00:01Então amigos, isso aqui no meu rosto não é maquiagem, eu adoraria que fosse, mas é marca da homofobia.
00:10Pois é, agora no carnaval eu sofri uma agressão, eu vou relatar pra vocês aqui com muita tristeza, logicamente.
00:19E eu fui fazer uma surpresa pros amigos lá em Olinda, pra quem não sabe, às vezes eu faço drag,
00:25me monto,
00:26e tava de garota, aí deixei o carro ali um pouco antes do varadouro, e segui caminhando até as ladeiras
00:36e tal.
00:37E aí eu procurei o pessoal, não achei, até então tudo tranquilo, o pessoal brincando, falando, tal, que linda, tal,
00:44enfim, aquela energia do carnaval.
00:47Subi, desci ali pelo carma, ia ali por aquela rua, perto ali do Atlântico, acho que é o Clube Atlântico.
00:56Eu vi um grupo de jovens vindo, e como aquela rua tava movimentada, inclusive tinha um carro de polícia por
01:03trás deles,
01:05eu, claro que a gente pensa assim, nossa, pode ser uma ameaça, mas você vê um carro de polícia, você
01:10não imagina, né, que vai acontecer alguma coisa.
01:13E aí o carro da polícia veio mais rápido, passou, coisa de minutos, assim.
01:19Aí o primeiro grupo passou por mim, e um dos caras do grupo falou assim, nossa, que bicha feia, ó,
01:25que bicha feia, tal.
01:26Aí eu, boa noite, passei, segui, né, não vou fazer nada, não vou reagir, né.
01:32E aí, logo no segundo grupo, esse primeiro eram as cinco pessoas, eu acho, esse segundo eram as dez já,
01:40uns dez garotos, assim.
01:42Aí eu ouvi quando o de trás, que já tinha passado, gritou, olha aí fulano, pra tu, tal.
01:50Aí, eu meio que vacilei por ter continuado no mesmo nível de distância deles, era pra eu ter dado uma
01:58afastada, ter ido pra outro lado, mas não.
02:00Eu pensei também, se eu for me afastar, vai ser pior, porque essa galera é muito desconfiada, e tudo é
02:05motivo de agressão.
02:08Eu continuei na mesma linha que eu vinha, muito perto, coisa de um metro, assim, dele.
02:13Aí foi quando um desses, do segundo grupo, me deu um soco, não sei se foi um soco, se foi
02:18um tapa, assim, pá, muito certeiro, que acertou aí o meu olho.
02:24Eu me baixei, e botei a mão, assim, aí vinha um grupo, assim, de meninas, assim, não sei se também
02:30era do grupo deles.
02:32E o sentimento que me deu naquela hora, logicamente, foi de revolta, foi de pra cima, mas, tipo, eu não
02:37podia fazer nada.
02:46A não ser lutar pela minha vida, né?
02:48Porque se aqueles dez lá, ou quinze, se juntassem, eu não...
02:56Talvez não estivesse aqui hoje.
02:59Mas esse vídeo aqui é pra mostrar a vocês o quanto que a homofobia existe.
03:04O quanto que o simples fato de você existir incomoda.
03:13Eu não sou travesti, eu não sou, né, trans, eu não sou...
03:18Eu estava, digamos, com uma fantasia, né, e sofri a agressão.
03:25Talvez se eu tivesse de boy, não tivesse sofrido.
03:27Talvez.
03:28Mas é pra vocês verem o quanto que essa doença é real.
03:34No nosso estado, no nosso país, no mundo.
03:39O quanto que o fato da existência de uma pessoa incomoda a outra.
03:47Eu continuei o caminho, aí foi quando eu coloquei a mão assim e vi que tinha sangue.
03:53E a gente nunca imagina, né, que pode acontecer com a gente.
03:57De fato, eu não...
03:58Eu ainda parei um pouco assim, fiquei olhando pra ver se o carro da polícia voltava,
04:02pra ver se vinha outro carro de polícia, pra poder denunciar e ir pra cima.
04:06Mas eu sozinho, só podia lutar pela minha vida ali mesmo e foi o que eu fiz.
04:10Eu continuei seguindo, fiz o BO.
04:12Eu vou ver se eu consigo imagens da área, do local, pra ver se consigo ver se localiza essas pessoas.
04:19Esses criminosos.
04:21Esse criminoso, né.
04:23Mas enfim.
04:24E aí eu voltei pro carro e tal, me organizei lá.
04:28E fui pra o ponto de atendimento.
04:30E aí lá o médico disse que não precisava de ponto, apesar de ter sido bem feio.
04:35Mas não precisava dar ponto.
04:38Então é isso, gente.
04:40A gente incomoda.
04:42A gente incomoda enquanto existência.
04:45A gente incomoda enquanto...
04:47Simplesmente...
04:48Por ser mais alegre.
04:50Por ser mais livre.
04:52O soco que esse cara deu em mim...
04:54Foi um soco em algo que tem dentro dele.
04:58Mal resolvido.
05:00O soco que ele deu foi pra matar.
05:03Foi pra aniquilar.
05:04Foi pra destruir.
05:06Uma face.
05:07Um rosto que é livre.
05:10Um rosto que se pinta.
05:11Um rosto que se enaltece.
05:15Que coloca brilho.
05:16Que coloca alegria e vive.
05:19Ele tentou matar.
05:20Ele tentou apagar um rosto que é livre.
05:24E eles não vão conseguir tirar o meu sorriso.
05:28Nenhum de ninguém.
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