00:00Domingo é dia de tirar a toga. Eu fiz a minha caminhada matinal e passei pelo supermercado.
00:08Caminhando entre as gôndolas, eu fui abordada insistentemente por uma senhora que queria informações sobre os produtos e sobre a
00:17localização dos produtos.
00:19Para ela, era lógico que eu trabalhava ali e que eu estava ali para servi-la.
00:26Mas essa senhora não cometeu nenhum ato racista. Ela agiu pela lógica.
00:34Pela lógica que o senso comum brasileiro internalizou o lugar natural do preto. É o serviço.
00:43A lógica diz, preto não ocupa espaços de poder. Preto não é juiz, preto não é desembargador.
00:52Os pretos brasileiros não estão nos tribunais superiores. Basta ver. E a mulher negra menos ainda.
01:04Eu, desembargadora, sem a toga, sou apenas mais um corpo preto que a razão brasileira insiste em enxergar como serviçal.
01:18O problema não é aquela mulher no supermercado. É a lógica que ela, sem saber, reproduz.
01:28Uma lógica que precisa ser desmontada. Um domingo de cada vez.
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