00:00Vamos lá, entrevista, dona Ruth Fiusa, mãe de David Fiusa.
00:04Dona Ruth, mais uma audiência de instrução, 12 anos que seu filho desapareceu.
00:10Qual o sentimento ao longo desses 12 anos e até agora a senhora sem resposta?
00:16Primeiramente, muito obrigada por vocês, por esse apoio da imprensa que é fundamental.
00:21E tem sido assim 12 anos, quase 12 anos já.
00:24É essa busca por respostas que a gente não tem.
00:28E já é a quarta audiência.
00:31E audiência de instrução que somente 12, quase 12 anos depois, começa a ter as audiências.
00:38E a sensação que eu tenho é que isso acontece de forma proposital,
00:42para poder a gente esquecer, cair no esquecimento das pessoas, né?
00:46E a gente não lutar, porque eles acham que há apazigo a mais, há dor e que a mãe vai
00:53esquecer.
00:54Na verdade, não há esquecimento.
00:57A única coisa que eu desejo de verdade é poder dar um funeral digno ao meu filho.
01:02Meu filho foi digno em vida.
01:04Ele só não teve dignidade na hora da morte, porque não deram a ele.
01:08E o mais difícil é porque as pessoas geralmente enterram seus mortos.
01:13Eu não enterrei o meu.
01:14Eu não sei onde está o meu morto.
01:17É o mais difícil.
01:19A sensação da impunidade e a certeza.
01:22Eu tenho certeza da impunidade.
01:24A certeza.
01:25E quem faz isso também tem a certeza absoluta.
01:28E quando tem um caso como esse, que já tem 12 anos,
01:31a gente sabe que a impunidade, ela reina.
01:34Ela reina.
01:34Quando é para as pessoas negras nesse país, que nós sabemos que a barbárie que o povo negro sofre,
01:41que as pessoas pretas sofrem.
01:44O tempo todo.
01:46E o tempo todo também tem a questão do Estado através da sua polícia,
01:51principalmente a polícia militar.
01:53Nós sabemos que o Estado se protege, ele se autoprotege.
02:00E levar policiais militares para serem julgados pelo próprio Estado,
02:04e a gente esperando que isso ocorra e que haja uma justiça,
02:08é meio paradoxal para mim, sabe?
02:11Mas eu tenho encontrado muitas forças,
02:14muita força nas pessoas, nos movimentos sociais,
02:17nos amigos e também no meu filho.
02:20Ele tem me dado muita força para que eu continue a lutar.
02:23Porque foi injusto.
02:24Ao longo desses 12 anos, foi que a senhora teve,
02:26quando a senhora buscou polícia militar,
02:28secretaria de segurança pública, as autoridades,
02:31foi que a senhora teve de explicação sobre o que aconteceu?
02:34Em primeiro momento, na época o secretário, era o Maurício Barbosa,
02:39disse que ia me receber, mas...
02:41Enfim, não me recebeu.
02:43Assim também como na época o governador era Jacques Wagner,
02:46que ele, eu não vou dizer que ele é mentiroso,
02:48porque minha família me deu a educação.
02:50Eu jamais ia chamar ele de mentiroso e qualquer outra pessoa,
02:52mas ele disse à imprensa que ele me recebeu.
02:56Ele nunca me recebeu.
02:58E também a questão não é ser recebida por eles.
03:01A questão é que a gente precisa de uma resposta, sabe?
03:04Isso tudo, a gente precisa encerrar um ciclo.
03:07E esse ciclo já está cansativo.
03:09Então, a gente quer finalizar tudo isso,
03:12mas de uma forma digna, com dignidade.
03:14E nesse caso, a dignidade é o júri popular.
03:17Meu clamor é o júri popular.
03:20Eles explicaram o que foi que aconteceu no momento que eles levaram o seu filho,
03:24por que levaram o seu filho?
03:26Não, nunca houve a explicação oficial.
03:31Porém, no inquérito da DHPP, que fez um trabalho brilhante, a DHPP,
03:36com o Ministério Público,
03:41tem GPS, inclusive indo para o quartel.
03:46Só que esses GPS não saem mais do quartel.
03:48Eu lembro muito do caso Jurandir,
03:50do caso Geovane e Mascarenhas,
03:52que as viaturas também entraram no quartel e não saíram.
03:56E a gente sabe o que aconteceu com Geovane e Mascarenhas.
03:59E também são 12 anos.
04:01E as provas são muito robustas.
04:04E um fato contraditório agora é que a principal testemunha
04:07nega tudo o que ela confirmou durante 11 anos.
04:11Ela reconheceu os policiais,
04:12ela reconhece o momento, ela reconhece tudo.
04:14E ela está sob proteção do Provita.
04:17Então, a gente entende também que ela também está sendo coagida.
04:20Ela também tem os motivos dela.
04:23Ela também quer voltar a ter uma vida normal,
04:25se é que vai um dia.
04:26Alguém que está nisso vai voltar a ter uma vida normal.
04:30E é muito complicada a situação, sabe?
04:32Quando a testemunha principal, a testemunha ocular,
04:35e ela muda e não reconhece mais os policiais.
04:38Mas as provas estão aí.
04:39Os GPS estão aí, o inquérito está aí,
04:42o Ministério Público, inclusive, está aqui hoje.
04:45Cabe agora à Justiça.
04:47Uma senhora que tem os olhos vedados.
04:49Eu espero que ela hoje consiga tirar os olhos.
04:51A venda dos olhos, né?
04:55Vou fazer a mesma pergunta para a senhora, tá?
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