00:00Meu Deus do céu, a criança tá na cacimba, a criança tá na cacimba, gente.
00:06Meu Deus do contrário, tira a imagem, tira a imagem.
00:08Afasta aqui, gente, afasta, vamos sair daqui.
00:11Meu Deus, gente, que imagem terrível, que imagem terrível, gente.
00:14Que imagem terrível, gente.
00:17Pedir a Deus, pedir a Deus demais, pedir a Deus, orei.
00:21Pai, me conceda o privilégio de ser pai.
00:26Aí quando eu me ajuntei com ela, aí Deus me concedeu.
00:29Essa menina veio na minha vida como se fosse um aluno.
00:32Não é à toa que o nome dela é Esté, que é do verbo que estrela.
00:37Eu fiz o exame da farmácia, eu de sangue.
00:41Falei assim, olha, quando for de noite, vem aqui em casa que eu tenho uma informação pra você.
00:44Ele falou assim, eu já sei já, tu tá grávida.
00:49Falei, tô.
00:51Aí ele cheio, eu falei assim, eu já sei, tô bem, eu sei.
00:54É uma menina.
00:58E eu disse pra ele assim, eu não posso dizer a mesma coisa.
01:03De tanto ter menino, menino, menino, eu perdi até a esperança de ter uma menina.
01:09Deus sabe disso no coração.
01:10E eu fiz assim, e se Deus me conceder a ser mãe de uma menina, e se for a menina, o nome dela vai ser Esté.
01:22Era uma criança feliz, os pais amavam, as mães adoravam essas crianças.
01:30Era uma criança bem cuidada, bem cuidada pela mãe.
01:33Andava na favela aqui, como todos, andam, né?
01:36Como todas as crianças da Sousa, porque aqui todo mundo conhece todo mundo.
01:40Esse campo aqui é cheio de gente de manhã, até de noite.
01:43Essa hora tem gente com passarinho, mais tarde tem gente correndo bola aí,
01:46o menino jogando bola aqui na barra.
01:48E ela brincava sempre com os irmãozinhos.
01:52Eu trabalho com criança há 45 anos, né?
01:59Eu faço festa de criança, sou palhaço.
02:01Os pais e a mãe estão se sentindo uma dor bem maior,
02:04mas incomparável da minha, porque a cabeça fica barulhando a noite toda.
02:10Aí a gente vê uma criança que você fez o aniversário,
02:12cantou parabéns e disse muitos anos de vida para ela, né?
02:15E de repente vê uma vida ser tirada.
02:17Meu palhaço está triste, triste.
02:25Nunca tinha acontecido coisa tão parecida.
02:31Essa rua aqui é cheia, é cheia de criança.
02:34É de manhã, é meio-dia, é de tarde à noite.
02:38Esse campo aí, meu Deus, ninguém nem fala, porque é completo de gente.
02:44Enche de criança, viu?
02:46Quando meus nezinhos estão aqui, enche de criança isso aqui.
02:51Eu boto tudo aqui, os deles aí, chega tudo aqui, eu trato todas as crianças bem.
02:56Os delas chamam eu tudo de vó.
02:58Principalmente a dela, ela vivia muito aqui.
03:00Era?
03:01Você é uma senhora de vó, era?
03:03Chamava eu de vó.
03:04Quer dizer, eu peguei um carinho por essa criança, eu peguei amor.
03:09Fazia um mês que a bichinha estava aqui, só que eu conheço ela de muito tempo.
03:13Ela era a minha única mulher que pode ter pegado.
03:15Menina.
03:16Ela era a caçulinha também.
03:17Eu tenho quatro, eu tenho um de 12 anos, um de 10, um de 8 e um de 10.
03:26Quando disseram assim, a menina desapareceu, eu disse, não.
03:30Desapareceu como?
03:32Porque essa menina, eu vi ela de 4 e meia.
03:34Vamos procurar por dentro de casa, vamos fazer isso, vamos fazer aquilo para ver se ela estava dormindo.
03:38Que dormindo foi um homem que se encrestou, não sei o quê.
03:41Um homem, mascarado, que nunca andou aqui.
03:45Se chegar um carro desconhecido, a gente fecha a rua.
03:50É uma comunidade que é unida.
03:52O que acontecia com o mundo, todo mundo caiu em cima.
03:56Até 3 horas da madrugada, a gente estava na beira desse rio.
04:00Que chegava e se levava uma picada de cobra, de estampão.
04:04O único lugar que faltava, olha, só era aquela caçulinha.
04:09Lavar de casa, de ter levado isso aqui, aí realmente está dificultando um pouquinho.
04:13Mas eu só vou sossegar quando encontrar os verdadeiros culpados.
04:17Não só tem aqueles dois monstros lá, não, tem mais, tem mais gente.
04:22Bati, aí um dos acusados abriu e chegou no portão e foi assim.
04:29Aí eu falei, olha, eu quero entrar aí e quero a minha filha.
04:34Aqui o meu menino, o Arthur viu, o rapaz,
04:36indo para aí com a minha menina, entrando nessa casa.
04:39Aí ele falou, é porque a minha mulher está transtornada, sei o que, eu vou ali falar com ela.
04:47Quando ele voltou, ele abriu e eu entrei.
04:53Mas não tinha ninguém, não tinha mulher, não tinha esposa, não tinha nada.
04:58Só estava a casa bagunçada, um guarda comido, um guarda comido derrubado,
05:05uma cama roxiveia.
05:07Eu levantei até assim, um pouquinho para ver se estava embaixo,
05:11olhei debaixo da cama.
05:12Isso foi no mesmo dia, foi?
05:14Isso era...
05:14No dia que ela desapareceu.
05:16Na segunda.
05:17Eu ainda chamei o meu, porque ela é Estê, eu, Estê.
05:20Ele pegou a menina, deu a cacetada da minha menina
05:23e botou nesse quarto fechado, no espírito, no espírito, botou lá.
05:29Aí abafou o caso, como ela entrou, que não viu nada, saiu.
05:33Não é fácil, gente, não é fácil.
05:36Uma dor dessa, a dor dela é a dor da minha, é a minha dor, entendeu?
05:40A dor dela é a minha, porque eu já perdi um filho, sei o que é uma dor.
05:45Minha dor, muito.
05:46Aí muita gente quer julgar ela, gente, quem é que não é?
05:49Como aconteceu com ela, como podia acontecer com qualquer mamãe aqui.
05:54De hoje, o teto está até mal, não quer comer.
05:58A minha ex-sogra ligou a avó dele, disse que ele acordou agora.
06:03Aí ela falou com ele, disse que a irmãzinha dele estava no céu.
06:08Quando for a noite, o sol é para o céu, como se vê uma estrelinha,
06:11beijando essa irmãzinha.
06:13Minha única filha, porque eu pedi que eu estou tendo.
06:21Num domingo, parece que ela estava pensando que ia acontecer alguma coisa.
06:26Ela estava se despedindo, como suma.
06:28Ela chegou para a minha sobrinha de 13 anos, e é uma de 13 também.
06:33E chegou e falou assim, olha, eu amo vocês duas.
06:38Porque eu te amo, mãe.
06:40Ligou para o meu cunhado, que é o marido da minha irmã, que mora na Soiaba.
06:46Foi um vídeo.
06:47Foi um vídeo.
06:49E dizia que, por que você não veio, que ela estava aqui.
06:52Eu te amo, viu, tio?
06:54Eu te amo, eu te amo.
06:56Está com saudade dele?
07:01Está com saudade dele.
07:03Dá beijo para ele, dá beijos.
07:06Isso foi num domingo à noite.
07:08Ele estava aqui, na casa da minha mãe.
07:11Eu me lembro como se fosse um, que eu dizia assim.
07:21Pai, tu sou o que, papai?
07:24Eu, até, de seis anos, papai.
07:28Aí, quando ela escutou minha voz, aí minha esposa, olha, este é teu pai.
07:35Ela chega, veio na carreira, olhou para mim, pensa, papai.
07:40Te amo, vem, papai.
07:42Vai cantar saudade.
07:42Saudade.
07:44Quando, eu acho que nunca vai passar.
07:45Ela é muita pegada com o senhor, porque as meninas geralmente, né?
07:48É, é uma pegada, né?
07:50Eu não estava trabalhando fechado, eu estava trabalhando, fazendo rua de oficina.
08:01Do nada, quando essa menina veio na minha vida, foi um reboliço tão grande, que eu arrumei um emprego fechado.
08:08Aí, justamente, no dia que a minha menina, que marcou o dia dela, de descansar, e a menina aí fazer a cirurgia, não foi o ligamento?
08:19Foi o Sazão e foi o Fernanda?
08:21Foi.
08:21Aí, a empresa, a Hinaldo, a gente tem uma promoção de, que eu era ajudante, aí tem uma promoção para você, para você virar profissional em outra área.
08:34Aí, de ajudante, você ia ser profissional, agora o seu dinheiro vai aumentar.
08:38E a gente, que a gente amava essa menina.
08:40Já fechou, hein?
08:42Seu Pinóquio disse que foi fazer lutar os brindis e tudo na festa, não foi?
08:46Foi, essa daqui, a gente faz de uninho, ó.
08:48E a tema era princesa, ó.
08:50Era chuva de benção, se eu não me engano.
08:53Aí, o nome dela aqui, ó.
08:55No dia que ele foi visitar, aí ele veio do trabalho e foi visitar a menina, e eu falei, cadê ela?
09:03Ela acabou de mamar, porque ela falou que ela estava ali brincando, que eu vou fazer o café dos meninos.
09:09Ela estava com até medo de ir nascida.
09:12Aí, ele foi para o quarto, brincou, que só com ela.
09:14E quando ele deu a costa, ela fez, papai!
09:21Que a primeira palavrinha dela.
09:23Mãe, você acha que é o quê?
09:29Eu falei, olha, doutor.
09:32Eu disse, é tanto menino, eu acho que é menino de novo.
09:35Porque eu já perdi a esperança.
09:37Aí, ele fez...
09:38Aí, ele fez...
09:39E o pai...
09:40E o pai disse que é uma menina.
09:44E quando ele fez assim, mãe, a esperança não está morta.
09:49Ela estava lá no fundo do seu coração, viu?
09:53Mas é uma princesinha.
09:54Daí, ó, eu fiquei estável.
09:56Eu falando, tá vendo aí?
09:58Eu não deixo você com a menina.
09:59Eu podia ir para onde fosse.
10:01Se eu fosse para a casa de um amigo meu, ela ia dizer, papai, eu vou, eu vou.
10:06Eu não preciso tomar tua...
10:07Não, eu vou, senhor.
10:09Aí, botava uma roupa, um negócio, ia mais eu.
10:12Eu já sabia botar no YouTube, aqui, ó, no microfone.
10:18Gosto belo, de onde?
10:19De onde?
10:22Estou lembrando.
10:24Como é que eu vou matar minha própria filha?
10:30Tem que correr atrás.
10:31Minha única filha.
10:33Eu pedi tudo até mesmo.
10:34E em questão de culpa, de ter um pouco de responsabilidade, isso aí a gente via depois.
10:44Eu quero saber quem foram as pessoas, as pessoas que participaram daquela brutalidade que fizeram com a minha filha.
10:51Vocês podem ver como é que uma mulher dessa vai ter a capacidade de fazer uma coisa com a própria filha.
10:57Até você, numa cozinha, cozinhando, sua filha do lado, você ali tem filha na cozinha, sua filha do lado, pode cegar você, pode botar a mão no fogo, pode sair para o meio da rua.
11:10Mas a turma, tem jeito que não vê isso, não.
11:13Tem jeito que não vê, não.
11:14Aí quer incriminar, quer dizer que tem culpa, quer dizer que tem participação.
11:27Tem jeito que não vê, não.
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