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  • há 5 meses
Bruxelas, meu amor? O carro do futuro, fabricado na Europa?

Nesta edição, vamos falar sobre os desafios da indústria automóvel europeiam do Informe Draghi e da proposta para enviar soldados para as ruas de Bruxelas para combater o tráfico de droga.

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00:00Olá e sejam bem-vindos ao Bruxelas Meu Amor, o programa de Euronews que lhe traz todas as semanas, em português, as notícias e os debates que marcam a atualidade europeia.
00:21Eu sou Mariana Correia e estes são os destaques da semana.
00:24As vendas de automóveis na Europa estão em baixa e os níveis de stress entre os fabricantes europeus em alta.
00:32Com as empresas chinesas a liderarem o mercado de veículos elétricos e baterias, a presidente da Comissão Europeia reuniu-se com os CEOs das grandes fábricas de automóveis numa tentativa de acalmar os medos instalados.
00:44Com a pressão adicional sobre o setor para se tornar mais limpo e elétrico, analisamos a crise existencial que a indústria automóvel enfrenta, assim como o clima.
00:53E ainda, lembra-se de Mário Draghi? Há um ano, o ex-presidente do Banco Central Europeu e antigo primeiro-ministro italiano apresentou um relatório arrasador à Comissão Europeia,
01:04alertando que ou a UE corrigiu os erros de um mercado único fragmentado ou iria morrer numa agonia lenta.
01:11Um ano depois, vamos saber se alguma coisa mudou para melhor ou se a União Europeia continua a não ser uma líder.
01:18Damos agora as boas-vindas aos nossos convidados de hoje.
01:22Gonçalo Lopes Xavier, representante da Confederação Empresarial de Portugal no Comitê Económico e Social, seja bem-vindo.
01:29Rita Siza, jornalista e correspondente do Jornal do Público.
01:32E também André Campos Ferrão, jornalista e correspondente da Agência Lusa.
01:35Obrigada aos três por terem aceitado o nosso convite.
01:38Antes de começarmos o nosso debate, vamos ver por que razão, ultimamente, a indústria automóvel europeia tem sido tantas vezes falada nas notícias.
01:46Vendas fracas, preços de energia elevados, crescente concorrência global e um ambiente comercial incerto margullan a má indústria automóvel europeia numa crise crescente.
02:02Na primavera passada, a União Europeia lançou o plano de ação industrial que inclui fundos para os produtores de baterias,
02:15mas tais iniciativas não conseguiram alterar o panorama sombrio da indústria.
02:19As grandes fabricantes automóveis estão particularmente frustradas como a falta de um plano político pragmático para a transformação do setor.
02:30Exigem custos de energia mais baixos para recargar os veículos elétricos,
02:35mais subsídios para compras, reduções fiscais e, principalmente,
02:39melhor infraestrutura para recarga de forma a tornar a mudança para veículos elétricos
02:44uma escolha óbvia para uma massa crítica de consumidores europeus.
02:48Se isto não resultar, a proibição de novos carros com motor de combustão a partir de 2035 deve ser adiada?
02:55Os fabricantes de automóveis têm discordado do compromisso da União Europeia de alcançar a neutralidade carbónica até 2050,
03:08argumentando que as ambições climáticas destruiriam a competitividade no setor.
03:12Por isso, lanço a pergunta com que termina-nos a peça aqui ao Gonçalo.
03:15A proibição dos carros novos com motores a combustão devia ser adiada?
03:21Bom, boa tarde. Obrigado pela oportunidade.
03:24Eu falo aqui em nome da indústria, é certo, mas enquanto europeu, enquanto cidadão normal, só posso estar preocupado.
03:35Porque nós também falamos do Draghi e do relatório e da visão que ele tem para a Europa
03:44e o que vemos é que nós estamos a lidar com metas que foram impostas ou sugeridas muito antes do plano Draghi,
03:54muito antes dos sinais de alerta terem começado a disparar
03:59e não há aqui um equilíbrio para revisitar sem perder a face.
04:07E não se trata de perder a face, trata-se de perceber que nós, infelizmente, os europeus,
04:13perdemos o comboio, e a imagem não é nada feliz, da indústria automóvel.
04:18Perdemos as matérias-primas, perdemos a inovação e estamos agora a pagar por uma desindustrialização que foi feita.
04:31Portanto, a proibição dos novos carros deve ser...
04:36Eu acho que todas estas metas têm que ser revistas sob pena, daí então a Europa deixar de fazer sentido
04:45enquanto a geografia europeia que tenha respeito por si própria.
04:51E isto não tem nada a ver com não querer a sustentabilidade e não ir à procura de objetivos credíveis
04:59e de defesa de um espaço europeu que seja melhor que os outros do ponto de vista do respeito...
05:06Mas a indústria automóvel defende?
05:08Eu julgo que a indústria automóvel ainda não tem a coragem de afirmar tão diretamente
05:16que quer essa revisão o mais urgente possível porque não quer tirar a toalha ao chão
05:21e eu acho isso ótimo.
05:22Eu acho que há oportunidades, apesar de tudo.
05:25Há pouco falávamos, eu sou um realista, sou um otimista realista,
05:29mas a situação é dificílima e nós temos que alterar muitos procedimentos,
05:34alterar muitos comportamentos e mesmo percepções nos cidadãos,
05:39a começar por a exploração de matérias-primas, de riquezas que temos na Europa,
05:46mas que mal comunicadas dão logo origem a barricadas nas estradas
05:52e a grandes rasgars de vestes das populações,
05:56quando não se importam que se vá buscar o lítio ao outro lado,
05:58desde que não seja no seu quintal, mas isso tem custos.
06:01Certo. Ripa, adiar a proibição destes novos carros de combustão
06:05alivia a pressão a curto prazo para a indústria e os consumidores,
06:09mas coloca em risco pilares centrais da política climática europeia,
06:14como o Pacto Ecológico Europeu.
06:15É algo que a Comissão está disposta a ceder?
06:18Não me parece.
06:20A Comissão tem sido bastante cautelosa na forma como tem abordado este problema.
06:26Para já, o que está em cima da mesa é ver uma revisão das metas relativamente a 2025,
06:31portanto, as deste ano, em que há a introdução de mais flexibilidade para as construtoras,
06:38em relação à proibição do motor de combustão a partir de 2035.
06:44Já havia uma espécie de um atenuar dessa medida no sentido em que se introduziu aqui o princípio
06:55da neutralidade tecnológica e havia também da parte dos Estados-membros uma grande pressão
07:01para que essa medida em 2035 ainda permitisse enquadrar os veículos híbridos e, portanto,
07:10considerá-los e não está ainda fechada.
07:13Em todo caso, eu acho que, claramente, a Comissão não quer deixar cair essa meta.
07:21Mas fica difícil de responder aos...
07:23Não fica difícil.
07:24A questão é, essa meta não é decretar uma meta que vai fazer com que ela aconteça.
07:30E esta transição não é só uma transição industrial, é também uma transição de consumo
07:37e o que está a faltar nesta altura são medidas que sejam mais, digamos assim, vigorosas de um lado e do outro.
07:48O que os industriais têm vindo dizer a Bruxelas é que aquilo que está em cima da mesa,
07:53e foi também aquilo que, vamos falar mais tarde, que Mário Draghi disse esta terça-feira,
07:57aquilo que está nesta altura em cima da mesa é claramente insuficiente.
08:01E o que os consumidores dizem é que nós não temos outra alternativa.
08:06E, portanto, uma opção de compra, nesta altura, de um veículo elétrico
08:12implica mais um ato de fé, digamos assim, do consumidor,
08:17um compromisso também da sua parte com esta agenda da neutralidade climática...
08:23E um aliviar da consciência.
08:24Do que, propriamente, uma decisão que seja racional do ponto de vista econômico.
08:30Porque, quer dizer, eu vou dar um exemplo comozinho que conheço.
08:35Temos o caso da Noruega, que não faz parte da União Europeia.
08:38Um país rico em combustíveis fósseis, não é?
08:43Tomou uma decisão de Estado que é, nós queremos estar à frente,
08:50estar na dianteira desta transição.
08:52O que é que aconteceu?
08:54É verdade que um país rico, há muito mais facilidade para trocar as frotas automóveis, etc.
08:58Mas, assim, a generalidade dos países da União Europeia já tem programas de troca de automóveis,
09:07quer dizer, já ninguém tem um carro durante 25 anos.
09:12A renovação da frota é mais frequente.
09:16Mas o que é que aconteceu?
09:17Deram incentivos, não só incentivos fiscais, como criaram condições para que as pessoas
09:25trocassem os seus veículos a diesel ou por veículos elétricos, como dando-lhes descontos
09:33nos impostos, oferecendo em qualquer sítio, digamos, nos postos de carregamento e isentando,
09:48por exemplo, o pagamento de portagens ou de ferro e voltos.
09:53Portanto, há aqui uma mobilização que é transversal para cumprir um determinado objetivo.
10:00Portanto, quando a Comissão diz, 2035, a indústria automóvel não diz, nós fomos contra
10:06a neutralidade carbónica.
10:08O que diz é, tem que dar condições e estas não chegam.
10:11E agora, vamos também pegar um bocadinho naquilo que van der Leyen disse durante o discurso
10:18do Estado da União, em que afirmou que o carro do futuro deve ser fabricado na Europa.
10:22Ora, André, esta ideia de um carro elétrico europeu acessível, nas condições em que
10:28o mercado se encontra é realista?
10:30Atualmente, não porque faltam incentivos, como estava a Rita a dizer, como estava o Gonçalo,
10:34como disse na introdução que fez.
10:35Há pouco tempo, há poucos dias, houve aquele último diálogo estratégico, o terceiro,
10:41se não estou em erro, com os representantes de indústria automóvel, na qual, de acordo
10:45com as notícias que saíram, foi dito à Comissão Europeia que, atualmente, é irrealista
10:50cumprir essa meta de 2035 e que, atualmente, ou seja, fabricar carros elétricos, tendo em
10:55conta que, por exemplo, o mercado está a ser, de certa forma, saturado com automóveis
10:59que vêm da China e nas quais já são conhecidas que houve ajudas estatais e que, atualmente,
11:05ou seja, a União Europeia tem aqui um problema, ou seja, as empresas europeias têm aqui um
11:09problema e que é, por um lado, não conseguem encontrar as matérias-primas para fabricar
11:13esses carros elétricos, ou seja, porque nessa corrida está o mundo inteiro.
11:18E com a China à frente.
11:19Exatamente.
11:19Então, mas este entusiasmo contrasta com aquilo que o Comissário da Indústria disse
11:25há meses, não é?
11:25Que existe um risco do futuro mapa da indústria automóvel mundial ser desenhado sem a Europa.
11:31Sim, esse risco parece-me que existe porque, ou seja, nesse, por exemplo, há poucos dias
11:37quando houve estas conversações entre a Comissão Europeia e os representantes da
11:41indústria automóvel, uma das coisas que foi dita à Comissão Europeia e nas quais a
11:46Comissão refutou que não iria, ou seja, que iria avançar com medidas mas que não
11:50podia deixar que a meta de 2035 foi, precisamente, que, atualmente, as empresas europeias sentem-se
11:58de fora porque houve um desinvestimento tecnológico, um desinvestimento industrial e, de repente,
12:03dizer que é necessário avançar com automóveis, ou seja, para cumprir as metas de descarbonização
12:08sem haver assim...
12:09Ou seja, 10 anos parece-se muito tempo, mas para fazer um shift total naquilo que foi
12:15a indústria automóvel nas últimas décadas é muito pouco.
12:17Maria, eu não acho que haja entusiasmo, essa proposta particularmente, não me parece
12:25que tenha suscitado entusiasmo nenhum quando a Presidente da Comissão...
12:28A entusiasmo da própria Presidente?
12:30Sim, acho que foi a única.
12:31Acho que foi um wishful thinking.
12:33Sim.
12:33Mas o que eu acho, o que achei mais estranho, é que ninguém lhe tenha dito, já existem
12:38carros elétricos fabricados na Europa, acessíveis, pequenos...
12:43Menos, eu até apontei, ela chamou-lhe um ecode ecológico, portanto, limpo, eficiente
12:50e ligeiro, cheque, já existe, ecode económico, ou seja, de ser acessível, essa parte não
12:56é tão acessível quanto os concorrentes asiáticos, e é de europeu, construído na
13:00Europa, com cadeias de abastecimento europeias.
13:02Ele pode ser construído na Europa, mas as cadeias de abastecimento não existem
13:05na Europa, fora da Europa.
13:07E essa...
13:08Não é possível.
13:09Há aqui uma contradição.
13:10Nem fechando os olhos e desejando muito isso.
13:12Exatamente.
13:12Não funciona assim.
13:14Eu queria só acrescentar, Rita, se me permite isto.
13:17É que isto também é por ciclos.
13:19Nós estamos, já tivemos...
13:21As pessoas já viveram os últimos anos apaixonados pela sustentabilidade, pelos objetivos ISG.
13:29E eu não estou a dizer que eles se refriaram.
13:32Eu estou a dizer é que hoje já não está tanto na moda.
13:35E ao não estar tanto na moda, isto também tem uma origem.
13:38Nós estamos a lidar com um bloco norte-americano, um dos Estados Unidos, melhor dito, que é
13:44antítese de tudo isto que estamos a falar.
13:46Que é que quer basear a sua economia em oil and gas e em fósseis.
13:52E, portanto, hoje esta dicotomia de prioridades também é um bocadinho assustadora e nós estamos
14:02aqui metidos no meio de duas visões completamente diferentes.
14:06O segundo nota que queria dar, Mariana, só para terminar, é que eu acho que há competência
14:12para a indústria automóvel, há inovação, os carros até são bem mais bonitos, apesar
14:19de verem muitas cópias da China de carros praticamente iguais.
14:23Agora, há uma coisa que nós ainda não temos e que vejo alguns Estados-membros em investir,
14:28nomeadamente Espanha, que é a eletrificação da infraestrutura que permita que as pessoas
14:34tenham uma vida mais fácil e eficiente com carros elétricos, porque quem vai passar
14:41férias...
14:41Há uma distribuição muito desigual, não é, na Europa?
14:43Há uma distribuição desigual, há uma tipologia de apoios que a Rita e o André falavam
14:49completamente diferente.
14:51Se falarmos hoje com empresas de transporte, de transporte de mercadorias, que têm eles
14:57próprios também objetivos de descarbonização e de eletrificação de frota, em Portugal não
15:03têm um cêntimo para fazer esta transição e em Espanha têm um pacote, um envelope financeiro
15:11gigantesco para fazer esta troca de viaturas e para ajudar no cumprimento dos objetivos.
15:20E eles não estão a falar de dinheiro que venha do orçamento do Governo Central Espanhol.
15:27É envelope financeiro que vem dos fundos dos PRRs e afins, que eles de facto definiram
15:33como prioritário.
15:34Perdemos esse comboio também.
15:36E para o cidadão comum continua a ser, ou seja, tantos anos após já estes automóveis
15:41estarem no mercado, porque os automóveis já são europeus, as marcas europeias já os
15:44têm, mas continua a pesar bastante no cidadão comum.
15:46A ideia de não vou comprar um automóvel elétrico porque, excluindo uma ou outra marca, não
15:51me chega para fazer uma viagem, por exemplo, em Portugal, que é um país relativamente
15:53pequeno, não chega para fazer uma viagem, ou seja, a comodidade do cidadão não é
15:58possível neste momento.
16:00Bem, um dos principais problemas para os consumidores hoje em dia a decidirem adquirir
16:05um carro é, exatamente como acabamos de dizer, o medo de ficar sem o carregador.
16:11Para saber mais sobre como estamos em termos de infraestruturas, conversamos com Roma
16:15Denaer, da Ivi Belgium.
16:17Vamos ouvir.
16:18A principal barreira neste momento é a percepção e é um problema que observamos
16:26por toda a Europa.
16:27A pesar de vermos que os preços dos veículos elétricos estão a baixar e a tornarem-se
16:32mais acessíveis, é que o custo total de ter uma está a tornar-se mais ventajoso
16:37todos os dias e que na maior parte dos casos já é mais ventajoso que ter outro tipo
16:42de veículo.
16:43A segunda barreira que observamos hoje em dia é a presença da infraestrutura de recarga,
16:47que ainda é vista como um problema.
16:49Ao mesmo tempo que celebramos um milhão de postos de carregamento na Europa, sabemos
16:53que ainda há regiões com problemas, mas isto também vai melhorar nos próximos anos.
16:58E isto que acabamos de ouvir foi exatamente aquilo que há bocadinho estávamos a discutir
17:06e pode ser isto que está a contrair a procura.
17:11Vamos falar um bocadinho também sobre a importância deste setor, Gonçalo.
17:15Este é vital para a economia.
17:1613 milhões de postos de trabalho.
17:19Com a transição para os veículos elétricos, podemos ver estes postos de trabalho a diminuir?
17:24Eu acho que é inevitável.
17:27Portanto, nós não podemos mentir às pessoas.
17:29É inevitável.
17:30Ontem mesmo tivemos despedimentos em empresas alemãs, que são empresas muito relevantes.
17:38Não resisto a dizer que do ponto de vista de Portugal isto é preocupante, porque nós
17:42temos muitos fornecedores de primeira e segunda linha da indústria automóvel, para
17:48as quais, faço já aqui um disclaimer, para as quais trabalhei durante muitos anos na indústria
17:51metal ou mecânica, que são muito competentes, mas que com esta tempestade poderão vir a
18:00sofrer efeitos colaterais.
18:01E reparem, a Alemanha está hoje numa mudança radical, até de constituição, porque os sinais
18:12de alerta foram de tal maneira que mudaram a constituição para poderem gerir a dívida
18:17como deve ser, mudaram perceções, estão a mudar perceções, estão a reinvestir de
18:25facto de uma forma muito intensa e se nós de facto não olharmos para o gigante europeu
18:35que é a Alemanha, que acordou e que acha que é preciso fazer alguma coisa, também não
18:40sei que o wake-up call é que nós precisamos mais para mudar. Isto é muito preocupante,
18:45não podemos escondê-lo, mas repito, há alternativas e que têm que ser encontradas, também podemos
18:51falar sobre isso.
18:52Rita, e estas alternativas que o Gonçalo falou, já foram postas em cima da mesa?
18:58Falta da indústria que está a fornecer a indústria de automóvel, passar a fornecer
19:06outro tipo de indústria, igualmente importante neste contexto.
19:10O que eu acho é que há uma questão que tem a ver com a diminuição da procura e, portanto,
19:15a diminuição das vendas. Como o Gonçalo estava a dizer, há um esforço em curso, tanto
19:23na Alemanha como noutros países, de reconversão industrial, sobretudo um bocado como aconteceu
19:29durante o período da Segunda Guerra Mundial, em que há uma reconversão para a indústria
19:33de armamento. E há aqui uma parte da indústria que se vai adaptar.
19:38Vamos chamar de defesa, Rita.
19:39Exatamente. E depois, mas o que eu acho que há, e o Gonçalo já falou nisso, há aqui
19:48duas forças que estão em contradição e que têm a ver precisamente com esta, por
19:54um lado, este voltar ao passado dos Estados Unidos com a aposta numa economia baseada
20:02nos combustíveis fósseis, que puxa a indústria automóvel europeia para produzir para esse
20:09mercado, portanto, para continuar a alimentar esse mercado com os motores de combustão.
20:16sendo que agora enfrenta um obstáculo adicional, que são as tarifas de 15% que foram impostas
20:23e, portanto, essas importações, por mais que houvesse até vontade dos consumidores
20:29norte-americanos de continuarem a consumir esses carros, torna-se mais pesado.
20:33E, por outro lado, temos a concorrência da China, que não só é o berço das matérias-primas,
20:40como, de facto, quer dizer, foi capaz de inundar os mercados, não só europeus, mas mundiais,
20:46com veículos que são, do ponto de vista da concorrência, imbatíveis.
20:53André, a sua opinião?
20:54Bom, acho que, da mesma forma que alertaram o que o setor automóvel alertou, acho que
20:58tem que haver uma reconversão das indústrias, ou seja, não pode ser só, pegando no exemplo
21:02que ainda há pouco estivemos a ouvir, ou seja, o investimento não pode ser só do ponto
21:06de vista dos fabricantes, que é isso que eles têm legado, também tem que ser do ponto
21:09de vista de haver as infraestruturas necessárias para que seja um investimento, vamos chamar-lhe,
21:13holístico, ou seja, para que se possa não só comprar um automóvel, mas que esse
21:19automóvel seja enquadrado em tudo aquilo que é a vida diária das pessoas, porque
21:22a longo prazo é isso que se pretende obter, ou seja, atingir os parâmetros climáticos
21:26aos quais a Comissão Europeia se propôs e que quer que os Estados-membros cumpram, mas
21:31fazê-lo de uma forma a que todos estejam cuidados para o mesmo.
21:37Portanto, há muitas coisas ainda para resolver e nós vamos estar aqui para lhe dar todas as
21:42atualizações sobre este tema, agora vamos ter que fazer uma curta pausa, mas quando voltarmos
21:47nós iremos falar do primeiro ano do relatório Draghi e fique connosco aqui na Euronese.
21:59Bem-vindo de novo ao Bruxelas, meu amor, e à conversa com os nossos convidados.
22:03Esta semana Mário Draghi veio a Bruxelas para lembrar aos legisladores que faz um ano desde
22:07que alertou à União Europeia que poderia morrer lentamente se não reformasse e simplificasse
22:13as regulamentações, melhorasse o acesso ao financiamento e facilitasse a criação da
22:18expansão de startups.
22:20Passado um ano, o ex-primeiro-ministro italiano afirma que a Europa se encontra numa situação
22:24mais difícil e que sem novos investimentos a dívida pública da União Europeia poderá
22:29aumentar em 10%.
22:31Ora, André, vamos começar por si.
22:33Mário Draghi deixou um alerta assustador há um ano, mas também deixou estratégias para
22:37salvar a competitividade.
22:38Um ano depois, o que é que mudou?
22:41Um ano depois dá a sensação de que, ou seja, pelo menos as críticas têm ido nesse
22:45sentido os diferentes setores, de que pouco mudou.
22:48É verdade que a Comissão Europeia, desde que foi apresentado o relatório de Mário Draghi,
22:52apresentou várias propostas, todas elas focadas em aumentar a competitividade da União Europeia,
22:57que tem sido aquele grande termo do qual se tem falado, competitividade, ou seja, para
23:02poder competir com outros blocos como a China ou os Estados Unidos.
23:05mas as críticas que têm sido feitas é que, de facto, por exemplo, foi apresentada
23:11a bússola estratégica e o Clean Industrial Deal, que seria uma forma de descarbonizar
23:16a indústria, mas o que tem sido dito é que são apresentadas muitas intenções, mas
23:24não há uma concretização para um plano que requer e pede ação imediata.
23:29Já o próprio orçamento da União Europeia, a longo prazo, também já, de forma transversal,
23:35foi dito que era insuficiente para atingir essas metas.
23:38Ok.
23:39E, Rita, o que é que pode estar a travar a execução destas medidas propostas?
23:44Falta de vontade política.
23:45Acho que não há mais nenhuma explicação.
23:47O facto de sermos 27 países a concorrer contra dois Estados-nação, não é?
23:56Contra os Estados Unidos e contra a China, também não pode prejudicar.
24:01Não, eu acho que isto aqui, claramente, não é uma questão de concorrência.
24:05Há um ano, o Mário Draghi fez soar o alerta e disse que estávamos numa situação de urgência.
24:13E agora disse, acrescentou urgência à urgência, mas, além disso, acrescentou, veio refazer as contas.
24:21Portanto, ele há um ano veio dizer, nós só conseguimos ultrapassar o nosso déficit relativamente
24:30aos nossos dois maiores concorrentes com investimentos na ordem dos 800 mil milhões de euros por ano.
24:39Na terça-feira, ele disse, atenção, já não são 800 mil milhões, porque, entretanto, nós acrescentamos mais ambição
24:47e acrescentamos mais coisas à nossa lista, nomeadamente o investimento em defesa, que é absolutamente existencial nesta altura.
24:56E, portanto, nesta altura, estamos a falar de 1,2 bilhões, ou seja, milhões de milhões.
25:01Já não estamos a falar de milhares de milhões.
25:03E não há dinheiro.
25:04Basicamente, não há dinheiro.
25:05Portanto, ele veio dizer, mais uma vez, não há dinheiro, não conseguimos fazer isto com os orçamentos nacionais,
25:11não conseguimos fazer isto com o orçamento comunitário.
25:14Meus amigos, vamos ter que entrar a sério na discussão da dívida europeia.
25:20E, Gonçalo, os incentivos dos Estados Unidos e da China são mais agressivos.
25:26A União Europeia pode responder com apoios equivalentes em escala e rapidez?
25:30Eu ia dizer que, onde é que está o dinheiro?
25:36Quem é que gera dinheiro na economia mundial?
25:40Eu lamento dizer isto, mas são os chineses e são os americanos.
25:43Nós não temos uma capacidade da criação de fundos que, de facto, mobilizem, ou capitalização bolsista sequer,
25:53que seja capaz de mobilizar decentemente o orçamento europeu para números que, como a Rita acabou de dizer,
26:03eu acho que acrescentava aqui uma coisa, realmente a falta de vontade política,
26:08mas há também bastante atavismo, porque é muito difícil mudar um bloco que se habituou à burocracia,
26:16a pensar, a legislar, a consultar, nós não continuamos a não ser rápidos na mudança.
26:23Não sei se tem a ver apenas com o governance da própria União Europeia,
26:28tem a ver com muitos sistemas instalados.
26:31E isso, essa rapidez faz-nos falta e drague-nos isso.
26:34Isso foi, aliás, um ponto que ele mencionou.
26:36Ele falou exatamente...
26:38Sim, sim, isto não é.
26:39Hora-se muito tempo inventar desculpas e utiliza a mesma palavra complacência.
26:44Portanto, claramente, não é só um problema de dinheiro.
26:47Sim, como dizem que é sempre necessário rever os tratados da União Europeia para fazer qualquer alteração.
26:53Ora, para enfrentar este desafio urgente, a União Europeia tornou-o numa prioridade máxima,
26:58mas, efetivamente, como já falamos, existem muitos obstáculos.
27:02Perguntamos a Michael Pinto, da Circular Materials, sobre este assunto, e é isso que ele nos disse.
27:09O problema não é falta de inovação. Os europeus são perfeitamente capazes de inovar.
27:13O que precisamos é de facilitar o crescimento e a comercialização das tecnologias que desenvolvemos e manter as empresas aqui.
27:20A resposta a esse desafio é, obviamente, resolver a fermentação.
27:24Temos de fazer de Europa um mercado único, sem frixão, que beneficie a todos os 450 milhões de cidadãos.
27:31Para isso acontecer, precisamos que todas as partes estejam dispostas a jogar.
27:35Não só a Comissão Europeia.
27:36Os Estados-membros, as regiões dentro de cada país, temos de fazer uma proposta atrativa aos investidores.
27:43Rita, como é que se pode envolver os Estados-membros neste processo de transição?
27:48Eles já estão envolvidos.
27:49A questão é que é preciso ultrapassar esta tendência, que é absolutamente natural em todos eles, de conservar as suas riquezas e a força das suas economias,
28:03e convencê-los de que agrupar recursos, fazer compras conjuntas, enfim, uma série de receitas que já são amplamente conhecidas, são do seu interesse.
28:18E isso é muito difícil.
28:19No fundo, o que esteve nas gêneses da criação da União Europeia.
28:22Portanto, para concluir aqui, Gonçalo, podemos dizer que, no fundo, aquilo que está em causa é também uma decisão política em que os Estados-membros têm de aceitar perder alguma soberania em áreas de competência partilhada,
28:39porque senão a Europa não pode ganhar escala.
28:41Eu só diria, eu tenho, há uma frase para isto, que é a concretização do mercado único europeu, e que está por concretizar em mercado interno.
28:48Sinto duas dimensões diferentes, mas está por concretizar.
28:52Estão por concretizar em várias dimensões, desde logo na parte financeira, mas em muitas outras dimensões que nos impedem de ser, de atuarmos em bloco e de sermos mais competitivos.
29:05Não há ninguém que queira investir aqui com tamanha discrepância de opções e de orientações políticas.
29:12Isso será sempre difícil, e é uma questão política, naturalmente.
29:15Muito obrigada.
29:16Como sempre, pode ver as últimas notícias sobre este assunto, nas diferentes plataformas da Euronews.
29:21Obrigada aos nossos convidados, e a SIC está desse lado.
29:24Até já.
29:24Olá e seja bem-vindo ao Bruxelas, meu amor, o programa semanal da Euronews sobre a atualidade europeia.
29:37Eu sou a Mariana Correia, e esta semana tenho comigo o Saldo Xavier, Rita Siza e a André Ferrão.
29:43Obrigada aos três.
29:45Ora, juntos estamos a percorrer algumas das notícias que marcaram a semana, e uma das que se destacou foi esta,
29:51uma proposta de 20 milhões de euros para enviar soldados para as ruas de Bruxelas para combater o tráfico de droga.
29:58O plano, liderado pelo Ministro do Interior, Belga, propõe também implementar uma extensa rede de câmaras de segurança
30:05em áreas estratégicas da cidade.
30:07A justificação ao aumento da violência ligada ao tráfico, incluindo tiroteios com frontos armados,
30:13redes internacionais que usam Bruxelas como plataforma.
30:16Ora, André, vamos começar por si.
30:19Como cidadão que mora em Bruxelas, está preocupado com isto?
30:23Estou preocupado, acho que com a medida em si, porque acho que pode ser considerado como um penso rápido,
30:29que acaba por não resolver a situação, porque como estava a referir, esta questão toda tem a ver com o tráfico de droga,
30:37que vem quase todo ele, na belasca, pelo menos a partir do porto de Antuérpia.
30:42Ou seja, colocar militares na rua pode até dar uma sensação inicial de segurança,
30:47pode até, a curto prazo, retirar de alguns pontos da cidade o tráfico de droga e algumas redes criminosas,
30:53mas acaba por não resolver o problema.
30:54Ou seja, se não houver medidas concretas nesse sentido, eu acho que acaba por...
30:59Vai fazer o mesmo que acontece, por exemplo, em alguns países da América Latina, como por exemplo a Colômbia e o México,
31:02que tomaram estas mesmas medidas, e o que se vê é que o tráfico de droga não diminuiu, pelo contrário, aumentou.
31:08Portanto, isto aqui resolve os sintomas, mas não trata as causas.
31:12Sim.
31:14Gonçalo, que impacto é que isto pode ter na imagem internacional de Bruxelas como uma capital europeia?
31:22Bom, eu acho que prejudica muito.
31:25Enfim, do ponto de vista pessoal, eu circulo em Bruxelas com relativa segurança e ando-o de metro à noite,
31:31e nunca... Às vezes tenho mais receio no centro da cidade, onde estão os restaurantes e muitos turistas.
31:40Vejo aí zonas com mais dificuldade e tenho mais receio, mas na maioria dos espaços onde circulo, não tenho.
31:50Mas não será aí que se faz o tráfico de droga.
31:53Agora, não me parece que seja um bom cartão de visita ter tropa na rua.
31:59Há maneira, e desculpem, não há como evitar, há a maneira da América do Sul,
32:04que é onde nós estamos habituados a que haja esse tipo de atitude,
32:07com resultados, a maioria das vezes, nefastos para a sociedade,
32:12criando um ambiente péssimo para as famílias,
32:16e de uma violência muitas vezes gratuita.
32:21Não queria nada que Bruxelas tivesse, a capital da Europa, a capital política da Europa,
32:26estivesse agora com esse tipo de mecanismos e que prejudica muito a imagem
32:32e, sobretudo, contamina outros Estados-membros a terem ideias
32:34que, do meu ponto de vista pessoal, não são assim muito inteligentes.
32:39Rita, como sente-se segura quando andem em Bruxelas?
32:45Perfeitamente segura. Muito segura.
32:47Esta já é a segunda vez que o governo belga tenta utilizar o exército como força de segurança pública.
32:59Péssima ideia.
33:00Mas a primeira vez que aconteceu, havia pelo menos uma justificação de um ato terrorista
33:09que, de certa forma, calcionava essa opção por ter militares na rua
33:15e, apesar de tudo, em áreas circunscritas e não com deveres de segurança.
33:22Não com deveres, que são os deveres das forças de segurança pública
33:25ou das forças de investigação criminal.
33:29E, portanto, mesmo isso causava algum frissom.
33:33Acho que ninguém se sente seguro com tropa na rua.
33:38Acho que esse é o ponto fundamental.
33:40Percebemos mais algumas opiniões de outros habitantes de Bruxelas.
33:43Fomos às ruas da capital perguntar e isto foi o que ouvimos.
33:47Não tenho a certeza se me faria sentir mais segura.
33:51Acho que chamaria mais a atenção.
33:54É um pouco ingênuo pensar que a violência e o tráfico de drogas
33:57são problemas isolados em Bruxelas.
33:59Quando temos uma cidade como Antuérpia, aqui ao lado, onde há problemas como o porto.
34:06Já tivemos soldados depois dos ataques terroristas em Bruxelas.
34:10Por isso, sim, acho que vai contribuir para o sentimento de segurança e o conforto.
34:16Vai piorar a situação.
34:18A insegurança e a violência porque os soldados são soldados e são treinados para lutar.
34:24Por isso, não acho que vai ajudar de tudo.
34:25Ouvimos aqui, então, algumas opiniões de moradores de Bruxelas.
34:32André, esta ofensiva contra o narcotráfico ocorre no meio de uma prolongada paralisia política
34:39aqui do país.
34:41Este plano responde a uma exigência real dos cidadãos ou é uma pressão política?
34:47Eu acho que uma pressão política até pode ser algum populismo a ser colocado aqui à mistura
34:52porque, como até estavam a dizer, ou seja, colocar militares na rua eu acho que só aumenta
34:56o panorama de insegurança porque o objetivo não é fazer uma guerra entre militares e os
35:02carteiros que operam em Bruxelas e na Bélgica.
35:04Ou seja, também não se pode substituir medidas sociais e medidas que deviam ser aplicadas
35:09para combater o tráfico de droga simplesmente colocando militares na rua.
35:13Rita, a confiança dos cidadãos aumenta com câmaras, havendo câmaras em cada esquina?
35:20Não sei responder, não faço ideia.
35:24Acho que a questão das câmaras não será tanto do ponto de vista da sensação de segurança
35:30dos cidadãos, mas é mais a questão da invasão da privacidade, do seu direito à privacidade,
35:40que é avaliada.
35:42E, Gonçalo, e gastar este dinheiro em vez de pôr militares na rua, investir num sistema
35:47judicial não seria melhor?
35:52A resposta é obvieira, não sei, quer dizer, eu acho que não conheço em detalhe o sistema
35:56judicial belga, não me parece que seja tão diferente do nosso.
36:02Então, se fosse em Portugal, o governo português poderia...
36:06Eu espero que isto não passe pela cabeça de um governo português, mas isso passe pela
36:11cabeça, sim, o investimento no sistema judicial, na própria infraestrutura, na formação das
36:17pessoas, na capacitação dos próprios tribunais, quer do ponto de vista da organização, quer
36:26dizer, do ponto de vista de meios, isso parece-me muito mais avisado e que terá resultados a médio prazo.
36:31E também investir na polícia, investir na polícia de segurança pública que tem, essa sim,
36:38que ter meios e está formada e habilitada para defender a população de uma forma bastante
36:44mais equilibrada do que o exército.
36:47Eu quero agradecer de novo aos meus convidados por terem aceitado o nosso convite.
36:52Em especial, obrigada a si que está desse lado por nos ter feito companhia.
36:55Se quiser deixar as suas sugestões ou comentários, escreva-nos para bruxelasmeuamor,
36:59arroba euronews.com.
37:01Quanto a nós, já sabe, voltamos em breve com mais notícias, sempre em português, aqui
37:07na Euronews, porque Portugal também tem uma voz na Europa.
37:10Fico bem?
37:11Até lá.
37:17Tchau.
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