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  • há 2 meses
Em entrevista exclusiva concedida durante sua visita ao Espírito Santo para receber o título de Doutora Honoris Causa pela Ufes, Conceição Evaristo compartilha reflexões sobre sua trajetória literária, a força da escrevivência e a importância da presença da mulher negra na universidade. A autora também comenta suas memórias afetivas com o estado, suas impressões sobre a cultura capixaba e o papel da literatura como ferramenta de resistência.

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Transcrição
00:00A primeira vez que eu vim ao Espírito Santo, eu estava fazendo o curso normal.
00:05Eu estava com meus 20, acho que 19 a 20 anos, a primeira vez que eu vim ao Espírito Santo.
00:12Eu estava de férias e fui trabalhar na casa de uma senhora que estava vindo para o Espírito Santo.
00:18Então eu vim como arrumadeira e tinha uma outra menina que veio como cozinheira.
00:23Todas nós, muito jovens. E eu me lembro que na casa dessa senhora não tinha banheiro para nós empregadas.
00:31E ela não deixava usar o banheiro dela. Então quando a gente precisava, tinha essa necessidade de ir no banheiro,
00:39a gente ia na praia.
00:41Era em Marataízes. Eu me lembro que ainda tinha aquelas plantinhas que davam na areia.
00:46Então era por ali que a gente se resolvia.
00:50E hoje, tantos anos depois, eu voltar nessa condição, é comprovar que mesmo tardiamente, mesmo amorosamente, a sociedade está mudando.
01:04Como conceber hoje uma casa em que as pessoas que trabalham nessa casa não tenham um banheiro?
01:12Também em termos de história pessoal, é retomar essa imagem que eu só lembrei vindo para cá.
01:18E hoje está aqui numa outra posição, num outro momento.
01:23Que eu celebro a minha potência criadora, que eu celebro isso dentro de uma instituição federal.
01:31Eu tenho 78 anos, vou fazer 79 no final do ano.
01:37É um caminho muito longo.
01:39A primeira vez que eu publiquei, eu tinha 44 anos.
01:43E aí venho aos pouquinhos.
01:47Nada acontece de uma hora para a outra.
01:49É preciso também uma dose de persistência, mas também de paciência.
01:56Nós estamos falando muito que o futuro é ancestral.
02:01Nossos antepassados sonharam, desejaram, tiveram direitos sonegados e que hoje a nossa geração cumpre.
02:11Como também a gente deixa muita coisa para a sua geração cumprir.
02:16Para os mais novos cumprirem.
02:18Então a memória, ela nos coloca no lugar que o nosso passado não resolveu, não pôde refruir.
02:27Olha, receber o título Noris Causas, para mim, ainda mais diante do histórico que já me contaram,
02:34que me parece que já foram contempladas 35 pessoas, 34 homens, um homem pardo e eu seria a primeira mulher
02:48negra.
02:49A cada distinção que eu recebo, eu agradeço muito, eu fico muito feliz.
02:55Ser a primeira também nos coloca uma responsabilidade.
03:00Porque eu sempre afirmo também, o interessante não é ser a primeira.
03:05O interessante é abrir perspectiva, né?
03:08Que esse reconhecimento da instituição para Conceição Invaristo,
03:13ele possa ser modelo para a própria instituição procurar outras pessoas negras também,
03:21que esse título possa ser conferido.
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