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00:00Transcribed by ESO, translated by —
00:30Transcribed by —
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02:00Onde anda que nunca ouve o que lhe digo?
02:04Hei de contar tudo ao seu pai
02:06para que ele lhe sacuda a preguiça do corpo
02:09com uma boa vara de marmelo ou um pau.
02:13É o que eu vou fazer.
02:15Estúpido.
02:18Maluco.
02:18E olha que lá fora é o mesmo que se vê aqui.
02:23Confunde-me os papéis todos.
02:26Erra as casas.
02:28Vai em um escrivão ao invés de ir no outro.
02:31Troca os advogados.
02:32É o diabo.
02:33É o tal sono pesado e contínuo.
02:39De manhã é o que se vê.
02:41Primeiro que acorde é preciso quebrar-lhe os ossos.
02:45Deixe.
02:45Amanhã...
02:47Hei de acordá-lo a pau de vassoura.
02:51Toma.
02:55Toma.
02:59Passava-se-se na Rua da Lapa em 1870.
03:03Toma.
03:04Durante alguns minutos
03:06não se ouviu mais que o tinir dos talheres
03:09e o ruído da mastigação.
03:12Borges abarrotava-se de alface e vaca.
03:25Nunca ele pôs os olhos nos braços de Dona Severina
03:28que não se esquecesse de si e de tudo.
03:31Também a culpa era antes de Dona Severina
03:34em trazê-los assim nus constantemente.
03:38Via só os braços de Dona Severina
03:40ou porque sorrateiramente olhasse para eles
03:43ou porque andasse com eles
03:45impresso na memória.
04:01Inácio demorou o café o mais que pôde.
04:06Homem...
04:08Você não acaba mais.
04:14Não havia remédio.
04:16Inácio bebeu a última gota, já fria,
04:19e retirou-se, como de costume,
04:21para o seu quarto,
04:22nos fundos da casa.
04:23Cinco minutos depois,
04:30à vista das águas próximas
04:32e das montanhas ao longe,
04:34restituí-lhe o sentimento confuso,
04:36vago, inquieto,
04:37que lhe doía e fazia bem.
04:40Tinha vontade de ir embora
04:42e de ficar.
04:43O pai barbeiro na Cidade Nova
04:47e polo de agente, escrevente
04:49ou que quer que era, do Borges,
04:51com esperança de vê-lo no foro.
04:56Havia cinco semanas que ali morava
04:58e a vida era sempre a mesma.
05:02Sair de manhã com o Borges...
05:04Andar por audiências e cartórios,
05:16correndo, levando papéis ao selo,
05:18ao distribuidor, aos escrivães,
05:20aos oficiais de justiça.
05:21Voltava à tarde, jantava
05:37e recolhia-se ao quarto
05:39e ia dormir.
05:45Cinco semanas de solidão,
05:47de trabalho sem gosto,
05:49longe da mãe e das irmãs,
05:50cinco semanas de silêncio.
05:54Deixe estar, pensou ele,
05:57um dia fujo daqui
05:58e não volto mais.
06:04Não foi.
06:06Sentiu-se agarrado
06:07e acorrentado
06:09pelos braços de Dona Severina.
06:13Nunca vira outros
06:14tão bonitos e tão frescos.
06:18Nunca.
06:20A educação que tivera
06:23não lhe permitia
06:23encará-los logo abertamente.
06:26Parece até que, a princípio,
06:27afastava os olhos,
06:28vexado.
06:29Encarou-os pouco a pouco,
06:31ao ver que eles não tinham
06:33outras mangas.
06:35E assim,
06:36os foi descobrindo,
06:37mirando e amando.
06:40No fim de três semanas,
06:42eram eles,
06:43moralmente falando,
06:44às suas tendas de repouso.
06:46Aguentava toda a trabalheira de fora,
06:54toda a melancolia da solidão
06:55e do silêncio,
06:56toda a grosseria do patrão,
06:58pela única paga de ver,
07:00três vezes por dia,
07:01o famoso par de braços.
07:03Dona Severina,
07:10na sala da frente,
07:12recapitulava o episódio do jantar
07:14e, pela primeira vez,
07:16desconfiou alguma coisa.
07:18Rejeitou a ideia logo,
07:20uma criança.
07:21Mas há ideias que são da família
07:23das moscas teimosas.
07:25Por mais que a gente as sacuda,
07:27elas tornam e pousam.
07:29Criança tinha 15 anos.
07:38Não admira que começasse a amar.
07:42E não era ela bonita?
07:45Esta outra ideia não foi rejeitada,
07:48antes afagada e beijada.
07:54E recordou, então, os modos deles,
07:56os esquecimentos, as distrações,
07:59e mais um incidente e mais outro.
08:03Tudo eram sintomas
08:04e concluiu que sim.
08:08Você vê, Nina?
08:10Você vê, Nina?
08:12O que a senhora tem?
08:14Está pálida?
08:15O que me preocupa?
08:16Sente alguma coisa?
08:18Não tenho nada.
08:20Estava apenas descansando.
08:23Descansando?
08:25Parece que nessa casa
08:26todos estão dormindo.
08:28Pode deixar.
08:31Eu sei de um bom remédio
08:32para tirar o sono aos dorminhocos.
08:35Engano seu.
08:36Eu não estava dormindo.
08:39Estava pensando na comadre Fortunata.
08:43Não a visitamos desde o Natal?
08:45Por que não vamos lá uma noite dessas?
08:46Ah, não.
08:48Por Deus.
08:50Está cansado.
08:50Estou trabalhando muito.
08:52A comadre é uma faladeira.
08:53Eu não a suporto.
08:55Não fale uma coisa dessas, coitada.
08:59Fala assim.
09:01Fala pelos cotovelos.
09:04E é maledicente.
09:05Ao contrário do marido,
09:06que não fala nada
09:06porque ela não deixa, não.
09:07Tudo isso é implicância tua,
09:10pois tens um bom coração.
09:11Isso é o que a senhora acha.
09:14Estamos uns pobretões.
09:16Toda aquela gente tem muito a ver
09:17com o nosso Inácio.
09:19Porque agora é nosso.
09:21Por culpa é minha.
09:22Não fale essas coisas feias.
09:25Eu não sei por que a senhora
09:27defende tanto aquela gente.
09:28Porque todos nós temos defeitos,
09:30meu querido.
09:31E eu estou aqui para apontá-los.
09:32Inclusive os nossos.
09:36Não me vem a senhora querer calar.
09:37Shhh.
09:38Shhh.
09:40Não se irrite.
09:42Onde está aquele sorriso?
09:45Hum?
09:45Onde?
09:49Agora que já sorri,
09:51vamos comer qualquer coisa.
09:53Trabalhaste tanto.
09:55Que tal dormimos mais cedo?
09:57Não.
09:58Não.
09:58A noite caíra de todo.
10:04Borges, cansado do dia,
10:06pois era realmente um trabalhador
10:07de primeira ordem,
10:09foi,
10:10fechou os olhos
10:10e pegou no sono.
10:13E deixou-a só na sala,
10:15às escuras,
10:16consigo
10:17e com a descoberta
10:18que tinha feito.
10:24Tudo parecia dizer à dama
10:26que era verdade.
10:27Mas essa verdade,
10:29desfeita à impressão de assombro,
10:31trouxe-lhe uma complicação moral.
10:39Já nesse dia,
10:40Dona Severina mirava
10:42por baixo dos olhos
10:43os gestos de Inácio.
10:45Não chegou a achar nada
10:46porque o tempo do café
10:48era curto
10:48e o rapazinho
10:49não tirou os olhos da xícara.
10:51No dia seguinte,
11:07pôde observar melhor.
11:08E nos outros,
11:15otimamente,
11:16percebeu que sim,
11:17que era amada
11:18e temida.
11:27Já se persuadia bem
11:28que ele era criança
11:29e assentou
11:31de o tratar
11:31tão secamente
11:32como até ali
11:33ou ainda mais.
11:35e o saturation
11:35e asombro
11:36ou omachen
11:36que ela sabia
11:37que era
11:39a fússia.
11:41e asombro
11:42e asombro
11:43e asombro
11:43não acima
11:45e asombro
11:45de se
11:45e asombro
11:46e asombro
11:46de se
11:48e asombro
11:48de se
11:49e asombro
11:49de se
11:50e asombro
11:50de se
11:51e asombro
11:51e asombro
11:52...
11:53Dona Severina
11:55Desculpe incomodar, Dona Severina.
12:10Não foi nada.
12:13Chegava à casa e não se ia embora.
12:16Os braços de Dona Severina fechavam em um parênteses
12:19no meio do longo e fastidioso período da vida que levava.
12:23E essa oração intercalada trazia uma ideia original e profunda
12:31inventada pelo céu unicamente para ele.
12:37Deixava-se estar e ia andando.
12:40Afinal, porém, teve de sair.
12:43E para nunca mais.
12:46Inácio, não beba água fria depois do café.
12:50Não faz bem.
12:50A rudeza da voz parecia acabada
12:53e havia mais do que brandura.
12:55Havia desvelo e carinho.
13:02A agitação de Inácio é crescendo
13:04sem que ele pudesse acalmar-se nem entender-se.
13:08Não estava bem em parte alguma.
13:10Acordava de noite pensando em Dona Severina.
13:20Na rua, trocava de esquinas, errava as portas, muito mais que dança.
13:33E não via mulher ao longe ou ao perto que não lhe trouxesse a memória.
13:41Ao entrar no corredor da casa, voltando do trabalho, sentia sempre algum alvoroço, às vezes grande.
13:56Inácio!
14:05Inácio!
14:08Boa tarde, Dona Severina.
14:11Boa tarde, Dona Severina.
14:11Boa tarde.
14:12Boa tarde.
14:28Inácio
14:48Inácio
14:49percebeu pela primeira vez
14:51uma fragilidade em seu olhar
14:53e se sentiu mais forte.
14:58Aperte a casa
15:01ou até a cidade
15:03e a cidade
15:05Aperte a cidade
15:07e a cidade
15:08e a cidade
15:10e a cidade
15:12e a cidade
15:14e a cidade
15:17e a cidade
15:19é diferente
15:53Good morning.
15:55Look what you see.
15:57You're a crazy guy.
15:59Sorry, Mr. Borges.
16:01Look here.
16:03Here at the forum,
16:05just call me Dr.
16:07Dr.
16:09Recolhe it there.
16:11You...
16:13You gave the procura?
16:15I did, Dr.
16:18Ainda bem.
16:19E as petições,
16:20já foram todas distribuídas?
16:22Todas, Dr.
16:23Deixa eu ver.
16:24Tá vendo?
16:26Tá vendo esses três processos aqui?
16:28Hum?
16:29Esse mais esse.
16:31Sim, claro, Dr.
16:33Leve-os pra casa hoje à noite.
16:35Eu preciso estudá-los.
16:36São casos muito importantes.
16:38Guarde-os como se fosse sua própria vida, entendeu?
16:42Não tenha dúvida, doutor.
16:44Então vá.
16:46Eu vou me ir lá.
16:53Eu vou me ir lá.
16:56É bom minho.
16:58Eu vou me ir lá.
18:34Senta aqui.
18:36Descanse um pouco.
18:37Eu vou tentar secá-los.
18:39Se ele aparecer para jantar, eu expulso ele daqui a pontapés.
18:44E se a gente tentar secá-los?
18:46Vem cá.
18:49Na seta estava flanando à beira-mar.
18:54Estava...
18:55Deixou voar os papéis.
18:58Que parvo!
19:16Desculpe.
19:25Sim, dona Severina.
19:26Eu sei que...
19:26Borges está lá.
19:28Furioso consigo.
19:30Não falamos alto para que não nos ouça.
19:32Eu só vim dizer-lhe que não apareça a janta até que ele se acalme.
19:34Está bem?
19:38Está bem.
19:40Vou ver o que posso fazer.
19:42De preferência, sovar o café amanhã.
19:46Tenha cuidado.
19:50Durma bem.
19:50Onde é que ele está?
20:10Ele não vem tomar café?
20:12Com os gritos de ontem, deve estar assustado.
20:16Além de tudo, ainda tem medo.
20:20Isso é desfeita.
20:24Afinal de contas, eu sou amigo do Euvécio.
20:27Ele é meu barbeiro há anos.
20:29Eu lhe devo uma satisfação.
20:32Sabe de uma coisa?
20:35Eu vou chamá-lo.
20:38É isso aí?
20:40Pensei que não vinha mais.
20:43Senta.
20:46Com licença.
20:49Escute bem.
20:59A respeito do acidente à beira-mar.
21:03Não se fala mais nisso sob pena de esganá-lo.
21:06Dona Severina sentiu-se orgulhosa,
21:15pois que salvara Inácio das garras do Borges.
21:18Com licença.
21:19Com licença.
21:21E aí
21:23E aí
21:25E aí
21:26E aí
21:27E aí
21:29Let's go.
21:59And so he continued,
22:23desfrutando da presença doce de Inácio ao seu lado.
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