00:00O assassino da minha amiga Clarissa foi condenada a 31 anos de prisão, menos que o número de vezes que
00:06a esfaqueceu foram 34.
00:08E aí, ao confessar, ele contou como tudo aconteceu, disse o seguinte, que foram à academia, almoçaram,
00:14e que ela o chamou pra conversar porque estava preocupada com a vida profissional dele,
00:17porque ele estava faltando muito ao trabalho, e ela queria saber o que é que ele queria da vida, etc.
00:22E aí começaram a fazer ou a enviar currículos, e em um determinado momento brigaram.
00:27Aí ele disse que foi até a cozinha, viu a faca, e fez o que fez.
00:31Depois ele ainda disse assim, Clarissa era uma menina muito boa, eu espero que ela esteja ao lado do pai.
00:38Aí perguntaram, era um relacionamento tóxico?
00:40Aí ele disse, não, só com palavras.
00:44E aí, além da raiva, do ódio, da angústia que eu senti, essa frase com aqui, ó, é coando na
00:48minha cabeça, o início de tudo.
00:50A palavra, exatamente, aquela que desacredita, que controla, que diminui, mas também aquelas sutis.
00:57Mascaradas de liberdade de expressão, que vão, ó, suavemente legitimando a misoginia, o ódio às mulheres.
01:06E aí, pouco a pouco, a vida e os direitos das mulheres vão sendo banalizados, como foi com a vida
01:12de Clarissa.
01:13E isso não foi uma fatalidade, porque acontece todos os dias.
01:17Isso é uma consequência de uma sociedade que, muitas vezes, autoriza, relativiza e normaliza esse ódio contra as mulheres.
01:26O caso de Clarissa acabou, mas a cada palavra misógina, outros começam.
01:31E não basta condenar quem está morrendo e nem educar quem está morrendo.
01:36É preciso não tolerar tudo aquilo que ensina, justifica e alimenta essa violência,
01:41antes que ela encontre as mãos do próximo assalto.
01:45E aí, muito obrigado!
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