00:00De repente, uma proteína que as pessoas não conheciam está na boca de todo mundo.
00:06E só se fala na polilaminina, uma promessa que marca um ponto crucial na evolução científica brasileira.
00:16Sem contar uma esperança gigante para pessoas com movimentos limitados após traumatismos.
00:23Para a gente conversar sobre a polilaminina e como o estudo também já envolve a Unioeste em Cascavel e o
00:31Hospital Universitário,
00:33eu recebo aqui no Estúdio CGN o neurocirurgião doutor Lázaro Lima. Seja bem-vindo, doutor.
00:39Muito obrigado. Obrigado pelo convite.
00:41Para começar, o senhor concorda com a abertura que eu fiz? É um marco mesmo na ciência?
00:46Olha, considero também um grande momento da ciência nacional.
00:53Nós estamos diante de uma descoberta, de um estudo experimental, mas como conversamos anteriormente,
01:03a questão é que os nossos pacientes sempre olharam para medicamentos novos, estudos, lá do exterior.
01:12Então, a gente tinha paciente grave e ele olhava e falava,
01:16nossa, doutor, mas lá nos Estados Unidos sai uma medicação assim e tal.
01:19Quando será que chega aqui para a gente?
01:21Ou então, quando chegava, depois de chegar, chegava com um preço muito elevado,
01:28às vezes já tinha passado o tempo daquele paciente.
01:30E agora a gente pode ver uma pesquisa nacional,
01:34uma medicação totalmente inovadora,
01:38com resultados no estudo clínico inicial positivos
01:42e sendo disponíveis tanto para os pacientes
01:46quanto para a comunidade científica brasileira e a gente poder vivenciar esse momento.
01:51A gente não está olhando de camarote, mas a gente está participando efetivamente desse momento da ciência nacional.
01:59E quando o senhor fala de participar, é de fato porque o senhor acabou de operar um paciente
02:06e utilizar a polilaminina foi o primeiro caso aqui de Cascavel.
02:10Cascavel, me conta um pouquinho como foi essa situação.
02:13Foi o primeiro caso aqui de Cascavel, foi o sétimo caso do Paraná.
02:19E quando a gente recebeu essa notícia de que o estudo estava nessa fase de abertura,
02:28nós ficamos atentos e quando a gente teve um paciente que teve indicação,
02:32nós entramos em contato com a equipe do estudo e eles prontamente nos atenderam.
02:39O paciente também estava desejoso de participar, de usar a medicação.
02:47E depois desse alinhamento, nós fizemos as solicitações burocráticas para a Anvisa
02:52e foi liberado e a gente pôde, juntamente com a equipe do Rio de Janeiro,
02:56fazer esse procedimento e foi bem sucedido na sua aplicação.
03:01Esse paciente é jovem, tem 23 anos, vítima de um acidente de carro com lesões graves.
03:09Quais foram as vértebras que ele teve lesão?
03:11O nível que ele teve lesão foi entre 3 e 4.
03:14E nessa situação, o estado dele, o prognóstico dele em caso de não existência de polilaminina
03:23seria muito diferente de agora com essa possibilidade?
03:28Para esses pacientes com lesões medulares graves,
03:32O que a gente fazia até algum tempo era apenas dar uma...
03:40Olha, vai ser assim...
03:42Comunicar.
03:43Comunicar, dar algum pouco de esperança para aquele paciente,
03:48porque realmente as lesões medulares mais graves, como é o caso,
03:53que está sendo usada a polilaminina,
03:57eles têm uma taxa de reversibilidade muito pequena.
04:00Então, para o nosso ouvinte compreender,
04:04as lesões medulares, elas podem ser...
04:07Quando o paciente tem um traumatismo na medula,
04:10ele pode não ter nenhum sintoma neurológico.
04:12Ele pode ter um sintoma neurológico um pouco mais...
04:17Menos acentuado, mais acentuado.
04:19Ou então, ele pode ter perdido toda a força,
04:21mas ainda ter a sensibilidade.
04:23E no último grau, que é o grau mais grave,
04:25ele não tem nem sensibilidade e nem força.
04:28Então, a polilaminina, nesse momento,
04:30está sendo usada para esses pacientes que têm uma lesão muito grave.
04:34Não só para aqueles pacientes que têm uma lesão leve,
04:37intermediária, que têm uma chance maior de ter uma recuperação funcional.
04:41Só naqueles pacientes que têm lesão muito grave,
04:43que têm uma baixíssima chance de ter uma recuperação funcional.
04:47Então, é para esses pacientes que a gente está sendo utilizado.
04:49Esse jovem de Cascavel recebeu a polilaminina no sábado,
04:54faz quatro dias.
04:56Ele não tinha nenhuma sensibilidade.
04:58Ele era o grau 5, que o senhor acaba de explicar.
05:01Grau A.
05:02Grau A.
05:03Ok.
05:04Que é o mais grave.
05:05Ele já teve, nesses quatro dias,
05:08alguma evolução, por menor que seja?
05:11Nesses dias, ele parece estar tendo uma evolução.
05:14Claro que o efeito da polilaminina,
05:17ele, nos pacientes, nos grupos estudados, nos animais,
05:22ele é um efeito mais de longo prazo.
05:24No início, ele parece ter um efeito mais anti-inflamatório local
05:29e depois ele vai iniciando esse efeito
05:33na guia daqueles axônios que foram lesionados.
05:38Isso pode representar como primeira evolução,
05:41além da desinflamação, quem sabe,
05:44um aumento da sensibilidade fina?
05:46Sim, com certeza, é uma grande expectativa.
05:49Só que o paciente começar a ter uma melhora,
05:53a gente já fica muito contente, muito feliz
05:56e esperançoso juntamente com o paciente.
06:00Daqui pra frente, no caso desse rapaz,
06:03seria necessária uma nova injeção
06:06ou o procedimento é único?
06:08Aplica-se a polilaminina uma vez
06:10e é o suficiente?
06:11Nesse momento da pesquisa,
06:14a aplicação é única.
06:17Claro que, como todo estudo clínico,
06:21como toda medicação que vai começar a ser utilizada,
06:24pode ser que no futuro isso seja de forma diferente.
06:29A gente pode alternar.
06:31Pode ser que no futuro, se comprovada a eficácia,
06:36ela seja usada em mais de um momento no paciente.
06:39Mas neste momento, a polilaminina é usada
06:42em uma aplicação única,
06:45única, em uma única vez,
06:47mas a gente faz duas aplicações.
06:49Faz uma aplicação no local de onde foi lesado,
06:55a gente faz uma aplicação um pouco mais perto do cérebro
06:59de onde teve o machucado
07:01e um pouco mais longe de onde teve o machucado.
07:05Então, para os nossos ouvintes compreenderem,
07:09as informações, elas saem do nosso cérebro todas
07:13e elas têm que ter algum destino.
07:16Então, ou elas vão para os nervos aqui do rosto,
07:19ou elas descem pela nossa medula espinhal
07:23e elas vão sair pelos nervos e alcançar as extremidades,
07:28sejam os nervos dos braços,
07:30sejam os nervos das pernas.
07:32Então, a medula funciona como se fosse
07:35esse tubo principal elétrico do nosso organismo.
07:39Quando a medula é lesionada,
07:41todos esses feixes elétricos que estavam por ali passando,
07:45eles são interrompidos e param de funcionar.
07:48Então, o que a gente faz é detectar o ponto de lesão,
07:52e aí aplicar a polilaminina acima dessa lesão,
07:58na parte de cima e na parte de baixo,
08:01para que ela possa ter efeito tanto nos neurônios
08:04que estão, nos axônios que estão vindo de cima,
08:06quanto naquela parte distal, né,
08:10ou mais inferior dos axônios,
08:12para que eles tenham essa possibilidade
08:14de se encontrarem novamente.
08:16De acordo com a pesquisa da doutora Tatiana,
08:20da UFRJ, que foi quem desenvolveu essa técnica,
08:23a chance tende a ser maior em pacientes com lesões recentes,
08:27justamente por os axônios,
08:29logo após a lesão, ainda não terem as cicatrizes
08:33nas ramificações.
08:36Porém, ela mesma cita numa entrevista
08:38que na fase de estudos com animais,
08:40em cachorros, em cães,
08:42ela conseguiu bons resultados,
08:44mesmo com cães que já tinham lesão
08:46há mais de cinco anos.
08:48Nesse momento, o estudo,
08:51aqui, por exemplo, um paciente de Cascavel,
08:53que está com uma tetraplegia há dez anos,
08:56ele pode entrar no estudo,
08:58ou, nesse momento, é somente para quem tem
09:01as lesões mais recentes?
09:03Nesse momento, é para os pacientes com lesões recentes.
09:06O período ótimo de aplicação
09:09parece ser as primeiras setenta e duas horas,
09:11com uma janela estendida até os três meses,
09:15até noventa dias.
09:16Claro que, quanto antes, melhor.
09:19A gente, apesar de estar, digamos assim,
09:23longe do estudo,
09:25do ponto de vista geográfico,
09:27mas a gente tem uma boa malha,
09:29a Cascavel é uma referência em saúde,
09:31mas também uma referência em aeroporto,
09:34em tantas outras coisas,
09:36e aí a gente começa a compreender
09:38como, quando tudo está funcionando bem,
09:41a população daquele local também se beneficia,
09:45porque você depende de toda uma rede
09:47para levar, às vezes, uma tecnologia rápida
09:49para o paciente daquela localidade.
09:51Isso tem tudo a ver com o caso desse fim de semana,
09:53porque até o avião que trouxe a polilaminina para Cascavel
09:57também parou em Foz.
09:58Exato.
09:59O avião parou em Foz e depois decolaram de Cascavel.
10:04Então, assim,
10:05a gente é capaz de ofertar essas tecnologias,
10:10esse avanço médico para o paciente,
10:13também por conta de toda uma rede.
10:16Se nós formos pensar,
10:18até a própria cirurgia que nós fizemos,
10:22juntamente com a equipe do Rio de Janeiro,
10:24ela é uma cirurgia que tem uma complexidade
10:27do ponto de vista,
10:29tanto de material,
10:31quanto do ponto de vista logístico.
10:33E o fato de o hospital universitário,
10:37nesse momento,
10:39ele ter uma alta complexidade
10:41que ele oferece para a população,
10:43com aparelhos, com tecnologia de ponta,
10:46e também com equipe, com professores,
10:49com uma equipe de ponta e qualificada,
10:52quando a gente tem uma oportunidade dessa,
10:54a gente está preparado para oferecer aquilo
10:57para a população.
10:57Então, isso também,
10:59toda essa rede já montada,
11:03ela nos possibilita que nós participemos disso.
11:07E isso aumenta ainda mais a nossa felicidade,
11:10porque para a gente poder participar
11:12de um momento ímpar,
11:13a gente tem que estar preparado
11:14para quando aquele momento chega.
11:16E a Unioeste com o hospital universitário
11:18estava preparada.
11:18E agora, do lado de cá,
11:20eu imagino que as pessoas ficam muito ansiosas.
11:23Mesmo o paciente que vocês operaram
11:25de 23 anos no sábado,
11:27eu imagino a ansiedade que ele está
11:29para quem sabe começar a sentir os efeitos disso,
11:34ou então pessoas que também têm lesões
11:36e ainda não participam do estudo.
11:38Qual que é a ansiedade,
11:40qual que é a tua expectativa
11:42enquanto profissional da área?
11:45Esse é o caminho que está se descobrindo,
11:48ou ainda a gente pode se surpreender
11:51pensando, não, não era por aí.
11:53Qual que é a real dessa situação?
11:56Sim, na ciência nós temos muitos que nos basear
12:01no que já foi demonstrado previamente
12:04com aquele tipo de substância.
12:06Os estudos preliminares em animais,
12:09eles foram muito positivos.
12:12Então, isso abre uma grande expectativa,
12:17uma grande esperança para que isso possa
12:19realmente ter uma funcionalidade.
12:21até antes dos animais,
12:23os estudos em vitro já mostravam
12:25uma eficácia da polilaminina
12:27no crescimento e no direcionamento
12:30do crescimento celular.
12:31Os estudos em animais foram muito bons também,
12:35resultados muito positivos,
12:37resultados que até então não se tinham obtido.
12:40E o estudo clínico inicial também demonstrou
12:44uma boa efetividade com baixas complicações.
12:49Então, tudo isso nos deixa com uma grande expectativa
12:52também em relação a como é que vai ser
12:53os resultados dessa próxima fase.
12:56Assim como os pacientes têm essa expectativa,
12:58nós como profissionais,
13:00mesmo que não profissionais da ciência,
13:02também temos emoções.
13:04E também temos esse desejo
13:06de a gente ter uma solução
13:08para a gente poder apresentar
13:09para esses pacientes,
13:10que seria uma coisa maravilhosa.
13:12Mas na tua carreira de profissional,
13:14não sei quantos anos o doutor tem
13:16de experiência na neurocirurgia,
13:18esse é um momento divisor de águas?
13:21Olha, para a ciência nacional,
13:24eu acho que é um momento muito ímpar,
13:27muito único para a ciência nacional,
13:30principalmente na área médica,
13:32de uma possibilidade de uma substância,
13:36um tratamento de uma enfermidade,
13:40um acometimento que até então
13:43não se tinha um tratamento específico,
13:46nada, e olha quantos anos de pesquisa
13:48e quanta pesquisa já foi feita.
13:50Então, é um momento ímpar
13:51para a ciência nacional.
13:52E eu acho que a gente tem que aproveitar
13:55muito esse momento,
13:56tanto como população,
13:58como do ponto de vista científico,
14:00e fortalecer ainda mais
14:03o nosso encorajamento
14:06para pesquisa,
14:08para investir na parte educacional do país.
14:13Maravilha, doutor.
14:14Muito obrigado por trazer um pouco mais
14:15de esclarecimento para a gente
14:17nesse momento que toda a população
14:19vive junto,
14:20essa alegria,
14:22essa comemoração,
14:23essa conquista,
14:24e, claro, sempre na esperança
14:25de trazer as pessoas
14:28para uma condição de felicidade.
14:31Eu acho que isso representa
14:32uma felicidade, né?
14:33Com certeza.
14:34Representa uma grande felicidade
14:36para nós,
14:37como profissionais,
14:39também como universidade,
14:41também como cascavelenses
14:43e paranaenses,
14:44podemos participar de tudo isso.
14:45E parabéns por estar na vanguarda
14:47disso tudo aqui em Cascavel.
14:48Muito obrigado.
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