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  • há 2 dias
Quem é Solange Cruz, a 'mulher dos terços' que reergueu a Mocidade Alegre em meio ao luto

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Transcrição
00:00A Solange é brava, meu pessoalzinho sofre, brava, mas eles me conhecem pelo olhar.
00:06Eu falo muito pro meu pessoal, vamos se comunicar pelo olhar.
00:09A Solange tem que tomar ansiolítico, senão ela...
00:11A Solange é mulher, é detalhista, é mãe, é avó, é dirigente.
00:17Ela faz todo um diferencial na vida de muitas pessoas.
00:21E às vezes até ela esquece um pouquinho dela.
00:23E isso me tira um pouco do eixo, esse lado, vivenciar todo o familiar.
00:28Eu até tento, mas é muito mais difícil, porque a nossa vida é muito corrida, ela é muito intensa.
00:42Mas eu também tenho aquele lado vó.
00:44Eu acho que eu fui um pouco falha, talvez, na criação do meu filho.
00:49Eu deixei muito mais pro pai do que pra mim, porque a nossa cidade me consumia muito.
00:54E acho que agora eu quero reverter isso pro meu neto, né?
00:57Que é uma pessoa que eu amo demais, mas que, por ironia do destino, é grudado com meu marido.
01:08Primeiro que eu sou nascida e criada na escola de samba, né?
01:11E a Monsidade Alegre tem 58 anos.
01:14Eu tenho 60.
01:15Então, é desde a barriga da minha mãe que eu faço parte dessa trajetória.
01:20Então, eu lembro muito bem da época que tira muita censura, né?
01:23O juizado de menor batia na quadra e a gente tinha que sair correndo pra se esconder.
01:28E aí, a gente se escondia debaixo da saia das baianas.
01:31A gente tinha um quartinho de fantasias.
01:34E aí, todo mundo, quando chegava o juizado, todo mundo já sabia que tinha que correr pro quartinho das fantasias.
01:38E aí, todo mundo se escondia embaixo das fantasias.
01:41De alguma forma, são essas lembranças boas que o carnaval nos traz, né?
01:45Hoje é engraçado. Na época, não.
01:47Mas hoje é engraçado de falar o quanto é evolução, o quanto evoluiu.
01:51E ainda estamos nessa luta de se fazer entender que o carnaval é cultura.
01:56Foi um processo meio que automático dentro da gremiação, né?
02:00É uma escola que nunca saiu da mão da minha família.
02:02Sempre foi de intuito familiar.
02:04Meus tios, meus primos, minhas tias, minha irmã, meu pai.
02:09Todo mundo passou por essa cadeira.
02:10E agora chegou a minha vez.
02:11Eu estava de vice-campeã da minha irmã e com o falecimento dela em 2003, eu assumi a gremiação.
02:17Meu pai faleceu estando em gestão, minha irmã também.
02:22Eu falo que não, que eu ainda tenho uma trajetória aí.
02:24Ou passar nas Baianas, não sei, por causa da labirintite.
02:27Mas na velha guarda, em algum outro lugar, quem sabe?
02:35Eu sempre me posicionei.
02:37Eu não sou uma mulher de tipo, ah, você falou, eu vou ficar caladinha pra compactuar da sua fala.
02:42Não.
02:43Eu tenho minha opinião e eu faço a minha opinião ser ouvida.
02:45E o primeiro ano que eu cheguei na Liga era muito machista.
02:48E eu fui junto com a Angelina, da Rosas de Ouro.
02:51Porque a minha irmã faleceu em 2003 e o pai dela também.
02:55E aí essa história meio que se cruzou.
02:56E aí no velório do pai dela, porque a minha irmã foi no final de julho pra agosto,
03:00e o pai dela foi em setembro, outubro, uma coisa assim.
03:03E aí a gente conversando, eu falei, você vai na Liga lá?
03:05Ah, eu não sei, acho que é o problema.
03:07Não, vamos juntas.
03:08E fomos.
03:09No primeiro ano eu muito mais ouvi do que eu falei.
03:11Mas era muito pra entender, pra ter conhecimento, pra saber como funcionava.
03:17Mas ali em diante eu já comecei a impor o que eu achava que era benéfico pra minha agremiação.
03:22Mas sempre pensando num todo carnaval.
03:25Eu sou de uma família de sambista, não de sambeiro.
03:27E eu me incluo nisso em relação que uma coisa não tem que ser só pra um.
03:32Eu acho que esse negócio de pensar só na árvore não acrescenta.
03:35A floresta nesse momento ela é essencial.
03:38E o carnaval é uma coisa grandiosa, que precisa realmente de mais falas positivas e de pessoas que sentem.
03:44Eles falam assim, ah, você chorou, não pode falar com você.
03:48Eu falei, é minha história de vida.
03:49É minha história de vida, eu me emociono.
03:51É minha agremiação.
03:53Por ela eu choro, por ela eu sofro.
03:55Mas por ela também eu tenho muitas alegrias.
03:57E é importante, porque eu criei meu filho aqui.
03:59Tô criando meu neto aqui.
04:00Meus primos, meus irmãos, todo mundo tá aqui.
04:03Então é muito importante pra mim que isso se perpetue.
04:06Eu posso não estar um dia, mas com certeza a agremiação vai estar.
04:12Nossas reuniões, às vezes elas são um pouco acaloradas.
04:15Um pouco assim, mas...
04:16E aí, no início, eles gritavam, falavam palavrão, batiam na mesa.
04:20Aí eles falavam assim, ai, desculpa, agora tem mulher.
04:23Ai, desculpa, agora tem mulher.
04:25E eu falei, gente, fala uma coisa pra vocês.
04:27Também sei bater na mesa, também sei falar alto e também falo palavrão.
04:31Então tá tudo certo, comigo vai ser de igual pra igual.
04:33E é assim até hoje.
04:38Todo ano no carnaval, desde que a gente começou a ir pra Aparecida, levar o pavilhão pra benzer, montava o
04:44time da escola e íamos.
04:46Eu comecei a ir pra apuração com um terço.
04:49E aí pessoas da escola, as que perceberam isso, começaram a me dar terços de presente.
04:53E aí eu ia, onde ia levando cada vez mais.
04:56Já teve um dia que eu tava na apuração.
04:57Uma pessoa ligou, não sei pra quem da escola, falou, apuração vai começar, eu preciso entregar esse terço pra Solange.
05:02Ela precisa estar com o terço lá.
05:04E alguém chegou lá no sambódromo, correndo, pra que esse terço chegasse na minha mão.
05:09Eu fui pra Fátima.
05:10E aí, um dia eu fui jantar num restaurante lá em Portugal.
05:13E aí eu tava jantando nesse restaurante em Portugal.
05:15A mulher levantou e falou assim, moça, posso tirar uma dúvida?
05:18Eu, claro.
05:19Você era minha mulher dos terços?
05:21Falei, eu sou.
05:22Aí ela falou, ai, eu vim te achar aqui em Portugal, mas eu sou muito sofã.
05:25Então isso é muito legal.
05:26Às vezes as pessoas não assimilam, não lembram, não sabem meu nome.
05:29Mas elas assimilam.
05:30Ah, mulher dos terços.
05:31Então eu acho que o positivo, estar sempre com ele em pensamento e fazer as coisas acontecerem, faz parte.
05:37Claro que a gente tem as nossas inseguranças.
05:40Eu tenho as minhas coisas internas.
05:43Eu tenho meu choro escondido.
05:45Eu tenho a minha forma de pôr pra fora.
05:48Porque eu sou ser humano também.
05:49Mas tem horas que você tem que vestir aquela mortalha, aquela...
05:54E vamos pra guerra.
05:55Todo mundo me pergunta.
05:56Eu acho que eu já tô na terceira ou quarta caixa grande.
05:59E pra escola, eu quero continuar com essa palavra mesmo.
06:03Tesão.
06:03Porque enquanto eu tiver tesão por estar sentada nessa cadeira, eu vou fazer o meu melhor.
06:08Ó, quero ainda que a escola seja tetra.
06:10Já foi trido, às vezes, com a gente.
06:13Mas quero que a escola seja tetra.
06:15É uma batalha, é uma luta.
06:16Mas tamo aí.
06:17E o dia que eu não tiver tesão, eu tenho que levantar da cadeira e alguém tem que sentar.
06:21Porque a minha escola merece o que tem de melhor.
06:23É uma batalha, é uma batalha, é uma batalha, é uma batalha.
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