00:00Agora quero chamar a sua atenção para essa denúncia grave de trabalho análogo à escravidão em Cariacica.
00:07Operários contratados para a construção de um residencial financiado pelo poder público
00:14relatam problemas como fome e más condições de moradia.
00:19Muitos vieram de outros estados para trabalhar.
00:22Tem gente até do Paraguai.
00:25Todo mundo veio para cá com a promessa de trabalho digno, bom salário, mas o que, segundo eles, encontraram foi
00:33bem diferente.
00:34Vamos conversar agora com a Júlia Cássia, que está ao vivo e fez a reportagem dessa matéria.
00:40Boa tarde para você, Júlia.
00:44Ei, Jorge, muito boa tarde para você, para quem acompanha a gente.
00:48Uma situação crítica que a gente encontrou nesse local, nesse local de obras, né?
00:53E nos dois alojamentos, onde 33 trabalhadores foram contratados para poder trabalhar numa obra pública.
01:01Uma obra que tem financiamento tanto do governo federal, quanto estadual, quanto municipal.
01:06Quando chegamos lá, a situação que a gente encontrou foi...
01:09Os 33 trabalhadores desse montante, nem todos estão no local.
01:13Alguns conseguiram voltar para casa, mas a maior parte não, justamente porque eles alegam que não receberam a quantia que
01:21foi prometida
01:22desde a segunda quinzena de junho, quando eles vieram para cá.
01:26São trabalhadores, além de capixabas, também de vários estados, como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pará,
01:32e também trabalhadores estrangeiros da Venezuela e do Paraguai, eles afirmam que foram contactados de maneira informal
01:41por uma pessoa que se passava como um representante da empresa, da construtora dessa obra de prédios públicos.
01:49Depois de serem contactados de forma informal, tanto por grupos de trabalhadores,
01:54quanto por um contato feito pela rede social ao Paraguai, por exemplo,
01:59Eles embarcaram, o Paraguai conta que vendeu a moto, pagou mais de mil reais de passagem de avião para chegar
02:05aqui no Brasil,
02:07com essa promessa de que o retorno dessas diárias e do fim dessa construção,
02:12ainda mais se tratando de uma obra pública, seria um retorno vantajoso.
02:17Mas o que eles afirmam é que até hoje não receberam dinheiro algum e, por isso,
02:22a maior parte deles não tem como voltar para casa e, pior,
02:26Eles alegam que estão passando fome, estão passando necessidades básicas,
02:32porque não tem nem o dinheiro da alimentação diária.
02:36Os alojamentos também se encontram em situação crítica,
02:40muitos deles não têm gás de cozinha, na verdade, nenhum dos dois tem gás de cozinha em um.
02:47Eles cozinham o alimento no fogão à lenha, precisam buscar a lenha, preparar esse alimento,
02:52quando conseguem comprar, e em outro alojamento a gente encontrou uma cena ainda mais crítica,
02:58que é o improviso de um fogão, de um fogo, na verdade, através da lata,
03:04uma latinha de alumínio, uma latinha de cerveja,
03:07que um dos trabalhadores cortou e lá ele colocava fogo com álcool para conseguir cozinhar miojo.
03:15Esse alimento que esses trabalhadores estão comendo para poder trabalhar na construção civil,
03:21nesse prédio que é financiado com recurso público.
03:26Além disso, dois menores de idade, de 17 anos, também foram contratados para trabalhar nessa obra,
03:33então a gente vê aí situação de trabalho infantil e também análoga à escravidão.
03:39Mas, Jorge, a gente foi de perto, ouviu o depoimento desses trabalhadores,
03:45eu, Cristiano Mauri e também o Jax, a gente vai mostrar agora a reportagem completa
03:50e no retorno a gente volta trazendo qual foi o posicionamento tanto da construtora
03:55quanto da prefeitura de Cariacica. A gente já volta então.
03:59Os trabalhadores mostraram as condições dos dois alojamentos que estão instalados.
04:04Além da lotação, a denúncia é que eles não têm condições mínimas para se manterem no local.
04:10A gente está aqui em um dos alojamentos, são dois ao todo, né?
04:13Aqui ficavam quantos trabalhadores antes de parte deles irem embora?
04:1716, às vezes 18, às vezes 13, agora tem 9, porque a família conseguiu levar para casa,
04:25que são as pessoas que moram mais próximas.
04:28E tinha capacidade para 16 pessoas aqui?
04:30Só você olhar que não tem, não tem capacidade nem para 10 pessoas, nem para as 9 que estão aí,
04:36tem.
04:36Dois dormem no sofá, dois dormem no chão e não tem capacidade, não tem isso.
04:41A gente não tem nada, a gente está cozinhando num fogão de lenha.
04:44A situação que a gente se encontra hoje, sem comida, né?
04:48O pessoal deixa a gente sem comida, tinha 4 pessoas também que ficaram 4 dias com fome.
04:52Eu consegui um dinheiro emprestado para pagar o almoço deles lá no outro restaurante, né?
04:56Um restaurante que, graças a Deus, o pessoal serviu bem a gente.
05:00Nosso alojamento lá não tem uma geladeira, não tem um fogão, tem nada.
05:04A única coisa que nós fizemos é botar dois tijolos, uma latinha cortada com álcool para estar cozinhando um miojo
05:09para a gente conseguir chegar e receber nosso dinheiro para ir para casa.
05:13Cerca de 33 trabalhadores de estados como Minas Gerais, Pará, Rio de Janeiro, Bahia,
05:19além de capixabas, foram contratados para trabalhar na obra.
05:22Eles afirmam que ainda não receberam os pagamentos negociados com o representante da empresa.
05:28Quatro estrangeiros também estão no grupo, como Simon, que é do Paraguai.
05:33Ele conta que foi contactado por uma rede social por um homem que se passou como encarregado da obra.
05:39Vendeu a moto para pagar a passagem até o Brasil na promessa de receber o dinheiro de volta
05:44e também a diária combinada, o que afirma que não aconteceu.
05:48Eu confiei, porque falaram que trabalha para o governo, aí eu vendei minha motinha, eu paguei minha passagem.
05:55Dois dias para chegar aqui da cidade do Leste, passei a fronteira do Iguaçu,
06:00depois do Iguaçu passei para São Paulo e de São Paulo vim para Vitória, rodovira de Vitória,
06:05e de Vitória vim para cá.
06:07Paguei todas minhas passagens, mais de mil e poucos reais.
06:11Paguei biático e muita coisa.
06:13E sofri no caminho, porque não tinha para comer, a comida era cara.
06:16Aí eu vim aqui chegar, trabalhei com ele aqui e aconteceu isso aqui comigo.
06:22A obra que fica em Vila Merlo, Cariacica, virou alvo de fiscalização do Ministério do Trabalho na manhã desta quarta
06:28-feira.
06:29A placa que a identifica foi coberta em parte com um saco plástico.
06:33Se trata do residencial Vista da Serra 1, no valor de 38 milhões e 500 mil reais.
06:40É financiado pelo fundo do Minha Casa Minha Vida, pelos governos estadual e federal, através da Caixa Econômica,
06:47e pela Master Construtora, empresa vencedora da licitação.
06:51A construção de 250 apartamentos em prédios populares teve início em setembro de 2025
06:58e tem previsão de conclusão em março do ano que vem.
07:01A denúncia também foi acompanhada pelo presidente da Federação dos Trabalhadores da Construção Civil,
07:07que listou a série de irregularidades encontradas.
07:11Nós temos meninos menores de idade trabalhando, nós tínhamos quatro trabalhadores estrangeiros,
07:18quatro trabalhadores estrangeiros.
07:19As pessoas não têm cama, não existe higienização de absolutamente nada.
07:24A senhorinha ali que fazia comida para o povo deixou de receber e cancelou uma semana o povo sem comer.
07:29Condição aqui totalmente desumana.
07:31É trabalho análogo à escravidão que está sendo feito aqui e pior, numa obra pública.
07:38Pois é, a gente traz agora o posicionamento da Master Construtora,
07:42que venceu a solicitação dessa obra pública.
07:45Ela informou por meio de nota que a pessoa que fez contato com os trabalhadores
07:49não é representante da empresa e sequer integra o quadro de colaboradores.
07:54A construtora ainda afirmou que assim que foi informada da situação na terça-feira,
07:58a prioridade tem sido assegurar que os trabalhadores recebam assistência
08:02e também que a situação seja solucionada da forma mais rápida possível.
08:07A construtora ainda negou que tenha abandonado os trabalhadores
08:11ou então se omitido diante da situação.
08:14A Master Construtora é uma empresa mineira, ela tem sede em Governador Valadares
08:19e a gente recebeu também uma nota da Polícia Civil dizendo que tem um inquérito aberto.
08:24Ele foi aberto desde março deste ano para apurar os fatos envolvendo essa empresa
08:30ou algum representante que tenha passado em nome da empresa
08:35e as diligências estão em andamento.
08:38Jorge, então a situação que a gente encontra é a seguinte,
08:41o sindicato também estava lá, presente, presidente da federação, como você viu.
08:45A gente está em frente ao Ministério do Trabalho e Emprego aqui no centro de Vitória
08:49porque os auditores fiscais do Ministério do Trabalho fizeram essa fiscalização hoje,
08:56computaram todas as irregularidades e agora também o que vai ser feito junto com a federação
09:01é correr atrás de todo esse dinheiro que foi prometido, inclusive do que está previsto na convenção.
09:08Uma coisa que o presidente falou é que valores negociados, como por exemplo,
09:12uma diária de R$ 150 para determinada função,
09:15não é o que é previsto na convenção dessa categoria, de acordo com as funções.
09:20Então agora também com o sindicato presente, eles vão tentar reaver todos esses valores.
09:25É claro, a gente vai seguir acompanhando o desfecho porque muitos ali, a maioria ali,
09:32estão sem R$ 1 no bolso.
09:34É o que um deles me falou, Jorge, eu não tenho dinheiro nem para ir aqui no centro de Vitória.
09:38Quanto mais voltar para o Pará, são passagens caras, muitas vezes é muito mais caro você viajar dentro do Brasil
09:45do que para fora dele e a situação, inclusive, de menores de idade trabalhando nessa construtora.
09:50E é isso que a gente também quer saber, né?
09:52Já que a construtora disse que o representante que entrou em contato com eles,
09:56esse homem que se diz representante da Master Construtora,
10:00contratando de forma informal, eles não assinaram nenhum contrato,
10:04se ele não faz parte do quadro, como esses trabalhadores estavam ali no meio dos outros trabalhadores,
10:11que inclusive a gente encontrou trabalhadores lá com o uniforme da construtora, com EPIs.
10:16Agora, esse grupo que a gente está falando, de estrangeiros e de outros estados,
10:20eles não tinham sequer equipamento de EPI.
10:23O André, um dos que conversou com a gente, ele mostrou um ferimento,
10:28um machucado que ele teve ao cair de cima de uma estrutura mais alta.
10:32A noite, ele disse que estava nove horas da noite em cima dessa laje,
10:36fazendo a construção, se machucou, estava sem nenhum EPI.
10:40Então, agora, resta saber, e a gente deixa também aqui esse espaço aberto para a construtora,
10:45para saber se não foi o representante, por que eles estavam trabalhando nessa obra,
10:50nesses alojamentos e envolvidos na construção de, mais uma vez, repito,
10:55obra pública, dinheiro nosso.
10:56E é isso que a gente quer saber e vai continuar acompanhando, né, Jorge?
11:00Continuaremos acompanhando, né, qualquer tipo de denúncia.
11:03A gente está aqui para apurar, para ouvir os dois lados.
11:06Em relação a esse último fato que você disse,
11:08estamos abertos aí à construtora para um novo posicionamento.
11:11Obrigado, Júlia.
11:12A gente está aqui.
11:13A gente está aqui.
11:14A gente está aqui.
11:16Obrigado.
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