00:00Nossa, mas adotar no Brasil é tão burocrático?
00:03É tão difícil?
00:04É uma lista tão gigantesca?
00:06Que se eu me colocar agora à disposição,
00:08eu vou receber uma criança daqui 10 anos.
00:10Isso é verdade?
00:11De fato é tão burocrático como esse discurso, né?
00:14Que há tantos anos diz que é tão burocrático.
00:16De fato é verdade?
00:18Quando a gente pensa em burocrático,
00:19a gente também tem uma crença sobre o que é burocrático.
00:21Que é demoroso.
00:23Que é demorado.
00:24É, mas a gente tem no Brasil o melhor processo.
00:27Assim, juridicamente é um processo que ele tem que ser desafiador.
00:32E ele tem que ter muitas etapas.
00:33Quando a gente pensa em burocrático,
00:35acho que a gente pensa num processo complexo.
00:37Porque a gente tá falando de proteção às crianças e adolescentes.
00:39Não é simplesmente tirar uma criança daqui e colocar ali.
00:43A gente não tá falando sobre isso.
00:46Sobre um objeto.
00:47Muitas famílias até falam,
00:47nossa, dá uma sensação que a gente tá escolhendo um objeto.
00:49Quando a gente, na prateleira, quando a gente vai preencher o cadastro.
00:53Mas é, o que você dá conta?
00:54O que você dá conta no seu desejo?
00:56O que você dá conta na sua rotina?
00:57O que você dá conta na sua dinâmica?
00:59O que você dá conta nos seus recursos financeiros, sociais?
01:03Porque existem muitas formas de ser família.
01:06Se é uma adoção interracial,
01:08como que eu me preparo antes pra essas questões de raça?
01:12Como que eu me preparo antes pra minha criança,
01:14inclusive, não sofrer preconceitos na minha família,
01:17na minha família extensa?
01:18Como que eu escolho escola?
01:20A escola que ela vai estudar.
01:22Como que eu trago representatividade pra criança, né?
01:26Essa criança indígena, essa criança negra.
01:28Como que a gente vivencia isso enquanto mães brancas, né?
01:31Que tem o sonho da maternidade.
01:33E aí, tem uma discussão muito grande, né, Bresa?
01:36Assim, quem pode ser mãe?
01:37Quando a Ana traz essa questão de gênero, né?
01:39De interseccionalidade de gênero, raça e classe.
01:42A gente vê hoje ainda a adoção.
01:44E isso é muito incômodo pra muitas pessoas que ainda estão com essa cortina.
01:48E a gente propõe no Dolo de Adoção esse descortinar, né?
01:51Descer essa cortina dessas questões que são doloridas pra nós enquanto sociedade brasileira, né?
01:57Que viveu a colonização forçada, a escravização e processos muito dolorosos que até hoje reverberam nisso, né?
02:04Eu, como mulher branca, eu quero uma criança agora.
02:06E por que o judiciário tá demorando pra me dar uma criança?
02:09Tem tanta criança aí esperando e disponível, mas não é sobre isso, né?
02:13É sobre um processo que precisa ser respeitado, né?
02:16Sobre um processo que, primeiro, essa criança vai ter garantido todos os seus direitos na sua família biológica.
02:23Pra, então, a gente pensar num processo de proteção dessa criança pra adoção.
02:28Mas, mesmo se a gente falasse, nossa, a gente zerou a fila.
02:31Todas as crianças estavam disponíveis, todos os pretendentes foram atendidos.
02:35A adoção não deixaria de acontecer.
02:37E não é ser contra a adoção aqui.
02:38Muito pelo contrário, nós como famílias adotivas, né?
02:41E a gente conversa muito sobre isso, eu e Ana, né?
02:44Nossa, como seria se essa desigualdade social, que é o pano de fundo das famílias perderem os seus filhos?
02:51Quem são as famílias que perdem seus filhos?
02:53Quem são as mães que perdem seus filhos e que esses filhos são adotados?
02:57Quando a gente vai olhar até a história, né, das nossas filhas, que é segredo de justiça,
03:01mas que a gente entra em contato com essa desigualdade social,
03:03é dolorido pra nós, enquanto mães, saber que o Estado falhou com essas famílias
03:08e que por conta disso eu sou mãe dessa criança hoje.
03:11E eu fico muito preocupada.
03:12Hoje minha filha tem sete anos, não sei, daqui dez anos, quando ela assistia essa entrevista, né?
03:17Esse podcast, eu assistia nossas entrevistas, que ela sinta que a gente tentou reparar esses direitos dela
03:25que foram violados.
03:25Sim.
03:26Por mais que ela tenha sido adotada por uma família que é amorosa, respeitosa,
03:30e que a gente fala sobre o direito adotivo, a biografia adotiva,
03:33e que a gente trabalha cuidando que as famílias tenham essa consciência,
03:36eu sei que muitos direitos da primeira família dela, da família de origem, foram violados.
03:40Sim.
03:41E é muito dolorido pra nós, enquanto mães, quando a gente tem essa consciência.
03:44E a gente tenta levar essa consciência pras famílias.
03:47E de que é burocrático, precisa ser.
03:50Mas é burocrático porque a gente tem muitos ritos e processos
03:54que precisam ser respeitados de acordo com os direitos das crianças e adolescentes.
03:58E a adoção tá pra isso, tá pra cuidar delas, não pra gente.
04:01Eu gosto de pensar, assim, que é a gente mudar o olhar sobre a palavra burocracia, né?
04:06Não é olhar como amoroso, quer pautar o meu desejo, quer dizer o que eu posso...
04:12É olhar pra palavra burocracia pensando em cuidado, né?
04:16Em garantir o direito das crianças.
04:19Eu acho que é só você mudar um pouco essas...
04:21Etapas que preservam a dignidade dessa criança, que a respeitam.
04:24Porque, né, são processos muito, muito intensos, né?
04:27Muito profundos, que mexem com todo mundo, né?
04:30E a gente entende todos os lados.
04:32Mas eu acho que é importante isso.
04:33A gente, enquanto adulto, fazer esse exercício, né?
04:36A gente tem mais capacidade, mais ferramenta emocional pra pensar isso, né?
04:40Mais repertório.
04:41Então, vamos tentar mudar um pouco, né?
04:43Olhar...
04:43Putz, é burocrático?
04:45É.
04:45Um pouco, sim, mas precisa ser.
04:48Por conta do cuidado.
04:49Não porque é amoroso, só porque quero ser amoroso, né?
04:52Sim.
04:52Um pouco por aí.
04:53Então, vamos lá.
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