00:00A repórter olhou pra mim e disse assim, no meio da entrevista,
00:04uma repórter super fofa, parecia minha prima, minha irmã,
00:07ela olhou pra mim e disse assim, então todo mundo disse que você,
00:10eu achei que ela fosse dizer, todo mundo disse que você é um bom colega,
00:13que você decora texto, que você não dá problema em cena,
00:15que você tá sempre presente, eu achei que ela fosse dizer isso, inocente.
00:18Na verdade ela disse, todo mundo disse que você é gay,
00:20que você não fala sobre o assunto, por quê?
00:22Eu olhei pra ela e disse assim, porque eu não quero ser,
00:26eu lembro essa resposta até hoje, porque eu não quero ser
00:30o cara que atravessa a ponte com uma bandeira na mão
00:33e leva um tiro nas costas e morre por estar carregando essa bandeira.
00:38Eu fui muito claro com ela e eu ainda disse pra ela,
00:42eu não tenho problema com isso, ela olhou pra mim,
00:45deu um sorrisinho de canfo de boca e disse, imagina se tivesse.
00:49Hoje eu quero ser essa pessoa, eu não sou o único que tô atravessando
00:52a ponte com a bandeira na mão, mas eu tô pronto pra levar o tiro
00:56nas costas e continuo em pé.
00:57Bem pouco tempo atrás, esses mesmos jornalistas
01:00que te obrigavam a fazer outing, hoje levantam a pauta todas.
01:04A pauta da mulher, do negro, da trans, hoje falam tudo isso.
01:07Bem pouco tempo atrás, elas queriam fazer o teu outing.
01:10Mas eu acho que a humanidade andou.
01:12Eu fui pra minha terra, Santa Maria, bem pouco tempo atrás,
01:15e aí eu fui dar uma entrevista na rádio.
01:19E aí eu tava nessa rádio e o cara que era comunicador da rádio
01:24chegou pra mim e disse, isso é pra verdade que aqui é meu marido.
01:27Eu achei que ele fez isso de uma maneira espontânea, natural, como deve ser.
01:31E eu pensei, caramba, eu saí dessa cidade na década de 80,
01:35na minha década isso seria imaginável.
01:37Será que eu ajudei pra que isso fosse naturalizado dessa maneira?
01:40Acho que sim.
01:42Não tô querendo me assar.
01:44Não é isso.
01:45Eu só tô falando isso pra você
01:47porque eu não tive exemplos antes de mim de pessoas como eu.
01:51Existiu o Elton John.
01:53John, que morava em Nortes.
01:55E tem feito isso.
01:56Mas eu não tive exemplos como eu,
01:58de pessoas que falavam sobre a sua orientação sexual
01:59de uma maneira tão naturalizada e tão tranquila e tão concreta
02:02sem que isso fosse tabu.
02:04Falando sobre a questão sexual, falando sobre a questão
02:08afetiva, falando sobre a questão de filho.
02:09Eu não tive essa pessoa na minha vida.
02:11Então, se eu pude me tornar representativo dessa pessoa,
02:18que era uma das coisas que eu queria muito
02:19quando eu resolvi falar sobre o assunto,
02:21se eu puder trazer representatividade pra minha comunidade
02:24que é invisibilizada durante tanto tempo
02:25e que continua sendo,
02:27vamos lá, eu aceito essa bandeira.
02:29Eu carrego essa bandeira.
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