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  • há 3 meses

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00:01Então, meu nome é Vilmara Fernandes, eu sou jornalista de A Gazeta e atualmente colunista de segurança, justiça e cidadania.
00:31Parece que já foi há tanto tempo que a gente viveu esse 2020, que foi tão impactante na vida de
00:37tantas pessoas, na nossa vida e de inúmeras pessoas.
00:41Mas é uma história que eu te digo que está sendo ainda escrita, uma história da pandemia que ainda está
00:48sendo escrita.
00:49Prova disso é que, ao contrário do que a gente imaginava que os primeiros casos no Espírito Santo tinham surgido
00:57no ano de 2020,
01:01durante os levantamentos, os dados sobre a pandemia, se descobriu que a gente já tinha casos aqui no Espírito Santo
01:08desde o final do ano de 2019.
01:12Casos semelhantes já estavam aparecendo em vários cantos do mundo, mas a gente não tinha naquela época muita informação sobre
01:21isso.
01:21Sabia-se que estava surgindo uma nova doença, algumas pessoas com sintomas diferentes em alguns locais,
01:27mas no final do ano de 2019, início de 2020.
01:32Mas era uma realidade ainda distante do Espírito Santo.
01:36Até porque o ano de 2020 foi muito difícil para o Espírito Santo.
01:40No final de janeiro de 2020, início de fevereiro, nós tivemos uma forte chuva, fortes chuvas aqui no Espírito Santo
01:49que afetaram o sul do estado.
01:51Várias cidades foram afetadas, fortemente afetadas, como é o caso de Conha, Castelo, entre outras.
01:58Então, as nossas atenções estavam muito voltadas para esse tipo de cobertura.
02:05Eu participei dessa cobertura com o colega Fernando Madeira, fomos para essas localidades.
02:10E a gente retornou, fomos mais de uma vez para essas localidades.
02:15E quando retornamos, já estava se aproximando a época do Carnaval aqui no Espírito Santo.
02:21E foi justamente no plantão do Carnaval, do qual eu participei, que nós tivemos o primeiro registro de um suposto
02:32caso de Covid aqui no Espírito Santo.
02:35Quem participa de plantões nos jornais sabe que a equipe é extremamente reduzida.
02:42E era o nosso caso naquele plantão.
02:45Uma colega foi, a gente recebeu a informação de que havia um paciente na unidade de pronto atendimento, na UPA,
02:54na Serra.
02:55E nossa colega foi para lá fazer a cobertura.
02:59E havia sim uma paciente que tinha chegado de uma viagem do exterior e que estava com sintomas.
03:05E acho que foi o primeiro impacto que começou a marcar aquele dia, foi quando ela voltou para a redação.
03:15E aí ela nos relatou que a informação dos técnicos, dos enfermeiros, das pessoas que estavam trabalhando na unidade de
03:24saúde naquele dia,
03:25deram uma orientação para ela.
03:27Vá para sua casa e queime sua roupa.
03:30Quando a gente sabe que nem isso seria suficiente para impedir a contaminação pela...
03:35Mas era a falta de informação naquele momento sobre, de fato, o que era a doença.
03:41E isso perdurou durante muito tempo, porque todos estávamos lidando com uma doença nova,
03:48que ninguém sabia o que era, como tratar, como evitar ser contaminado.
03:54Era muito difícil isso.
03:56E naquele, logo depois desse plantão, eu saí de férias e viajei.
04:01E quando eu retornei, e esse foi o meu último plantão na redação, na redação de fato, física, né?
04:08Vira que presencialmente foi o meu último plantão.
04:11Porque quando eu retornei ao trabalho, após as minhas férias, a redação já estava...
04:17Todo mundo já estava em home office.
04:19Eu não voltei para a redação.
04:20Eu fui, eu fiquei trabalhando em casa.
04:24E a minha primeira pauta foi sobre segurança.
04:28Porque o Espírito Santo vivia naquele momento uma outra crise, dentro de uma crise maior, que era a pandemia.
04:37No dia 10, a Organização Mundial de Saúde já havia decretado situação de pandemia no mundo.
04:44E o Espírito Santo viu, naquele período, crescer consideravelmente o número de homicídios.
04:53Números que parecidos, que se aproximavam do que nós havíamos registrado em 2017, quando houve a greve da polícia.
05:01Isso levou à queda, à demissão do secretário de Segurança Pública na ocasião e também do comandante da polícia.
05:11Essa foi a minha primeira pauta de retorno.
05:12Logo em seguida, eu comecei a fazer pautas de Covid, como todos os colegas.
05:19Quem sabe que num jornal você tem várias editorias, polícia, economia, política, cidades, esportes.
05:27Mas naquele período só existia uma editoria, a editoria de Covid.
05:32Todos os colegas de todas as áreas, não importava se você trabalhasse com esporte ou com economia,
05:38todos passaram a fazer matérias sobre Covid, porque havia uma necessidade muito grande da população
05:45em busca de informações sobre o que estava acontecendo, sobre como se cuidar, o que estava sendo feito, onde havia
05:54leitos.
05:55E a gente fazia matérias todos os dias.
05:59Em casa, eu me lembro que eu ficava o dia inteiro trabalhando.
06:03Meu computador ficava ligado o dia inteiro.
06:05Quando eu não estava escrevendo matérias, eu estava conversando com as fontes
06:10ou olhando pela minha varanda e tentando entender em que momento nós estávamos com todas as ruas isoladas.
06:19Eu olhava para o calçadão da praia de Cambori, não tinha ninguém, não tinha movimento nas ruas.
06:26Algumas vezes, e eu moro sozinha, então o desespero de você ficar naquela situação sem saber como estão os colegas.
06:35Eu confesso que teve algumas ocasiões que eu peguei meu carro sozinha, fechei todo o carro
06:40e saí andando pela cidade, dando umas voltas para poder tentar entender o que estava acontecendo na cidade.
06:46Outra coisa que nós passamos, os colegas, comumente passar, é trocar fotos de pôr-do-sol.
06:53Todo dia a gente mandava para alguns colegas para que as pessoas não se sentissem tão isoladas.
06:59Havia uma preocupação interna também.
07:01Mas, assim, na apuração era muito difícil, muito difícil você fazer a apuração,
07:08principalmente naqueles primeiros seis meses sobre Covid.
07:12as fontes, era difícil porque elas choravam muito, sabe?
07:19Elas relatavam as suas dores, as perdas, né?
07:23Você ter que ligar para alguém para falar sobre a perda que ela tinha acabado de ter,
07:28de perder um irmão, um filho, um parente, era muito difícil, muito difícil.
07:35Eu acho que teve algumas matérias que, assim, eu respirei muito fundo para fazer.
07:39Como, logo no início, quando uma fonte me ligou e disse assim,
07:44viu, Mara, já chegaram os primeiros contêineres para o Hospital Jaime,
07:51porque eram tantos mortos que o necrotério, né?
07:54A sala onde são destinados aí para abrigar os corpos não eram suficientes.
08:00Então, o governo teve que contratar contêineres fechados, refrigerados,
08:05para colocar atrás do hospital.
08:07É difícil você ouvir isso.
08:09Mais difícil ainda é quando as imagens chegaram comprovando aquilo.
08:15Não era fácil, mas, assim, a gente fez matéria sobre aquilo, os relatos, as entrevistas.
08:21Uma das mais difíceis que eu já fiz foi uma matéria que eu entrevistei vários anestesistas, né?
08:30E eles relatando como era o dia a dia deles.
08:34Os médicos que precisavam lidar diretamente com pacientes que estavam contaminados,
08:40eles usavam um aparato muito mais severo, né?
08:44Várias roupas, várias camadas de roupas de proteção.
08:48E isso era difícil até para eles trabalharem.
08:51E aí nós tivemos a ideia de ouvir alguns médicos.
08:54E para mim a surpresa, quando eu fui ouvir os anestesistas,
08:58eles me relataram que o que marcava o dia a dia deles era o último olhar.
09:07Porque cada pessoa que precisava passar por um processo de intubação,
09:13que era frequente naquele período, elas precisavam ser anestesiadas.
09:19E aquela pessoa podia não voltar.
09:24Então, antes dela ser anestesiada, o último olhar dela era para o anestesista.
09:31Aí eu fiquei, assim, dias imaginando como era para essas pessoas, todos os dias, lidar com isso.
09:40O que era transmitido nesse olhar?
09:45Será que aquele paciente tinha conhecimento de que talvez aquele fosse o último olhar dele?
09:52A última visão dele?
09:55Alguns relataram para mim que eles conversavam, tranquilizavam, né?
10:00Porque aquele poderia ser, de fato, o último momento daquele paciente.
10:03É muito difícil você ouvir isso, sabe?
10:05E, assim, fizemos várias matérias também da epidemia dentro da pandemia,
10:10que eram moradores de rua, né?
10:13Pessoas que estavam nas ruas enquanto todo mundo estava abrigado nas suas casas
10:17para não serem contaminados.
10:18Havia um grupo de pessoas que ficavam nas ruas, que não tinham suas casas.
10:22Mas eles também adotaram uma política deles, né?
10:26Própria para se protegerem.
10:30Eles eram acompanhados por equipes.
10:31Mas chegou um determinado momento da pandemia, como ela foi se estendendo,
10:35que eles precisavam ser alimentados.
10:38Então, grupos de pessoas ligadas a instituições religiosas
10:44começavam a fornecer marmitas.
10:47E eu tive a oportunidade, junto com o colega Fernando Madeira,
10:51de acompanhar o trabalho dessas equipes,
10:54mesmo com máscara, com equipamentos.
10:59Mas, assim, a gente ia para as ruas para lidar com pessoas que não tinham máscara,
11:03nem como comer, que gerava comprar máscara.
11:07Alguns recebiam máscaras de algumas pessoas, né?
11:10Mas era uma situação, assim, muito difícil.
11:13Muito difícil.
11:16Essa que nós fizemos juntos,
11:19quando eu vivi no Espírito Santo,
11:20com grupos,
11:21era a pandemia, era a que sai?
11:25Tem até o meu xaráu, fiquei falando,
11:28depois eu encontrei com ele em outra matéria,
11:30que era a linha, abordando outro tema.
11:32Você lembra que, sim,
11:34a gente gravou com um cara numa pracinha,
11:36que ele falando do livro que ele escreveu,
11:39que a gente tem vários vídeos aí.
11:41O que eu anotei mais aí agora?
11:51Acho que eu preciso falar isso?
11:53Não, né?
11:55Ah?
12:02Ok.
12:03Então vamos para 2021.
12:13Eu acho que é importante a gente citar que no ano de 2020,
12:19que em todo o país a gente tinha uma denominação de ondas da Covid.
12:26Você tinha a primeira onda, a segunda onda, a terceira onda.
12:31Isso era o quê?
12:32À medida que os casos alcançavam um pico,
12:35depois havia um declínio de número de casos de Covid,
12:38aí depois, por algum fator, você tinha novamente um crescimento,
12:42e depois você tinha novamente uma perda.
12:45Isso estava muito ligado também às circunstâncias que você vivia, né?
12:51Apesar do governo ter pedido que as pessoas ficassem em suas casas,
12:58mas, assim, havia um momento que as pessoas tinham dificuldade.
13:02Elas já não conseguiam ficar tanto tempo presas.
13:04Foi uma onda que teve também muitos bailes organizados clandestinamente, né?
13:10E não só nas periferias, nós também tínhamos bailes em fazendas, né?
13:14Que as pessoas organizavam para ir para lá.
13:17E esse contato fazia com que depois os números crescessem, né?
13:22Isso estava sempre ligado a alguma movimentação, sabe?
13:26Ou seja, cultural, ou que as pessoas se organizavam
13:30e geravam algum tipo de aglomeração.
13:33Você tinha esse crescimento do que se chamaram de ondas.
13:37No Espírito Santo, aconteceu um outro fator.
13:39Ao contrário de todo o país, nós tivemos um pico a mais,
13:43uma onda a mais da Covid em relação aos outros estados.
13:47Isso era difícil de acompanhar, né?
13:50Aqui no Espírito Santo, foi criado um painel de acompanhamento da Covid.
13:55Então, a gente monitorava isso com muita frequência.
13:58Foi através deste painel que nós conseguimos informações
14:02de que os primeiros casos tinham acontecido em 2019.
14:05A partir que as informações foram chegando,
14:08quando os testes de Covid foram...
14:11A qualidade deles foram melhorando, né?
14:14As novas informações foram chegando,
14:16o cruzamento de informações da área de saúde é que permitiu,
14:20posteriormente, se identificar esses primeiros casos já em 2019.
14:27Quando nós começamos a caminhada para o final do ano de 2020,
14:40a gente já vinha...
14:41Todas as conversas que se tinha no mundo inteiro sobre a produção de vacinas,
14:46elas se intensificaram aqui no Brasil também, né?
14:49Não só para a compra de vacinas produzidas fora do país,
14:53como também para a produção de vacinas aqui mesmo no Brasil.
14:57E havia uma expectativa muito grande
14:59de quando a gente poderia começar a ser vacinado.
15:02E eu estava aqui novamente no plantão, né?
15:08Na redação, no plantão do final de semana,
15:10já em janeiro de 2021,
15:13quando a primeira brasileira foi vacinada.
15:17E foi um momento muito emocionante
15:19e que o país todo acompanhou.
15:21Era o marco de uma nova expectativa.
15:25Até hoje eu fico emocionada quando eu falo sobre isso, entendeu?
15:28Porque aquilo ali marcava uma esperança para inúmeras pessoas.
15:33E eu me lembro que eu estava com vários colegas
15:36e olhando para a transmissão da vacinação dessa funcionária.
15:42E aí eu fiquei pensando assim,
15:44no Espírito Santo,
15:45quando é que nós vamos poder acompanhar isso?
15:47E para minha surpresa,
15:49na segunda-feira,
15:52após esse final de semana,
15:54eu cheguei na redação e fui surpreendida
15:57com a pauta de que eu iria acompanhar
15:59a primeira pessoa a ser vacinada aqui no Espírito Santo,
16:03que era uma técnica de enfermagem,
16:05era uma técnica de enfermagem,
16:08a Yolanda Brito,
16:09que trabalhava lá no Hospital Jaime.
16:12Lembrando que o Hospital Jaime foi o hospital
16:14que foi a maior referência em Covid
16:17aqui no Espírito Santo,
16:19um hospital enorme,
16:21que aproveitou até todos os cantinhos do hospital
16:23para abrigar leitos de Covid.
16:25E a Yolanda trabalhava lá com essa equipe.
16:28E ela foi a primeira técnica,
16:30a primeira pessoa no Espírito Santo
16:32a receber a vacina.
16:34E foi muito emocionante
16:36quando o governador e o secretário de saúde
16:40entraram no auditório,
16:42carregando a caixa
16:43com a vacina de Covid,
16:45a primeira do Estado.
16:47Não tinha como você não se emocionar com aquilo,
16:49porque estava ali,
16:51pertinho de você,
16:53era palpável.
16:55Significava que,
16:56se a Yolanda estava sendo vacinada,
16:59em breve,
17:00muitas outras pessoas iam ser vacinadas.
17:03Havia uma sequência de quem tinha acesso.
17:06A gente começou a observar
17:08que as listas de agendamento das prefeituras
17:12começaram a ser acompanhadas
17:14como se você estivesse acompanhando
17:16a divulgação de uma lista
17:19da Seleção Brasileira.
17:21Quem seriam os nomes
17:22que fariam parte da Seleção Brasileira?
17:25A gente acompanhava diariamente.
17:28Olha, vai sair a lista de agendamento.
17:30A gente tinha que fazer matéria.
17:31Amanhã está o horário.
17:33Vão ser abertas tantas vagas.
17:35Nós ficávamos, assim,
17:36todo mundo,
17:37não só aguardando
17:40para divulgar a informação,
17:42como também na expectativa
17:43de que a gente pudesse ser incluído na lista.
17:45E à medida que isso foi avançando
17:47e que todas as pessoas
17:48poderiam ser beneficiadas,
17:50como todas as outras pessoas,
17:51à medida que, assim,
17:52se eu fui vacinada
17:54e o colega foi vacinado,
17:56nós entrávamos
17:57numa espécie de cotinha
17:59para ajudar um terceiro
18:01a conseguir vacinar
18:02uma vaga.
18:05E, assim, foi todo mundo se ajudando
18:07porque era um momento
18:08de ajuda mútua.
18:09Então, assim,
18:10foi muito importante.
18:12Quando eu digo para você
18:13que no Espírito Santo
18:13a gente teve mais
18:14uma outra onda,
18:17nós tivemos também
18:18aqui no Espírito Santo
18:19o lockdown.
18:21Precisaram,
18:22mas isso mais à frente.
18:24Antes disso,
18:25logo depois da vacina,
18:27quando eu presenciei a Holanda
18:29ser vacinada,
18:32se não me falha
18:34a memória,
18:35cinco dias depois,
18:37o Espírito Santo,
18:39como a gente já estava
18:40vivendo uma queda
18:41no número de casos
18:43de Covid
18:43e já estavam
18:45com o maior número
18:46de leitos
18:47no Hospital Jaime,
18:48o governador
18:49ofereceu vagas
18:51para os pacientes
18:52de Manaus.
18:55Manaus estava vivendo
18:56uma crise
18:57com falta de oxigênio
18:59para esses pacientes.
19:01e lembrando que oxigênio
19:03é fundamental
19:03para essas pessoas
19:04que estão
19:06extremamente debilitadas
19:07pela Covid.
19:08E aí,
19:09com o oferecimento
19:10dele,
19:11foram direcionadas,
19:13tal vingando,
19:14entre 36
19:15e 38 leitos.
19:17Então,
19:17foi decidido
19:18que esses pacientes
19:20viriam para o Espírito Santo
19:22em duas aeronaves.
19:23Mais uma vez,
19:26Vilmara foi
19:26para a cobertura.
19:29Tentando nesse ponto,
19:30Vilmara,
19:31ter o congresso
19:32que a gente teve,
19:33todos os levantamentos
19:34que a gente teve,
19:35como até em breve,
19:36teve uma cobertura
19:37muito próxima
19:38tanto dos profissionais
19:39de saúde,
19:40mas também
19:40dos pacientes
19:41e familiares.
19:42Colocou aqui,
19:43quando eu não tivesse
19:44entrado com o governador
19:45e tudo mais,
19:46que você estava com assim,
19:47aquele sentimento
19:48de esperança,
19:49e daí,
19:49nesse ponto,
19:50e pouco tempo depois,
19:51você foi lá
19:52fazer a cobertura
19:53da chegada
19:53das aeronaves
19:54dos pacientes
19:55de Manaus.
19:55A gente até
19:57recebeu uma coisa
19:58recentemente.
20:00Nessa cobertura,
20:01a gente sabe
20:02que era um sentimento
20:03de algum tipo
20:04conhecido
20:04para todo mundo,
20:06esse momento
20:06já um conhecimento
20:07um pouco maior.
20:08Como você lidava
20:10com o seu cuidado
20:11sexual
20:12e com a sua
20:15atenção
20:15ao lado profissional
20:17para poder
20:18levantar tudo aquilo
20:19que precisava
20:19ser levantado
20:20e ao mesmo tempo
20:21ter essa sensibilidade
20:22que você tem
20:23em todas as fotos
20:23que você faz,
20:24mas para dar
20:27um apoio
20:28e um acalento
20:28para as pessoas
20:29que estavam chegando,
20:30para os familiares
20:30que às vezes
20:31acompanhavam,
20:32como o marido
20:32da Raiz,
20:33por exemplo,
20:34que brou uma grande
20:35fonte,
20:35uma grande parceria
20:36para você.
20:37Como você conseguia
20:38colocar isso em uma balança?
20:39Como você fazia isso
20:41e como essa cobertura
20:43te marcou?
20:45Então,
20:46quando a gente recebeu
20:47a notícia
20:47de que
20:49o Estado
20:50iria receber
20:50os pacientes
20:51de Manaus,
20:52que eles viriam
20:52em duas aeronaves
20:53e que as aeronaves
20:55chegariam
20:56no Espírito Santo
20:57por volta
20:57da...
20:59no final da noite,
21:00assim,
21:00no início...
21:01no final da noite,
21:02eu estou dizendo
21:02quase meia-noite,
21:04a primeira delas
21:05e a outra
21:05na madrugada
21:06da sexta-feira,
21:09eu pedi
21:11para fazer
21:11a cobertura
21:12desses casos.
21:14Eu achava
21:16que precisava
21:16ser feito
21:16um registro
21:17lá,
21:18naquele local.
21:19A gente
21:20estava vivendo
21:21um momento
21:21ali
21:22em que ainda
21:23faltavam
21:24muitas máscaras,
21:25havia uma falta
21:26de máscara
21:28e as máscaras,
21:30a compra
21:31de máscaras
21:31era muito difícil
21:32e elas eram
21:35destinadas
21:35principalmente
21:36para os
21:37funcionários
21:37da saúde.
21:39E então,
21:41a gente
21:42fazia a proteção
21:43com uma dupla
21:44máscara,
21:44que era
21:45uma máscara
21:46tradicional,
21:47dessas que
21:48usam,
21:50que a gente
21:51descarta,
21:52e por cima
21:53uma máscara
21:53de pano,
21:54que é o que a gente
21:54usava anteriormente.
21:55E foi com isso
21:56que eu fui para lá.
21:57Levei
21:58um face shield
22:00também,
22:01mas ele,
22:02às vezes,
22:03em alguns momentos,
22:03ele tornava inviável.
22:06e eu fui lá
22:07para o hospital
22:08com cuidado
22:08de...
22:09Eu sabia
22:10que era uma cepa
22:13do vírus
22:14diferente,
22:15ela era
22:16mais perigosa
22:18naquele momento
22:19que a gente
22:19já estava vivendo,
22:21mas,
22:22como jornalista,
22:23eu achava importante
22:24registrar aquele momento.
22:26E foi
22:26uma cobertura
22:27muito marcante,
22:28muito marcante
22:29mesmo,
22:30sabe?
22:30Então,
22:31assim,
22:31eu fui para o hospital
22:34sabendo o que
22:36eu iria fazer ali.
22:39Naquele momento,
22:40eu descobri
22:41que,
22:42apesar de eu estar
22:42com um bloquinho
22:43e uma caneta,
22:44eu percebi
22:45que a minha cobertura
22:46tinha que ser
22:47toda feita
22:48por vídeo.
22:49Eu não teria
22:50condições de anotar nada,
22:52porque seria
22:53tudo muito rápido.
22:54Então,
22:55eu optei por filmar
22:56tudo o que estava
22:57acontecendo.
22:58e aí,
22:59nos intervalos,
23:00eu fazia os meus
23:01apontamentos.
23:02Quando terminava
23:03uma etapa,
23:04eu ia lá
23:04fazer os meus
23:05apontamentos
23:05num celular mesmo.
23:07Não havia a menor
23:07possibilidade,
23:08eu vi que eu teria
23:09que mudar
23:09a forma de
23:11apurar ali.
23:13Mas,
23:13assim,
23:15quando a gente...
23:16Nós nos dividimos,
23:18né?
23:18Ficamos...
23:19Uma equipe
23:20ficou no aeroporto,
23:22meu colega
23:22Fernando Madeira
23:23novamente,
23:24e eu fui
23:25para o hospital
23:27Jaime.
23:28Quem conhece
23:29o hospital,
23:30a entrada
23:31dessas ambulâncias
23:32não foi pela
23:32entrada principal
23:34do hospital,
23:34mas pela lateral
23:35onde ficava
23:36o pronto-socorro.
23:39O que chamou
23:40primeiro,
23:41o que marcou?
23:42Lembre-se
23:43que era meia-noite,
23:45as pessoas
23:46estavam em isolamento
23:47ainda,
23:48não um isolamento
23:49tão significativo
23:51quanto no início
23:51da pandemia,
23:52mas as pessoas
23:53não ainda
23:54frequentavam
23:55normalmente,
23:55assim,
23:56não iam para todos
23:57os lugares,
23:57para aglomerações.
23:59Geralmente,
23:59depois das oito
24:00horas da noite,
24:01as ruas tendiam
24:02a ficar extremamente
24:03vazias.
24:04E era o caso lá.
24:05As ruas
24:06estavam vazias,
24:07as janelas
24:08dos apartamentos
24:09em volta
24:09todas apagadas,
24:10e estava eu lá
24:12no estacionamento
24:13esperando as ambulâncias.
24:15Primeira coisa
24:15que me marcou
24:18foram...
24:19Quando eu recebi
24:20o alerta
24:21do meu colega
24:22Fernando
24:22de que as ambulâncias
24:23tinham deixado
24:24o aeroporto.
24:25Então,
24:26havia uma expectativa
24:27de que elas
24:28chegariam
24:28no Jaime.
24:30E lembrando
24:31que elas
24:32foram
24:33todas acompanhadas
24:34por equipes
24:35da Polícia
24:36Rodoviária Federal,
24:37da Polícia Federal,
24:38estavam escoltando
24:39aquelas pessoas
24:40para não ter
24:41nenhum...
24:42Se tivesse
24:42algum trânsito,
24:43alguma coisa assim,
24:44aberto.
24:44Lembrando
24:45que essas pessoas,
24:46essas duas aeronaves,
24:48elas fizeram
24:49uma parada
24:49em aeroportos
24:51na região
24:52Centro-Oeste
24:53para socorrer
24:55essas pessoas,
24:56porque eram
24:56pessoas que estavam
24:57vindo muito
24:57debilitadas.
24:58Quando chegaram
24:59no aeroporto,
25:00algumas dessas pessoas
25:01precisaram receber
25:02atendimento médico
25:03antes de sair
25:04da aeronave,
25:05porque elas também
25:06estavam muito
25:07debilitadas.
25:07E algumas
25:08foram transportadas
25:10em UTIs.
25:12A maior parte
25:12das ambulâncias
25:13que estavam ali
25:14estavam preparadas
25:14com UTIs,
25:16ou seja,
25:17elas poderiam receber
25:17um tratamento
25:18mais emergencial.
25:20E aí a primeira marca,
25:22o primeiro símbolo
25:24daquela...
25:26O primeiro...
25:30O primeiro símbolo
25:32daquele...
25:33que eu acho
25:51que mais me marcou
25:52nesse dia
25:53foi o barulho
25:54da sirene.
25:55No meio da madrugada,
25:5718 ambulâncias
25:59e mais duas
26:00ou três viaturas
26:01com a sirene aberta
26:03cortando aquele silêncio.
26:05Eu estava
26:05no meio do estacionamento,
26:07comecei a filmar aquilo
26:08e eu confesso
26:09para você
26:10que meu coração
26:10ficou extremamente
26:11apertado, sabe?
26:12Ao mesmo tempo
26:13que eu morando
26:14aqui no Espírito Santo
26:15estava feliz
26:16de saber
26:17que era uma possibilidade
26:20de ajudá-los.
26:21Saber que aquelas pessoas
26:22estavam vindo
26:23naquelas condições
26:24era muito difícil, sabe?
26:25E quando eu vi as ambulâncias
26:28primeiro as viaturas
26:29da Polícia Rodoviária Federal
26:31chegarem
26:31e guiando as ambulâncias
26:34com a sirene aberta
26:35e elas deram a volta
26:36na entrada do Jaime
26:38e aí foram parando
26:41gradativamente
26:42uma do lado da outra
26:43e naquele silêncio
26:46da madrugada
26:47todos os barulhos
26:49eram significativos, sabe?
26:52A sirene aberta
26:54as portas
26:55das ambulâncias
26:56que a gente nunca percebe
26:58que elas fazem
26:58um barulho típico
26:59naquela noite
27:00a gente conseguia ouvir
27:01elas sendo abertas
27:02ou sendo fechadas, né?
27:05As primeiras a chegarem
27:07foram as ambulâncias
27:10com as UTIs
27:11e essas
27:13elas eram abertas
27:15e as pessoas
27:16já puxavam as macas
27:17assim imediatamente
27:18e já entravam
27:20muito rapidamente
27:20com os pacientes
27:21porque eram pacientes
27:22que estavam tendo
27:24paradas cardíacas
27:25sabe?
27:26Você não sabia
27:27alguns desses pacientes
27:28não resistiram
27:29então alguns já chegavam
27:31às vezes até com
27:32enfermeiros em cima
27:33das macas
27:33sabe?
27:34Tentando garantir
27:35a vida deles
27:36e aí assim
27:37todo mundo abria espaço
27:38e elas passavam direto
27:40até hoje
27:40eu me lembro
27:42dessa cena
27:42não é fácil
27:43as outras
27:44quando os pacientes
27:45estavam em uma situação
27:46melhosa
27:47ambulâncias eram abertas
27:48os enfermeiros
27:49concentravam
27:50cumprimentavam
27:51os pacientes
27:52perguntavam
27:53as informações básicas
27:55de cada um deles
27:56né?
27:57Naquele dia
27:59para surpresas
28:00de todos nós
28:01quando a enfermeira
28:02perguntou
28:03a data
28:04de nascimento
28:05de um dos pacientes
28:07aí se descobriu
28:08que ele estava fazendo
28:09aniversário
28:09ele fez aniversário
28:11na virada dos dois dias
28:12enquanto ele saía
28:13aí na hora
28:14que ela falou
28:14é seu aniversário
28:16todos se reuniram
28:18e começaram a cantar
28:19parabéns para ele
28:20ali
28:20foi um momento assim
28:21também muito emocionante
28:22sabe?
28:23Outro momento
28:24muito marcante
28:25foi quando
28:26uma paciente chegou
28:29como eu não tinha
28:30como anotar nada
28:31e estava gravando tudo
28:32à medida que
28:33a prioridade
28:34era que os enfermeiros
28:35abordassem o paciente
28:36e à medida que
28:37eles abordavam
28:38os pacientes
28:39eles abriam um espacinho
28:41para que eu me aproximasse
28:42também
28:42mesmo à distância
28:43eu colocava
28:44o celular
28:45e como era um ambiente
28:46muito silencioso
28:47dava para
28:47ouvir o que o paciente
28:48estava falando
28:49ele mesmo com máscara
28:50eu sempre fazia
28:51alguma pergunta
28:52se ele podia falar
28:53a expectativa dele
28:55é difícil fazer isso
28:57nesse momento
28:57mas assim
28:58era um registro
28:59e aí vários reagiam
29:01uma senhora
29:03quando eu fui perguntar
29:05eles estavam tirando
29:06ela da ambulância
29:07ela olhou para mim
29:08e falou assim
29:09eu espero
29:10eu mal gravava
29:12ela falando
29:12eu espero
29:13e ela não conseguia
29:14falar
29:14e eu fui acompanhando
29:16a saída dela
29:17aí nesse momento
29:18eu me senti
29:21como jornalista
29:21no momento
29:22de interferir na cena
29:23sabe
29:24porque normalmente
29:25eu estava só ouvindo
29:26e foi
29:27nessa senhora
29:28eu sentia
29:28a necessidade
29:29de falar alguma coisa
29:30para ela
29:30e ela olhava
29:31para mim
29:32o tempo inteiro
29:32ela não desviava
29:34o olhar
29:34aí quando ela estava
29:36se aproximando
29:37na porta
29:37de entrar
29:37no pronto-socorro
29:38eu comecei a falar
29:39com ela
29:40vai dar certo
29:41confia
29:42vai dar certo
29:43vai dar certo
29:44e eu só conseguia
29:45falar isso
29:45vai dar certo
29:46vai dar certo
29:47aí ela olhou
29:48sorriu
29:48e eles levaram
29:50eu fiquei muito feliz
29:51porque essa foi a primeira
29:53leva de pacientes
29:54na segunda leva
29:55de pacientes
29:56quando a aeronave
29:57chegou com novos pacientes
29:58todo mundo falava
30:00a mesma coisa
30:00para os pacientes
30:01entendeu
30:01confia
30:02vai dar certo
30:03vai dar certo
30:04e isso eu acho
30:05que era muito importante
30:06para aquelas pessoas
30:07naquele momento
30:07sabe
30:08receber uma dose
30:09de otimismo
30:10de expectativa
30:13de que talvez
30:14eles pudessem ser salvos
30:15a gente sabe
30:16que alguns
30:17infelizmente
30:18as condições
30:19em que eles chegaram
30:20eram uma debilidade
30:22tão grande
30:23que eles não sobreviveram
30:24outros levaram muito tempo
30:26para sair daquele hospital
30:28mas assim
30:29muitos saíram
30:31muitos sobreviveram
30:33em tempos diferentes
30:34mas deixaram o hospital
30:35depois daquela noite
30:38a gente teve
30:39começou um trabalho
30:40com as famílias
30:41para acompanhar
30:43porque os pacientes
30:44eram de Manaus
30:45estavam aqui
30:46os familiares
30:47em Manaus
30:48um deles
30:50era o esposo
30:52da Raica
30:54que ele decidiu
30:56pegar um avião
30:56e vir para o Espírito Santo
30:57e ele queria muito
30:58saber a notícia
30:59da esposa
30:59ele queria muito
31:00de todas as formas
31:01e aí ele mesmo
31:02se encarregou
31:03de começar a organizar
31:05de fazer contato
31:06com todos os familiares
31:07de todos os pacientes
31:08que estavam aqui
31:08no Espírito Santo
31:09que foram chegando
31:10ou que estavam em Manaus
31:11e ele foi uma das primeiras pessoas
31:13com quem eu tive contato
31:14e por intermédio dele
31:16eu acabei fazendo
31:16uma rede de contatos
31:18com todos esses pacientes
31:20eles iam trocando informações
31:22o André foi o único
31:23que conseguiu visitar
31:25a Raica dentro do hospital
31:26e ela nem queria
31:27porque ela tinha
31:28uma preocupação grande
31:29que ele se contaminasse
31:31porque eles tinham
31:31filhos pequenos
31:33ela queria falar para ele
31:34para não visitá-lo
31:35mas ele queria muito
31:36visitá-la
31:37sabe
31:37então assim
31:38foi um contato
31:39muito próximo
31:40assim
31:41muito
31:42foi um contato
31:43enriquecedor
31:44assim de trocas
31:45de experiências
31:46de cada um deles
31:47eu fiquei muito próxima
31:49depois do André
31:50e quando a Raica
31:51conseguiu alta
31:52e foi para Manaus
31:53eu consegui conversando
31:54com ele
31:55ele me mandou vídeos
31:56do que ele estava
31:57preparando na casa
31:58para recebê-la
31:59foi importante
32:01foi muito emocionante
32:03quando eu pude agora
32:05ver a Raica
32:07porque meu contato
32:08era com o esposo dela
32:09e aí quando eu a vi
32:12hoje bem
32:13feliz
32:14e saber que
32:16ela sobreviveu
32:19aquilo tudo
32:19foi maravilhoso
32:20porque
32:21vou te dizer uma coisa
32:22João
32:23entre a vinda
32:25de uma aeronave
32:26para outra
32:28o meu colega
32:29estava lá
32:30no aeroporto ainda
32:31registrando a chegada
32:32dos pacientes
32:33e eu estava lá
32:34no Jaime
32:35quando terminou
32:37a primeira leva
32:37de pacientes
32:38os enfermeiros
32:39todos entraram
32:40para o hospital
32:40para fazer os procedimentos
32:42ajudarmos os procedimentos
32:43não ficou ninguém
32:44no estacionamento
32:45só eu
32:45sozinha
32:46e os vigilantes
32:48do hospital
32:50preocupados
32:51comigo
32:51de ficar ali
32:52sozinha
32:52eles ficavam
32:53conversando comigo
32:54a noite foi
32:55era madrugada
32:56estava meio frio
32:58era uma noite de verão
32:59mas naquele dia
33:00estava frio
33:01eles me pediram
33:02olha
33:02eu vou te deixar
33:04entrar aqui
33:04na recepção
33:05que era antigamente
33:06a recepção
33:07do pronto-socorro
33:08que naquele momento
33:09era tomado
33:09só para o hospital
33:10eles me pediram
33:11senta aqui dentro
33:11para pôr uma segurança
33:12e eu vou ficar aqui
33:13com você
33:15enquanto a gente
33:16espera chegar
33:17as ambulâncias
33:17da outra aeronave
33:19e aí eu fiquei
33:20sentada lá
33:21raramente conversando
33:22com ele
33:22porque era um ambiente
33:23hospitalar
33:23e ele ficava
33:24cuidando das coisas
33:25dele e eu esperando
33:26eu vou te dizer
33:28o que eu ouvi
33:29era só aquele barulhinho
33:30do apito
33:32dos aparelhos
33:33que estavam medindo
33:34alguns batimentos cardíacos
33:36então era um
33:36pi
33:37pi
33:37pi
33:38mas assim
33:39de vários
33:39era só isso
33:41aí dei um pouco
33:42você ouvia assim
33:43pi pi pi pi
33:43uma aceleração
33:44sabe
33:45você saber
33:45que aquela pessoa
33:46estava parando
33:47aí aquele
33:48corre corre
33:49para atender
33:50era uma coisa incrível
33:51porque
33:53imediatamente
33:54a isso
33:54você começava
33:55a ouvir
33:56de outro aparelho
33:56e de outro
33:57e de outro
33:58e o hospital
33:59imediatamente
34:00começava aquela correria
34:01de várias equipes
34:02tentando
34:03trazer a vida
34:04daquelas pessoas
34:05que estavam tendo
34:05paradas cardíacas
34:06aquilo aconteceu
34:08uma sequência
34:09eu fiquei lá
34:11assim
34:13respirando
34:14com dificuldade
34:15não passou
34:1715 minutos
34:18o processo começou
34:19todo novamente
34:20com outros pacientes
34:22aí eu ouvi
34:23aquilo tudo
34:24porque eu falei
34:24eu não posso
34:25levantar daqui agora
34:26porque para não
34:26chamar atenção
34:28quando eu vi
34:28que se acalmou
34:29novamente
34:29eu fui para o
34:30vigilante
34:31e falei
34:31meu amigo
34:31se você não se incomodar
34:33eu vou ficar lá fora
34:35aí ele olhou para mim
34:36e falou assim
34:37é difícil
34:38eu também
34:39todas as vezes
34:40todas as noites
34:41que estou aqui
34:42de plantão
34:43isso me abala
34:45eu vou fazer
34:46companhia para você
34:46lá fora
34:47e aí ficamos
34:48os dois lá fora
34:49esperando a chegada
34:51da outra aeronave
34:52e quando ela chegou
34:55no aeroporto
34:56novas 18 ambulâncias
34:58chegaram no hospital
34:59novas portas
35:00se abrindo
35:01novas portas
35:02se fechando
35:02e aquele
35:03aquele som
35:05da sirene
35:06das portas
35:06se abrindo
35:07e das portas
35:08se fechando
35:08aquele
35:09da ambulância
35:11assim
35:11seco
35:12naquela madrugada
35:13eu nunca esqueci
35:14e ficou marcada
35:15assim para mim
35:16viu
35:17e sabe
35:18uma coisa
35:19que aconteceu
35:19como todo jornalista
35:21como dizia
35:22um colega meu
35:23que jornalista
35:25é 50%
35:26bom profissional
35:27e 50%
35:29sorte
35:32uns 3, 4 dias
35:33depois
35:34da chegada
35:35das aeronaves
35:36eu comecei
35:38a sentir os sintomas
35:40e aí
35:41naquela época
35:41toda vez
35:42que você sentia
35:43um sintoma
35:43você precisava
35:44comunicar à empresa
35:45e eu comuniquei
35:46à empresa
35:46que eu estava
35:47com sintomas gripais
35:49eu achava
35:50que era alergia
35:51porque eu fiquei
35:52exposta
35:52à madrugada
35:53exposta a cheiros
35:54então
35:55me conhecendo
35:56eu achava
35:56que era alergia
35:57mas
35:57é o protocolo
35:59e aí
36:00eu estava me preparando
36:00para sair
36:01para um laboratório
36:02quando a gente
36:02recebeu
36:03a infectologista
36:04que acompanhava
36:05a gazeta
36:07entrou em contato
36:07com o secretário
36:08de saúde
36:08na ocasião
36:09e ele falou
36:10que a gente tinha
36:11que as pessoas
36:12que tinham feito
36:13a cobertura
36:13precisavam
36:14fazer o exame
36:14no Jaime
36:15junto com
36:16todos os funcionários
36:18que estavam
36:19acompanhando os pacientes
36:20de Manaus
36:20porque o risco
36:21era de que eu tinha
36:22sido contaminado
36:23pela mesma cepa
36:24se fosse o caso
36:27lá fui eu
36:28para o Jaime
36:28fazer então
36:29o meu exame
36:29e aí eu seguiria
36:31o protocolo
36:31de todos os pacientes
36:32teria que ter
36:34dois exames negativos
36:36aí eu fui lá
36:37fiz o primeiro paciente
36:38eu fiz o primeiro exame
36:40eu fui
36:40fiz o primeiro exame
36:43dentro do hospital
36:45como todo jornalista
36:46a gente observa tudo
36:48e há algum tempo
36:49eu tinha recebido
36:50a informação
36:51de que tinha
36:52um grupo
36:53que tinha autorização
36:56para entrar
36:56dentro do hospital
36:57e cantar
36:59para os pacientes
37:00para quem aguardava
37:01as informações
37:01porque o hospital
37:02ele direcionava
37:03um pequeno setor
37:04para que os parentes
37:06fossem naquela localidade
37:07e todos os dias
37:08recebessem informações
37:09sobre seus parentes internados
37:11eles liam lá
37:12e cantavam
37:13para essas pessoas
37:14para transmitir
37:15um pouco de paz
37:16e eu queria fazer
37:17a matéria desse assunto
37:18mas o hospital
37:18não permitia
37:19e era compreensível
37:22mas eu filmaram
37:23para fazer exame
37:23lá dentro do hospital
37:25então
37:26no intervalo
37:27dos meus exames
37:28eu fui filmando
37:29os pastores
37:29então
37:30como todo bom jornalista
37:31os meus 50%
37:32de sorte
37:33me ajudaram
37:34a mostrar
37:35um outro lado
37:35do hospital
37:36um outro lado
37:38da ajuda
37:38que era oferecida
37:39aos pacientes
37:40que além
37:41do tratamento médico
37:42mas um tratamento
37:44humano
37:44que era oferecido
37:46não só para aqueles pacientes
37:48para eles terem
37:48um pouco
37:49de tranquilidade
37:50mas também
37:51para aquelas pessoas
37:52que iam ali
37:53saber notícias
37:54dos seus pacientes
37:55era muito bonito
37:56eu filmei tudo
37:57consegui fazer
37:58uma nova matéria
38:00e
38:02minha notinha
38:03que eu esqueci lá
38:09depois da imunizada
38:15é o que?
38:18já citei
38:29então
38:30em 2022
38:31é que
38:32nós conseguimos
38:34boa parte
38:35da população
38:36ao longo de 2028
38:37foi sendo dado
38:38prioridade
38:39para as pessoas
38:40não
38:41em 2021
38:43quando começou
38:46a vacinação
38:48a prioridade
38:49foram para as pessoas
38:50que tinham
38:51alguma comorbidade
38:52um diabético
38:54um hipertenso
38:55um cardíaco
38:58esses foram
38:59os primeiros
39:00a serem vacinados
39:02aí posteriormente
39:04foram sendo abertas
39:06novas possibilidades
39:07eu
39:08só consegui
39:09ser vacinada
39:10em 2022
39:11e foi
39:12logo depois
39:14algum tempo
39:15depois
39:16é que eu
39:17foi
39:18que eu contraí
39:19covid
39:20eu fui fazer
39:22uma matéria
39:23e por uma
39:24dessas coincidências
39:26eu
39:26lá tinha uma pessoa
39:28que não sabia
39:29que estava com covid
39:30os meus dois
39:32colegas tinham
39:33acabado de sair
39:33de uma covid
39:34então eu
39:35acabei
39:36sendo
39:37contaminada
39:37pelo vírus
39:38mas foi
39:39uma covid
39:40tranquila
39:41mas se eu
39:42tiver que fazer
39:42um olhar
39:45assim
39:45para aquele
39:46período
39:47eu acho
39:48que
39:49eu fiz
39:50várias vezes
39:51isso
39:51porque eu tive
39:52que fazer
39:52várias matérias
39:54sobre balanço
39:56da covid
39:57entrevistar
39:58pessoas que tinham
39:59perdido
40:00suas famílias
40:01alguns perderam
40:02vários parentes
40:04sabe
40:04era
40:05uma situação
40:06muito difícil
40:09e
40:10foi quando
40:11eu fui olhar
40:11para minha agenda
40:12todo jornalista
40:13tem uma agenda
40:14e foi ao percorrer
40:17a minha agenda
40:17que eu notei
40:18o quanto
40:19ela tinha diminuído
40:21quantas pessoas
40:22quantas pessoas da minha agenda
40:23de jornalista
40:24tinham partido
40:28e é difícil
40:29e é difícil
40:32assim
40:33diretamente eu não tive
40:34nenhuma perda
40:37mais de pessoas
40:38que eu conhecia
40:39pessoas que eu entrevistava
40:41que eram pessoas
40:42bem próximas
40:43se foram
40:47então assim
40:48é uma doença
40:50que deixou
40:50muitas marcas
40:51várias pessoas
40:53na minha família
40:53posteriormente
40:55contraíram
40:55uma doença
40:56mas já
40:57numa etapa
40:57vacinada
40:58o que mostrou
41:00a importância
41:00da vacina
41:01porque
41:02você estar vacinado
41:05ajudou a proteger
41:06né
41:08pessoas
41:09mais idosas
41:10que tiveram a doença
41:12já vacinada
41:13ficaram aí
41:15para contar a história
41:16né
41:17do que viveram
41:18foi um ano
41:21muito difícil
41:24muito difícil
41:27um ano
41:28que eu acho
41:29que não é
41:30para a gente
41:30esquecer
41:32um ano
41:33que nos deixou
41:35muitas lições
41:37lições
41:38de como
41:38trabalhar
41:39como se reinventar
41:44como
41:44ser criativos
41:46num período
41:47difícil
41:48como buscar
41:50alternativas
41:51foi isso
41:52que muita gente
41:53fez
41:53você imagina
41:55pais de família
41:56que perderam
41:57seus empregos
41:58que não poderiam
42:00trabalhar
42:00e que tiveram
42:02que buscar
42:03alternativas
42:04para garantir
42:05o sustento
42:06das suas famílias
42:07né
42:07foram vários casos
42:09várias lojas
42:10fecharam
42:12empresas
42:13tiveram que ser
42:14reduzidas
42:15e aí
42:17foi uma reinvenção
42:18geral
42:18assim como
42:19a Vilmar
42:20e tantos outros
42:21colegas jornalistas
42:22tiveram que
42:23aprender
42:24a fazer
42:26a produzir
42:27o material
42:28de forma
42:28diferente
42:29as pessoas
42:29também tiveram
42:30que aprender
42:31a produzir
42:32de forma
42:33diferente
42:33então
42:34ao mesmo tempo
42:36que foi
42:36um ano difícil
42:38de perdas
42:39foi um ano
42:40enriquecedor
42:41em conhecimento
42:43em todas as áreas
42:44né
42:45para para pensar
42:46em quanto tempo
42:48se levou
42:49para produzir
42:49a vacina
42:50da Covid
42:52foi um período
42:53muito rápido
42:54se você considerar
42:56o tempo
42:56que nós levamos
42:57para produzir
42:58inúmeras outras vacinas
43:01isso se deve
43:03a união
43:03né
43:05a troca de informações
43:06necessária
43:07para produzir
43:08essa vacina
43:09e ela foi muito rápida
43:10apesar
43:11das adversidades
43:13que a gente
43:14viveu
43:14naquele ano
43:15mas ainda assim
43:17nós conseguimos
43:19superar
43:20né
43:20melhores
43:22espero
43:43o entendimento
43:45do que era
43:45a doença
43:48até o momento
43:49de vacinação
43:50e a gente entender
43:52que aquilo não era
43:52mais uma pandemia
43:53global
43:53como você
43:55não era uma pandemia
43:57global não
43:58era uma pandemia
43:59global
44:00como você
44:01não era
44:01fazer o balanço
44:02ali entre o medo
44:03talvez
44:04você está
44:05tentando
44:05assim
44:06eu não estava
44:07na primeira linha
44:08também
44:08na porta
44:09dentro
44:10do hospital
44:11como você
44:13colocava
44:13na balança
44:14o medo
44:16o nome
44:17que você dá
44:17para esse sentimento
44:18e a coragem
44:27eu te falei
44:28quando efetivamente
44:29surgiu o primeiro caso
44:31no Espírito Santo
44:32eu estava aqui ainda
44:33logo depois
44:34eu viajei
44:35de férias
44:36eram férias
44:38programadas
44:39e
44:41eu já tinha
44:42pago toda a minha viagem
44:43e as informações
44:44que a gente tinha
44:45que estavam surgindo
44:46em alguns casos
44:46no mundo
44:47mas
44:49aparentemente
44:49não havia motivo
44:50para não viajar
44:51e eu fui viajar
44:52para fora do país
44:54e
44:54a cidade
44:57eu fui para uma localidade
44:59para um país
44:59que logo em seguida
45:00começou a enfrentar
45:02vários casos
45:03e quando eu retornei
45:05para o Brasil
45:07eu estava
45:09entre aquelas pessoas
45:10que retornavam
45:11e que precisavam
45:11passar pela quarentena
45:13e eu invenciei
45:15meu período de quarentena
45:16na ocasião
45:1714 dias
45:18já em isolamento
45:20eu já voltei
45:21com a redação
45:22em home office
45:24em casa
45:25trabalhando em casa
45:29inicialmente
45:30as nossas coberturas
45:31eram
45:32em casa
45:34a gente escrevia
45:35apurava por telefone
45:37e não tinha
45:39tanto contato
45:40logo depois
45:41a gente
45:41começou a fazer
45:42uma espécie
45:43de revezamento
45:45na redação
45:46de tempos em tempos
45:48a cada 10 dias
45:49a cada 15 dias
45:50pelo menos
45:51duas pessoas
45:55realizaram
45:55algum tipo
45:56de plantão
45:56aqui na redação
45:58a redação
45:59era imensa
46:00ficavam
46:01duas pessoas
46:02devidamente
46:02com máscara
46:03em pontos diferentes
46:04em horários diferentes
46:05a gente fazia
46:06um revezamento
46:08gradativamente
46:09à medida que
46:09o número de casos
46:10foi caindo
46:12a gente voltou
46:13e ao longo
46:14dessa cobertura
46:15quando a gente
46:15foi retomando
46:17talvez
46:18pela minha característica
46:20já ter feito
46:22participado
46:22de outras
46:23coberturas
46:25desafiadoras
46:26que sempre
46:26me pediram
46:28para ir
46:29um pouco além
46:31nesse momento
46:33que a gente
46:34estava vivendo
46:35eu achava
46:36que era importante
46:36a gente fazer
46:37o registro
46:39dessa história
46:40a gente precisava
46:41estar presente
46:42e não dava
46:43só para fazer
46:44o registro
46:45online
46:47então assim
46:49dizer para você
46:50que a gente
46:50não tinha preocupação
46:51em dizer
46:52com a não
46:53ser contaminado
46:56não é verdade
46:57todos nós
46:58sabíamos
46:59do risco
46:59de ser contaminado
47:01e era uma incógnita
47:02você poderia
47:03ser contaminado
47:04não sentir
47:06absolutamente nada
47:07naquela época
47:08não tinha teste
47:10você nem ia saber
47:11que teve
47:11covid
47:12mas também
47:13você poderia
47:14ser contaminado
47:15como alguns
47:16colegas nossos
47:16foram
47:17e ficar
47:18extremamente grave
47:19e
47:20não tinha
47:22nem remédio
47:22adequado
47:23e não resistir
47:24então esse risco
47:26era um risco
47:26real
47:27concreto
47:29mas eu acho
47:30que o jornalista
47:31ele sempre tem
47:32aquela coisa
47:32de
47:33querer ir lá
47:34né
47:35de
47:36é importante
47:37você
47:38revelar
47:39aquilo ali
47:40e
47:41eu
47:42pedi
47:43para ir
47:43algumas
47:44eu te falei
47:45na cobertura
47:46dos pacientes
47:46de Manaus
47:47foi um pedido meu
47:48eu falei
47:49para um editor
47:50que
47:51os pacientes
47:52iriam chegar
47:53e eu achava
47:53que era importante
47:54a gente estar presente
47:55e eu gostaria
47:55de fazer a cobertura
47:56como eu tenho certeza
47:58que outros colegas
47:59como foi o caso
48:00do Fernando Madeira
48:02e de outros
48:02colegas fotógrafos
48:04eles também pediram
48:06né
48:06para estar
48:07nesses locais
48:08foi um período
48:10que não
48:10a gente conseguiu
48:11ainda fazer
48:12até algumas matérias
48:13fora da covid
48:14algumas matérias
48:15especiais
48:16entendeu
48:16oferecendo
48:17alguma leitura
48:18fora
48:19do que era
48:20covid
48:20também
48:21para essas pessoas
48:21a gente conseguiu
48:22fazer isso também
48:23né
48:23sair desse cenário
48:25assim
48:25da covid
48:26então
48:27eu acho assim
48:28que a gente precisa
48:30fazer um
48:31tentar
48:32alcançar um equilíbrio
48:33entre
48:35entre a preocupação
48:37e a ação
48:40sabe
48:41a gente precisa
48:42desse equilíbrio
48:42né
48:43e
48:44e foi o que eu tentei fazer
48:45na minha vida
48:47eu acho que às vezes
48:48a preocupação
48:49acaba sendo
48:51superada
48:52pela ação
48:52em alguns momentos
48:53e
48:55eu acho que foi um pouco
48:57disso
48:57assim
48:57né
48:58não só
48:59eu não fui a única
49:00né
49:01vários outros colegas
49:03tiveram presente
49:04nessa cobertura
49:05presencialmente
49:06né
49:07muitos
49:07e eu respeito
49:08e eu respeito
49:09aqueles também
49:09que não se sentiram
49:10confortáveis
49:11em sair
49:12do seu isolamento
49:14para fazer
49:15matérias presenciais
49:16porque
49:17essa é uma doença
49:19que ela afeta
49:20não só
49:20o seu corpo
49:21né
49:22te deixa mal
49:23né
49:23fisicamente falando
49:25mas ela afeta
49:26também a sua mente
49:27seu equilíbrio
49:28emocional
49:29né
49:29então
49:30não é fácil
49:31você lidar com essa situação
49:32as pessoas reagem
49:34de forma diferente
49:35então
49:36é preciso respeitar
49:37também
49:37aqueles colegas
49:38que não se sentiram
49:40confortáveis
49:40e eu acho que isso
49:42que é o importante
49:43numa redação
49:43né
49:44essa diversidade
49:45em todos os momentos
49:46né
49:47quando você tem
49:48um equilíbrio
49:49entre pessoas
49:50que em algum momento
49:51podem fazer
49:52alguns tipos de pauta
49:53e outros vão fazer
49:55outros tipos de pauta
49:56né
49:56a importância
49:58nos dois cenários
49:59entendeu
50:07o que mais
50:09que eu montei aí
50:10o que mais
50:44olha
50:46ao mesmo tempo
50:47é o que eu te falei
50:48eu acho que o meu
50:49primeiro impacto
50:50com os pacientes
50:51foi como eu relatei
50:52quando eu vi
50:53as ambulâncias chegarem
50:54na verdade
50:55não foi quando
50:55eu vi as ambulâncias
50:56foi quando eu
50:58ouvi
50:58as sirenes
51:00das ambulâncias
51:01e das viaturas
51:03porque é diferente
51:04quando você ouve
51:05o barulho
51:05da sirene
51:06de uma ambulância
51:08mas eram
51:0918 ambulâncias
51:14sabe
51:15o som é diferente
51:17é muito diferente
51:18e no momento
51:20na madrugada
51:21quando não há
51:23outro som
51:24para mascarar
51:25aquela realidade
51:26ali
51:27era a realidade
51:29pura do que
51:30estávamos vivendo
51:31naquele momento
51:34aquele momento
51:36me deu
51:36a dimensão
51:38do que estava
51:39acontecendo
51:39naquele
51:40então
51:41acho que foi o meu
51:42primeiro impacto
51:42e quando
51:44o som
51:45se transformou
51:46em imagem
51:47quando elas
51:48começaram
51:49a ser visíveis
51:50aquilo foi
51:52difícil
51:53eu estava
51:53sozinha ali
51:54eu respirei
51:56fundo
51:56e falei
51:58o que importa
51:58agora
51:58é eu fazer
51:59um bom trabalho
52:01e
52:03eu acho
52:04que ali
52:05falou mais alto
52:06a jornalista
52:06e as ambulâncias
52:07chegaram
52:08os médicos
52:10os enfermeiros
52:11os técnicos
52:12de enfermagem
52:13os motoristas
52:15de ambulância
52:15aquelas pessoas
52:17que conduzem
52:18as ambulâncias
52:18todos começaram
52:19a atuar rapidamente
52:20para retirar
52:21os pacientes
52:22e eu precisava
52:23entrevistar
52:24alguns pacientes
52:24ter fala deles
52:27saber como eles estavam
52:28e então
52:29meu trabalho ali
52:30era nunca pessoa
52:31tinha uma outra equipe
52:33de colegas da TV
52:34Gazeta
52:34que ficou algum tempo
52:35que eles também
52:37tinham que se revezar
52:38mas assim
52:39era o meu contato ali
52:40então eu fui
52:42entrevistando
52:43todas aquelas pessoas
52:44todas aquelas pessoas
52:45e ali
52:46eu acho que
52:47você vai acumulando
52:48acumulando
52:49e quando aquela senhora
52:51firmou o olhar
52:54e ela ficava
52:55olhando para mim
52:56ela não desligava
52:57não rompia
52:58aquele contato
52:59do olhar
53:00ali eu senti
53:02necessidade
53:02de sair
53:04da jornalista
53:05e voltar
53:05para a pessoa
53:08e aí a Vilmara
53:09falou com ela
53:10vai dar tudo certo
53:11confia
53:13vai dar tudo certo
53:14e eu fui falando isso
53:16e aí quando ela
53:17se despediu
53:18ela foi uma das últimas
53:19pacientes a entrar
53:20ali eu voltei
53:22respirei
53:22voltei a ser jornalista
53:24né
53:25e fiquei
53:26esperando novamente
53:27na sala do hospital
53:28voltei a ter
53:30acho que um momento
53:31de Vilmara
53:33quando eu vi aquelas
53:34né
53:35mesmo aquela mistura
53:36de profissional
53:36com a pessoa
53:38quando você viu
53:39tantas máquinas
53:40parando ao mesmo tempo
53:41porque
53:41ver aquele sinal
53:43soar
53:45de forma diferente
53:47significava
53:48que era uma pessoa
53:49que poderia
53:51não continuar viva
53:53então aquilo ali
53:54era o exato momento
53:56era o limiar
53:57entre a vida
53:58e a morte
53:58né
53:59era o som
54:01desse limiar
54:01entre a vida
54:02e a morte
54:03era o som
54:04desse limiar
54:04entre a vida
54:05e a morte
54:06né
54:07e aquele
54:08você não via
54:08as equipes
54:09né
54:10de onde eu estava
54:11eu só ouvia
54:12o som dos pés
54:13então
54:14era assim
54:15você se sentir
54:16era uma mistura
54:17de todos
54:19os seus sentidos
54:20ali
54:20você ouvir
54:22o soar
54:23daquelas
54:24daquele alerta
54:26você ouvir
54:27o barulho
54:28dos pés
54:29de todas as equipes
54:31correndo
54:32né
54:33o barulho
54:34dos gritos
54:36deles
54:36assim
54:36gritos no sentido
54:37das chamadas
54:38deles
54:38faz isso
54:39aplica isso
54:40né
54:40o que estava
54:42sendo dito
54:43para salvar
54:43as pessoas
54:44né
54:45logo depois
54:46um novo processo
54:47na sala ao lado
54:48e mais a sala ao lado
54:49em fração de segundos
54:50parecia tudo coordenado
54:52né
54:52e ao mesmo tempo
54:54você parada ali
54:55sentindo o cheiro
54:56do ambiente hospitalar
54:58e olhando um vazio
55:00porque só tinha você ali
55:02então assim
55:03é uma mistura
55:05muito grande
55:05assim sabe
55:06são todos os seus sentidos
55:07envolvidos naquilo ali
55:08e aquilo se repetindo
55:10e se repetindo
55:11e ao mesmo tempo
55:13você pensando
55:14quantas vezes
55:16isso acontece
55:17todas as noites
55:18durante todos os dias
55:19e foi assim
55:21que tantas pessoas foram
55:24ali eu
55:25eu vi que eu também
55:26tinha o meu limite
55:27né
55:28foi quando eu pedi
55:29para sair
55:30eu prefiro
55:31eu precisei
55:33de um tempo
55:33lá fora
55:34e aí eu fui
55:35ficar sozinha
55:36no estacionamento
55:37respirando um ar
55:39né
55:40acomodando
55:41meus sentimentos
55:42acalmando
55:43do meu coração
55:44porque
55:45tinha mais uma leva
55:46de pacientes
55:48que iriam chegar
55:49mais uma leva
55:51de coberturas
55:52que eu tinha
55:53de cobertura
55:54que eu tinha que fazer
55:54de novos
55:55que eu precisaria fazer
55:57de novas informações
55:58a serem apuradas
56:00e precisava estar bem
56:00ninguém fica bem
56:02naquilo ali
56:02mas minimamente
56:03equilibrada
56:04né
56:05e aí eu respirei
56:07cuidei de mim
56:09né
56:09conversei um pouquinho
56:10com o vigilante
56:11sobre
56:14coisas diferentes
56:15que não fosse aquilo ali
56:16tomei um café com ele
56:18que ele gentilmente
56:19me ofereceu
56:20e aí rapidamente
56:21começou todo o processo
56:22de novo
56:23tudo aquilo que eu descrevi
56:24em relação às ambulâncias
56:25se repetiu
56:26tudo novamente
56:27né
56:28até que quando
56:29tudo se encerrou
56:31todo mundo entrou
56:32para o hospital
56:34já era o dia
56:35estava amanhecendo
56:37aí o Fernando Madeira
56:39já estava lá
56:40e eu olhei
56:41para o meu colega
56:42e falei
56:43vamos embora
56:46e aí a gente
56:47pegou o carro
56:48e nós voltamos
56:49para a redação
56:52descansar
56:52para começar
56:53a escrever novamente
56:54no dia seguinte
56:56sobre
56:57a vida
56:58sobre a COVID
56:58o que estava acontecendo
56:59é uma rotina
57:00que voltou a se repetir
57:02por um longo tempo
57:04até que
57:05veio a vacina
57:07né
57:08novos medicamentos
57:10novas formas de tratamento
57:11e esses casos
57:13começaram a ser
57:14tratados
57:15as pessoas se recuperando
57:17os casos diminuindo
57:19e que aquele momento trágico
57:22começou a virar
57:23história
57:25uma história
57:26faz parte da nossa história
57:28de todas essas pessoas
57:29a gente ainda tem
57:30casas de COVID
57:31temos
57:32a gente tem pessoas
57:34se contaminando
57:36temos
57:37mas aquele momento
57:39da pandemia
57:41nós vivemos
57:44é história
57:47não sei se eu te respondi
57:53Fernanda
57:54alguma pergunta
57:56eu estou chorando
57:57assim não
57:57não
57:58você ainda
57:59me importar
57:59nem chora
58:01e
58:01eu...
58:02a gente
58:06ela falou
58:07eu tinha uma sentadinha
58:08e eu fiz
58:09fazer uma
58:09coisa
58:09tá
58:09hum
58:10Tchau, tchau.
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