, emaranhados.
21:26A luz da lanterna revelou um vestido pálido, esfarrapado.
21:30Não parecia um fantasma.
21:32Parecia real, corpórea.
21:33Senhora?
21:34Minha voz saiu um pouco mais rouca do que o normal.
21:37Está tudo bem?
21:38Lentamente.
21:39Ela ergueu a cabeça.
21:40Seus olhos eram fundos vazios.
21:43Seu rosto, pálido e cadavérico, estava coberto de poeiras e fuligem.
21:47Não era apenas uma mulher.
21:49Era a minha mãe.
21:50Minha mãe, que morreu há 10 anos de uma doença lenta e cruel.
21:54Sua aparência era exatamente como eu a vi pela última vez, mas mil vezes mais decrépita,
22:00mais assustadora.
22:01Um sorriso torto e maligno se formou em seus lábios rachados, revelando dentes escuros.
22:06Meu filho?
22:07Ela sussurrou, a voz arranhada.
22:10Por que você me deixou aqui?
22:11Um choque percorreu meu corpo.
22:13Não o choque de ver um fantasma.
22:15Eu ainda me recusava a crer nisso.
22:17Mas o choque de uma imagem tão vívida, tão pessoal.
22:20Uma dor antiga.
22:21Um arrependimento que eu havia enterrado há muito tempo.
22:24Ressurgiu com força.
22:26Eu a havia visitado pouco nos últimos anos de sua vida.
22:30Sempre ocupado.
22:32Sempre fugindo.
22:33Ela havia morrido sentindo-se abandonada.
22:36Eu sabia.
22:36E agora, essa culpa, essa ferida, era arrancada à força e jogada na minha cara por uma ilusão
22:43cruel.
22:43Você não é minha mãe, eu disse minha voz mais firme agora, mas tremendo por dentro.
22:48Isso é um truque.
22:49A figura se levantou lentamente, seus movimentos rígidos e antinaturais.
22:55Seus olhos fixos em mim, os lábios se contorcendo em um sorriso ainda mais largo.
23:00Ela estendeu uma mão ossuda em minha direção.
23:03Você fugiu dela, João.
23:05Como fugiu de tudo.
23:07Como fugiu do medo.
23:08Ela deu um passo à frente.
23:10Depois outro.
23:11Eu recuei.
23:12Minha mente tentando desesperadamente encontrar uma explicação.
23:16Uma pessoa real, talvez?
23:17Mas como?
23:18E a semelhança com minha mãe era demais.
23:21Ela continuou a avançar, seus passos arrastados, um cheiro de sepulcro emanando dela.
23:28Ela não era a única, a voz de minha mãe disse.
23:31E de repente, outras vozes se juntaram a ela.
23:33Vindas da escuridão por trás da figura.
23:36Você deixou todos para trás.
23:38João.
23:39Seu pai.
23:40Seus amigos.
23:41Até a si mesmo.
23:42Novas figuras começaram a emergir das sombras da casa.
23:45Rostos familiares distorcidos pelo sofrimento e pela morte.
23:49Meu pai com os olhos vidrados.
23:51Uma amiga da adolescência que se foi jovem demais, seu corpo esquelético.
23:55Uma sequência de pessoas que haviam passado pela minha vida.
23:59E que eu, em minha jornada errante, havia deixado para trás.
24:03Ou que a vida me havia tirado.
24:05Eles se formavam em um semicírculo.
24:07Todos olhando para mim com aqueles olhos vazios acusadores.
24:11Eu recuei mais.
24:12Até sentir as costas baterem na parede de madeira podre da ruína.
24:17A lanterna, que eu não percebera que estava apontando para o chão, tremia em minha mão.
24:22O suor frio escorria pela minha testa.
24:25Não são reais.
24:26Eu murmurei repetindo o mantra, mas ele soava oco, sem convicção.
24:31A dor da culpa, a lembrança das perdas, era real demais.
24:35A estrada não estava apenas me mostrando coisas assustadoras.
24:39Estava me forçando a reviver meus maiores fracassos.
24:43Minhas maiores dores.
24:45Estava me atacando onde eu era mais vulnerável.
24:48Por trás da minha fachada, de invencibilidade.
24:51Eu fechei os olhos com força, tentando espantar as visões.
24:55Quando os abri, as figuras haviam desaparecido.
24:58A ruína estava vazia e escura, novamente.
25:01Apenas o cheiro de podridão e o silêncio pesado.
25:04Minha respiração estava irregular.
25:06Meu coração batendo forte no peito.
25:09Eu estava exausto, mental e fisicamente afastei-me da ruína cambaleante, sentindo uma tontura.
25:14Eu precisava sair dali.
25:16Daquela estrada.
25:17Daquele pesadelo que se recusava a ser apenas um pesadelo.
25:21Continuei a caminhar meus passos tzados, minha mente um turbilhão de imagens e vozes.
25:26As faces dos meus mortos se sobrepunham à neblina, suas acusações ecoando em meus ouvidos.
25:32Meu pé chutou algo no asfalto.
25:35Olhei para baixo.
25:36No fraco círculo de luz da lanterna, jazia um objeto.
25:39Uma boneca.
25:40Não uma boneca nova, de plástico brilhante.
25:44Mas uma boneca de pano, velha e desgastada.
25:46Seus olhos botões costurados me encaravam.
25:49Um dos braços estava rasgado, expondo o enchimento de algodão.
25:53Era uma boneca infantil, dessas que são abraçadas por anos.
25:57Até se desfazerem, não havia nada particularmente assustador nela.
26:01Mas a sua presença ali, naquela estrada desolada, era de uma melancolia cortante.
26:06Não era uma ilusão.
26:08Não era um fantasma.
26:10Era um objeto real, palpável.
26:12Um brinquedo perdido.
26:13Pertencer a alguém, uma criança que talvez também havia se perdido nesta estrada.
26:19Ajoelhei-me, o corpo protestando.
26:21Peguei a boneca.
26:22O tecido era macio, frio e úmido.
26:25Pensei na criança que a havia deixado cair.
26:27Uma criança que talvez tivesse chorado, gritado, como eu havia ouvido na ruína.
26:33Uma criança que provavelmente nunca mais foi encontrada.
26:36De repente, a escala do terror mudou para mim.
26:39Não era mais sobre mim, sobre meus medos pessoais ou minhas culpas.
26:43Era sobre eles, sobre todas as almas perdidas que haviam sucumbido a este lugar.
26:49A boneca era um elo, um testemunho mudo do sofrimento alheio.
26:53A boneca, tão real e abandonada, me lembrou que as lendas não eram apenas histórias.
26:58E que as vítimas não eram apenas personagens distantes em um conto de terror.
27:03Eram pessoas.
27:05Pessoas que sentiram medo, terror, desespero.
27:08E que, como eu, um dia se viram perdidas nesta mesma estrada.
27:12Uma pontada de empatia, a muito adormecida, despertou em meu peito.
27:16E com ela veio a compreensão mais sombria.
27:19Se eu era capaz de sentir essa empatia, essa conexão com a dor alheia, então eu era mortal.
27:25Eu era vulnerável.
27:26Eu era como eles.
27:27E se eu era como eles, eu poderia ter o mesmo fim.
27:31A boneca em minhas mãos, antes um mero objeto, tornou-se um presságio.
27:35A boneca caiu de minhas mãos enquanto eu me levantava.
27:39Meus olhos se desviaram para as árvores.
27:41Elas já não eram apenas contornos fantasmagóricos.
27:45Os galhos retorcidos pareciam contorcer-se e estender-se, como garras famintas na minha direção.
27:51As cascas, úmidas de musgo e orvalho, pareciam faces pálidas e distorcidas.
27:57Seus nós como olhos vazios que me observavam.
28:00O chão sob meus pés, antes um asfalto rachado, começou a mudar.
28:04Tornou-se irregular, pedregoso, como se a própria estrada estivesse se desfazendo.
28:09Se dissolvendo em um pântano de terra e raízes expostas.
28:13Dei um passo e escorreguei, caindo de joelhos.
28:16Uma dor aguda perfurou minha patela.
28:18Ao tentar me levantar, senti algo roçar meu cabelo.
28:22Uma brisa?
28:23Não, era muito concentrado, muito frio.
28:25Uma sensação de dedos gélidos e finos, me acariciando a nuca descendo pela espinha.
28:31Eu me encolhi, levantando-me em um salto, sacudindo a cabeça para me livrar da sensação.
28:36Não havia nada, apenas o ar gelado e a neblina que parecia dançar ao meu redor,
28:42como se zombasse da minha agitação.
28:44A lanterna piscou mais uma vez e se apagou por completo, mergulhando-me em trevas absolutas.
28:50Meu coração deu um salto, um baque surdo no peito.
28:54Não, não, não, eu murmurei, batendo na lanterna, sacudindo-a desesperadamente.
28:59Nada.
29:00A pilha, ou o circuito, havia finalmente cedido.
29:03Agora eu estava cego na escuridão, minha visão se tornou inútil.
29:07Meus outros sentidos foram amplificados, e com eles, o terror.
29:12Eu ouvia os sussurros de novo, não os lamentos, mas vozes individuais, chamando meu nome agora.
29:17João, sem medo, vem.
29:19Elas vinham de tão perto, que eu podia sentir o sopro gelado em meu ouvido,
29:24embora não houvesse ninguém ali.
29:26Eu cambaleei, tentando andar em linha reta, mas a estrada parecia inclinar-se, virar.
29:33Senti como se estivesse caminhando em um funil, os lados se fechando ao meu redor.
29:37A neblina não era mais branca.
29:39Era cinza, depois preta, tornando a escuridão ainda mais densa, mais palpável.
29:44Minha mão estendeu-se, buscando algo para me apoiar, e tocou algo frio e úmido.
29:49Era uma parede de pedra.
29:51Não havia nenhuma parede na estrada.
29:53Eu recuei, minha pele formigando.
29:55Onde eu estava?
29:56A estrada havia sumido?
29:58Eu havia saído dela e entrado em algum lugar diferente?
30:02Ouvi um gotejar.
30:04Uma, duas, três gotas de água, ou algo mais denso, caindo na escuridão.
30:08O cheiro de ozônio e metal velho se intensificou.
30:11E então senti novamente.
30:13Uma mão.
30:14Desta vez, não apenas um roçar.
30:16Uma mão fria, pesada, com dedos finos e rígidos, agarrou meu ombro.
30:21E apertou.
30:22Um grito se formou em minha garganta, mas foi abafado por uma voz.
30:26Uma voz que não era um sussurro, nem um lamento, mas um estrondo grave e gutural, que ressoou
30:32diretamente em minha cabeça.
30:34Você tem em meus ouvidos.
30:36A força me empurrou para a frente.
30:38Eu caí no chão úmido e gelado.
30:40A dor no joelho reapareceu com fúria.
30:43E na poça escura formada pela neblina e pela chuva que agora parecia cair levemente, eu
30:48vi um reflexo.
30:49Meu rosto.
30:50Mas não era o meu rosto impassível, cético.
30:52Era um rosto contorcido pelo terror, olhos esbugalhados, boca aberta em um grito silencioso.
30:58As lágrimas escorriam por ele e as lágrimas eram reais.
31:03Aquele não era o rosto de João Sem Medo.
31:05Aquele era o rosto do puro terror.
31:07O reflexo na poça me encarava.
31:09Um espelho horrível da verdade que eu havia negado por toda a minha vida.
31:14O grito silencioso no rosto refletido parecia ser o meu próprio grito, abafado e sufocado
31:19por anos de orgulho e repressão.
31:21Aquele rosto, desfigurado pelo pavor, era eu, João.
31:25E naquele instante, a barragem cedeu.
31:28A máscara de João Sem Medo se estraçalhou em mil pedaços, revelando a fragilidade e a
31:33humanidade que eu havia tão diligentemente escondido.
31:37Uma onda de pânico fria e avassaladora me atingiu.
31:41Era um sentimento novo e terrivelmente familiar.
31:44Como se eu tivesse acabado de reencontrar um inimigo jurado que eu havia esquecido.
31:49Meu corpo tremeu incontrolavelmente.
31:51O coração, antes um tambor monótono, agora batia descompassdamente, como um pássaro
31:57preso tentando escapar da gaiola do meu peito.
32:00O ar ficou gelado em meus pulmões e eu comecei a ofegar, lutando por cada respiração.
32:06As vozes, que antes eram sussurros e lamento, agora se transformaram em um coro triunfante.
32:12Não eram mais lamentos de dor, mas um canto macabro, uma celebração.
32:16Elas reverberavam em minha cabeça, preenchendo cada fresta da minha mente.
32:21Sim, elas cantavam em uníssono, uma sinfonia de vozes de homens, mulheres e crianças, todas
32:27distorcidas por um júbilo sombrio.
32:29Sim, ele sente, ele é como nós.
32:31Eu levantei a cabeça da poça, o reflexo ainda gravado em minha retina.
32:36Eu podia sentir as lágrimas quentes escorrendo pelo meu rosto e o sabor salgado delas em meus
32:41lábios.
32:42Não era mais a umidade da neblina, nem o suor frio.
32:45Eram lágrimas genuínas, lágrimas de medo, lágrimas de uma verdade inescapável.
32:51Eu, eu tenho medo, minha voz saiu em um sussurro rouco, quase inaudível.
32:56Mas pra mim, pra estrada, para as vozes, era um grito de guerra.
33:00Uma confissão, uma rendição.
33:03As palavras, uma vez proferidas, libertaram a represa do terror.
33:06O mundo girou e as árvores, a neblina, a escuridão, tudo pareceu se intensificar.
33:12Ganhar vida.
33:13A mão que havia me tocado no ombro não me largou.
33:16Agora, ela apertava com mais força.
33:18E eu podia sentir seus dedos longos e frios através do tecido do meu casaco.
33:23E então, senti outra mão e outra e mais outra.
33:27Múltiplas mãos invisíveis na escuridão.
33:30Tocando meu rosto, meu cabelo, meus braços.
33:33Puxando meu corpo para baixo, para o chão úmido e fétido.
33:36Eu podia sentir o hálito gélido em meu pescoço.
33:39O cheiro de terra molhada e decomposição.
33:42O coro de vozes se tornou ainda mais ensurdecedor.
33:45E desta vez, as palavras eram claras, diretas, penetrantes.
33:50Agora você é um de nós, João.
33:52Agora você é verdadeiramente uma alma perdida.
33:56Eu tentei gritar, mas nenhum som saiu.
33:58Eu estava paralisado pelo terror.
34:01Pelo toque das mãos invisíveis.
34:03Pelo canto das vozes.
34:04E na escuridão absoluta, a minha mente, agora despojada de qualquer escudo, conjurou a imagem mais aterrorizante de todas.
34:12Eu, João.
34:14Não mais o homem que desafiava o mundo.
34:16Mas uma figura esquelética, com olhos vazios, como as figuras na ruína.
34:20Rastejando pela beira da estrada, meu próprio lamento juntando-se ao coro dos perdidos.
34:26Eu me via, um fantasma.
34:28Uma nova adição à coleção da estrada das almas perdidas.
34:31Sem rumo.
34:32Sem esperança.
34:33Para toda a eternidade o medo me consumia.
34:36Não era mais uma emoção.
34:38Mas uma entidade faminta roendo minhas entranhas.
34:41As mãos me puxavam para baixo.
34:43E eu sentia a terra úmida e fria contra meu rosto.
34:47Eu estava sendo arrastado, lentamente, para as profundezas da estrada.
34:52Para o abismo que ela escondia.
34:54Os gritos das vozes eram tão altos que pensei que meus tímpanos iriam estourar.
34:59Um coro infernal que zombava da minha rendição.
35:03Então, algo mudou.
35:04No meio do caos sensorial, uma voz se destacou.
35:08Não uma das muitas, mas a voz.
35:10Profunda.
35:11Antiga.
35:12Ressoando com a autoridade de mil mortes.
35:14Não estava em meus ouvidos, mas em minha mente uma comunicação direta.
35:18Sem palavras.
35:19Mas com significado.
35:21Sua fé dora máscara caiu, João.
35:23Seu medo é esquisito.
35:25Uma delícia.
35:26A escuridão se tornou absoluta por um momento.
35:29Um vácuo que roubou até o ar e então um fulgor.
35:32Não a luz de uma lanterna ou de uma vela, mas uma incandescência púrpura, vibrante,
35:38que parecia vir do próprio chão, do próprio ar.
35:40A neblina se contorceu e se retorceu.
35:43Não mais branca, mas saturada de tons de cinza e vermelho, pulsando como um coração doente
35:49é então eu a vi.
35:50A entidade não era uma figura única, definida.
35:54Era a própria estrada.
35:55As árvores, os galhos retorcidos, a neblina, o chão rachado.
35:59Tudo se fundiu em uma consciência singular e malevolente.
36:03No centro do fulgor púrpura, onde antes havia apenas asfalto, abriu-se uma fenda, uma boca
36:09cavernosa que parecia levar às profundezas da terra.
36:12Dela emergiam formas sombrias, silhuetas humanoides que se dissolviam e reformavam na neblina,
36:19todas com os olhos vazios, gesticulando em minha direção.
36:22Eram as almas, as almas perdidas, presas dentro da entidade, manifestando-se como sombras
36:29fantasmagóricas, estendendo as mãos para mim um convite silencioso ou um aviso.
36:34A voz ancestral ressoou novamente, agora com a clareza de um decreto.
36:38Vocês entram aqui, João, com seus fardos e suas vidades, suas dores e seus arrependimentos.
36:45Eu me alimento disso.
36:47Eu me alimento da sua perda, da sua esperança moribunda.
36:51Mas, acima de tudo, eu me alimento do seu medo.
36:54Ela é minha força, meu néctar.
36:57A fenda pulsava e dela eu senti um puxão irresistível, uma força gravitacional que
37:02me arrastava.
37:03As mãos invisíveis se tornaram mais fortes e as silhuetas na neblina se aproximaram,
37:09seus olhares vazios, fixos em mim.
37:11Você veio aqui para provar que não tem medo.
37:14A voz trovejou uma risada gutural.
37:16Mas seu medo é o mais puro, o mais gostoso.
37:19Você agora é meu.
37:21Entregue-se.
37:22Juntei-se aos seus antepassados neste caminho eterno.
37:26Eu me debatia, meus músculos em chamas, mas era inútil.
37:30Eu estava sendo arrastado para a fenda, para as profundezas do inferno da estrada.
37:35O cheiro de decomposição era esmagador e o ar ficou ainda mais frio.
37:39As faces dos meus mortos, as figuras da ruína, agora pairavam sobre a fenda, suas bocas abrindo
37:46e fechando em um lamento sem fim.
37:48Naquele instante de desespero absoluto, algo se acendeu em mim.
37:52Não era coragem.
37:53Era uma centelha de desafio.
37:56Eu havia admitido o medo.
37:58Eu havia me rendido a ele.
37:59Mas eu não me renderia a entidade.
38:01Eu não seria uma alma perdida entre as muitas.
38:04Um lamento a mais em seu coro.
38:06Eu não entregaria meu medo para ser saboreado, para ser usado para fortalecer aquela abominação.
38:12Meus olhos se arregalaram.
38:14Eu podia sentir o calor da fenda.
38:16O vazio que chamava meu nome.
38:18No fundo do meu casaco, no bolso interno, havia algo.
38:21Um isqueiro.
38:22Um isqueiro de metal, velho, que eu carregava por hábito, para acender cigarros que eu nem fumava mais.
38:27Um objeto mundano, patético, contra uma entidade cósmica.
38:31Mas era a única coisa que eu tinha.
38:33Com um grito de fúria e desespero.
38:35Uma fúria que nascia do puro terror.
38:37Eu enfiei a mão no bolso.
38:39Minhas unhas arranharam o tecido.
38:41E com um puxão brusco, eu o tirei.
38:43O isqueiro parecia minúsculo e insignificante, em minha mão trêmula.
38:48A entidade, a estrada, as vozes, tudo pareceu fazer uma pausa, como se percebesse minha insubordinação.
38:54Não.
38:55A voz trovejou, mais forte, mais irritada.
38:58Você já está marcado.
39:00Você é nosso.
39:01Eu não conseguiria lutar contra ela.
39:03Eu não conseguiria correr.
39:05Mas eu podia negar-lhe a única coisa que ela mais desejava de mim.
39:09Meu espírito.
39:11Minha vontade.
39:11Eu não seria mais uma ferramenta para seu banquete de medo.
39:15Com um esforço final, quase impossível, eu levantei o isqueiro.
39:19Minhas mãos tremiam tanto que eu quase o deixei cair.
39:23O polegar bateu na roda de sílex.
39:25Um estalo.
39:26E uma pequena, frágil, mas teimosa chama amarela laranjada, surgiu na escuridão roxa da entidade.
39:32Não era uma arma poderosa.
39:34Não era para queimar a entidade.
39:36Era para dizer não.
39:37Era para proclamar que, mesmo em face do terror absoluto, mesmo com o medo consumindo cada fibra do meu ser,
39:45eu ainda era eu.
39:46Eu ainda podia escolher.
39:47Eu ainda podia resistir à absorção.
39:50Ao desaparecimento da minha identidade.
39:52A chama tremeluziu, e a voz da entidade rugiu, não mais escontriunfo, mas com uma fúria atávica.
39:59Seja amaldiçoado.
40:00Você nega.
40:01O que é seu?
40:02As mãos me apertaram com uma força brutal.
40:05Eu senti meus ossos rangerem.
40:07Minha pele se rasgar.
40:08A fenda se abriu ainda mais, a luz púrpura ofuscando a pequena chama do isqueiro.
40:13Senti um último puxão, avassalador, e o mundo girou em um turbilhão de luzes roxas, vermelhas e cinzas.
40:20De gritos e sussurros.
40:22De dor e desespero.
40:24Eu não sabia se a chama do isqueiro era suficiente.
40:26Se meu ato de desafio significava algo.
40:29Tudo o que eu sabia era que eu não queria ser mais um lamento na estrada das almas perdidas.
40:35Eu me recusava a ser absorvido.
40:37Abri os olhos.
40:38O som mais alto que eu ouvia era o farfalhar suave das folhas de eucalipto.
40:43O cheiro era de terra fresca e orvalho.
40:45A luz do sol, suave e dourada, filtrava-se por entre as árvores, pintando o chouchão com padrões mutáveis.
40:53Eu estava deitado na grama alta, à beira de uma estrada de terra batida, larga e poerenta,
40:59muito diferente do asfalto quebrado e úmido da estrada das almas perdidas.
41:04Meu corpo doía.
41:05Cada músculo parecia ter sido espancado.
41:08Tentei me mover, mas um gemido de dor escapou de meus lábios.
41:11Meu joelho estava inchado e roxo.
41:13A pele arranhada.
41:15Minhas mãos estavam sujas, sangrando em alguns pontos.
41:18E no meu bolso, o isqueiro frio e intacto.
41:21Levantei-me com dificuldade, mancando.
41:24Não havia neblina.
41:25Não havia árvores retorcidas.
41:27Apenas uma floresta densa e, na distância, um fio de fumaça subindo no céu azul.
41:33Havia saído da estrada amaldiçoada.
41:35Mas como?
41:36Eu não sabia.
41:37Eu não me lembrava de nada após o puxão e a luz púrpura.
41:40Eu havia sobrevivido.
41:42Mas não era mais João sem medo ou medo estava lá, em cada célula do meu corpo.
41:47Um medo frio e persistente.
41:49Uma sombra que se agarrara à minha alma.
41:51Ele vivia em cada barulho inesperado, em cada sombra dançando ao vento, em cada canto escuro.
41:57Ele havia se tornado uma parte intrínseca de mim, uma cicatriz invisível, mas profunda.
42:03Eu havia enfrentado o terror e o terror havia me moldado.
42:07Caminhei em direção à fumaça, o isqueiro pesado no meu bolso.
42:11Minha jornada havia terminado, mas a pessoa que saiu dela era outra.
42:15João sem medo havia morrido naquela estrada.
42:18Agora havia apenas João.
42:20João com medo.
42:21Um sobrevivente assombrado, condenado a carregar o fardo da sua experiência para sempre.
42:27Eu olhei para trás, para a direção de onde eu vim.
42:30Não havia nada além da floresta verdejante e o sol da manhã.
42:33A estrada das almas perdidas havia me soltado, mas nunca me libertaria verdadeiramente.
42:39É você, caro leitor.
42:40Você que ri das velhas lendas e confia na lógica do mundo civilizado.
42:45Pense bem.
42:46O que você faria se suas certezas desmoronassem?
42:49Se sua coragem fosse testada ao limite da sua própria sanidade?
42:54Você tem um isqueiro em seu bolso ou alguma outra centelha de sua própria humanidade para
42:58usar quando o abismo te chamar?
43:00E mais importante, qual é a estrada menos viajada que te atrai?
43:04Aquela que você, em sua ousadia, escolheria um dia para explorar?
43:08Lembre-se de João.
43:10E pense duas vezes.
43:11Antes que você também se torne uma alma perdida.
Comentários