Pular para o playerIr para o conteúdo principal
  • há 2 meses
Posso ter filhos mesmo com HIV? Saúde pública no Brasil garante gravidez segura mesmo com doença

Categoria

🗞
Notícias
Transcrição
00:00E a gente termina o programa de hoje com uma notícia maravilhosa.
00:03O Brasil alcançou em dezembro de 2025 um marco histórico na saúde pública.
00:08A Organização Mundial da Saúde reconheceu a eliminação da transmissão do vírus HIV de mãe para filho no nosso país.
00:16Hoje, com um diagnóstico precoce e com acompanhamento adequado,
00:20mulheres que vivem com HIV podem engravidar e ter filhos com segurança, com risco de transmissão próximo de zero.
00:26Além do avanço médico, essa conquista também tem um impacto direto no enfrentamento do estigma e da desinformação que, infelizmente, ainda cercam o HIV.
00:37A gente conversa agora com Thais Renovato.
00:39Ela é palestrante, escritor e descobriu ser portadora do HIV em 2014.
00:43E graças a esses avanços tecnológicos, conseguiu ter dois filhos com segurança.
00:49Boa tarde, Thais. Muito obrigado por aceitar aqui participar do nosso programa.
00:52Quando você engravidou ali em 2017, 2018, quais foram os seus maiores desafios, então?
01:01Oi, boa tarde, Cazé. Obrigada pelo convite.
01:04Super importante falar disso, ainda mais nesse momento, né?
01:07Que é uma super conquista nossa.
01:09Eu tive alguns cuidados, né? Eu tive que tomar alguns cuidados.
01:12Meu ex-namorado morreu em 2014 por complicações da AIDS.
01:17E aí eu tive que... Eu não pude amamentar.
01:22Eu tive que fazer... Na minha época era cesárea, hoje em dia você já pode fazer parto normal.
01:27O bebezinho toma alguns... Um xaropinho nas primeiras semanas de vida.
01:32Então, assim, com alguns cuidados você pode gerar duas crianças negativas, né?
01:37Então eu tive meus dois filhinhos pós-diagnóstico.
01:39E foi super ok. Assim, muita gente não sabe, né, que é possível, né, você gerar.
01:45Mas tem alguns cuidados que você precisa tomar, né, para as crianças nascerem negativas.
01:49Pois é. Como é que foi o acompanhamento médico das suas gestações?
01:52Eu imagino que ali em 2017 a gente ainda estivesse nesse processo,
01:55mas ainda não tinha chegado ainda nesse ponto de ser praticamente zero, né?
01:59Então como é que foi o acompanhamento médico das suas gestações?
02:02Que informações fizeram diferença para que você se sentisse, aos poucos, cada vez mais segura para poder gerar os seus filhos?
02:12Normalmente eu faço... O que acontece, né, muita gente não sabe nem a diferença do HIV e da AIDS, né?
02:18Eu tenho vírus do HIV e eu posso viver a vida inteira com o vírus e nunca desenvolver a doença AIDS, né?
02:24Então só de eu ter o vírus e eu estar em tratamento, eu tomo um comprimido por dia.
02:28Esse comprimido é um dois em um que me deixa indetectável.
02:31O indetectável é o seguinte, eu tenho tão pouco vírus circulando no corpo
02:35que nessa condição nem a doença evolui, nem eu consigo transmitir.
02:39Então eu não tenho vírus nas vias sexuais, então eu não consigo nem mais transmitir.
02:43Então eu engravidei de forma natural, né, que muita gente pergunta
02:46poxa, você teve que fazer inseminação?
02:48Ou se não para o homem, ah, você teve que filtrar o semen e não precisa disso, né?
02:52Então quando você está indetectável em tratamento, você não transmite mais o vírus, né?
02:57O indetectável é o mesmo que intransmissível.
03:00E só de eu estar indetectável, o risco de passar para o bebê já era menos de 2%.
03:04Então esse já é um grande avanço.
03:07Os cuidados que eu tive que tomar, eu faço meus exames mais ou menos de 8 em 8 meses,
03:12de 1 ano em 1 ano, para sempre acompanhar se eu estou indetectável.
03:16Quando eu engravidei, eu fiz isso um pouco menos espaçado, eu fazia de 4 meses, 6 meses.
03:22Eu fiz o pré-natal tudo direitinho, tomei toda a vacina, toda a parte de vacinação.
03:26E eu acho que os cuidados são esses. Onde eu retiro meu remédio, né?
03:29Que o SUS fornece os retrovirais gratuitamente, eu retiro também como uma mamãe HIV positiva,
03:36eu retiro um kitzinho, né?
03:38Esse kit, ele é, na minha época, ele era um remédio que era intraparto, né?
03:43Que eu tomava 3 horas durante o parto e antes do parto.
03:47Para caso eu deixasse de estar indetectável naquele momento,
03:50cortaria qualquer possibilidade de eu infectar os bebês.
03:54Eu também retiro nesse mesmo kit, um comprimidinho, que ele inibe a lactação, né?
03:58Por eu não poder amamentar.
04:00E esse xaropinho que o bebezinho toma.
04:02Então, com esses cuidados, assim, você pode gerar crianças negativas.
04:06Negativas.
04:06Que é incrível, assim, eu acho que é o ápice da medicina.
04:09É, e não, é incrível porque em 2014 eu perdi meu ex-namorado,
04:13que não sabia que tinha o vírus, né?
04:15Que não se cuidou e ele morreu com aquela visão que a gente tem, né?
04:20Da AIDS, do cadavérico, do Cazuza, né?
04:24Que foi aquela capa horrorosa.
04:26É, o músico que agoniza em praça pública, que foi aquela capa horrorosa.
04:32Então, as pessoas têm muito aquela visão, né?
04:34Então, em 2014, que não é muito antigo, ele faleceu, assim, por decorrência.
04:39E você vê o outro lado, que é a maternidade, né?
04:41Eu, sendo uma mulher positiva, gerar duas crianças negativas, assim.
04:46Então, é incrível.
04:47E essa certificação vem pra...
04:50Como uma super conquista, porque, poxa, o Brasil, né?
04:53Um país gigantesco.
04:54A gente sabe que algumas cidades são diferentes de outras, né?
04:57As capitais, as grandes capitais têm um outro tipo de atendimento.
05:01Mas, ainda assim, o Brasil consegue esse certificado,
05:04porque ele atende alguns critérios, né?
05:06Um deles é a gente ter uma taxa de transmissão vertical menor que 2%.
05:11Pelo menos, menos de 50 casos a cada 100 mil nascidos vivos.
05:1790% das mães gestantes estarem em tratamento.
05:2090% das mães gestantes HIV fazerem pré-natal.
05:24Então, cumprindo esses requisitos, o Brasil consegue esse certificado da OMS, né?
05:28Que é uma super conquista, né, gente?
05:30É uma super conquista, é incrível.
05:31Eu tô super feliz, porque eu faço parte desse índice, né?
05:34Sim, com certeza.
05:35Você é um exemplo vivo disso e um exemplo que tá gerando novas vidas.
05:39E tudo por isso que a gente trouxe você aqui também.
05:41É sensacional esse caso seu.
05:44O Brasil sempre foi exemplar no combate a essa epidemia, né?
05:48Desde ali dos anos 90, começo do ano 2000, conseguiu quebrar a patente dos remédios,
05:53de forma que pudesse realmente oferecer um tratamento mais eficaz às pessoas.
05:57E a gente sabe que o preconceito ainda é muito grande hoje em dia.
06:02Ao longo da sua trajetória, qual foi o principal mito ou preconceito que você precisou enfrentar
06:07ou desconstruir, né?
06:09Sobre HIV, sobre AIDS e sobre a maternidade, nesses casos, né?
06:13Porque tem muita gente que critica as mães, muitas vezes, falando
06:16Nossa, mas você vai colocar em risco os seus filhos e tal, não sei o quê.
06:19Conta pra gente qual foi o desafio mais difícil, o osso mais duro de ruer,
06:23mas que você foi lá e rueu e tá aqui pra contar essa história.
06:26Nossa, eu tava fazendo conteúdo agora aqui sobre isso, que eu tava falando, gente,
06:31como eu tenho haters que falam, você não deveria ter tido filho e seus filhos na escola,
06:36você poderia ter infectado eles, as pessoas nem sabem como funciona e ficam, né, com esse ódio todo.
06:42E eu falo, gente, eu crio meus filhos pra eles serem crianças empoderadas como eu,
06:47que falam assim, olha, minha mãe nem deveria ter tido filho, ou ela, né,
06:51quando todo mundo dizia que era pra ela não ter tido filho, ela foi lá e teve.
06:55E minha mãe é muito corajosa, então eu crio eles pra eles serem crianças que respondam assim, né.
07:00Mas o meu processo foi um processo meio de dentro pra fora, né.
07:03Eu acho que quando você pega o diagnóstico também, Cazé, ainda tem uma coisa muito dos anos 80, né,
07:08tem uma morte social, né, você fala, gente, nunca mais vou me relacionar.
07:12Por mais que você saiba que você esteja ali em tratamento, esteja ok,
07:15tem uma parte social muito forte, né, que você fala, gente, as pessoas se escondem,
07:20tem um medo muito grande, assim.
07:21Então, eu tive meu momento de luto, né, pra eu digerir.
07:24E depois que eu digeri, eu entendi, o meu processo foi de dentro pra fora.
07:28Eu falei, gente, o que eu sofrer aqui pra fora, eu vou levar de outra maneira.
07:33Então, eu comecei, quando as pessoas falavam, não quero tomar do seu copo,
07:36eu falava, gente, eu gerei duas crianças na minha barriga,
07:39você não quer tomar do meu canudo? Por favor, né.
07:42Então, eu trabalhava, né, eu trabalhei em grandes multinacionais,
07:45eu era da Samsung, fui pra Sony, fui pra Alvo Maltino,
07:47e um dia eu tava no banheiro, saí do banheiro,
07:49tinha já, todo mundo já sabia, a gente tinha escrito um livro,
07:52já tinha, as duas crianças já tinham nascido,
07:54e a menina não entrou no mesmo banheiro que eu tava.
07:57E aí, eu fiquei pensando assim, gente, de verdade, assim,
07:59que a Zé falava assim, eu não fico triste com a pessoa,
08:02eu fico triste pela pessoa, né.
08:04Porque, gente, assim, em 2025, eu tô falando que eu gerei duas crianças negativas,
08:08e você não quer usar o mesmo banheiro que eu,
08:10eu fico triste por você, não com você, né.
08:12Então, isso é um processo muito meu, né,
08:15tem gente que sofre ainda muito com estigma,
08:18mas eu acho que ainda tem muitos profissionais,
08:22alguns, né, que falam,
08:23você tem 50 mil reais pra fazer em seminação artificial,
08:25então você não tem que ser mãe.
08:27E não é assim, gente, eu posso ser mãe naturalmente.
08:29Então, assim, tem muitas questões, não só do HIV,
08:33mas por a gente ser mulher também,
08:34que tem outras milhões de questões, né,
08:36de, ai, você é promíscua, né,
08:39uma série de outras questões,
08:40que fazem até, no caso da maternidade,
08:44algumas mulheres desistirem do seu sonho
08:47por acharem que é um crime, um erro, né.
08:49Então, eu acho que o meu processo foi esse, né.
08:51Eu falava, gente, eu namorei,
08:53ele foi meu namorado por um ano,
08:55qual que é o meu crime de ter amado e confiado numa pessoa?
08:58Realmente, quando eu tirei o preservativo,
08:59eu não pedi uma série de exames, né.
09:01Meu critério foi confiança, eu confiava nele
09:04e tirei o preservativo, também não é culpa dele,
09:06foi culpa minha também de não ter me cuidado,
09:08mas qual que é o meu crime, né, de ter amado e confiado?
09:11Então, eu acho que tem muito isso, né, muita culpa,
09:13e isso é todo esse estigma que vem dos anos 80,
09:16que eu acho que a mídia fez uma imagem muito forte,
09:20que não desfez ao longo desses 40 anos,
09:23eu acho que foi meio isso.
09:24É importante você falar sobre essa questão do luto também, né,
09:26porque apesar de ser um vírus com o qual a gente consiga lidar hoje em dia,
09:32existe essa questão do luto, né.
09:33Uma das minhas filhas, ela é psicóloga, trabalha no CAPES,
09:36no Centro de Atendimento Psicossocial,
09:37justamente nesse momento que as pessoas recebem os testes dos exames,
09:41os resultados.
09:42E realmente, precisa desse acompanhamento social,
09:45precisa desse acompanhamento emocional, né,
09:47porque é um momento muito difícil,
09:49que passa muita coisa pela nossa cabeça,
09:51e a gente descobre até mesmo preconceitos
09:53que a gente não imaginava que a gente tivesse.
09:56Pra terminar, que mensagem, então,
09:57você deixaria hoje para as mulheres que, eventualmente,
10:00vivam com HIV e ainda têm medo de engravidar.
10:05É, que se cuidem, que se testem.
10:07Eu acho que, primeiramente, a gente se testar, né,
10:09porque tem tanta gente que tem o vírus e não sabe, né,
10:12e é tão, às vezes, até um pouco hipócrita isso,
10:14porque é muito mais seguro você se relacionar com uma pessoa
10:17que tem o vírus, sabe que tem, está em tratamento,
10:20é impossível ela passar,
10:22do que você se relacionar com uma pessoa que você acha bonitinha na balada
10:25e você não sabe, a pessoa nunca se testou e ela está passando por aí.
10:29Então, eu acho, assim, que, primeiramente, você se testar
10:31e, se você souber que você tem, você se cuidar e se tratar.
10:35O tratamento é tão acolhedor.
10:37A gente tem, como você disse, sua filha,
10:39a gente tem psicólogo, a gente tem o tratamento gratuito,
10:43os retrovirais não são como antigamente, né,
10:47que a gente tomava 20 comprimidos e mais 20
10:49para os efeitos colaterais que esses remédios teriam.
10:51Então, assim, o tratamento, rapidamente,
10:53a maioria das pessoas ficam indetectável.
10:55Você pode ser mãe, né, você pode amar.
10:58Então, essa imagem de que a gente é um corpo,
11:01que a gente não pode amar e ser amado,
11:03que a gente tire isso.
11:04E eu acho que a aceitação, quando a gente se aceita,
11:07a gente tira esse peso de ser aceito por alguém.
11:09Então, acho que mais do que isso é você se aceitar,
11:12porque quando a gente se aceita, a gente se fortalece,
11:14a gente pode amar, a gente pode viver, a gente pode maternar.
11:17Então, acho que essa parte, o recado que eu tenho, assim,
11:20é de a gente se aceitar não só para HIV, né, Cazé?
11:23Para tudo, assim, eu acho, né, uma pessoa que é gordinha,
11:27a gente se aceitar do jeito que a gente é,
11:30isso faz, a gente se empodera de uma tal maneira
11:32que o outro não machuca mais a gente,
11:34porque a gente sabe, nosso coração, a gente se conhece,
11:37e aí a gente consegue viver mais leve, mais livre.
11:40Sensacional, querida.
11:42Thaís Renovato, muito obrigado pela sua participação aqui,
11:45muito obrigado por essa mensagem de superação,
11:47de alegria, de força, de empoderamento.
11:49Feliz Natal para você, um ótimo ano novo aí,
11:52com os filhotes e o marido, e a vida que segue.
11:56Parabéns.
11:58Obrigada, obrigada a você, eu sou uma super fã sua
12:00desde a época de MTV, quando eu recebi o convite,
12:02eu falei, ai, quero muito.
12:04Quando tinha Gastão, Thunderbird, Sabrina,
12:06você é um querido assim, eu sou super sua fã,
12:09então eu fiquei muito feliz de participar aqui com você,
12:10obrigada pelo convite, por isso.
12:12Imagina, querida, muito obrigado, obrigado a você.
12:14Grande abraço.
12:15E aí
Comentários

Recomendado