00:00E eu fui descobrir que as indústrias automobilísticas, mesmo sendo as indústrias mais avançadas do nosso país,
00:07no plano de saúde que ela oferecia aos trabalhadores, não tinha dentista.
00:14E eu fui uma vez, meu caro doutor Cláudio, eu fui uma vez fazer uma palestra na Academia Paulista de Medicina
00:25e eu horrorizei os cientistas que estavam lá, porque eu disse, perdão, nós temos um problema crônico no Brasil.
00:36Por onde entra comida não é tratado como uma questão de saúde pública,
00:39porque por onde sai o dejeto feito pela comida é tratado como uma questão de saúde pública.
00:45Eu não estou querendo ter prioridade, os dois têm que ser tratados como saúde pública.
00:49E eles ficaram horrorizados, porque eles não sabiam que as pessoas pobres naquele tempo,
00:58eu sou de um tempo, doutor Cláudio, em que a gente embezedou para tratar do dente.
01:02Você levantava com dor de dente, você procurava um bezedor, um bezedor, e muitas vezes eles faziam uma reza.
01:10Às vezes ele mandava você amassar um dente de alho e colocar dentro do buraco do dente.
01:15Às vezes ele mandava você molhar um algodão dentro do álcool e colocar o algodão dentro do dente.
01:23E às vezes você passava o dia colocando o álcool dentro do buraco do dente e não falava, você tinha que ir ao dentista.
01:29E como o dentista era uma coisa rara, era cara, os pobres não iam e ficavam sem dente.
01:35Eu lembro, doutor Cláudio, e posso dizer isso de cada, não tem lugar nenhum do mundo que tenha a qualidade dos dentistas que tem o Brasil.
01:48Lugar nenhum do mundo.
01:50Nem os Estados Unidos da América, com a arrogância deles, tem a qualidade de dentista que nós temos.
01:57E eu falo isso com muito orgulho, porque eu fui a Portugal defender os dentistas brasileiros.
02:02Em Portugal, o cara não faz um curso de dentista, ele faz um curso de medicina.
02:10E ele faz a especialidade dele em odontologia, um ano só.
02:15E ele então vira dentista, um dentista meio mequetrefe, porque só um ano.
02:20E os brasileiros que estavam lá, que eram um bom dentista, trabalhavam de bagrinho para eles.
02:26Eles contratavam, terceirizavam o brasileiro, e os brasileiros faziam o trabalho que nem bagrinho no porto.
02:34Sabe aqueles caras que não são do porto, ficam lá na espera, que chega um navio para carregar.
02:39Quando chega um navio para carregar, eles são chamados, ganham muito pouco.
02:43O dentista nosso era assim.
02:44Eu fui no meu primeiro mandato com o presidente de Portugal e nós conseguimos fazer um acerto
02:50para que os dentistas brasileiros adquirissem o direito de serem cidadãos dentistas
02:56e eles passarem a trabalhar então com consultório próprio.
03:01E assim, eu fui adquirindo experiência com a questão da saúde odontológica nesse país.
03:06Uma vez eu tinha um ministro da Agricultura, um ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo,
03:13que foi participar de um congresso de propriedade rural de pequenos na Alemanha.
03:18E ele fez uma revista maravilhosa, bonita.
03:21E no meio da revista tinha uma capa com uma senhora bonitona,
03:26devia ser filha de italiana ou de alemão no Rio Grande do Sul, Santa Catarina,
03:31com a bochecha bem vermelha, sabe, sorrindo.
03:35E de perto dela um monte de plantas, de coisa que ela tinha colhido, alface, pepino, cenoura.
03:41E do lado dela um senhor negro, alto, sorrindo, sem nenhum dente aqui na boca.
03:49Eu chamei o ministro e perguntei, escuta aqui,
03:52por que você colocou essa fotografia desse senhor negro sem dente?
03:56Você acha isso bonito?
03:59Você acha isso bonito, cara?
04:00Isso é fotografia para você colocar, representando o Brasil no exterior,
04:06um cara sem dente e ainda negro?
04:11Você não acha que isso é preconceito?
04:13Eu lembrei do Joãozinho 30.
04:16Quem gosta de miséria é intelectual.
04:18O pobre gosta de coisa boa.
04:21Eu falei para ele, você pode anular essa revista,
04:23joga essa página fora e faz uma foto de um cara com dente.
04:27E aí, eu resolvi criar o Brasil Sorridente.
04:33A ideia de criar o Brasil Sorridente
04:35era fazer com que essas ambulâncias
04:38fossem ao local mais longe,
04:41enquanto as pessoas não têm dentista,
04:43e mesmo na periferia da grande cidade.
04:45Porque às vezes a gente pensa que a miséria está só longe.
04:49Às vezes ela está vizinho da gente e a gente não enxerga.
04:52Obrigado.
04:58Obrigado.
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