00:00Dia 8 de março é celebrado o Dia Internacional da Mulher.
00:04E essa data serve para lembrar das mulheres rurais também,
00:09sobre a infraestrutura para a saúde daquelas que vivem no campo.
00:13Olha como a gente fala de tantos assuntos quando a gente passa pelos direitos das mulheres.
00:18Até pontos de fragilidade no acesso à saúde para trabalhadoras rurais.
00:23A reportagem é da Júlia Firmino.
00:26A ausência de unidades básicas de saúde ou postos de saúde da família em áreas rurais
00:33compromete o acesso das mulheres a exames de rotina, preventivos e orientações de saúde.
00:40Melissa Vieira, secretária de Mulheres da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais,
00:46Agricultores e Agricultoras Familiares,
00:49explica que a falta de estrutura para a saúde é um dos motivos do êxodo rural.
00:54Nem todos os municípios do Brasil na zona rural tem o PSF, tem a unidade básica de saúde.
01:03Muitas vezes, quando tem, não abre todos os dias.
01:07E quando não abre todos os dias, é uma vez na semana.
01:11E aí, muitas vezes, essa mulher precisa se deslocar para a cidade,
01:16para fazer o preventivo, ou outros exames, ou até mesmo passar pelo médico.
01:19É uma das pautas da CONTAG, da Marcha das Margaridas,
01:25porque a gente entende que, por fato, o campo ter uma estrutura mínima para essa mulher
01:32ir ao médico precisa ter um PSF, precisa ter um postinho.
01:37É, porque, como eu disse, muitas vezes tem que se deslocar para a cidade,
01:42para precisar fazer um preventivo.
01:44É, é muito, às vezes é muito difícil para as mulheres.
01:49No Brasil, 88% dos municípios têm menos de 50 mil habitantes
01:55e são predominantemente rurais, segundo o IBGE.
01:58Nessas localidades, a falta de saneamento básico ainda é uma grave realidade.
02:04Dados do Unicef e da ONU indicam que a proporção de meninas
02:08que vivem em domicílios sem água tratada
02:11é maior nas zonas rurais do que nas regiões urbanas.
02:15Alexandre Mota, presidente da Fundação Nacional da Saúde,
02:19ligada ao Ministério da Saúde,
02:21alerta para o impacto da falta de saneamento básico para mulheres.
02:25O saneamento tem gênero que, claramente, primeiro,
02:29são as mulheres que mais se preocupam com o saneamento.
02:33Porque, em geral, nas sociedades mais tradicionais e antigas,
02:40com uma mentalidade de, com menos avanços do ponto de vista tecnológico,
02:45do ponto de vista cultural, etc. e tal,
02:47a mulher acaba assumindo a responsabilidade de ser pessoas,
02:51mulheres e crianças, que vão até a beira do rio para pegar água,
02:56porque não tem água na torneira, etc.
02:58Então, tem que transportar água, isso é uma tarefa diária importante.
03:03É a mulher que fica em contato com essa água que ela coletou,
03:06porque ela vai ter que cozinhar, ela vai ter que lavar roupa, etc.
03:10Por conta das tarefas sociais distribuídas por essa sociedade.
03:15Então, a mulher é justamente a pessoa que mais se preocupa na casa
03:18em ter uma infraestrutura adequada para a água,
03:22porque isso muda a vida delas.
03:24Por isso, o acesso à água potável é o primeiro passo para a dignidade menstrual.
03:30O absorvente é uma coisa muito importante,
03:32mas, em geral, ele assume a centralidade do debate no espaço urbano,
03:38onde as pessoas, na maioria das vezes, já resolveram o primeiro problema,
03:43que é ter acesso à água.
03:45Então, eu não queria que as pessoas se centrassem no absorvente,
03:53esquecendo da água.
03:55Como se eu resolver o problema do absorvente,
03:57então eu resolvi todos os problemas, vamos todos para casa.
04:00Bom, para aquelas mulheres da cidade, que já estão com acesso à água,
04:05resolver o problema do absorvente, estamos resolvidos,
04:08e nós vamos para o próximo problema.
04:10Mas, para as mulheres do campo, não.
04:13Quando falta água potável, aumentam as chances de pobreza menstrual,
04:18em que mulheres jovens e adultas não conseguem ter acesso à higiene
04:22durante o ciclo menstrual, um assunto ainda tratado como tabu na sociedade.
04:27Quando a gente olha, muitas vezes, a falta de políticas públicas,
04:32e aí não só políticas públicas relacionadas à pobreza menstrual,
04:37mas à questão da educação, porque uma coisa agrava a outra.
04:41Se não tem uma política mínima de infraestrutura para que ela permaneça no campo,
04:47como saúde, provavelmente as outras também não vão ter.
04:51Então, acaba que essas mulheres jovens acabam saindo do campo mesmo,
04:57em busca de outra qualidade de vida, em busca de ter renda, de ter renda própria.
05:05Então, infelizmente, enquanto não chega no campo uma saúde de qualidade,
05:11um postinho que abre pelo menos uma vez na semana,
05:15uma educação de qualidade no campo e do campo,
05:19acaba que essas mulheres não enxergam o campo como espaço de vida.
05:23E o campo é um espaço de vida que deveria ter, no mínimo,
05:28uma estrutura para que essa mulher permaneça no campo.
05:31A construção de banheiros é uma das pautas centrais da FUNASA,
05:35olhando, inclusive, para a privacidade e a segurança de mulheres no campo.
05:40A melhoria de banheiros, água potável e saúde de qualidade nas zonas rurais
05:45também são reivindicações da Marcha das Margaridas,
05:48uma das maiores ações organizadas por mulheres rurais.
05:51O nome foi inspirado em Margarida Alves,
05:54líder sindical conhecida por defender os direitos dos trabalhadores rurais
05:59durante a ditadura militar e a primeira mulher
06:02a presidir o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, na Paraíba.
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