00:10Sabe o que é foda?
00:11É que hoje eu vi vários assuntos interessantíssimos
00:14que eu gostaria de abordar e de trazer aqui para os stories.
00:17E essa mensagem me cegou de tal maneira
00:19que ao invés de eu levantar e lavar a louça
00:22ou arrumar minha casa porque ela está bagunçada
00:24e editar um vídeo que eu preciso para postar amanhã,
00:27eu estou aqui gastando meu tempo e energia
00:29sobre esse assunto do assédio,
00:32que é uma coisa corriqueira na vida da mulher,
00:34que desde que eu me entendo por gente,
00:36eu não consigo lembrar a primeira vez que eu fui assediada,
00:38mas eu consigo lembrar que muito nova
00:40eu já sabia diferenciar um olhar da maldade de um homem
00:44do que qualquer outra coisa que estivesse acontecendo.
00:47Então, desde muito cedo,
00:48a gente escuta que tem que desviar de certas ruas,
00:52de não sair certo tipo de horário,
00:55de não usar certo tipo de roupa.
00:57E caralho, não tem o que a gente faça
00:59para poder escapar dessa merda.
01:01Tem muito tempo que eu nem posto nada de corpo inteiro aqui
01:04porque eu estou cansada de assédio,
01:05de eu levar a culpa por isso.
01:06E aí eu recebo piroca na minha direct sem eu pedir.
01:08Criaram um fake meu no Twitter?
01:10Até aí, beleza, acontece.
01:12Só que esse fake começou a crescer muito mais
01:14do que o meu perfil oficial.
01:15E mesmo pedindo para denunciar,
01:17mesmo tentando conversar com a conta,
01:19porque depois começaram a tentar se passar por fã-clube,
01:22não caía essa porra.
01:23E aí esse fake começou a se passar por mim
01:26e mandar mensagem para os meus fãs
01:28mandando nudes de copos femininos,
01:30como se fosse o meu.
01:31Foi um caosão,
01:32fui parar na delegacia,
01:33prestar depoimento, fazer BO.
01:35E o que resolvemos desse caralho,
01:37dessa história?
01:38Nada.
01:38Ninguém foi responsabilizado,
01:40isso foi em 2017, 2018.
01:41Até hoje eu não sei quem foi que fez essa merda.
01:44E o que me assusta é que de lá para cá
01:46a tecnologia avançou absurdamente.
01:50O trabalhar com as redes sociais
01:51se tornou uma indústria
01:53que cresceu exponencialmente
01:55e até hoje não existe regulamentação
01:57das redes sociais.
01:58Até hoje não existe uma responsabilização,
02:01uma punição de fato para crimes cibernéticos.
02:04Então, assim, onde a gente está segura?
02:06Se na rua a gente já lida com essa porra de assédio.
02:08Então, independente de ser figura pública,
02:10anônima, cis ou trans,
02:12nós mulheres estamos sujeitas
02:13a todo tipo de violência de gênero
02:15e antes fosse
02:15quando a gente colocasse o pé para fora de casa.
02:17Porque nem dentro da nossa própria casa
02:19a gente tem segurança.
02:20Desde a infância a gente tem que estar
02:21em estado de alerta com os homens à nossa volta.
02:24Sejam familiares, vizinhos, amigos.
02:27A gente sabe quantos casos tem de pedofilia,
02:29de abuso na infância.
02:31Quando a gente cresce,
02:32a gente se torna adulta,
02:34se escolhe morar sozinha,
02:35ainda corre risco de ter a casa invadida
02:37por um estranho que vai tentar nos violentar.
02:39Se a gente contrata um serviço,
02:40a gente tem que também tomar cuidado,
02:42a gente tem que ter sempre uma segunda pessoa
02:43porque eles não respeitam, sabe?
02:46E se a gente escolhe morar com um cônjuge,
02:48se a gente se apaixona por uma pessoa
02:50e que a gente acha que conhece ela há anos,
02:53ainda assim a gente um dia pode descobrir
02:54que é um necrófilo, um pedófilo,
02:56um estuprador, um agressor.
02:58Como agora está tendo o caso da menina
02:59que morreu com 21 anos
03:01e tem um monte de homem comentando
03:03sobre festa no IML,
03:04porque nem depois de morta a gente tem paz, sabe?
03:07Deixam de violentar os nossos corpos.
03:09É bizarro como a mulher não tem paz
03:11nem depois de morta.
03:12Estão falando sobre o corpo da garota,
03:14sobre as fotos que ela postava.
03:15Estão falando sobre estuprar o corpo
03:17de uma mulher morta.
03:19E existe uma comunidade, entendeu?
03:22Existem bolhas na internet
03:24para falar sobre necrofilia,
03:25para incentivar a necrofilia,
03:26para divulgar a necrofilia.
03:28E esses homens,
03:29eles não são doentes nem monstros.
03:31Eles são pessoas comuns
03:33que convivem com a gente,
03:34que estão ali no nosso ambiente de trabalho,
03:37que passam pela gente no mercado,
03:39no trem, no metrô, no ônibus, na rua,
03:41que tem família, que tem filho,
03:43que tem mãe, que tem pai,
03:44que tem vizinho, que tem irmão, sabe?
03:47Eles estão nos estádios,
03:48eles estão no cinema,
03:49eles estão na barbearia.
03:50Em qualquer lugar esses homens podem estar
03:52e estão aqui se escondendo na internet
03:54através de fakes,
03:55vivendo sem nenhuma punição, tá ligado?
03:58E cometendo crimes.
03:59Não só eles, como os agressores,
04:01como os estupradores, como os pedófilos.
04:04É bizarro, sabe?
04:06É bizarro e a gente tem que parar
04:07de colocar esses homens à margem.
04:09Tá difícil.
04:10Tá difícil reagir,
04:11tá difícil se defender,
04:12tá difícil falar sobre esse tipo de assunto
04:14porque é pesado
04:15e também porque a gente sofre muito ataque de ódio.
04:18Vem gente do bueiro pra falar merda
04:19quando a gente toca nesse tipo de ferida.
04:21Então, mulheres se protejam,
04:23meninas se protejam,
04:24se resguardem o máximo que vocês puderem,
04:27sempre que vocês puderem.
04:28Protejam as nossas crianças
04:30e homens se manifestem.
04:32Muita dessa merda acontece
04:33porque vocês são omissos.
04:34Vocês não defendem nem as mulheres
04:36da sua família
04:36que dirá uma desconhecida na rua
04:39quando esse tipo de merda acontece.
04:41Tá ligado?
04:41Quando alguém fala uma merda
04:42na frente de vocês
04:43e vocês ficam calados
04:44ou vocês riem da situação.
04:46É pra ser levada a sério,
04:47pra ser debatida entre vocês.
04:49E é isso.
04:50Eu tava vivendo o meu dia normal
04:52até um assediador
04:53mandar uma piroca no direct
04:54sem motivação nenhuma
04:56e me lembrar
04:56que eu não tenho controle sobre isso,
04:58tá ligado?
04:58E que eu vou continuar convivendo
04:59com essa merda
05:00até o dia de eu morrer.
05:01E depois disso
05:02eu ainda vou conviver também, né?
05:04Só que eu não vou botar mais aqui
05:05pra poder saber.
05:05E aí
05:06Obrigado.
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