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  • há 5 semanas
Esquecidas em programas de indenização, marisqueiras que viviam da pesca em Linhares, buscam reconhecimento como vítimas da tragédia

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Transcrição
00:00As mulheres de regência não tiveram direito a nada até hoje.
00:05As marisqueiras ficaram sem trabalho, as marisqueiras ficaram sem ter renda.
00:09A mulher foi excluída desde o início nesse processo de reparação e indenização.
00:32A mulher foi excluída desde o início nesse processo de reparação e indenização.
00:44Solene Dalva, Benedito de Jesus.
00:46Meu nome é Varner de Santana Moura.
00:49Hoje eu sou coordenadora do movimento dos Atingidos por Barragem, do MAB.
00:55Sou pastora.
00:59No encontro do Rio Doce com o Mar está a Vila de Regência,
01:04um recanto onde a principal fonte de renda dos moradores é a pesca.
01:08A vila é simples, tem um povoado acolhedor.
01:11Quem chega encontra é tranquilidade.
01:15Regência sempre foi um lugar singular, onde todo mundo tinha o suficiente para viver, né?
01:23Enquanto os maridos pescavam, as mulheres estavam limpando seus peixes, vendendo seus peixes.
01:31E com isso aí eu consegui formar meus três filhos.
01:41Quando eu cheguei aqui, ainda tinha-se barcos.
01:45Três e meia para quatro horas da manhã.
01:47O horário dos barcos saindo para pescar.
01:50Três horas para quatro horas estava chegando.
01:53O porto trazendo os seus pescados para as mulheres que estão em casa,
01:57marisqueira, limpar, descascar camarão.
02:01Era o barulho que nós escutávamos.
02:03Que era dos pássaros, o barulho do mar, que é muito gostoso,
02:08e o barulho dos barcos, dos motores dos barcos, saindo e retornando.
02:20Antes, era difícil saber onde terminava o mar e começava o céu, tudo azul.
02:26Agora dá para diferenciar bem.
02:28O mar até tenta não se misturar.
02:31O manguezal também.
02:32Mas não está tendo jeito.
02:34Foi muito impactante, porque foi quando recebemos a notícia,
02:38eu principalmente, foi como se eu tivesse morrido alguém da minha família.
02:42Foi muito triste.
02:44E o mar?
02:45Um mar de lama.
02:47É a morte que chegou aos poucos, sem ser convidada,
02:51mas anunciada e esperada por todos.
02:54Transformou-se de alegria para tristeza.
02:57Tristeza de você ver o rio não poder mais entrar.
03:01Tristeza de você ver o mar e não ter prazer de vê-lo,
03:04do jeito que estava com aquela cor.
03:06Tristeza de não poder mais comer um peixe.
03:09Tristeza de ver a vila desmotivada, sem perspectiva.
03:13Depois daquela lama, depois da chegada daquela avalanche de lama,
03:18já ficou tristeza.
03:20Traz uma tristeza enorme.
03:23A gente não poder fazer o que a gente fazia antes.
03:26Não pode ir lá pescar, levar o pescado para casa.
03:31Os nossos prejuízos, nós não comprávamos água.
03:36Hoje, eu gasto cinco botijas de água por semana.
03:41É eu e meu marido só que meus filhos foram embora porque não poderam viver aqui.
03:46Naquela época, não chegou logo o nosso dinheiro que a Renova ofereceu para a gente.
03:53Mas depois a gente fomos fazendo.
03:55Eu vendia peixe, eu depois comecei a trabalhar com isso.
03:58Doce, salgado, botava barraquinha na rua, vendia.
04:02Épo de festa também, fazia meus golosemas, vendia também.
04:06Esse era o meio de eu também estar me sobrevivendo, para me dar uma renda para a gente casa.
04:10Os pescadores que precisam do rio para sobreviver estão proibidos de pescar
04:15porque ainda não se sabe os impactos da lama na contaminação dos peixes.
04:20Eu ia me preparar para pescar manjuba, mas agora acabou.
04:25Acabou tudo, né?
04:26A nossa vida aqui no Rio Doce, nós não podemos fazer nada com essa água.
04:31Eu sou pescadora, mas não estou atuando na profissão e hoje eu tenho um trailer.
04:38Eu vendo salgado, refrigerante, bala, trabalho ali perto da escola com as crianças.
04:43A mulher atingida, ela é a que mais sofre, porque ela é ribeirinha, ela está às margens do rio,
04:51ela vem sofrendo com as questões familiares e psicológicas.
04:55Vimos nos cadastros da fase 1, que eles excluíam a mulher e colocavam o homem como total chefe
05:03e o homem era indenizado e a mulher não.
05:06Lógico também que a gente precisa de ser indenizado, né?
05:11Também.
05:14Porque nós não fomos nós mulheres.
05:18Quando eu me refiro às mulheres, por quê?
05:24As empresas, elas sempre priorizam o homem.
05:29Ele recebe o cartão, a mulher não.
05:32E as mulheres ajudam a colocar a comida dentro de casa.
05:37Às vezes, a própria mulher que coloca.
05:41Então, por que mulher não é reconhecida?
05:44Por que as mulheres não é cuidada, observada, sabe?
05:52Fortalecer o nosso trabalho, a nossa dor, a nossa preocupação,
05:58o nosso cuidado com a família.
06:00Porque quem cuida da família é quem?
06:02As mulheres.
06:06O que fazer agora?
06:08Até quando a vida vai resistir nessas águas?
06:11Essas crianças já serão adultas?
06:14Quanto vale o Rio Doce?
06:16Eu criei meus filhos.
06:17Tudo com pescaria, com barraquinha.
06:22Faço uma pergunta.
06:23Como que essas crianças daqui vão competir lá fora com outras pessoas que têm estudo,
06:31que são formados, né?
06:33Se eles serão acostumados aqui somente a pescar?
06:59A gente está lutando.
07:02A gente está lutando.
07:03Agora mesmo nós tivemos um acidente aí que queimou tudo.
07:08Queimou bomba, queimou gerador, queimou astela, queimou tudo, né?
07:14Então, a gente está batalhando e a gente está precisando de ajuda.
07:18E a gente espera continuar esse projeto para ver se a gente, pelo menos, tem um peixe saudável.
07:26A água é de poço, a água é boa, a água é de qualidade, né?
07:32Mas nós precisamos agora de ajuda para nós trocarmos esse projeto à frente.
07:38É uma das possibilidades que nós vemos assim, para melhorar mais, eu penso assim, é um grupo pequeno.
07:48E o resto das mulheres?
07:50Eu com 65 anos, o que eu espero para o futuro?
07:55Que os homens parem de pensar só neles e pensam nas mulheres.
07:58Que o governo, que as políticas, sabe?
08:01Para de olhar só para o lado masculino e olha para o lado feminino.
08:06Que elas procuram reconhecer as mulheres dos pescadores.
08:14A gente quer que essas mulheres, elas venham a ter voz, elas venham a ser reconhecidas como atingidas
08:22e que através da repactuação venham recursos para que elas venham se erguer, para que elas venham ter sua renda
08:29própria.
08:30Renda que foi perdida com o rompimento.
08:33Nós lutamos até hoje e nós vamos continuar lutando.
08:38E nós precisamos de apoio do governo, do presidente, até do mundo, se for possível.
08:50Porque até hoje eu acho que esse foi o maior crime ambiental que existe, que existiu.
09:32E nós vamos continuar lutando.
10:00E nós vamos continuar lutando.
10:20E nós vamos continuar lutando.
10:50E nós vamos continuar lutando.
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