00:00E como hoje é quarta-feira, já chegou a hora da nossa coluna Olhar do Amanhã.
00:17E vamos receber ao vivo o doutor Álvaro Machado Dias, professor da Unifesp, neurocientista, futurista e colunista aqui do Olhar
00:27Digital.
00:27Vamos lá, deixa eu receber o doutor Álvaro Machado.
00:30Olá, doutor Álvaro Machado Dias, muitíssimo boa noite, seja bem-vindo.
00:36Muito obrigado, Marisa.
00:38Doutor Álvaro, temos assuntos bem interessantes por aqui hoje.
00:42Vamos falar agora, nesse comecinho, sobre saúde.
00:46Mais especificamente, sobre terapias com célula-tronco reprogramadas.
00:52Queria que você falasse também um pouquinho do que é essa reprogramadas.
00:56O Japão está dando os primeiros passos para o uso desses tratamentos contra Parkinson e também insuficiência cardíaca.
01:05Como essas alternativas funcionam e como podem revolucionar a luta contra essas doenças, doutor Álvaro?
01:12Claro, é o seguinte.
01:14Células-tronco surgiram do ponto de vista exploratório a partir da extração de embriões.
01:22Isso gerou uma controvérsia muito grande e a técnica começou a cair em desuso.
01:28Depois surgiu uma nova metodologia que garantiu o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 2012,
01:35com células-tronco-bluripotentes que são extraídas do sangue ou da pele de doadores saudáveis.
01:40Como funciona no caso da doença de Parkinson?
01:43Nessa doença, os neurônios dopaminérgicos, que estão numa região chamada gânglios da base,
01:48especificamente no putâmen, mas também em outras partes desses gânglios,
01:52que são núcleos de processamento de recompensas, comportamento motor, emoções e muitas outras coisas,
02:01eles vão morrendo.
02:02Existe uma proteína que entra por dentro das células e acaba matando esses neurônios.
02:08E o que acontece?
02:11As células extraídas do sangue dos doadores saudáveis são convertidas originalmente em estados quase embrionários,
02:18ou seja, estamos aí no terreno das células-tronco.
02:21Depois elas são transformadas em precursores desses neurônios dopaminérgicos.
02:25Então, a neurocirurgia acontece.
02:28E através de umas cânulas muito finas, guiadas por ressonância magnética funcional,
02:32os pacientes têm introjetados lá no putâmen as células que vão amadurecer e se tornar neurônios dopaminérgicos plenos,
02:43vão se conectar a todas as outras e restabelecer a homeostase, ou seja, o equilíbrio do organismo.
02:48E com isso vão trazer uma melhora clínica.
02:52Esse é o raciocínio do que está acontecendo.
02:56Significa a cura da doença de Parkinson?
02:58Não. Por quê? Porque essa proteína tóxica, ela infelizmente continua invadindo as células
03:04e eventualmente ela pode até matar esses novos neurônios.
03:07Mas a janela temporal para isso é muito maior.
03:09A perspectiva de redução drástica no consumo da medicação, eventualmente até no seu abandono.
03:16Tem todo um histórico importante clínico que mostra que também há chances
03:23de você ter uma proliferação desordenada, em outras palavras, câncer a partir disso.
03:28É muito baixa.
03:29Então, assim, tratamento seguro que tende a melhorar muito a qualidade de vida.
03:33No caso de insuficiência cardíaca grave é muito parecido.
03:36Só que, na verdade, são folhas musculares que são colocadas em volta do coração
03:42e essas células-tronco vão gerar, a partir desse processamento que acontece fora do corpo,
03:51um aumento da conectividade circulatória.
03:56Então, um aumento de circulação, irrigação sanguínea, enfim, um reestabelecimento também do equilíbrio do órgão.
04:03Então, esse é o princípio e é isso que eu vejo que está cada vez mais acontecendo na medicina.
04:09É uma tentativa de pessoas muito capazes, grupos, muitas vezes estados inteiros,
04:18de sair do registro da medicação, que é aquele da continuidade,
04:23é tipo um software que você tem que pagar mensalmente para manter o uso,
04:26para algo que seja um pouco mais próximo do definitivo,
04:31que você tenha procedimentos mais pontuais, sobretudo de baixo risco.
04:36Agora, doutor Álvaro, o mercado global de células-tronco está em rápida expansão até com outros estudos também.
04:44Quais podem ser os impactos dessas novas terapias no mercado de saúde e, claro, também para os pacientes?
04:51Para mim, o principal impacto no mercado de saúde é o surgimento de empresas multibilionárias
04:57baseadas em grandes laboratórios de biologia molecular
05:02que vão na contramão de dois movimentos muito fortes hoje em dia.
05:06O primeiro desses movimentos é o da indústria farmacêutica
05:09com medicações que a pessoa toma ao longo de toda a sua vida.
05:13Doenças crônicas têm essa característica.
05:15E o segundo é esse das neuropróteses, do Elon Musk e outros mais,
05:21exoesqueletos e tudo isso.
05:23Todas essas coisas, geringonças, parafernálias que a gente instala na gente,
05:28são antinaturais.
05:30Óbvio que elas estão simplesmente representando procedimentos intermediários
05:33em relação a formas muito mais orgânicas, muito mais naturais de restabelecimento da saúde.
05:39Então eu vejo esses tratamentos puramente biológicos nesse sentido.
05:43E tem um outro, Marisa, que eu acho que é bem legal, bem poderoso de se pensar,
05:47que é o seguinte, os tratamentos tradicionais estão baseados numa espécie de atomismo.
05:52Eu preciso quebrar o circuito em muitas partes, entender como cada coisa funciona.
05:57Aí eu tento, a partir de um raciocínio clínico baseado em replicação em laboratório,
06:02juntar as pecinhas numa ordem certa para que tudo funcione.
06:05Quando eu ponho células precursoras de neurônios dopaminérgicos
06:10oriundas de células-tronco pluripotentes dentro do putâmen de um paciente,
06:17eu estou simplesmente contando com a capacidade de reestabelecimento do equilíbrio
06:21desse cérebro, desse paciente.
06:24Não tem muito o que eu possa fazer.
06:26Você entende a diferença?
06:27Esse controle que marca a ciência contemporânea é muito menor nesses tratamentos biológicos.
06:33E eu, aliás, acho que esse é um dos fatores, porque eles demoraram tanto para visejar.
06:38A gente tem essa coisa, né?
06:40Se eu não conhecer exatamente como funciona, não funciona.
06:44Mas essa é uma grande mentira.
06:45O fato é que a gente tem muito menos conhecimento sobre como, por exemplo, o cérebro,
06:50ou mesmo o coração, estabelecem os aspectos mais finos da homeostase,
06:55do que a gente tem capacidade de testar técnicas, fórmulas e assim por diante,
06:59e simplesmente conferir que funcionam ou não.
07:02Está aí a grande questão.
07:04Agora, doutor Álvaro, diante de tudo isso, como que está o Brasil, né?
07:08Como nós estamos nesse cenário com essa evolução desses novos estudos
07:14e dessas novas técnicas?
07:17Eu vou responder emendando na questão anterior, que eu não falei dos pacientes.
07:20Eu acho que tudo isso aponta para um futuro muito melhor, tá?
07:23Prognósticos melhores.
07:25Eu acho que isso, do ponto de vista de custo-benefício, também aponta para situações
07:29que originalmente vão ser bem menos favoráveis,
07:31porque essas neurocirurgias, cirurgias cardíacas e assim por diante, são muito caras,
07:35mas no futuro vão ficar mais baratas,
07:37e a necessidade de você ficar comprando a medicação todo mês tende a se reduzir.
07:41Então, eu acho que, assim, é uma excelente notícia para os pacientes.
07:45Como que isso se manifesta no Brasil?
07:48O Brasil tem uma grande tradição, grande tradição, de biologia molecular e também de neurocirurgia e cirurgia cardíaca.
07:58É um país com gente excelente.
08:00Muita gente vem de fora para se tratar no Brasil.
08:02Nossos laboratórios, por exemplo, na USP, na UNIFESP, na Escola Paulista de Medicina,
08:11na Federal do Rio Grande do Sul, na Federal do Rio de Janeiro, de Minas Gerais,
08:16e muitas outras universidades de ponta são excelentes.
08:20Então, assim, a gente realmente é muito preparado nessa área, tá?
08:23Muito mais do que em algumas outras.
08:26O Brasil se destaca nisso.
08:28Os hospitais brasileiros de ponta são hospitais de destaque.
08:31Tudo isso é uma grande verdade.
08:33Qual que é a grande questão?
08:34É que não basta você ter gente competente, pesquisa na universidade e assim por diante.
08:40Para você atender em volume a população,
08:43é necessário que a gente tenha, por exemplo, grandes centros
08:47para extração e processamento de células-tronco
08:50e conversão nas células de interesse para as cirurgias das mais variadas.
08:54Essa estrutura que a gente poderia equiparar
08:58a infraestrutura da inteligência artificial com seus servidores,
09:02matriz elétrica, etc e tal,
09:04ela está ausente do Brasil.
09:06Então, a gente vive uma situação que é assim, potencial a gente tem,
09:11mas perspectiva real de implementação de um parque tecnológico
09:14voltado às ciências médicas
09:15para a gente fazer a virada junto com, por exemplo, o Japão e outros expoentes,
09:20a gente ainda não tem.
09:21E talvez não venha a ter.
09:22Porque isso depende, acima de tudo, de vontade política.
09:26Vontade política em nível federal,
09:28vontade política em nível estadual,
09:30vontade política em nível municipal,
09:33vontade política do ponto de vista das universidades,
09:36dos sistemas de saúde,
09:37tudo isso está nas várias esferas.
09:38Não é vontade política em um ente só,
09:41muito pelo contrário.
09:42É um desenho de política pública e também privada
09:47que beneficie, premie quem está atuando nessa visão
09:50que é muito mais longoprazista do que é a tradicional farmacológica.
09:54Está aí o grande desafio.
09:56Agora, isso significa que, então, o Brasil está fora dessa jogada?
10:00Não necessariamente,
10:01porque é provável que haja, do ponto de vista global,
10:04uma redução de custos nos procedimentos.
10:07O que significa que, mesmo que a gente não domine o processo completamente,
10:12a própria importação de insumos se torne viável em alguns casos
10:17e, eventualmente, esses casos se multipliquem tanto
10:19até isso se tornar bastante razoável.
10:22Vale notar que alguns medicamentos muito caros
10:25que não são feitos no Brasil são disponibilizados no SUS.
10:27Então, também não dá para ter uma visão totalmente negativa
10:30e pensar que o Brasil não tem condições de fazer isso agora
10:32ou não tem vontade política.
10:33Consequentemente, não vai acontecer.
10:34Quando as coisas melhoram no mundo, elas melhoram em todas as partes.
10:38Mas que, de fato, do ponto de vista da fronteira da ciência médica,
10:43especificamente no domínio das células-tronco,
10:45a gente não está na ponta porque a gente não tem parque
10:48para atender uma população gigantesca como a nossa,
10:50isso é fato.
10:52Pois é.
10:52Vamos torcer para que mude mais rapidamente,
10:54que as coisas se acelerem mais ainda.
10:56A vontade até tem mesmo muito entre os pesquisadores, não é?
10:59Vamos torcer para que caminhe mais rapidamente.
11:02Está aí a participação de doutor Álvaro Machado Dias,
11:05hoje falando sobre saúde aqui no nosso quadro Olhar da Manhã.
11:09Doutor Álvaro, até a próxima semana com mais assuntos.
11:12Tenha uma excelente semana.
11:14Você também e todo mundo que nos acompanhou.
11:16Até quarta que vem.
11:17Até.
11:18Boa noite.
11:19Está aí, doutor Álvaro Machado Dias,
11:22mais uma vez participando aqui conosco do quadro Olhar do Amanhã,
11:26trazendo esse cenário de boas expectativas para a saúde, não é?
11:30Quarta-feira que vem tem mais Olhar da Manhã para você.
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