00:00Na coluna Olhar Espacial de hoje, Marcelo Zurita explica
00:04por que o asteroide Eros pode se tornar uma ameaça para a Terra no futuro.
00:11Então, vamos com ele, Marcelo Zurita.
00:23Olá, pessoal! Saudações astronômicas.
00:26Imagine uma rocha espacial gigantesca que passa perto, mas a uma distância segura da Terra.
00:32Só que um dia, ela pode sofrer um desvio de sua trajetória e ser colocada em rota de colisão com
00:37o nosso planeta.
00:37Um possível impacto com potencial para extinguir boa parte da vida por aqui.
00:41O que parece um roteiro de filme de ficção é, na verdade, um futuro possível de Eros,
00:46o segundo asteroide da série sobre esses pequenos corpos que passam próximos ao nosso planeta.
00:51Mas se você é da galerinha do apocalipse, não precisa nem separar uma roupa para o fim do mundo,
00:57porque a possibilidade de Eros atingir a Terra é remotíssima e apenas em um futuro muito distante.
01:03Com aproximadamente 34 quilômetros de comprimento,
01:06Eros foi o primeiro objeto da categoria dos chamados Nils a ser descoberto.
01:10Os Nils, ou Near Earth Objects, são asteroides e cometas cujas órbitas passam relativamente próximas à órbita da Terra.
01:17Hoje conhecemos milhares deles, mas no final do século XIX nem sabíamos que eles existiam.
01:23Essa descoberta aconteceu em 13 de agosto de 1898.
01:28Curiosamente, ela ocorreu quase que simultaneamente em dois observatórios diferentes.
01:33O astrônomo alemão Carl Gustav Witts, trabalhando em Berlim, foi o primeiro a anunciar oficialmente a descoberta.
01:39Pouco tempo depois, verificou-se que o astrônomo francês Auguste Chaloa
01:44também havia registrado o objeto na mesma noite.
01:47O novo corpo celeste recebeu o nome de Eros, o deus grego do amor e do desejo, filho de Ares
01:53e Afrodite.
01:54O nome masculino quebrou uma tradição de dar aos asteroides nomes de personagens mitológicos femininos,
01:59mas aquele também era um objeto diferente.
02:02Enquanto a maioria dos asteroides se encontra no cinturão principal,
02:06entre Marte e Júpiter, Eros percorre uma órbita bastante alongada que se aproxima da Terra.
02:12Embora ele não cruze atualmente a órbita do nosso planeta,
02:16aproxima-se o suficiente para ser classificado como um asteroide próximo à Terra.
02:20Essa proximidade, inclusive, permitiu uma medição precisa de sua paralaxe
02:24durante as aproximações de 1900 e 1931.
02:29A partir da paralaxe de Eros, a distância da Terra ao Sol foi calculada com uma precisão
02:33que só foi superada em 1968 com o desenvolvimento de novas tecnologias de medição astronômica.
02:41Fisicamente, Eros também é um objeto fascinante.
02:44Sua forma alongada se assemelha a uma cela,
02:47um objeto maciço com 7 trilhões de toneladas de massa,
02:5134 quilômetros de comprimento e 11 quilômetros de largura.
02:55Tão grande que ocuparia toda a Baía de Guanabara
02:59e, mesmo deitado, ainda seria mais alto que o Everest.
03:03As observações realizadas ao longo de mais de um século
03:06revelaram que Eros é um asteroide predominantemente rochoso,
03:10pertencente à classe espectral US.
03:12Isso significa que sua composição é rica em silicatos e minerais,
03:16além de metais como ferro e níquel.
03:18Estudos espectrométricos da superfície
03:21indicam que Eros tem uma composição mineralógica
03:23similar aos meteoritos-condritos ordinários,
03:26do tipo L ou LL.
03:28Isso não significa necessariamente que Eros seja a fonte direta desses meteoritos,
03:33mas reforça a ideia de que muitos deles
03:35podem ter se originado em asteroides semelhantes a ele.
03:38As características únicas de Eros
03:40fizeram dele um alvo preferencial para a primeira missão espacial
03:44a orbitar um asteroide.
03:46Um feito alcançado pela sonda Nier Shoemaker em fevereiro do ano 2000.
03:51O nome da missão homenageava Eugene Shoemaker,
03:54um dos maiores especialistas em impactos cósmicos
03:57e um dos pioneiros da ciência planetária moderna.
04:00Durante quase um ano, a sonda estudou Eros em detalhes sem precedentes.
04:04Ela mapeou sua superfície, analisou sua composição química,
04:08mediu seu campo gravitacional e registrou mais de 160 mil imagens.
04:13Os cientistas descobriram uma paisagem coberta por crateras,
04:17blocos rochosos gigantescos e uma camada de regolito
04:20formada pela fragmentação contínua das rochas ao longo de milhões de anos.
04:25A missão também produziu uma das maiores surpresas da exploração espacial.
04:29Em fevereiro de 2001, após concluir seus objetivos principais,
04:34a NASA decidiu tentar algo que originalmente não estava previsto,
04:38pousar a sonda na superfície do asteroide.
04:41Apesar de não ter sido projetada para isso,
04:44a Nier Shoemaker realizou uma descida controlada
04:46e pousou com sucesso em Eros,
04:48tornando-se a primeira espaçonave a pousar suavemente sobre um asteroide.
04:53As informações coletadas pela missão,
04:55além de apontar a possível relação entre asteroides do tipo S
04:58e alguns condritos encontrados na Terra,
05:01mostraram que esses pequenos corpos também podem ser mundos complexos
05:04com geologia própria e uma história dinâmica de colisões e transformações.
05:09Mas Eros ainda nos guardava uma surpresa em outro campo de pesquisa,
05:13a da defesa planetária.
05:15Atualmente, sua órbita não representa nenhum risco de colisão com a Terra.
05:19As previsões para os próximos milhares de anos mostram que não existe ameaça conhecida de impacto.
05:25No entanto, quando estudamos a evolução orbital em escala de milhões de anos,
05:29a situação se torna mais interessante.
05:32Apesar de ser um asteroide próximo, ele não cruza a órbita do nosso planeta,
05:37mas cruza a órbita de Marte,
05:39e isso significa que o planeta vermelho pode provocar pequenas alterações
05:43na sua trajetória a cada aproximação.
05:45Nada muito significativo a curto prazo,
05:47mas estudos da evolução orbital do asteroide
05:50mostram que, no futuro muito distante,
05:53Eros pode se tornar um Earth Crosser,
05:55ou seja, um objeto que cruza a órbita terrestre.
05:59Isso não seria uma situação muito agradável,
06:01tendo em vista que Eros é cerca de seis vezes maior
06:04do que o asteroide que provocou a extinção dos dinossauros.
06:07Felizmente, isso não ocorreria antes de pelo menos dois milhões de anos,
06:11tempo suficiente para escolhermos uma boa roupa para o fim do mundo.
06:14Asteroides são assim, objetos extremamente dinâmicos,
06:18com órbitas que podem sofrer alterações significativas ao longo do tempo.
06:22Por isso, movimentos como Asteroid Day
06:24procuram conscientizar o público sobre a importância de monitorar e estudar esses corpos,
06:29mesmo aqueles que não representem uma ameaça imediata.
06:32O Universo já nos ensinou que a vida na Terra
06:35é uma dádiva extremamente rara e frágil.
06:38Por isso, se quisermos continuar explorando a imensidão do cosmos,
06:42precisamos também voltar a nossa atenção para esses pequenos corpos
06:45que passam silenciosamente pela vizinhança.
06:48Porque um dia, um deles pode cruzar o nosso caminho
06:52e é bom estarmos preparados para isso.
06:55Bons céus a todos e até a próxima!
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