00:00Olha gente, um patrimônio histórico que na década de 30 foi criado para isolar pacientes com ranceníase.
00:07Doença que também ficou conhecida como lepra.
00:10Os pacientes eram retirados à força do convívio com a família e da sociedade.
00:16Nós estamos falando do antigo hospital Pedro Fontes.
00:20Hoje um sítio arqueológico que guarda histórias de dor e resiliência.
00:26Veja o nosso Roger Nunes que vai trazer os detalhes para a gente dessa reportagem especial que você que fez, né Roger? Boa tarde.
00:35Fala Camargão, boa tarde. Boa tarde também a todos.
00:38Exatamente, o cinegrafista Alex Aguiar e eu ficamos praticamente uma semana lá na região.
00:43A gente circulou pelas ruas, entrou ali nos chamados alojamentos, fomos até o antigo hospital, conversamos com moradores que ainda existem lá.
00:52Da época, ainda do isolamento, daquele isolamento social que foram levados para lá de forma compulsória.
00:58Na década de 30, essa doença, ranceníase, pejorativamente chamada na época de lepra, levou, aliás, fez com que várias pessoas fossem levadas para lá de forma compulsória, obrigadas.
01:09E ali as pessoas eram internadas, ficavam ali sendo tratadas e algumas até morriam, como tem o caso lá do cemitério que era destinado aí para essas pessoas.
01:21Essas pessoas, como você bem disse, eram isoladas socialmente, inclusive esquecidas até pelos próprios familiares.
01:26Depois dali, tinham, depois da década de 80, quando conseguiu-se ali a cura e conseguiu-se o tratamento, as pessoas podiam sair, mas por conta do preconceito, as pessoas tiveram ali a opção de mudar até de nome, a poder não ser taxadas ali para não serem carimbadas, porque tiveram na época essa doença.
01:47A gente preparou uma reportagem especial para tentar explicar todos os detalhes, inclusive os detalhes históricos do local.
01:52Acompanhe aí.
01:56Hoje a nossa equipe vai viajar pelo tempo e vai contar parte da história da saúde do Espírito Santo pelo fim.
02:06Foi neste cemitério aqui de Cariacica que várias pessoas, várias famílias foram sepultadas após contraírem uma doença pejorativamente conhecida na época como lepra.
02:18Foi aqui que várias famílias foram esquecidas, foram aqui que várias pessoas tiveram seus nomes apagados, até mesmo pelos seus próprios familiares.
02:27Ainda na década de 20, nós tínhamos uma crença de que o estado do Espírito Santo não tinha casos de rancenias.
02:40E existia até algumas falas tipo, ah, o Espírito Santo é santo porque não tem casos de rancenias.
02:45Mas isso logo foi já evidenciado que não era bem isso.
02:51E na época as políticas públicas eram todas voltadas para a exclusão da pessoa afetada.
02:59Internação compulsória tinha base nesse tripé, que era o dispensário, a própria colônia onde as pessoas ficavam e o preventório.
03:09Nesses mais de mil hectares estão centenas de histórias, centenas de capixabas, centenas de pessoas que foram trazidas para cá de forma compulsória,
03:25após serem diagnosticadas com uma doença discriminada, cuja dor do isolamento e do preconceito fere e machuca talvez mais que a enfermidade.
03:33Em um elevado às margens da BR-101 está o chamado Hospital Dr. Pedro Fontes,
03:43que leva inclusive o nome do médico responsável por identificar a propagação da doença no Espírito Santo em 1927,
03:52além de criar dispensários para o tratamento.
03:55Em 11 de abril de 1937, o complexo foi inaugurado.
04:00O objetivo era exilar pessoas com ranceníase, uma doença milenar citada no mais antigo livro de história, a Bíblia Sagrada.
04:12A lepra, como era chamada há 600 anos antes de Cristo, em um passado não tão distante,
04:19era vista com medo e com preconceito, que levava as pessoas ao exílio social.
04:24Nessas casas germinadas moravam internos, presos pelas suas condições de saúde,
04:30levados contra a própria vontade e obrigados a deixar para trás a sua própria história.
04:36Cada janela, cada porta, cada cantinho desse carrega uma história.
04:44Nessas chamadas alas, eram divididos aí em 10 partes, 10 quartinhos.
04:50Em cada espaço desse ficava um interno, uma pessoa que passava ali os dias e até mesmo os anos.
04:56Três anos após a criação do hospital, em 1940, ainda no primeiro ano de vigência do governo Getúlio Vargas,
05:06e com a política de internação compulsória, foi criado Educandar Alzira Blay.
05:11O objetivo era retirar os filhos dos internos, para que ficassem também isolados,
05:16para não correrem o risco de serem contaminados.
05:20As crianças só podiam visitar os pais uma ou duas vezes por ano, em épocas específicas,
05:26como por exemplo, Natal, e sem poder ter contato físico.
05:30A gente nascia, simplesmente enrolava a gente num pano, não podia nem mamar.
05:37Contato físico, nada.
05:39Aí já pegava e levava lá para o Pelo Candado, entregava nos braços da Jandira.
05:43Jandira foi a mãe da gente.
05:45Só depois de quanto tempo que a senhora foi ver, conhecer, na verdade, a mãe da senhora?
05:50A conhecer minha foi com dez anos. Dez para onze.
05:53Eu fiquei semi-terno no Educandar, depois de dez anos, que vinha, fica embora para lá.
06:01Até liberar totalmente, para morar com os pais.
06:05Foi só a partir de 1972, quando foi descoberta a cura e outros tratamentos para a ranceníase,
06:17que os hospitais foram desativados em todo o Brasil.
06:20Em 1980, o complexo foi reestruturado e deixou de abrigar de forma compulsória os pacientes.
06:27Foi nessa época que foi inaugurado o ambulatório, que estimulava o tratamento familiar,
06:33permitindo que os pacientes pudessem ser reintegrados socialmente.
06:38A chamada colônia de Itaenga continuou a tratar diversos pacientes que ainda tinham sequelas
06:44e que moravam na vila, aproximadamente mil pessoas.
06:47Aqui já tinha igreja, já tinha clube, já tinha momentos de lazer.
06:54E isso tudo para que o sofrimento fosse, de certa forma, aliviado.
06:59O sofrimento em relação à segregação e ao afastamento de seus familiares.
07:06E essas pessoas, elas se reinventam.
07:09Apesar de muita dor, elas conseguem se reestruturar aqui dentro da colônia Pedro Fontes.
07:17O olhar vazio e sofrido mostra o retrato de uma pessoa que conviveu e passou parte da vida
07:27acompanhando familiares na colônia.
07:30Meu pai, a doença não avançou.
07:35Aí o médico não achou que era necessário ele ficar aqui.
07:38Já os outros dois familiares da senhora precisavam ficar internados.
07:41Os outros dois ficaram praticamente deficientes.
07:43Sem os motos, sem os pais.
07:49E muita ferida.
07:51Do qual as enfermeiras iam nas casas fazer os curativos.
07:58Durante a visita ao que sobrou do Hospital Pedro Fontes, uma descoberta.
08:03Uma velha amiga não estava mais entre nós.
08:07Quem nos recebeu foi a filha.
08:08Ela contou detalhes da história da família.
08:11A mãe da senhora viveu há quantos anos aqui, a senhora falou?
08:14Ela foi ter aqui em 69 e ficou aqui, não foi embora.
08:18Casou, né?
08:20Aqui nessa casa que ela morou há 49 anos.
08:21Ela não tem que fazer 49 anos.
08:23Faz dois anos, ela partiu.
08:24E a gente já mora de agosto.
08:26E a 21, nós temos dois anos.
08:27A gente traz um pouco essa discussão até no nome do livro, que é o dia em que mudei de nome.
08:39O dia em que mudei de nome, ele tem uma...
08:42São várias explicações para o título desse livro.
08:45A doença que muda de nome, para que a gente tenha um combate mais efetivo ao estigma da lepra.
08:52Então ela muda de lepra para ranceníase.
08:54Nós temos as pessoas que estavam aqui dentro, que trocam seu nome, principalmente quando precisam sair da colônia,
09:03para que elas não sejam estigmatizadas do lado de fora da colônia.
09:06Vários se reinventaram, se reestruturaram, montaram, formaram novas famílias.
09:14São pessoas que, do sofrimento, conseguiram tirar uma vida nova aqui dentro.
09:24Resiliência é a palavra, né, Camargão?
09:33Resiliência.
09:34Esses moradores que ainda residem lá, né, conversando com a nossa equipe, contaram esses detalhes, essas histórias.
09:40Alguns não puderam participar da entrevista, mas em off também conversaram com a gente e explicaram todo o funcionamento da época.
09:47Teve um detalhe que não entrou aí, que as visitas, Camargão, na época da situação mais complexa, mais complicada,
09:55eram feitas através de vidro, né?
09:57Uma parte da história que ficou no passado, mas que os moradores ainda querem manter o local
10:02e espera aí que ele seja tombado para poder contar para as outras pessoas,
10:06para que situações como essa, como essa discriminação, não volte a acontecer, meu amigo.
10:11Olha, parabéns, tá, o Roger, pela reportagem, parabéns.
10:16Pode deixar as imagens lá, por favor.
10:18Parabéns pela reportagem, pela sensibilidade que você teve em conversar com as pessoas.
10:28Parabéns pela edição da reportagem, o nosso Gustavão, a nossa Sayonara também.
10:35E as imagens que foram feitas ali do local, quem é o cinegrafista?
10:39É o Alex?
10:40Alex de Aguiar.
10:41O Alex Aguiar, parabéns ao Alex Aguiar também, pelas imagens, a edição de texto da Sayonara,
10:48o nosso Gustavão também, parabéns.
10:51Excelente trabalho da nossa equipe, trazendo a história por trás desse hospital.
10:58Desse hospital que tem história, desse hospital que tem uma história que muita gente não sabe, né?
11:05E que o Roger teve a sensibilidade de trazer pra gente, né?
11:10Uma história triste, né?
11:12Uma história triste e principalmente uma história triste de preconceito, né?
11:17De preconceito de tirar essas pessoas do seio da sua família e deixar essas pessoas isoladas, né?
11:25Um local isolado que existe até hoje, né?
11:30E que o Roger foi até lá pra poder contar essa história.
11:33Obrigado, Roger, por emprestar o seu talento e tantos os nossos tantos profissionais
11:40que mostram o seu talento diante do trabalho que a gente desenvolve aqui.
11:45Parabéns de coração, tá?
11:47Olha só, minha gente!
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