00:00Olá, eu sou Laura Escárdoa e este é o Notícia em Áudio, um podcast do jornal Estado de
00:08Minas que lê, aos sábados e domingos, uma grande reportagem para você ouvir no seu
00:13tempo.
00:14O texto de hoje é da repórter Alessandra Mello.
00:17Raríssimo livro de óbitos conta parte da história de escravizados em Minas.
00:21O 20 de dezembro de 1951 sepultou-se no cemitério da fazenda do rio São João Maria Martins,
00:29preta de nação, solteira, de idade de 45 anos, pouco ou mais ou menos.
00:36Padecia de uma sarna brava, que lhe durou muito tempo, e de um ataque que lhe sobreveio ao
00:4128 de dezembro.
00:43Morreu neste mesmo dia em que foi ungida, não podendo ser confessada porque perdeu a fala.
00:49Era escravo do Sr. Joaquim Camilo Teixeira da Mota.
00:52Assim está descrita a morte de uma das centenas de pessoas escravizadas, vindas de diversos
00:59cantos do continente africano, para servir de força de trabalho no Brasil, o último
01:04país a abolir a escravidão, por meio da Lei Áurea, assinada em 13 de maio de 1888.
01:11O registro raro faz parte de cerca de duas centenas de óbitos de escravizados e forros,
01:16como eram chamados os cativos que obtinham a liberdade, falecidos entre 1847 e 1877, em
01:25Bom Jesus do Amparo, município da região central de Minas, a 73 quilômetros de Belo Horizonte.
01:31Eles estão listados em uma pequena caderneta com capa de couro, de 16 por 11 centímetros
01:37e 77 páginas, guardadas há quase 180 anos pela família Mota, proprietária original das
01:44terras onde, ainda hoje, está preservado o cemitério onde essas pessoas foram inumadas.
01:50O pequeno caderno foi passado de geração em geração, enrolado em um pano preto para
01:54evitar a luz e, consequentemente, a degradação, e guardado dentro de uma caixa de madeira.
02:00Ele segue sob a guarda de Hortência Mota do Espírito Santo, que o herdou de seu pai, Moacir
02:06de Figueiredo Mota, após ter sido restaurado e digitalizado pela Prefeitura de Bom Jesus do
02:11Amparo, município que abriga o cemitério dos escravizados.
02:15O documento é um relato precioso e raro de como padeciam e de onde vinham os escravizados
02:21que foram a principal força de trabalho de Minas Gerais, estado de destino da maioria
02:26das pessoas traficadas da África para o Brasil, durante os quase 390 anos de escravidão.
02:31Relata também a dificuldade das mães escravas em cuidar dos filhos pequenos, as doenças
02:36que mais acometiam as crianças, denominadas inocentes, e a obrigatoriedade dos ritos católicos
02:42para que pudessem ser sepultados.
02:44O livro de óbitos foi digitalizado e vai ser usado pelo Departamento de Arqueologia e
02:49Antropologia da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais,
02:54para uma pesquisa sobre o cemitério dos escravizados de Bom Jesus do Amparo e a vida deles no Brasil
03:00Colônia, história pouco contada, apesar da contribuição fundamental dessa população
03:06para a construção do país.
03:08De acordo com o secretário de Cultura de Bom Jesus do Amparo, Eduardo Mota, apesar de restaurado,
03:13o livro não pode ser manuseado devido à sua fragilidade.
03:17Segundo Mota, o trabalho de restauro ficou a cargo de um ateliê especializado, que recuperou
03:22as páginas usando papel japonês bem fino e meticulosamente colado em toda a extensão
03:28das folhas originais. As folhas também foram costuradas e a capa de couro restaurada.
03:33Cuidadosamente manuscritas, as anotações da morte dos escravizados, grande parte deles
03:38crianças e bebês, estão registradas em 53 folhas, as outras 24 estão em branco.
03:45No entanto, a quantidade de óbitos anotados pode ser ainda maior, pois algumas páginas
03:50dessa caderneta foram arrancadas.
03:52Gustavo Mota, de 47 anos, filho de Hortência, afirma que ainda há relatos na família de
03:59que existiam outros livros de óbitos, cujo paradeiro é desconhecido.
04:04A anotação de nascimentos, casamentos e mortes foi adotada pelo governo provincial mineiro
04:09a partir de 1836, por meio de uma decisão que obrigava as paróquias a informar semestralmente
04:15ao governo central os batizados, casamentos, enterros, falecimentos e sacramentos, que são
04:21até hoje responsabilidade da Igreja Católica.
04:25Mas o registro civil de maneira geral e formalizada só passou a ser obrigatório a partir de 1874.
04:32Com exceção das crianças, cujo registro do nascimento era mais preciso, grande parte
04:36dos mortos anotados no livro de óbitos têm idade incerta.
04:39As moléstias que mais matavam eram identificadas como sarnas, lombrigas, tripas, doença do fígado,
04:46dentição, cancro, tísica e sífilis.
04:50Ou o caso do escravizado Joaquim José, falecido em março de 1854, aos 60 anos, em consequência
04:57de comer carvão.
04:59Um manual de doenças escrito pelo médico português Luiz Gomes Ferreira, que viveu no Brasil
05:04durante cerca de 20 anos, no século XVIII, entre 1707 e 1733, aponta que essas doenças
05:12eram, em sua maioria, causadas pelas péssimas condições de alimentação e habitação dos
05:17escravizados, cuja taxa de mortalidade era mais que o dobro do restante da população.
05:23E também pelos descasos dos senhores, que consideravam mais barato repor os escravizados
05:29do que garantir condições dignas de vida e saúde.
05:33A origem dos escravizados quase sempre era identificada, até porque fazia parte do nome
05:38português com o qual eles eram rebatizados ao chegar no Brasil.
05:42Mas também de maneira imprecisa, misturando as etnias com os portos na África onde eles
05:47eram embarcados, como o João de Moçambique, Tereza de Benguela, Camilo do Congo, Rosa Cabinda.
05:54Os escravizados nascidos no Brasil eram identificados pela palavra crioulo e também os que obtiveram
06:00a liberdade.
06:02Os escravizados recebiam o nome de batismo e a etnia ou o local de partida deles da África,
06:07afirma a historiadora Ângela Aparecida Ferreira, natural de Bom Jesus do Amparo, bisneta de
06:13escravizados e pesquisadora da origem das comunidades negras do município.
06:17Segundo ela, os escravizados de Bom Jesus pertenciam a diversas etnias africanas.
06:22Eram, segundo ela, de Angola, Benguela, Cabinda, Cassange, Congo, Libolo, Mantinga, Mina,
06:30Moçambique, Monjolo, Rebolo, além de outras não especificadas.
06:34Essa confirmação das etnias africanas, presente em uma pequena localidade, como o território
06:39de Bom Jesus do Amparo, é um significativo exemplo que nos permite entender muito de
06:43perto a grande importância e diversidade dos africanos vinculados ao trabalho compulsório
06:49do Brasil colonial e imperial.
06:52Explica.
06:53Em suas pesquisas nos documentos de batismo das crianças escravizadas na cidade, ela chegou
06:58a registrar, entre 1839 e 1860, o nascimento de 96 bebês nas propriedades de João da Mota
07:06Ribeiro, dono da fazenda Rio São João, que mantinha o livro de óbitos e o cemitério dos
07:11escravizados.
07:13Outras 118 crianças, relata Angela, eram nascidas em terras dos demais proprietários identificados
07:19na cidade.
07:20A historiadora Marcelina das Graças de Almeida, que se dedica aos estudos cemeteriais, afirma que
07:26a existência de registros, em livros ou lápides em cemitérios, sobre a morte de escravizados
07:32é muito rara, porque eles não eram considerados gente.
07:35Eles eram considerados mercadorias.
07:38Não tinham direito a sepultamento digno e muito menos registro de sua passagem, afirma.
07:44Segundo ela, durante muitos anos os corpos dos escravizados foram abandonados.
07:48A preocupação em enterrar, afirma, começou de fato a partir das descobertas sobre os problemas
07:54sanitários da convivência entre mortos e vivos e também por causa do surto de cólera
08:00por volta de 1850.
08:03Os escravizados, segundo ela, que pertenciam a irmandades religiosas, tinham direito a um
08:08sepultamento mais digno, mas nunca nos moldes do garantido às pessoas brancas.
08:13De acordo com a historiadora, os sepultamentos que existiam, mesmo os ligados às irmandades,
08:18foram destruídos.
08:20E os que restaram lutam para sobreviver em nome da memória da população escravizada,
08:25a principal responsável pela formação econômica do Brasil como nação e cuja contribuição
08:31forjou o povo brasileiro.
08:33Destaca o sociólogo Glauco Durantes, membro do movimento Salve Santa Luzia e co-vereador
08:38no município, na região metropolitana de Belo Horizonte, onde existe também um cemitério
08:43de escravizados.
08:45Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e declarado Patrimônio
08:50de Interesse Cultural Relevante para Minas Gerais, por lei aprovada pela Assembleia Legislativa
08:55no final de 2023, o cemitério em Santa Luzia está localizado na zona rural da cidade.
09:01O local é cercado por um muro de pedras lagartixa, cortadas à mão e unidas com óleo animal, técnica
09:08utilizada pelos escravizados da região.
09:10Construído entre os séculos XVII e XVIII, em uma área de cerca de 150 metros quadrados,
09:17segundo Durantes, o cemitério está ameaçado pela possibilidade de construção de duas estradas,
09:23uma para dar acesso a um condomínio na região e outra para servir de alça para o futuro rodoanel.
09:30De acordo com Durantes, há uma mobilização da comunidade para que isso não aconteça,
09:34mas o caso ainda não está definido.
09:36Ele informa que o Ministério Público Federal determinou a realização de uma audiência pública
09:42com a comunidade para discutir o assunto.
09:45O local, afirma Glauco, é palco de celebrações de diversas matrizes religiosas
09:50e um patrimônio vivo da memória da população escravizada na cidade.
09:54É praticamente o único registro material da presença da negritude na cidade.
09:59A gente tem todo um processo de demolição de senzalas,
10:03de sumiço dos instrumentos da escravidão no centro histórico
10:06e todo um processo apagando essa memória.
10:09Se você passar uma rodovia aqui ou ali, vão construir um bar, uma lanchonete, uma farmácia.
10:15Como é que fica um espaço desse?
10:17Questiona.
10:18Para Glauco, a urbanização do local vai colocar em risco o cemitério
10:22e também comprometer as práticas religiosas.
10:25A íntegra desta reportagem foi publicada no jornal Estado de Minas em 13 de maio de 2025.
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