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  • há 5 semanas
Um texto sobre a autoficção

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Transcrição
00:01Ponto de travessia. Esse é um texto sobre a nossa autoficção. O que é verdade e o que é invenção?
00:11Pousamos agora em Brasília. O caderno é novo e a lapiseira legítima. O avião anda como fazem os
00:19carros no asfalto, curvando lentamente, procurando uma vaga na pista. Eu voei até aqui para descobrir
00:26o que eu não sei ainda. Coisas misteriosas sobre minha própria vida. Eu que caminho pelo
00:32meio, ora na coxia, outra no picadeiro, no movimento entre o saber e o não saber. Ciente somente
00:39de que toda forma de dança pede equilíbrio. Na maior parte do tempo, contudo, admito, sigo
00:46sem ciência mesmo, tendo como guia apenas a bússola cardíaca. Por sorte, para essa aventura
00:53eu tenho comigo um par valoroso de amigas. A gente veio juntas descobrir, cada uma, o
00:59seu ponto de travessia. É isso. Estamos agora na estrada para Alto Paraíso.
01:06Quatro dias se passaram. Estamos agora de partida. O avião desliza na pista para decolagem,
01:12como só os aviões mesmo. Voltamos do paraíso com joias preciosas. Corpos, mentes e malas
01:18repletas delas. São pequenos portais de acesso que trazemos como amuletos e recordações
01:24dessa busca vivida. A jornada não finda, mas o recorte da comunhão com a vida de nossas
01:30vidas e de uma com as outras, sobre o maior cristal do planeta, merece sim uma pausa reflexiva.
01:37Algumas verdades são míticas. Ou seja, não toda ela é verdade, posto que assombra ainda.
01:45De tudo mais, o recorte principal diz sobre isso. Estou aprendendo a receber insights.
01:56Perceba, receber é a ação de se fazer recipiente, de se esvaziar, de saber sustentar o vazio.
02:06E como pode ser curativo esvaziar-se de achismos, de certezas, de apegos, de compromissos com
02:12velhos padrões de pensamentos, de sentimentos. Somos todos recipientes com entupimentos.
02:20E o nosso trabalho por aqui é desobstruí-los, operar a limpeza ou o esvaziamento.
02:27Porque é fundamental limpar para receber. Não é isso que fazemos quando a gente vai receber uma visita?
02:34A gente limpa a casa, bate os tapetes, abre as janelas, areja os cômodos.
02:39É, a força da vida é exatamente essa visita.
02:43Só que constante e poderosíssima.
02:46Mas para fluir através de nós como um sistema vivo,
02:49nossos canos precisam estar limpos, desobstruídos.
02:54Acessar as pedras, os entulhos, cortas, galhos, dores, traumas ou memórias que bloqueiam o fluxo
03:00é a chave que abre a porta e ilumina o caos, o nó, a ferida.
03:06E só então começa a limpeza.
03:08O desapego é necessário para a gente deixar rolar essas pedras, esses pesos, engodos, fantasias.
03:16As invenções e as mentiras que contamos para nós mesmas.
03:20Para darmos contas das dores vividas.
03:23A gente precisa aprender a perder aquilo de que a gente não precisa mais.
03:29Mas perder não é simples.
03:31Porque a gente sempre inventa meios de achá-los outra vez.
03:35Achar caminho de volta para a nossa ficção, para a nossa invenção, para a nossa mentira.
03:43Bom, abrindo o coração, a minha mentira fundamental, por exemplo,
03:47é uma fantasia de que eu nunca fui amada o suficiente.
03:51Mentira essa que eu venho contando para mim mesma e para cada átomo e cada célula do meu corpo
03:56desde as primeiras dores da primeira infância.
03:58Uma invenção que bem pode ter surgido com um não acidental proferido pelo meu pai.
04:03Ou pelo ciúme sentido quando minha mãe chegou da maternidade com meu irmão, por exemplo.
04:08A teoria atômica sobre o desamparo também pode ter sido criada pelo fato
04:12dos meus pais terem sempre sido apaixonados pelos seus próprios trabalhos
04:16e devotos às suas próprias vidas.
04:19Exatamente como eu sou agora.
04:23Enfim, as dores, os galhos e pedrinhas que bloqueiam o fluxo
04:27podem ter vindo de inúmeras fontes durante a minha infância.
04:30Mas a verdade é só uma.
04:32É tudo mentira.
04:33Ou invenção, como você preferir.
04:37Eu fui muito amada.
04:39Aliás, eu nasci num ninho de amor, com muita música, festa, perfume, banho de banheira,
04:45trapalhões aos domingos, passeios nas montanhas, casa de avós, cheias de primos,
04:51um irmão aventureiro e engraçadíssimo, um pai genial de palito a gravata
04:55e uma mãe linda, mística, poderosa, artista, piloto de carros esportivos,
05:00tenista, empresária, galerista, corajosa e muito amorosa.
05:04Eu fui muito amada.
05:06Todo o resto é entupimento.
05:08Todo o resto é fantasia.
05:11E é dessa fantasia que eu me liberto.
05:14Ou atravesso um pouco mais a cada dia.
05:18Atravesso a autoficção, liberando as cordas da invenção
05:22pra espaçar a teia, pra deixar respirar essa malha,
05:27pra deixar fluir e receber, enfim, mais graça e mais vida na própria vida.
05:35Eu vou te dar um pouco mais a cada dia.
06:01Uh-huh.
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