Cabeças No Ar
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Cabeças No Ar - Hora De Acordar (1/13)
Cabeças No Ar - No Pavilhão Atlântico (parte 1/13) Hora De Acordar É hora de acordar, chama o despertador Toda a casa me chama, o que dava por ficar Mais meia hora na cama, mas é hora de acordar É hora de acordar... É hora de abalar, seis quilos pesa a sacola É o peso da instrução, chego tarde às horas da escola Saio de lá cidadão, é hora de abalar É hora de abalar... Quem me dera ir à escola, num feliz passo ligeiro E não com ar de quem vai para a cadeira do barbeiro Quem me dera ir escola, num feliz passo ligeiro... Quem me dera perguntar, sem ter medo de errar Será o sol uma gema, de um ovo por estrelar Quem me resolve o problema, que é hora de acordar É hora de acordar... Quem me dera estar na sala, como quando estou lá fora Onde tudo me interessa, e o tempo não tem hora Quem me dera estar na sala, Como quando estou lá fora... Quem me dera ir à escola, num feliz passo ligeiro E não com ar de quem vai para a cadeira do barbeiro Quem me dera ir escola, num feliz passo ligeiro... É hora de acordar É hora de acordar É hora de acordar É hora de acordar É hora de acordar Carlos Tê / João Gil
Cabeças No Ar - A Corrente Do Jogo (2/13)
Cabeças No Ar - No Pavilhão Atlântico (parte 2/13) A Corrente Do Jogo Na toada do Inverno Quando o frio dá o mote Não há maior riqueza Que ter em cima um capote Mas mal uma bola pincha O sol brilha-me no rosto Atrás dela um compincha Cada um logo ao seu posto Sinto-me que nem archote Já em mangas de camisa E tu ó meu rico capote Já és poste de baliza Toca, toca, toca a campainha És balde de água no fogo És como sofrer um golo Toca, toca, toca a campainha És como sofrer um golo Contra a corrente do jogo Venha lá o Universo Venha o Sistema Solar Quanto a mim não há melhor Que ter bons pés para fintar Venha o corpo em pormenor Falanginha, falangeta Quanto a mim não há pior Que ter na equipa um perneta Foi tão breve o intervalo E o jogo ainda empatado Quem nos dera o regalo De a seguir haver feriado Toca, toca, toca a campainha És balde de água no fogo És como sofrer um golo Toca, toca, toca a campainha És como sofrer um golo Contra a corrente do jogo (bis) Toca a campainha Toca a campainha Toca a campainha És como sofrer um golo Contra a corrente do jogo Carlos Tê / João Gil
Cabeças No Ar - O Deserto Da Sara (3/13)
Cabeças No Ar - No Pavilhão Atlântico (parte 3/13) O Deserto Da Sara A minha amiga Sara Deita sempre má cara Quando a chamam ao quadro Não sabe a matéria dada Fica tensa e não diz nada Ela tem uns olhos verdes De uma tristeza de musgo Onde correu muita água Onde secaram caldais Rios e rios de mágoa É como se em cada dia Haja uma travessía Longa de mais para fazer Mas que deserto é o teu ? Quem me dera um oasis meu Plantava-o na tua cara Para ver a jóia dar Que é o teu sorriso Sara Sara, Sara Sara, Sara... Dizem que acontece a quem Tem o pai longe da mãe Parte-se ao meio a pessoa Anda-se um tempo a toa Leva muito a ficar bem Pus-lhe a mão no cabelo E arranquei-lhe um sorriso Ouço nela um apelo Tenho um vazío em mim A quem me ajuda a enchê-lo É como se em cada dia Haja uma travessía Longa de mais para fazer Mas que deserto é o teu ? Quem me dera um oasis meu Plantava-o na tua cara Para ver a jóia dar Que é o teu sorriso Sara Sara, Sara Sara, Sara... Carlos Tê / João Gil
Cabeças No Ar - O Cheiro Dos Livros (4/13)
Cabeças No Ar - No Pavilhão Atlântico (parte 4/13) O Cheiro Dos Livros O professor de português Empolgou-se na lição Tropeçou caíu ao chão Quase partiu o pescoço Como aquele sábio grego Que de tanto olhar o céu Caíu dentro dum poço O professor de português Falava de natação Dos poemas de Camões Eu vi toda a epopeia Senti o cheiro ao mostrengo Cheirava a sal e a trovões E a desgostos de sereia Mas eu quero-lhe dizer Um segredo verdadeiro Até o Stör caír Os livros não tinham cheiro E eu que não tinha atenção Era uma nota sofrível Sentí vivo o predicado Dentro do meu coração Saltei subí de nível Fiz-me sujeito acordado No centro da oração Ó meu caro professor Eu quero-lhe agradecer Ter ganho o meu nariz Nele vou a toda a parte É uma força motriz Vou a Roma e a Paris Vou à Lua e vou a Marte Mas eu quero-lhe dizer Um segredo verdadeiro Até o Stör caír Os livros não tinham cheiro Ó meu caro professor... Carlos Tê / João Gil
Cabeças No Ar - O Jardim Da Mocidade (5/13)
Cabeças No Ar - No Pavilhão Atlântico (parte 5/13) O Jardim Da Mocidade É preciso tratar bem Do jardim da mocidade O mal que se lá deixar Noutra flor há de medrar Faz lembrar o malmequer Que já traz o mal no nome E zanga-se sem saber Qual o mal que o consome É preciso tratar bem Do jardim da mocidade Jardineiro olha p'ra o mundo Diz-me se a flor do acaso Não é a mais injusta flor É preciso até ter sorte Com a terra onde se nasce Mesmo tendo o teu amor Até eu também me queixo Às vezes sinto uma dor É preciso tratar bem Do jardim da mocidade Carlos Tê / João Gil
Cabeças No Ar - O Sobrescrito (6/13)
Cabeças No Ar - No Pavilhão Atlântico (parte 6/13) O Sobrescrito Bateram ao postigo. Era o carteiro Trazia um sobrescrito de Lisboa Não era engano: O nome estava inteiro Era dirigido à minha pessoa Abri-o logo ali: Era a respeito De um pedido que em tempos eu fiz Para qualquer ofício ganho o jeito Mesmo que seja só como aprendiz Tantas voltas dá a vida Tantas voltas dá o Mundo E depois volta não volta Muda tudo num segundo Nessa tarde já não saí de casa Sentei-me frente ao lume a matutar Enquanto dava a volta a uma brasa Há dias de perder e de ganhar Meti a tralha toda para um cesto E mesmo ainda assim sobrava fundo O que ficou tinha muito mais texto Não cabe em nenhum verso deste mundo Tantas voltas dá a vida Tantas voltas dá o Mundo E depois volta não volta Muda tudo num segundo Foi toda a minha gente a despedida Ao Largo donde partiu a carreira Abraços, beijos e até comida Cada um exprime-se à sua maneira E foi assim que a vida deu uma volta A carta e os conselhos de um braseiro O campo por onde eu andava à solta Agora está no fundo de um estaleiro Tantas voltas dá a vida Tantas voltas dá o Mundo E depois volta não volta Muda tudo num segundo João Monge / João Gil
Cabeças No Ar - A Fisga (7/13)
Cabeças No Ar - No Pavilhão Atlântico (parte 7/13) A Fisga Trago a fisga no bolso de trás E na pasta o caderno dos deveres Mestre-escola, eu sei lá se sou capaz De escolher o melhor dos dois saberes O meu pai diz que o Sol é que nos faz Minha mãe manda-me ler a lição Mestre-escola, eu sei lá se sou capaz Faz-me falta ouvir outra opinião Eu até nem sequer sou mau rapaz Com maneiras até sou bem mandado Mestre-escola diga lá se for capaz P´ra que lado é que me viro. P´ra que lado? Trago a fisga no bolso de trás E na pasta o caderno dos deveres Mestre-escola, eu sei lá se sou capaz De escolher o melhor dos dois saberes João Monge / João Gil
Cabeças No Ar - Fui Às Sortes E Safei-Me (8/13)
Cabeças No Ar - No Pavilhão Atlântico (parte 8/13) Fui Às Sortes E Safei-Me Fui às sortes e safei-me Direito que nem um fuso Não compreendo aquele uso De fazer tudo aprumado Ele há coisas que eu cá sei Que só se fazem curvado Fizeram-me a vistoria Levaram tudo a preceito Até me viram o peito E um pouco mais ao fundo Cada qual na sua vez E tal como veio ao mundo No fim já mais à tardinha Deram um papel timbrado Onde vinha o resultado Não me davam qualquer uso Fui às sortes e safei-me Direito que nem um fuso João Monge / João Gil
Cabeças No Ar - O Baile Da Biblioteca (9/13)
Cabeças No Ar - No Pavilhão Atlântico (parte 9/13) O Baile Da Biblioteca Sou o vosso professor E sei de um baile de gala Que se dá todas as noites Nas estantes da tua sala Olha Ulisses o Argonauta A dançar com o mar à proa Aquele é o senhor Fernando A dançar com a sua Pessoa Olha o mestre Gil Vicente Entre a raínha e o povo E aquele à frente é o Aleixo É o poeta do povo É o baile, é o baile, é o baile É o baile, é o baile, é o baile É o baile, é o baile, é o baile, é o baile Da biblioteca Sai o Zorro de rompante Numa lombada de couro A declarar ser migrante Para a ilha do tesouro Ao piano o Conde d'Abranhos Não dá sinais de abrandar É preciso o sol nascer Para o baile acabar Como se anda Dom Quixote Largando da mão a lança Vamos dormir tío Antunes Que amanhã também se dança É o baile, é o baile, é o baile É o baile, é o baile, é o baile É o baile, é o baile, é o baile, é o baile Da biblioteca Carlos Tê / João Gil
Cabeças No Ar - Dia De Passeio (10/13)
Cabeças No Ar - No Pavilhão Atlântico (parte 10/13) Dia De Passeio Pinta os lábios de vermelho Passa meia hora ao espelho Mostra-me do que és capaz Hoje é dia de passeio E enquanto eu me barbeio Passa o pente no rapaz A cidade é tão bonita Quando vamos de visita À saída da portagem E mais tarde pela 'linha' Bebe-se a brisa marinha E aprecia-se a paisagem Quando acaba o casario Onde não chega o Bugio Vem a Boca-do-Inferno O mar em contestação Se isto é assim no Verão O que fará no Inverno Mandei vir o que pedias Isto um dia são dias Na esplanada das muralhas Para nós são limonadas O rapaz pediu queijadas - Cuidado com as migalhas! O Sol já se quer deitar Está na hora de abalar Arrepia-me esta aragem Fui onde Deus pôs a mão Volto à minha condição De regresso à outra margem A cidade é tão bonita Quando vamos de visita À saída da portagem E mais tarde pela 'linha' Bebe-se a brisa marinha E aprecia-se a paisagem João Monge / João Gil
Cabeças No Ar - O Primeiro Beijo (11/13)
Cabeças No Ar - No Pavilhão Atlântico (parte 11/13) Primeiro Beijo Recebi o teu bilhete Para ir ter ao jardim A tua caixa de segredos Queres abri-la para mim E tu não vais fraquejar Ninguém vai saber de nada Juro não me vou gabar A minha boca é sagrada De estar mesmo atrás de ti Ver-te da minha carteira Sei de cor o teu cabelo Sei o champôo a que cheira Já não como já não durmo E eu caia se te minto Haverá gente informada Se é amor tudo o que sinto Quero o meu primeiro beijo Não quero ficar impune E dizer-te cara a cara Muito mais é o que nos une Que aquilo que nos separa Promete lá outro encontro Foi tão fugaz que nem deu Para ver como era o fogo Que a tua boca prometeu Pensava que a tua língua Sabia à flor do jasmim Sabe a chicla de mentol E eu gosto dela assim Quero o meu primeiro beijo Não quero ficar impune E dizer-te cara a cara Muito mais é o que nos une Que aquilo que nos separa Carlos Tê / Rui Veloso
Cabeças No Ar - Jesus No Secundário (12/13)
Cabeças No Ar - No Pavilhão Atlântico (parte 12/13) Jesus No Secundário Jesus falava aos doutores E abria o coração Gostava de futebol Tinha até um pé-canhão Às tantas pergunta um doutor Com voz doce como o mel: - qual é o reino maior O do céu ou o de Israel? Jesus ficou em silêncio Que foi tido por matreiro Fizeram queixa ao seu pai Que era um pobre carpinteiro E o pai disse meu filho Dá a mão à palmatória O maior reino da história É o reino de Israel Eles vão tomar-te de ponta Toma isso bem em conta Vai beijar-lhes o anel E o pai disse: - meu filho Ó Jesus Ó Jesus... Jesus voltou aos doutores E deu a explicação Cujo teor foi analisado Deu celeuma e discussão Falava de patins em linha E carros de rolamentos Mas os doutores viram nela Reparo aos testamentos Teve falta de castigo E foi tornado um exemplo O reino dele era maior Que o dos doutores do templo E o pai disse meu filho Dá a mão à palmatória O maior reino da história É o reino de Israel Eles vão tomar-te de ponta Toma isso bem em conta Vai beijar-lhes o anel E o pai disse: - meu filho Ó Jesus Ó Jesus... Carlos Tê / João Gil
Cabeças No Ar - A Seita Tem Um Radar (13/13)
Cabeças No Ar - No Pavilhão Atlântico (parte 13/13) A Seita Tem Um Radar No meio dos amigos, Aprende-se muito mais Do que em todos os manuais Histórias de fazer corar Coisas da vida reais, Que nos querem ocultar Quando os dias incertos, Franzem o seu sobre-olho E ate os céus mais abertos, Nos correm o seu forrolho Quem é que não nos enjeita, só a seita, so a seita A seita tem um radar, Que apanha tudo no ar, Na seita não ha papão, Tudo tem explicação No meio das amigas, Aprende-se ainda mais Vai-se mais longe que os sonhos E que a imaginação As ciencias naturais, Cabem na palma da mão A seita tem um radar, Que apanha tudo no ar, Na seita não ha papão, Tudo tem explicação Carlos Tê / João Gil