00:09Música
00:14Em roda d'água no município de Cariacica, a batida forte dita o ritmo das bandas de Congo,
00:20que numa mistura de tradições, demonstram devoção a Nossa Senhora da Penha.
00:31Nossa história está dentro de um tambor de oco de polvo, porque isso foi feito pelos escravos, né?
00:36Então, nós somos antecedentes de escravos, então nós temos uma história dentro desse tambor.
00:42A banda de Santo Isabel acho que tem uns 100 anos, dentro do tempo do meu pai, entendeu? Acho que
00:48tem uns 100 anos.
00:52Música
01:01Meu pai morreu, não acabou, continuou e vai continuar mais ainda.
01:06Música
01:08Eu cresci dentro do Congo, né? O Congo, né?
01:11Para mim, é um modo de a gente se divertir, né? De a gente transmitir a alegria, né? Para os
01:23próximos, né?
01:24O conhecimento, hoje o Congo virou patrimônio, né?
01:29Música
01:31O que para alguns pode parecer incompatível, na comunidade é sinal de fé.
01:36A reverência padroeira do Espírito Santo é carregada de simbolismos.
01:41Mantém a cultura ancestral dos povos negros com seus tambores e cantos, sem deixar-se perder a tradição católica.
01:47É um encontro que nasceu da realidade de outros tempos.
01:50No passado, para aqueles que não podiam subir ao convento, a fé encontrou seu altar no próprio território.
02:05Música
02:06O Carnaval de Congo, né? Porque na época não se podia ir no convento, porque era difícil sair daqui no
02:12convento.
02:13Meu pai falava comigo, ah, meu filho, muita gente saiu lá do alto do Itacoara do Sul para vir pagar
02:18promessas aqui no Carnaval de Congo, né?
02:20Nesse caminhamento que a gente fazia, entendeu?
02:21É uma mistura muito bacana, é uma mistura de devoção, né?
02:26Com o que eu vejo, assim, com a área da parte negra, né?
02:31Com os africanos, que é o Congo, o Jongo, o Fulia de Reis, que tudo se encaixa no mesmo momento
02:40de uma coisa só.
02:42Nós carregamos a imagem do nosso xorapém, né?
02:44Já temos isso lá no campo.
02:46Todo é voto no xorapém.
02:48Nós temos muita cenela.
02:49É um momento que a gente vê mais a união nessas horas, a hora do tambor.
02:56Inclusive na festa do Congo, é tão contagiante que ninguém vê nem cor, nem preto, nem branco, nem azul, nem
03:02amarelo.
03:03É todo mundo numa só pegada no ritmo do tambor.
03:05Mas nem sempre foi festa por onde as bandas de Congo passavam.
03:09Foi preciso muita determinação para enfrentar o preconceito e hoje celebrar Nossa Senhora.
03:15O pessoal ficava jogando pedrada na gente, no caminhão, dando pedrada.
03:18Dizendo que era macumbeiro e jogando pedra.
03:21Aí até que chegou um dia, eu falei para o meu pai, ah, não vou ficar nesse negócio, não.
03:25Vou ficar tomando pedrada, sendo de caminhão, por causa de Congo, não vou, não.
03:28O meu pai falou, não, meu filho, você não pode abandonar o Congo, não.
03:31Um dia vai melhorar.
03:32E graças a Deus o Congo melhorou, né?
03:34Ele tomou, o pessoal teve mais reconhecimento com o Congo.
03:37Então, deu uma melhora boa.
03:42O Congo vem da manifestação dos escravos negros, né?
03:48Nos quilombos, era o único momento que eles tinham para se divertir.
03:53Era ali com os tambores, o Congo, que era muito contagiante, né?
03:58A alegria dos negros, mesmo sofrendo, mesmo num momento de tortura, de dor.
04:06E é pela resistência dos antepassados que agora as novas gerações podem seguir esse rito
04:12no dia dedicado à Nossa Senhora da Penha, que une crenças e preserva a tradição.
04:17Tem seis crianças, a nossa banda, esse ano.
04:19Eu já fiz até elifome com as crianças.
04:21Eu quero tirar foto aí.
04:22Seis crianças.
04:24Sete com o meu bisneto.
04:26É porque os mais vão acabando, aí vai ficando de novo.
04:30Vai continuar, né?
04:31Não acabar, né?
04:32Eu sou mestre de uma banda mirim, que leva o nome Banda Mirim Mestre Tagipe.
04:37E estamos aí, levando a cultura para frente.
04:40E estamos aí, levando a cultura para frente.
04:44Tchau, tchau
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