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  • há 6 meses
Manuel Luís Goucha
Transcrição
00:00Olá, bom dia. Tenho mais uma história para partilhar consigo e, mais uma vez, ela está relacionada com um livro.
00:06Vamos ter que recuar uns 60 anos. Eu não teria mais do que 9, 10 anos. Década de 60, portanto.
00:12E estávamos na praia, na Figueira da Foz. Era agosto. Nós passávamos sempre os meses de agosto na praia da Figueira da Foz.
00:20Estava a minha mãe, eu e o meu irmão naquele dia, quando vemos, a dado momento, um senhor vir em direção ao toldo onde nós estávamos.
00:30E é então que a minha mãe nos diz, portem-se bem, vem ali um amigo da mãe. E foi ele quem me emprestou este livro.
00:36E, realmente, a minha mãe andava a ler um livro, lembro-me perfeitamente, com uma capa dura, sobre capa azul, com umas figuras impressas.
00:44E também me recordo do nome do livro, do título do livro. Porque havia aqui uma palavra que eu desconhecia por completo e levaria ainda alguns anos para saber o seu significado.
00:54Nem só de caviar vive o homem. Assim se chamava o livro. E foi assim.
01:00Naquele dia que o nosso padrasto entrou nas nossas vidas. O senhor Braga. Eu nunca o tratei de outra forma.
01:07Nem por padrinho, nem por tio. Ele foi sempre o senhor Braga.
01:10Eu confesso que não tive, assim, uma relação de grande afeto, de grande estima com este senhor.
01:15Até porque eu saí de casa cedo. Eu saí de casa aos 17 anos. O meu irmão continuaria, até aos dias de hoje, em Coimbra.
01:22E, portanto, ele, sim, tem uma relação muito interessante com ele. Até porque tinham paixões comuns.
01:27Como, por exemplo, a paixão pela académica de Coimbra.
01:29Eu sempre o considerei como que um intruso na minha relação com a minha mãe.
01:35Qualquer psicólogo facilmente desmonte esta situação. Explica esta situação.
01:42Seria um bom homem.
01:45Mais tarde, a relação acaba. Eu penso que ele tenha vivido com a minha mãe entre 11 e 14 anos.
01:52E ele acaba por casar depois com uma senhora de alma alaguês, julgo que professora.
01:57Penso mesmo que ele era natural de alma alaguês.
01:59Curiosamente, ele é irmão de um grande escritor português, Mário Braga.
02:05Bom, passaram muitos anos. 20, 30 anos.
02:09Eu, aos sábados, por vezes, ia à Feira da Ladra.
02:13Não só porque gosto do ambiente da Feira da Ladra, mas porque existia, não sei se continua a existir,
02:18ali, na Feira da Ladra, o Mercado de Santa Clara.
02:22Que, aos sábados, servia um belíssimo, um belíssimo cozido.
02:27E num desses sábados, quando venho a sair já depois do almoço e viro para o campo de Santa Clara, viro à direita,
02:34há ali uns alfarrabistas, ou havia uns alfarrabistas, com umas bancas de livros, livros velhos, não antigos,
02:41livros velhos, expostos no exterior.
02:44E naquele sábado, eu passeei o meu olhar pela banca dos livros e não é que dou de caras,
02:50com uma capa que me era familiar.
02:53Lá estava um exemplar do livro, não só de caviar vive o homem.
02:59Claro que tinha que o comprar e cá está ele, muito velhinho, já com a capa meio comida pelos meus gatos.
03:06E eu explico porquê.
03:07Porque este livro está na cozinha.
03:08Este livro, não li, confesso que não li, porque a temática não me interessa muito.
03:14É um livro de espionagem.
03:15Este era um tema muito popular na década de 60, porque havíamos saído de uma Segunda Guerra Mundial não há muito tempo,
03:24há uns 15, 20 anos, e por isso o tema da espionagem era um tema muito apetecível.
03:30É um livro que realmente foi editado na década de 60, um êxito internacional,
03:35vendeu na altura mais de 30 milhões de exemplares.
03:39Porquê que ele está na cozinha?
03:40Ele está na cozinha porque ele tem receitas de culinária.
03:44A personagem protagonista também sabe cozinhar, e por isso o livro todo ele é polvilhado com receitas interessantes de cozinha.
03:52Algumas delas eu já terei feito, ainda que as recriando.
03:55E por isso o livro ficou ali um bocadinho à mercê dos meus gatos que devoraram a sobrecapa, ou parte da sobrecapa.
04:04Sei que eu não vou ler, eu tinha que o comprar,
04:06porque sempre que eu olho para ele, eu recuo 60 anos, aquela tarde, na praia da Figueira da Foz,
04:15naquele dia em que o nosso padrasto entra nas nossas vidas, e eu e o meu irmão até nos portámos bem.
04:22É uma história gira, não é?
04:23É uma história gira, não é?
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