00:00A gente estava atrás do trio de um cantor, Papazonia, e no momento estava eu, meu esposo, um colega, um
00:06casal de amigos, que também são policiais militares.
00:08Meu esposo também é policial.
00:09E tinha um cidadão atrás da gente que começou a desferir palavras homofóbicas direcionadas a mim e ao meu esposo.
00:16Nesse momento em que ele vai tirar a satisfação, vem mais três homens que estavam atrás desse rapaz que ia
00:20desferir essas palavras homofóbicas contra mim.
00:23Eu também vou atrás do meu esposo na tentativa de tirar ele da situação para evitar uma via de fatos
00:27entre os integrantes ali.
00:29E nesse momento em que eu vou para abraçar ele e para atirar, eu sou surpreendido com uma patrulha da
00:33polícia militar, cujo prefixo é 1007, e recebo quatro tonfadas.
00:39Tonfadas é o que a gente chama aqui na Baía de Cacetete.
00:41Um atinge minhas costas, duas atingem meu tórax e um atinge o meu peito.
00:45E aí eu fico sem saber o que reagir, sem saber o que fazer, e eu falo, calma, calma, ele
00:49é policial, ele é policial.
00:50O meu esposo também fala, eu sou policial. E o colega do meu esposo fala, eu sou policial. O cara
00:53aqui estava atirando com minha namorada.
00:55E aí nesse momento em que tudo acontece, onde nós somos agredidos, meu esposo consegue utilizar o espreito de pimenta
01:03e atinge o rosto de um dos homens,
01:06que fez essas palavras homofóbicas contra a gente.
01:09Quando a guarnição, uma outra guarnição, uma segunda guarnição dessa vez, de alunos oficiais, chega nos conduzindo.
01:15Ele já chega colocando meu braço para trás, sem apurar a situação, sem ouvir o que aconteceu, mesmo meu esposo
01:20dizendo que era policial.
01:21Fomos encaminhados, mesmo eu encaminhado, sem ter cometido crime algum, né?
01:27Tive ali meu espaço delimitado, tive ali minha liberdade, sobretudo, delimitada, e fui encaminhado, né, sem ter cometido nenhum crime.
01:35Eu tive ali meu direito roubado.
01:36Fui envergonhado perante os foliões, e mais do que isso, eu fui imobilizado.
01:41Meu braço foi posto para trás, meu braço estava tossido.
01:44No momento em que eu reclamo de dor, eu olho para o aluno oficial e falo, senhor, o aluno oficial,
01:50cujo prefixo dele é 1425, e o nome dele é Cris, Cris Amon.
01:55Eu falo, senhor, meu braço está doendo, tem como o senhor folgar mais?
01:59Ele olha para a minha cara e fala, seu viado, você ainda não viu que é violência.
02:03Nesse momento eu fico extremamente nervoso, e eu tenho um tique comigo de quando eu fico nervoso, ficar mexendo no
02:07cabelo o tempo todo, fazendo isso.
02:09E num momento eu mexia muito no cabelo, né, com outro braço que estava livre.
02:12Quando ele olha para a minha cara, incomodado com o meu gesto e fala, ainda fica mexendo nessa desgraça de
02:17cabelo, falando sobretudo da textura do meu cabelo.
02:19E nesse momento de bastante nervosismo, eu tenho o tino de pegar meu celular e começar a gravar a guarnição.
02:23Quando eu pego meu celular e gravo, eu sendo conduzido, né, com o braço torcido para trás.
02:28Quando eu sou interpelado pela segunda aluna oficial, que estava na guarnição também, de prefixo 1425B, de nome Adriana,
02:37que toma meu celular e diz que só entregará meu celular quando chegar à base da polícia militar.
02:42O aluno oficial me chamou de viado, por conta do meu trejeito, eu sou um homem gay afeminado.
02:47E a forma que ele achou de me ofender, de atacar a minha honra, foi me chamar de viado.
02:50Quando eles me atingem com palavras de viado, que me remontam, né, vários episódios de homofobia que eu fui sofrendo
02:55ao longo da minha vida.
02:56E remontam também ao episódio muito triste de racismo, quando falo da textura do meu cabelo,
03:00quando chamo meu cabelo de desgraça, só por eu ter apenas um simples gesto de nervosismo e ficar mexendo o
03:05tempo todo no meu cabelo.
03:06Então são feridas raciais, são feridas de cônjus sexuais, que nos receiam pelo resto da nossa vida, que nos marcam,
03:13nos deslegitima e, sobretudo, Reginaldo, nos desumaniza.
03:17Nesse momento, eu me senti muito envergonhado porque eu sou um estudante de doutorado, Reginaldo.
03:23Eu faço doutorado aqui na UFBA, fui professor estagiário também da instituição.
03:26Eu ajudo a formar cidadãos, ajudo a formar outros professores.
03:28E nunca sequer, em meus 27 anos, tinha pensado em ser conduzido de uma forma tão ostensiva quanto eu fui
03:34conduzido pelos policiais naquela situação,
03:36que poderia ter intervido, poderia entender a situação e fazer uma condução de uma forma mais humana, mais correta, se
03:41assim eu estivesse errado.
03:42Mas o que não era a situação, porque eu não cometi crime algum.
03:45Eu só estava descendo o meu direito de curtir e o meu direito também de defender o meu esposo, o
03:49meu colega, que estava numa situação muito vexatória.
03:51Eles continuaram no mesmo local ao qual ficaram, não foram conduzidos, não foram perguntados a situação também.
03:56E o que foi apenas imobilizado foi eu e o meu esposo também foi conduzido junto.
04:03Eles que causaram a situação toda ficaram lá, assistindo a situação toda de braços cruzados, enquanto a gente sofria essas
04:09injustas agressões.
04:10Era um homem branco, Reginaldo, que desfez esses comentários homofóbicos e direcionados para a gente.
04:15Certamente a atitude dele pesou muito menos do que a minha atitude de defender o meu esposo, de defender a
04:20minha integridade sexual.
04:21Tanto que a primeira pessoa a ser vítima das agressões não é o meu namorado, não é o meu colega,
04:26sou eu.
04:26Eu sou o que abre o caminho ali das forradas, eu sou o que logo é visto ou o que
04:30logo é percebido,
04:31porque há diversos fatores aí por detrás da minha visibilidade.
04:34Há o meu jeito que incomoda, há uma forma de se expressar também que não é muito aceito socialmente, né,
04:42falando.
04:43Então, assim, eu abro o caminho para essas forradas e também sou conduzido de uma forma muito ostensiva,
04:48para perdão, para esses policiais, sem sequer ser questionado, o outro lado que causa as agressões,
04:54o do porquê da situação, do que é que tinha acontecido.
04:56Sem sequer a minha agora ter tido um direito a uma defesa, né, ter tido um direito a ser escutado,
05:02porque crime nenhum eu tinha cometido, para ser conduzido daquela forma como um bandido.
05:06Obrigado.
05:06Obrigado.
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