O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou, nesta segunda-feira (13), em Roma, na 2ª Reunião do Conselho de Campeões da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, o papel do Brasil na liderança de políticas para erradicar a miséria. Ele destacou os avanços do primeiro ano da iniciativa e fez um apelo por mais recursos e compromisso internacional.
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Imagens: Canal Gov
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00:00Amigos e amigas, celebramos neste fórum os 80 anos da FAO.
00:10Há 10 anos, tive o privilégio de participar da comemoração dos 70 anos dessa organização.
00:18Muito mudou nesse período.
00:21Vivemos então o entusiasmo da adoção da Agenda 2030.
00:25O mundo havia se unido em torno de objetivos comuns e caminhava rumo a um futuro promissor.
00:35Hoje, tanto nossa capacidade de agir coletivamente, quanto o otimismo que nos animava, estamos abalados.
00:43O desafio se aprofundava, mas não temos alternativa se não persistir.
00:50Enquanto houver fome, a FAO permanecerá indispensável.
00:56É simbólico que sua fundação tenha precedido a própria ONU.
01:02Uma semana antes de os líderes mundiais se reunirem em São Francisco em outubro de 1945,
01:09representantes de mais de 40 países se encontraram no Canadá para criar essa organização.
01:18Quando o mundo emergia do seu momento mais sombrio, a comunidade internacional reconheceu
01:24que, em seu futuro, não havia lugar para fome.
01:29O brasileiro Josué de Carto, que presidiu o Conselho Executivo da FAO nos anos 50,
01:37dizia que metade da humanidade não come e a outra metade não dorme com medo da que não come.
01:45O acesso a alimentos continua sendo um recurso de poder.
01:51Não há como dissociar a fome das desigualdades que dividem ricos e pobres,
01:58homens e mulheres, nações desenvolvidas e nações em desenvolvimento.
02:04Nos anos 70, alguns acreditavam que a produção agrícola não acompanharia o crescimento populacional.
02:13O progresso tecnológico desbancou essa previsão.
02:16Hoje, o mundo produz comida suficiente para alimentar uma vez e meia a população mundial.
02:25Ainda assim, 673 milhões de pessoas, segundo a FAO, estão em situação de insegurança alimentar.
02:34Com base em dados do Programa Mundial de Alimentos,
02:37é possível estimar que garantir três refeições diárias a essas pessoas custaria cerca de 315 bilhões de dólares.
02:49Isso representa 12% dos 2,7 trilhões de dólares consumidos anualmente com gastos em armas.
03:00Estabelecendo um imposto global de 2% sobre os ativos de super-ricos, obteríamos esse montante.
03:12A fome é irmã da guerra, seja ela travada com armas e bombas ou com tarifas e subsídios.
03:20Conflitos armados, além do sofrimento humano e da destruição da infraestrutura, desorganizam cadeia de insumos e alimentos.
03:32Barreiras e políticas protecionistas de países ricos desestruturam a produção agrícola no mundo em desenvolvimento.
03:40Da tragédia em Gaza, a paralisia da Organização Mundial do Comércio, a fome tornou-se sintonia do abandono das regras e das instituições multilaterais.
03:54Roma é sede de três agências que salvam vidas.
03:59O trabalho da FAO, do Programa Mundial de Alimentos e do Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura,
04:05não deixa dúvidas de que o mundo seria um lugar pior sem o multilateralismo.
04:12Graças à FAO, um número crescente de países reconheceu o direito à alimentação em sua legislação.
04:20A peste bovina e a doença da cegueira nos rios foram erradicadas
04:24e a comida que consumimos segue parâmetros definidos em um código universal
04:30que garante sua segurança e sua qualidade.
04:33A FAO é exemplo de um multilateralismo que escuta os países em desenvolvimento,
04:40valoriza o conhecimento local e constrói soluções adaptadas a cada realidade.
04:46O Brasil tem orgulho de fazer parte da história desta organização.
04:51Seu apoio foi fundamental para fortalecer políticas brasileiras que se transformaram em referências globais.
04:59Durante seus dois mandatos como diretor-geral, o professor José Graziano da Silva, aqui presente,
05:06contribuiu para essa fertilização cruzada.
05:10Acordido pela FAO, nosso programa Fome Zero serviu de inspiração para o segundo objetivo do desenvolvimento sustentável.
05:18Aliando o programa de transferência de renda, alimentação escolar e o fortalecimento da agricultura familiar,
05:26conseguimos tirar o Brasil do mapa da fome em 2014.
05:30O retrocesso que vivenciamos nos anos seguintes demonstrou que o combate à fome devia ser a luta perene.
05:45Não se trata de assistencialismo.
05:48É preciso colocar os pobres no orçamento e transformar este objetivo em política de Estado,
05:54para evitar que avanços fiquem à mercê de crises ou marés políticas.
06:01Mesmo líderes de países com orçamento pequenos podem e precisam fazer esta escolha.
06:08Desde 2023, temos trabalhado incansavelmente para reconstruir políticas sociais.
06:16As sementes que plantamos frutificaram.
06:19Neste ano, a FAO anunciou que outra vez o Brasil saiu do mapa da fome.
06:2730 milhões de pessoas começaram a almoçar, jantar e tomar café.
06:34Em 2024, alcançamos a menor proporção de domicílios em situação de insegurança alimentar grave da nossa história.
06:47Registramos ainda a menor proporção de domicílios com crianças menores de 5 anos em situação de insegurança alimentar grave desde 2004.
06:58Estamos interrompendo o ciclo de exclusão.
07:02Um país soberano é um país capaz de alimentar o seu povo.
07:06A fome é inimiga da democracia e do pleno exercício da cidadania.
07:12É possível superá-la por meio de ação governamental.
07:15Mas governos só podem agir se dispuserem de meios.
07:21Por isso, ampliar o financiamento ao desenvolvimento, reduzir os custos de empréstimos,
07:27aperfeiçoar os sistemas tributários e aliviar a dívida dos países mais pobres são medidas cruciais.
07:34Não basta produzir, é preciso distribuir.
07:38Poucas iniciativas contribuiriam tanto para a segurança alimentar e nutracional
07:44quanto uma reforma da arquitetura financeira internacional que direcionasse recursos para quem mais precisa.
07:52América Latina e o Caribe vivem o paradoxo de ser o celeiro do mundo e conviver com a fome.
07:59A África atravessa crescimento econômico e, ao mesmo tempo em que registra aumento preocupante dos níveis de insegurança alimentar.
08:09Sob liderança do diretor-geral da FAO, o Brasil tornou-se parceiro.
08:14Em mais de 40 países, fortalecendo a cooperação sul-trilateral.
08:21Seis instituições brasileiras, entre as quais a Embrapa, foram agraciadas este ano com o prêmio da FAO de reconhecimento técnico a boas práticas,
08:32que o Brasil se dispõe a compartilhar sem condicionalidade.
08:36O combate à fome e à pobreza é um dos principais pilares da política externa brasileira.
08:47Em maio, promovemos o segundo diário com o Brasil-África sobre segurança alimentar, combate à fome e desenvolvimento social.
08:57Há poucas semanas, realizamos na cidade de Fortaleza a segunda cúpula global da Coalizão para a Alimentação Escolar.
09:05No ano que vem, sediaremos a 39ª Conferência Nacional da FAO para a América Latina e Caribe.
09:15Foi deste espírito de solidariedade que nasceu a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza.
09:22Lançada pela presidência brasileira no G20, ela já conta com 200 membros, dos quais 103 países.
09:30Hoje, inauguramos o mecanismo de apoio que impulsionará a implementação de projetos pilotos em diversas regiões.
09:40Convidamos todos, mas todos mesmo, a contribuir com a iniciativa.
09:46Senhoras e senhores, um planeta mais quente será um planeta com mais fome.
09:53A escassez de água, a perda da biodiversidade e as catástrofes naturais afetarão a produtividade agrícola e o preço dos alimentos.
10:05As inovações técnicas e científicas que transformaram a agricultura no século XX ficaram conhecidas como a Revolução Verde.
10:14A mudança do clima exigirá de nós uma revolução mais verde e mais inclusiva.
10:20Mitigar as emissões do setor agrícola e adaptar sistemas alimentares a uma nova realidade climática
10:27são tarefas que demandam tecnologias e muitos recursos.
10:32Para que essa transição seja justa, é preciso redobrar a cooperação.
10:37Não haverá justiça climática se o enfrentamento ao aquecimento global não caminhar lado a lado com o combate à fome e à pobreza.
10:47Entrelaçar essas duas lutas será a missão da COP30 em Belém.
10:53As contribuições nacionalmente determinadas podem se tornar veículos para a promoção da segurança alimentar e nutricional.
11:01Isso é possível, fomentando a agropecuária de baixo impacto ambiental, apoiando a agricultura familiar,
11:09produzindo bioenergia como alternativa renovável e compensando quem preserva a natureza.
11:16Vamos lançar em Belém o Fundo Florestas Tropicais para Sempre,
11:21um mecanismo inovador que vai remunerar tanto quem investe quanto quem mantém a floresta em pé.
11:28A FAO será uma parceira incontornável na construção de um futuro sustentável.
11:36No Brasil, a escritora brasileira Carolina de Jesus, mulher negra que registrou as aflições cotidianas dos moradores de uma favela em São Paulo,
11:47disse que a escravatura do mundo atual se chama fome.
11:50Nossa maior missão é concretizar a promessa inscrita na construção da FAO e livrar, enfim, a humanidade desse mal.
12:01Só vamos combater a fome, a pobreza e a desigualdade de forma eficaz quando os pobres deixarem de ser invisíveis para a elite política.
12:11Meus amigos e minhas amigas, eu penso que é importante cada um de nós, ao terminar esse encontro da FAO,
12:22em que comemora hoje seus 80 anos, é voltar para os nossos países com a certeza de que a fome não é simplesmente um problema econômico.
12:32A fome é sobretudo um problema político, é uma questão de opção, é uma questão de saber para onde vai o dinheiro que o Estado arrecada.
12:46É preciso saber se as pessoas estão pagando os tributos certos por aquilo que ganham no país.
12:52No Brasil, nós acabamos de aprovar uma lei que nenhum trabalhador que ganha até 5 mil reais, o equivalente a mil dólares, pagará mais imposto de renda no Brasil.
13:08E aprovamos ao mesmo tempo que todas as pessoas que ganham acima de um milhão por ano irão pagar um pouco mais para que a gente possa, sabe, tirar o pagamento das pessoas mais pobres.
13:22Portanto, é preciso que cada governante assuma a responsabilidade.
13:27Na hora de fazer o orçamento do seu país, na hora de discutir quanto vai para as Forças Armadas, na hora de discutir quanto vai para a diplomacia,
13:36na hora de discutir quanto vai fazer de isenção para os empresários, que benefício vai fazer, é importante lembrar que os pobres não são invisíveis.
13:47E é preciso enxergá-los, porque eles um dia os enxergarão.
13:52E aí a gente vai pagar o preço da irresponsabilidade de não cuidar dos pobres e igualdade de condições como se cuida do rico.
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