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00:00Eu lembro de forma geral, muito daquela época, alguns pacientes marcam, então eu realmente lembro dele, lembro do leito que
00:09ele ficou na UTI, lembro dos perrengues que a gente passou com ele, lembro dessa parte da interação com a
00:13família dele, era uma família muito presente, então assim, mas detalhes, detalhes.
00:20Isso, porque assim, falam assim, eu recebi, eu acho que não fui nem eu que recebi o João, eu acho
00:26que alguém recebeu ele e eu já conheci no dia seguinte, não lembro se fui eu que recebi, porque o
00:33paciente no dia que chega não marca a gente não, marca aquele que fica muito tempo, entendeu?
00:37Então eu lembro dele saindo, mas eu não lembro dele chegando, entendeu?
00:41Então assim, uma pergunta direta assim, como se fosse semana passada, talvez eu não saiba responder direcionadamente.
00:50Então vamos lá, pode, gente.
00:52Doutor, fala para mim o seu nome completo.
00:56Eu sou Gustavo Adolfo Pava Batista, sou cirurgião aqui do Hospital Jai, trabalho aqui há 11 anos.
01:04O que o senhor lembra do fato do senhor João?
01:07O senhor começou a atender?
01:09Na época da pandemia, né, todo o hospital se programou e se organizou para a gente atender o Covid.
01:16Viramos a referência, acho que foi um dos maiores hospitais do país organizado para atender o Covid.
01:22E todas as especialidades entraram na campanha.
01:26Lógico, quem tinha formação técnica, quem tinha experiência com atendimento de paciente mais grave,
01:32a gente passou também por uma ambientação com as equipes da UTI, por um treinamento.
01:39E a gente tinha as nossas rotinas que eram intensivistas e fizemos parte dessa campanha.
01:47E foi um período muito extenso, né?
01:49Não foram só três meses como imaginávamos lá no começo.
01:52E nesses anos que a gente ficou trabalhando com isso, alguns pacientes marcados.
01:57Pacientes que ficaram muito tempo internados, pacientes que tiveram uma gravidade muito importante
02:05e que conseguiram, apesar de tudo, ter uma boa recuperação.
02:10E por isso que o Sr. João marcou a gente, né?
02:15Foi um paciente que já chegou muito grave no hospital.
02:20Numa época da pandemia, que os casos eram mais graves mesmo.
02:24No final, os casos já chegavam mais a menos, mais crônicos.
02:28Mas no começo era muito fulminante.
02:36Ele já veio entubado, já veio com medicação para manter a pressão.
02:43Ele já veio com sinais de infecção secundária, precisando de antibiótico.
02:48Então, assim, já era um quadro que naquela época já dava um prognóstico pior para o paciente.
02:55Quando chegava grave assim, costumava voar muito rápido.
02:59E o que marcou todo mundo é que, apesar de ele ter tido todos os critérios de gravidade,
03:04ele conseguiu voltar.
03:07Foram várias idas e vindas, né?
03:10Não foi um caso que voltou fácil também, tanto que ficou muitos meses no hospital.
03:16Teve algum dia, doutor, que você saiu daqui com certeza de que, de repente, no dia seguinte,
03:19o seu nome não entraria?
03:21Vários.
03:22Vários.
03:23Certeza é uma palavra difícil, né?
03:24Mas, assim, pela experiência de estar lidando com o perfil da doença na época,
03:30era comum a gente ir embora e falar, talvez eu não vou encontrar essa pessoa amanhã.
03:34E você voltava amanhã e não encontrava mesmo.
03:37E, incrivelmente, ele superou todas as expectativas.
03:40Porque várias vezes, não só eu, né?
03:42A equipe que trabalhava na UTI tinha essa impressão.
03:44A gente chegou a preparar a família para o pior.
03:51Algumas vezes, né?
03:52Algumas vezes.
03:53Algumas vezes.
03:54Não foi uma vez só, não.
03:55Ele teve vários momentos de gravidade que, ah, tá ruim agora, recuperou, passava um tempo,
04:01ele piorava de novo.
04:02Acho que agora vai.
04:05E respondeu muito bem, apesar de quase medidas heróicas, né?
04:12Mas ele respondeu muito bem a terapia ao longo prazo.
04:15No momento, a gente ficava assim.
04:17Será que vai dar certo?
04:18Porque outros pacientes não tinham o mesmo sucesso com as manobras.
04:25Tanto ventilatórias, quanto de hemodiálise, quanto esquema antibiótico prolongado que a gente teve que fazer.
04:32Várias vezes, inclusive, né?
04:34Tomou todos os antibióticos do hospital algumas vezes.
04:37Que eu me lembre.
04:38Muitos.
04:40Quase.
04:41Ele chegou a usar...
04:43Não tinha o antibiótico mais pra subir naquela época.
04:46A gente já tinha usado tudo.
04:49Ele chegou a ter choque séptico, né?
04:50Várias vezes.
04:51Mais de uma.
04:53Você chegou a ter parado a cartilha?
04:56Não.
04:57Não que eu me lembre.
04:58Não que eu me lembre.
05:00Você viu a de novo?
05:01Não vai ser a religiosa?
05:03É, aí a gente vai entrar na parte religiosa.
05:07Eu normalmente eu dissocio bastante o meu trabalho, a parte técnica, dessa parte religiosa.
05:12Eu vou deixar esse comentário pra ele e pra família.
05:16Mas, realmente, assim, do ponto de vista técnico, ele surpreendeu todo mundo.
05:21Porque ele chegou a ficar muito mais grave que outros pacientes que a gente acabou perdendo.
05:27Tiveram outros casos de sucesso também, de paciente que ficou muito grave e recuperou.
05:30Mas, assim, dentro da minha realidade, na UTI, eu acho que quem mais se destacou.
05:38Como é que é pra o senhor encontrá-lo, né?
05:40Depois de alguns anos?
05:41Sabia que ele tá bem?
05:42É muito gratificante.
05:43Eu já sabia.
05:44Eu já tinha o spoiler, né?
05:45A maioria dos pacientes a gente provavelmente encontra na rua, encontra no mercado, nem sabe.
05:52A fisionomia, o rosto.
05:55Mesmo que você lembre, é muito diferente naquele momento de fragilidade, numa cama de hospital grave.
06:00Então, a gente provavelmente não lembra, mas a gente teve notícia dele na nossa UTI, na nossa rotina.
06:05Ela recebeu foto dele em casa, já recuperado, compartilhou com a equipe.
06:10Ele foi uma pessoa querida lá na UTI.
06:12Especialmente depois que a gente tem notícia que ele conseguiu se superar, sair, ficar tudo bem.
06:18Então, assim, a gente fica muito...
06:19Eu sabia já que ele tava bem, só não tinha reencontrado.
06:21E foi um dos últimos pacientes que ficaram tudo bem?
06:25Não.
06:26Tiveram outros, né?
06:27Muitos.
06:28Muitos pacientes.
06:30Agora, eu vou te fazer algumas perguntas direcionadas à sua experiência.
06:34Você falou que tem muitos anos de ensino e trabalha até muito tempo.
06:38Você atuou a pandemia inteira praticamente, não é isso?
06:40Do início da primeira semana até praticamente o final dela.
06:44Eu queria que o senhor me relatasse as experiências, que você teve da mente, né?
06:47Desde horas de trabalho, das experiências que o senhor teve, dos óbitos, quantos óbitos você conseguiu um dia.
06:55Você pode...
06:56Olha, eu sou cirurgião, então eu tava fora da minha área.
07:02É uma experiência que não posso mentir que eu gostei, eu não gostei.
07:05Até porque eu tô habituado a diferentes situações, fui treinado pra diferentes situações, diferentes desfechos.
07:12Então, assim, a pandemia eu acho que foi frustrante pra todo mundo pelo alto índice de óbito mesmo.
07:26Isso não é normal em nenhuma área da medicina dentro da normalidade.
07:31Então, assim, sensação de impotência.
07:35A gente pega um paciente com uma doença cirúrgica, eu vou operar e vou resolver o problema dele.
07:39Lógico, a gente tem desfecho negativo, a gente pode ter óbito, mas era surreal você chegar numa UTI com 10
07:45pacientes e, às vezes, dos 10, ao longo de 2, 3 semanas, 8 morrerem.
07:51Infelizmente, no início da pandemia, foi uma realidade, né?
07:56Isso realmente é muito frustrante.
07:57Eu até comento, assim, com quem não é da área, com quem não viveu isso, não tem como entender o
08:06que a gente entende tendo trabalhado na pandemia.
08:10E, pra você ter noção, eu formei em 2008.
08:15Então, eu tenho aí de 16 anos de... 2025, né?
08:20Dezessete anos de profissão.
08:22E, provavelmente, até eu aposentar, a pandemia eu vou ter assinado mais atestado de óbito do que o resto da
08:27minha vida profissional.
08:28Assim, em muitas vezes.
08:30O senhor tem noção de quanto?
08:31Não tem a mínima noção.
08:33Não tem a mínima noção.
08:34Porque é variável, né?
08:36Assim, no final da pandemia, chegava a ser zero uma semana, duas semanas.
08:39Mas, no início, era caótico.
08:42Eu fazia, normalmente, 48 a 60 horas de plantão por semana.
08:47Dava 4 a 5 plantões por semana.
08:50Então, assim, no início, todo plantão, você fazia um atestadozinho de óbito.
08:54Às vezes, você fazia no final do plantão anterior, às vezes, você fazia no próprio plantão.
08:58Mas, era complicado.
09:00Como é que ficava?
09:01A gente trabalhava, eu ficava mais em um setor só, mas, às vezes, eu trabalhava em outros setores.
09:06E a gente rodava para ajudar a ter médico em todas as escalas do hospital.
09:10Então, a gente rodava os setores.
09:12Eu tinha o meu setor, mas a gente rodava muito isso.
09:15Hoje, inclusive, eu tenho uma carga horária de trabalho maior do que na pandemia.
09:19Mas, era muito mais desgastante.
09:21Não pelo trabalho em si, mas, é, pelo estar fora da minha área, pelo realmente emocional, a sensação de impotência.
09:31Você podia fazer de tudo e, às vezes, não era suficiente.
09:34Entendeu?
09:34O que era mais frustrante para mim?
09:37O que foi mais frustrante nesse período para o paciente?
09:39Era exatamente isso.
09:42A gente, é sensação de impotência mesmo.
09:45De, não bastava você fazer o que era preconizado na época.
09:48Às vezes, não era suficiente.
09:50Então, dependia, dependia muito da resposta do próprio paciente.
09:56Não tinha uma previsibilidade de, ah, eu vou fazer isso, vai melhorar.
10:01Não.
10:02Podia melhorar e podia não melhorar.
10:04Só que isso, vezes 10, todo dia.
10:08E era o que você se contava, né?
10:10De levar essa informação para as famílias.
10:12Como é que era isso?
10:14Normalmente, fora da pandemia, os rotinas que são responsáveis por fazer a interação com a família.
10:20Porque é o médico que está lá todo dia.
10:22Aqui, na pandemia, por questões logísticas e diversas UTIs, era normalmente o pessoal do dia.
10:30E como eu estava presente todos os dias, quase 5 dias de 7 na semana, eu acabava tendo uma interação
10:36mais de perto com a família.
10:38Porque é diferente você, imagina o familiar que vem 2 meses na mesma UTI e uma vez por semana, uma
10:44vez a cada 15 dias vem um médico.
10:46Eles me viam a cada 5 de 7 dias, basicamente.
10:52Então, era uma parte que era ruim também.
10:55Porque como você explicar uma coisa tão complexa, num curto período de tempo, para alguém que está ali em desespero,
11:04querendo saber o que vai acontecer e se vai melhorar ou não.
11:06E você não consegue dar previsão de uma coisa que era totalmente imprevisível.
11:10Isso no começo.
11:11Depois da vacina mudou muito o perfil e tal.
11:13Mas a era da Covid pré-vacina foi radicalmente diferente da época pós-vacina.
11:19Foi a época mais difícil, assim.
11:21E era possível separar o lado profissional, o lado pessoal, por exemplo, você deve ter família, né?
11:26Seus filhos, mas como é que era esse tipo de trabalho?
11:31A minha esposa é médica também.
11:35Meus pais médicos.
11:37Meus pais ficaram infurnados em casa 2, 3 anos, sem sair.
11:41Minha esposa pegou Covid junto comigo.
11:44No primeiro mês de UTI eu já passei Covid para ela.
11:47Eu também internei, fiquei internado uma semana, quando eu peguei Covid.
11:52Mas o hospital demorou quase um mês para me liberar de voltar.
11:55Quando eu voltei, já era bem no começo da pandemia, né?
12:00E me andei até o final.
12:01Então, fiquei só esse mês.
12:02Foram as minhas únicas férias na pandemia.
12:04Foi esse mês que eu fiquei afastado.
12:09Mas, do ponto de vista familiar, assim, a gente acabava que vivia respirando de hospital.
12:16Você chega do hospital cansado, depois de um dia pesado, não tem para onde sair, porque era pandemia, estava tudo
12:24fechado.
12:25Você não visita nem seus pais, seus parentes, porque você não vai passar Covid para os outros.
12:29Eu já estava imunizado, porque eu já tinha pegado.
12:33Mas, assim, foi uma época bem ruim.
12:35Bem ruim.
12:35E isso afeta o emocional, com certeza.
12:39Com certeza.
12:40Apesar de memórias boas daquela época que sempre tem, é uma época que a gente gosta de esquecer um pouquinho.
12:49Para fechar, eu queria te pedir, por favor.
12:51Gostaria que o senhor tentasse se desligar, e que o senhor é médico.
12:56Gostaria que o senhor se colocasse na posição de ser humano, e tentasse resumir para mim, uma frase, uma palavra,
13:05o que foi a pandemia?
13:07Graças das suas coisas, dos seus pais, das pessoas que você ama, desconectas da área da minha ensina.
13:14O que foi a pandemia?
13:15Medo.
13:17Quando começou a pandemia, primeiro medo.
13:20Será que eu vou ter que...
13:22Vai ser necessário que todos os médicos, não só os especialistas, nisso vão ter que atuar?
13:27Primeiro medo era esse.
13:28E se eu tiver que atuar, será que vai acontecer o que comigo?
13:33A gente pensa nisso, né?
13:35A gente, querendo ou não, nós somos uma linha...
13:38Não tem como desconectar com o pessoal médico.
13:41E que, diferente do engenheiro, que às vezes ia estar em casa, isolado na pandemia, eu ia estar na linha
13:45diferente.
13:46Então você não desconecta.
13:47Então o medo era, será que eu vou ter que trabalhar com isso, será que eu vou pegar e eu
13:50vou morrer disso.
13:51E quando eu peguei, a sensação era essa.
13:54Porque eu lembro que quando eu fui para o hospital, eu cheguei a saturar 80% na madrugada.
14:03Minha mulher achava que eu ia morrer.
14:05E, assim, nem fiquei grave, nem nada disso.
14:08Mas eu vi casos que eu já tinha atendido no primeiro mês de pacientes semelhantes.
14:15Jovem, sem comorbidade, um pouquinho gordinho, e que pegou Covid, estava bem num dia, no dia seguinte você volta e
14:20está entubado.
14:21Então a gente teve muito medo.
14:23Não só eu, de forma geral, os profissionais.
14:25Nós tivemos muito medo de sermos vítimas da pandemia também.
14:28E tivemos vítimas da pandemia, né?
14:30Dos médicos, dos enfermeiros, fisioterapeutas.
14:33Tivemos várias vítimas, né?
14:35Mas a gente teve muito medo.
14:36Medo dos familiares.
14:37Morri de medo dos meus pais pegarem Covid.
14:39Você vendo isso todo dia, você imagina.
14:42Nossa, imagina meu pai, que já é de idade.
14:44Minha mãe, que tem um monte de problema de saúde, que é de idade, internada com Covid.
14:48Então a palavra da pandemia era medo mesmo.
14:50E que só a sensação de medo saiu, acho que depois da vacinação.
14:55Foi um divisor de águas mesmo, né?
14:57Depois que todo mundo começou a vacinar, aí passou a ser uma doença ruim, mas deixou de ser uma calamidade.
15:12Pode gravar uma coisa.
15:13Você quer fazer uma coisa pra ele?
15:17Alguma interação deles com a gente fez?
15:19Não, acho que não.
15:20Ele falou do neto, ele viu lá, assim.
15:25Pode gravar uma coisa pra você.
15:27Oi, claro.
15:28Eu queria que você perguntasse alguma coisa pra ele.
15:37Não sei o que perguntar.
15:39Te perguntei tanto, né?
15:40Você já me perguntou tanta coisa.
15:44Nossa, não vou saber.
15:45Será que o meu pai vai viver?
15:47O que eu não respondi?
15:48Alguma coisa, de repente, a família, a pandemia, o rio, o sentimento dele.
15:53Então, você pensasse uma pergunta e perguntasse pra ele.
15:57Nossa, agora você foi longe demais.
15:59Não, tranquilo.
16:00Eu acho.
16:01Se você dificultar mais ainda, o que você já me perguntou que você não tenha perguntado?
16:05O senhor João, quer perguntar alguma coisa pra ele?
16:07É, o senhor João não me perguntou muita coisa, não.
16:08É, alguma coisa.
16:09Na época, a interação dele com a gente era baixa.
16:14Era baixa, né?
16:16Ele tava totalmente sedado.
16:19É, totalmente sedado, não.
16:20Essa era uma dificuldade, a gente não conseguia sedar ele.
16:22Mas ele ficou completamente imóvel, assim.
16:24Eu lembro que quando eu cheguei pra ver, ele tava totalmente estático.
16:26Mas ele, de fato, não dormia.
16:27Porque quando eu cheguei, ele tava com venda nos olhos.
16:29Porque ele não fechava os olhos.
16:30É que eu tava um algodão.
16:32E eu vi ele completamente diferente.
16:33Eu não consegui reconhecer ele.
16:34Nossa, a gente pronou...
16:36Ele tava no cantinho.
16:37No cantinho.
16:37Duas vezes.
16:38A gente pronou ele algumas vezes.
16:39Eu acho que eu pronou mais de duas vezes.
16:40Eu tenho que pronar ele.
16:42Acho que eu pronou umas duas vezes e ele ficou, tipo, uns três dias seguidos pronado.
16:46Duas vezes.
16:47Ele tava no cantinho.
16:48E totalmente irreconhecível, né?
16:50E aí, quando falou, ah, seu pai tá ali.
16:54Eu falei, gente, ele falou, é, meu pai.
16:56Quarenta dias depois, completamente inchado.
16:58Ele tava totalmente inchado.
17:00A mão dele era três mãos, assim.
17:01Eu lembro que vocês mostraram a foto pra gente de como ele era.
17:04E a gente falou, nossa, que diferente.
17:06Eu lembro disso.
17:07Mas eu sei que ele é vaidoso, vocês falavam.
17:09Ele é muito vaidoso mesmo, né?
17:11Até aqui, a doutora Fernanda falava sempre isso, assim.
17:13Acho que foi a Fernanda.
17:14De quanto ele era vaidoso, assim.
17:16E aí, quando eu cheguei ali no cantinho, que eu virei, assim, eu fiquei completamente paralisada,
17:23estática.
17:24E aí, quando eu fiquei do lado dele, a enfermeira falou assim, pode conversar com ele.
17:29E aí, eu conversei com ele.
17:31Eu pensei que ele tava completamente sedado.
17:33E aí, quando eu conversei com ele, ele começou a fazer assim, com os olhos.
17:36E aí, ela tirou a venda.
17:37Ele tava, de fato, acordado.
17:38E eu falava, meu Deus, ele tem que dormir, porque o Dr. Gustavo sempre fala que ele briga
17:42muito com o ventilador.
17:42Então, ele não pode brigar com o ventilador.
17:45E eu fiquei desesperada.
17:47Por fim, eu desmaiei na UTI, do lado do meu pai.
17:51E aí, eu te contei no outro dia.
17:52Aí, eu pensei, poxa, eu sinto muito.
17:54Eu, de fato, não queria estar no seu lugar também.
17:57Realmente, é um cenário de guerra.
17:58E era um cenário de guerra.
18:00E algumas vezes, né?
18:01Eu vim aqui também, que eu consegui ver meu pai.
18:04Era raro, às vezes, que a gente conseguia entrar na UTI.
18:06Acho que eu consegui lá em cima duas ou três, no máximo.
18:10E aí, já teve vezes que eu jurava que ele, talvez, fosse vegetar.
18:15Que ele tava completamente estático.
18:17Eu falei, gente, acho que, primeiro, é que eu acho que ele não...
18:20Por mais que eu quisesse muito, né?
18:22E pedia muito pra que ele pudesse viver, assim, eu falava,
18:25gente, ele não vai aguentar.
18:27Isso aqui da mal tá foda demais, ele não vai aguentar.
18:30E acho que essa é uma pergunta que você, de fato, achou que
18:33por vários dias, mais de um mês, que ele fosse morrer, né?
18:37A gente achou, assim, não é uma constante, mas ele chegou em momentos que falasse,
18:42olha, eu acho que o momento mais grave dele foi aquela vez que ele precisava dialisar
18:47e ele não tava aguentando diálise.
18:50A gente falava, não tem pra onde correr, porque se não dialisar...
18:52Ele vai morrer.
18:54E se dialisar, ele pode morrer na diálise.
18:56E esse dilema a gente enfrentou com vários pacientes.
18:59A gente perdeu alguns pacientes na diálise, ou alguns porque não conseguiram fazer.
19:04E a gente realmente preparou vocês.
19:06Porque a gente achou que nesse vai e vem...
19:08Teve essa conversa mesmo de a gente precisa...
19:10Porque a própria Fernanda direcionava essas definições com a gente.
19:16E...
19:17Olha, começa a preparar a família do João, porque a gente já fez de tudo e ele não responde.
19:23Então, assim...
19:24Começava a preparar, mas ele respondeu.
19:26Aí, opa, peraí.
19:27Vamos ver agora como é que vai ser agora.
19:29Depois que ele...
19:31Que ele deu essa melhorada.
19:32E lógico, ele melhorava num dia, às vezes piorava no outro.
19:34Era muito vai e vem.
19:37Querendo ou não, a gente precisava...
19:40Ele não estava respirando.
19:41Precisava que o tio da respirasse por ele.
19:44O pulmão dele ficou muito ruim.
19:46Não tinha como...
19:49O pulmão melhorar da noite para o dia.
19:51Precisava de muito tempo.
19:52Só que, enquanto isso, ele precisava respirar.
19:54Esse era o grande drama.
19:56E era uma apreensão da família da Ana do Senhor.
19:58Teve algumas vezes, né?
19:59A família do Senhor era muito presente, mas sempre corjal, sempre educada.
20:06Às vezes, abalada emocionalmente, que é totalmente esperada.
20:09Muitas vezes.
20:10É totalmente esperada, mas a família do Senhor não dava trabalho.
20:14Sim, o trabalho que eles davam é que queriam saber muita coisa, queriam sempre entrar.
20:18Mas isso é um trabalho bom, entendeu?
20:21Um trabalho bom.
20:22Muitas vezes, muitas vezes, muitas vezes.
20:24Mas lá em cima foi o período mais caótico.
20:26Quando ele desceu, era até uma coisa boa para ele, né?
20:30Normalmente, quando descia, é porque estava menos grave, estava mais crônico.
20:33Ficava lá em cima, enquanto estava pior.
20:35Depois que estabilizava, acabava descendo para outro setor.
20:38E aí renovava lá em cima os pacientes piores, assim, mais graves.
20:41E aí começaram sempre os piores, os piores, os piores, os piores.
20:44Sempre é forte, mas quase sempre.
20:46Eu lembro que quando eu entrei, acho que tinha um...
20:48Eu não olhei muito, porque eu falei, eu não vou nem olhar, porque eu não vou conseguir aguentar.
20:52Mas quando eu olhei, eu acho que eu vi, acho que meu pai no canto, acho que tinha mais uns
20:55quatro, entubado também.
20:57Então, se era muita gente, totalmente entubado, sedado, doado ali.
21:03E eu falei, gente, eu não consigo nem olhar para isso aqui.
21:06Eu até te perguntei, eu falei, como que você está aguentando, Gustavo?
21:10Foi fácil, não.
21:11Foi fácil, não.
21:12Tem que aguentar.
21:15Agora eu quero relembrar, pode?
21:18Eu quero relembrar e pegar um gancho aí que o doutor falou que ia deixar para a família.
21:23Sobre fé.
21:25Fé, a pessoa ter fé, acreditar na fé.
21:28Quero até falar com a equipe da TV Gazeta.
21:31Teve um jornalismo, não.
21:32Teve um jornal no convento da PEN e lá tinha um médico falando que a fé ajuda curar.
21:39E eu acredito.
21:39Eu acredito que eu dobrei meu joelho e falei, agora eu não morro mais.
21:44Depois que aconteceu aquilo que eu falei.
21:46Então, eu não sei se vocês lembram, se não lembraram disso aí.
21:49Eu assisti a jornal.
21:51Assisto muito jornal.
21:52A televisão só tem um tempinho para assistir o jornal e nem todo ele compreendo.
21:56Mas, eu boto muita fé em mim e em Deus, né?
22:00E no meu coração que leva aquela fé verdadeira, entendeu?
22:04Deus me ajuda muito.
22:05Todos os momentos que eu acho que está mais difícil,
22:08Olha, eu falo com Deus em tudo quanto é lugar que eu estou.
22:10Dentro do meu carro, você vai ver eu falando com Deus.
22:12Às vezes eu estou conversando e falo,
22:13Bicho, deve ser louco como eu estou falando com Deus.
22:16Estou falando com Deus.
22:17Então, a minha fé é que ajudou a me trazer aqui.
22:19E Deus colocou os anjos que é vocês na minha vida.
22:22Isso foi muito importante, muito gratificante para mim.
22:25Sou muito feliz, né?
22:27Muito, muito feliz.
22:28E eu estar aqui de volta no Jair, né?
22:32Todo renovado, né?
22:33Quando diz a turma lá do bairro, novinho de novo, né?
22:36Eu fico muito feliz de estar passando isso aqui e de volta aqui só para gratidão, né?
22:41Deus do funcionário, do atendimento até o médico, né?
22:44Está aqui do nosso lado o doutor Gustavo, o doutor Fabiano.
22:48Acordei com o doutor Fabiano, né?
22:50O doutor Edinho, que era do UPA, que me mandou para cá.
22:53Então, é só gratidão a vocês que Deus continua abençoando com muita saúde.
22:59Estica, estica a nossa vida, que viver é muito bom, né?
23:01Eu amo a vida, tem que valorizar a vida.
23:03A cada minuto da vida da gente é importante demais.
23:06O que a gente gosta de fazer, não deixa para amanhã.
23:08Sempre eu gosto de fazer aquilo que na hora eu quero fazer.
23:11Me pede uma coisa, vamos resolver, faz na hora.
23:14Que às vezes, daí a pouco, chega outro problema e você esquece de que ele fica para trás.
23:17Então, esse é um lembrete com Deus no coração, muito importante.
23:23A fé é muito, muito, muito gratificante.
23:27Então, é só agradecer, gente.
23:29A gratidão para mim, eu tinha arrumado um compositor que seria música para o meu ouvido.
23:33Arrumado, uma música todinha para o meu ouvido, ouvir ela o tempo todo, né?
23:37E aproveitar por esse momento também e agradecer todos os partores, todas as igrejas
23:42que foram para frente da minha casa, antes e depois.
23:46Foi difícil, eles mantém eu num quarto lá e a multidão não invadir.
23:51Mas teve uma igreja que subiu na minha casa, não aguentou não.
23:55Subiu e foi, me apartaram e eu como nunca.
23:59Me retiraram um pouco e foram orar para mim.
24:03Então, só tenho a agradecer isso aí.
24:05E essa gratidão aí, o pessoal que imaginou e pensou bem de mim,
24:10tenho certeza que eu estava falando com Deus também.
24:12Então, eu quero agradecer a todo mundo e esse pedido de oração esticou,
24:17porque eu tenho muita gente fora do Brasil e não foi só o Brasil, não.
24:21Tem parentes que eu não conheço que me achou, isso é muito importante.
24:24Eu espero que um dia eu chego lá.
24:25É longe, mas não tem nada que é impossível.
24:27Quando a gente quer, a gente consegue, né?
24:29Deus é muito bom.
24:30E agradecer a equipe da TV Gazeta que deu essa chance, essa oportunidade.
24:34Obrigado a cada um de vocês.
24:36Eu queria quebrar o protocolo, chamar a Cristina aqui na frente.
24:42Mas calma, você está muito ansioso.
24:44Eu queria quebrar o protocolo um pouco.
24:45Gente que me ajudou.
24:46Acho que o primeiro...
24:47Eu queria perguntar para o senhor o que faltou, então, para a gente finalizar a entrevista.
24:50O que o senhor não pode fazer com o grupo, por exemplo, com a sua participação?
24:53O que ela não pode fazer alguma vez?
24:54Vou tomar um abraço, não?
24:56Não, sem dúvida.
24:57Um abraço a ele, então.
25:16Sem dúvida.
25:17Com certeza.
25:18Eu até tentei te procurar no Instagram, porque eu queria muito mostrar que ele sobreviveu.
25:23Eu sabia.
25:23Mas eu não consegui.
25:26Eu não consegui.
25:27Vou.
25:28Inclusive, se der mole, na conversa com ela, eu devo ter uma selfie.
25:32Eu devo ter uma foto dele.
25:33Você me...
25:36Nossa, quanto tempo eu não falo com a Fernanda.
25:39Assim, eu fiquei muito feliz, né?
25:41Porque na época que ele estava na...
25:43Que ele se colocou no UFA...
25:44Eu não falo com a Fernanda desde 2022.
25:47Você tem que começar a saúde em 2022?
25:49Eu tenho de...
25:50De 2015.
25:51Meu Deus.
25:53O que faltou, o que eu falei, né?
25:54O que faltou, o senhor?
25:55Um abraço.
25:56Um abraço.
25:57Você tem que agradecer ao doutor por tudo que o senhor fez para mim e para minha família.
26:00Que Deus continue.
26:02Eu estou feliz.