00:13Eu me lembro a gente entrando e as máquinas ali, as rotatórias, as rotativas, né?
00:37Lá no último andar tinha um piano que as primeiras vezes que eu estive em São Paulo, a gente ia
00:45lá, eu subia, ia lá para o andar, todo um galho pequeno, vindo tocando, eu ia chegando.
00:52Mas esse prédio, você lembra, era da Folha mesmo? Esse prédio que se tinha?
00:56Nós também.
01:04Naquele momento das jam sessions da Folha, o Buca era o maior sucesso. Ele arrepencava.
01:48O Jazz é uma escola de liberdade.
01:50Eu nasci depois do Jazz, quem sabe? Ou eu tomei consciência das coisas depois do Jazz.
01:59O Jazz é uma música do século XX que nasceu com o negro americano, frequentando as igrejas protestantes.
02:08E desses ritmos religiosos protestantes foi criado o gospel, o blues foi se sofisticando e o Jazz tem várias definições,
02:18mas eu acho que o Jazz é um canto à liberdade, entendeu?
02:22Por causa da improvisação. O Jazz é uma linguagem sofisticada. Se tornou sofisticada. No início, ele era puro lamento do
02:30negro tocando, botando para fora toda aquela dor dele.
02:34E é uma maneira de você se expressar, do músico se expressar. Eu não sei, eu não penso quando eu
02:40estou tocando. Vou deixar levando, vou deixo levando e vou tocando, vou tocando, vou tocando.
02:50Então tem toda uma história do Jazz, assim, que no momento que a gente está falando, chegou a São Paulo,
02:56assim, através de silvios bonitos, que tinham temas marcantes, discos de jazzistas, principalmente naquela época, o David Brubeck, o Jerry
03:05Mulligan, o Charlie Parker também, mas era mais o Jazz West Coast, que acabou influenciando a Bossa Nova.
03:12O Charlie Parker era muito difícil, era muito desvirtuosíssimo, então não tinha muito bimboca, era mais o Jazz Cool, né?
03:19Tinha um programa, acho que era meia-noite, estava morando em Recife e não sei como chegava às ondas curtas
03:26da Voice of America. Toda noite eu escutava jazz antes de eu escutar, antes de dormir.
03:32A parte musical de casa era o Booker Prima que fazia. Se o Booker Prima me colocava em casa, ela
03:38disse Gerald, Sarah Vaughan, era o que eu escutava em casa.
03:41Pelo lado da minha mãe, Elisete Cardoso.
03:44O cantor que eu vou trazer agora, representa muito na minha vida, porque ele é o responsável da minha primeira
03:52ida ao estrangeiro para trabalhar.
03:54Ah, se eu pudesse entender o que dizem os seus olhos.
04:15Na época eu trabalhava na boata do Dick Farne e ele tinha um grupo muito bom, que era o Heraldo
04:24Dumont, de guitarra, o Luiz Melo, pianista, o Luiz Chaves, que era o líder, baixista, o Rubinho, bateria, depois o
04:32Rubinho saiu, entrou o Nino.
04:35Eu tocava no Farnes Bar, que era do Dick Farne, aquele cantor da voz, Rossana, assim, grave.
04:43O lugar que eu tocava era perto da Baiuca, a Baiuca é lá na Praça Roosevelt.
04:48Então era assim, o ambiente do jazz era dentro das boates, no tudo, mas não tinha concertos.
04:55Meu pai me trazia, porque meu pai era um fã de jazz, uma noite no Clary de hotel, onde o
05:01Dick Farne tocava.
05:02E eu não podia entrar, porque eu tinha 14, 15 anos, mas eu ficava lá na porta, escutando.
05:16O São Paulo tinha muito trabalho, ganhando pouco, né, mas tinha muito trabalho.
05:21Mas em compensação tinha quem, e era bem recompensado, porque bastava tocar acima da média, né.
05:27Por exemplo, o Dick Farne trabalhou num hotel chamado Cambridge, de treino por anos.
05:35Ele, o Chu, Viana e o Rubinho, bateria.
05:39O Rubinho e o Chu ganhavam 30 mil cruzeiros por mês.
05:45E o Dick, 120.
05:47Pra tocar das nove às uma da manhã.
05:51Que era um salário que qualquer um queria ter na época, né, tocando, vivendo de música.
06:11O Buca tinha um eslogan que era, Buca saxofone, Eliana microfone.
06:16O Ophelia telefone, porque nem fechava negócio de telefone, o telefone era da farmácia, que nós morávamos no barco do
06:22Leblon.
06:37O Booker Pitchman, ele entrou na vida da minha mãe Ophelia, na minha vida, no dia em que o Louis
06:44Armstrong,
06:45você muito viu bem a reportagem, e eu era muito garota.
06:49Eu só sei que eu não tinha consciência, lógico que era criança, só depois de muito tempo,
06:56que eu já tinha passado pela América, passado por uma parte do mundo inteiro,
07:03que eu vinha ter consciência da grandiosidade do Booker Pitchman.
07:07Hoje a gente abre o Sesc, você vê música instrumental, jazz, tudo, de vários lugares, né, do São Paulo pelo
07:15menos, né.
07:15Mas naquela época, o que a Folha fez dessas jam sessions, reunindo alguns poucos músicos que éramos, né.
07:24Não havia músicos como hoje, né.
07:26Então, tá aí o valor maior ainda dessas jam sessions.
07:31E aí
07:51E aí
07:54Obrigado.
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